Arquivo da categoria ‘textos de jornais e revistas’

O diário íntimo de Milan Kundera – por Pierre Lepape

19/09/2009

O escritor tcheco, autor de “A Insustentável Leveza do Ser”, escreve sobre o modernismo, o riso e a loucura e discute as obras de Kafka, Robert Musil e Salman Rushdie

Desde 1986, ano da publicação de “A Arte do Romance”, Milan Kundera recusa conceder entrevistas, julgando que somente seus romances falam por ele. A pedido do jornal francês “Le Monde”, o autor de “A Valsa do Adeus” aceitou completar o dicionário pessoal que havia iniciado para uma revista a pedido do historiador Pierre Nora. Ele se compõe de suas palavras-chave, suas palavras-problema. Palavras novas que aclaram o universo de Kundera. Nas quais se trata de piadas judaicas e reflexões sobre o mal, de Salman Rushdie e do mau gosto da história. Milan Kundera atribui grande importância às palavras. Todos concordarão que isso é normal, em se tratando de um escritor. Um escritor é um homem que sabe pela experiência, pelo ofício, o que as palavras querem dizer e o que elas não dizem. Sua prática lhe ensinou que uma palavra inserida no lugar de outra -ou a mesma palavra deslocada no interior de uma frase- pode trair o pensamento e trair quem a enuncia, de forma tão certeira quanto todas as censuras. Ou até de forma ainda mais certeira: a censura deixa um branco, que a denuncia; a palavra oblíqua não deixa traços. Kundera recusa abandonar a outros o domínio de suas palavras e de suas frases. Ele experimentou na pele a traição, tanto mais temível por ser realizada de boa-fé. Sem dúvida sua história pessoal contribuiu para radicalizar sua recusa de entrevistas. Milan Kundera se estabeleceu na França em 1975. Tinha 46 anos. Seus dois primeiros livros -um romance, “A Brincadeira”, e um ciclo de novelas, “Risíveis Amores”- tinham sido publicados, em 1965 e 1968, por uma editora de Praga. Mais tarde, após a intervenção russa na Tchecoslováquia, os livros de Kundera foram banidos das bibliotecas e das livrarias. Ele próprio foi privado de seu cargo no Instituto Cinematográfico de Praga. Se bem que já possuísse um sólido domínio do idioma francês, Kundera, ao chegar à Universidade de Rennes, em 1975, ainda não se achava à vontade na expressão oral francesa. Porém, mais que a sua situação linguística, é a sua situação política que encoraja a empreitada reducionista por parte dos jornalistas: abandona-se a obra do escritor, sua concepção pessoal do romance, da existência humana, da cultura e da história, para se interessar apenas pela sua condição de testemunha: da ditadura comunista, da “Primavera de Praga” e de sua repressão, do futuro dos países sob domínio soviético. Ele queria falar do que lhe dizia ao coração e ao espírito, da crise da modernidade e do progresso, do papel do romance -”uma arte nascida do riso de Deus”-, da situação do homem europeu, em sua existência, sua identidade e sua história; em sua maneira de amar, rir, sonhar, recordar, conviver e acolher a morte. Da sobrevida ou desaparecimento do indivíduo, questão maior de nossa época.

Enciclopédia pessoal

Sem cessar, ele é trazido à superfície, à espuma ou ainda à indiscrição: nosso tempo odeia o segredo. Ele decide calar-se; seus livros falarão. A partir de “A Arte do Romance”, um ensaio publicado em 1986, Milan Kundera passa a escrevê-los em francês, ao mesmo tempo em que revisa o conjunto das traduções francesas de seus livros anteriores para lhes dar “o mesmo valor de autenticidade que o texto tcheco”. Outra vez as palavras que não traem: “Para mim, que praticamente não tenho mais um público tcheco, as traduções representam tudo”. Ainda assim o acusarão por esse silêncio, por esse pudor e por essa vontade de exercer plenamente seu direito de autor. Farão dessa sabedoria elementar uma pose ou uma forma de exagero. “A Arte do Romance” não tem nada de um texto teórico: é “a confissão de um prático. A obra de cada romancista contém uma visão implícita da história do romance, uma idéia do que é o romance; é essa idéia do romance, inerente a meus romances, que eu tentei fazer falar”. Sob essa forma, Milan Kundera aceita falar de si próprio, o escritor; de sua história pessoal de romancista. Nesse livro, uma parte se intitula “73 Palavras”. É uma espécie de dicionário. “O autor que se aventura a investigar as traduções de seus romances corre atrás de inúmeras palavras como um pastor atrás de um bando de carneiros selvagens; triste figura para si mesmo, risível para os outros. Suspeito que meu amigo Nora, diretor da revista “Le Débat”, tenha se dado conta do aspecto tristemente cômico de minha existência de pastor. Um dia, com uma compaixão mal dissimulada, ele me disse: “Esquece teus tormentos e escreve alguma coisa para minha revista. Os tradutores te obrigaram a refletir em cada uma de tuas palavras. Escreve teu dicionário pessoal. Dicionário de teus romances. Tuas palavras-chave, tuas palavras-problema”.”

Explorador da existência

Nesse espírito, foi pedido a Milan Kundera não que respondesse perguntas, mas que acrescentasse alguns artigos a sua enciclopédia pessoal. Ainda sobre o romance e sua história, sobre o modernismo, sobre “a grande plêiade da Europa Central” -Kafka, Musil, Broch, Gombrowicz-, sobre a realidade e a verossimilhança, sobre a poesia e o lirismo, a vizinhança da Europa Central e da América Latina, Salman Rushdie e a loucura, o riso e o mau gosto da história e tantas outras coisa que nascem da escrita e se descobrem com ela. Variações atuais sobre temas dos quais é fácil perceber a unidade e a atualidade.

Kundera não assume a pose de um pensador ou de um historiador, menos ainda a de um profeta. Ele é romancista, explorador da existência. “O romance não examina a realidade, mas a existência. E a existência não é o que passou, a existência é o campo de possibilidades humanas, tudo aquilo que o homem pode se tornar, tudo de que ele é capaz.”

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* No Brasil, a obra de Milan Kundera vem sendo reeditada pela Companhia das Letras.
* Fonte: Folha de S. Paulo, Mais, 05.08.2001, disponível em http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs0508200105.htm

Toni Morrison retrata aridez de sociedade em construção – por Tatiana Salem Levy

12/09/2009

Americana retoma tema da escravidão a partir da relação de quatro mulheres

“Compaixão”, mais recente livro da norte-americana Toni Morrison, vencedora do Nobel de Literatura em 1993, retoma com força impressionante o tema da escravidão, explorado antes em “Amada”.

O romance, passado em 1690, anuncia logo de início a dor que perpassa cada uma das suas 156 páginas: Florens, uma menina negra de sete ou oito anos, narra o momento em que sua mãe a entrega, como pagamento da dívida de seu proprietário, ao fazendeiro anglo-holandês Jacob Vaark.

A menina é levada para a fazenda de Vaark, onde residem Rebekka, a infeliz mulher dele; Lina, uma escrava indígena que sobreviveu à varíola; e Sorrow, uma escrava negra. A narrativa se desenrola a partir das relações sociais e afetivas entre essas quatro mulheres, que têm como pilar o fazendeiro anglo-holandês. Quando ele morre, as consequências são devastadoras, e o sentimento de família que as unia termina por se diluir na aridez da terra e da sociedade norte-americana em construção.

O texto tem duas vozes que se intercalam: uma em terceira pessoa, outra em primeira. O narrador em terceira acompanha a cada hora um personagem, alternando não só o foco, mas também o tempo narrativo, que navega entre passado e presente. Com uma linguagem tão seca e cruel quanto a história que conta, Morrison consegue, nesse pequeno romance, mergulhar na formação individual de cada personagem assim como na formação de seu país, numa época anterior ao racismo, quando a escravidão ainda não era uma questão de cor.

Mas é no relato em primeira pessoa que o vigor de sua escrita alcança o ápice. Florens tem cerca de 16 anos quando a patroa, doente, a manda em busca do ferreiro, por quem a adolescente está tomada de paixão.

O discurso que a escrava dirige a ele constrói-se numa espécie de língua estrangeira no interior da própria língua, como definiu Gilles Deleuze em seus trabalhos sobre Kafka e Melville. No início, o leitor estranha o sotaque esquisito, a sintaxe inabitual, mas logo se envolve com a voz dessa mulher que tem tantas dores e nunca chora.

Dessa mulher que vem de longe, de outra cultura, e que será sempre, em um certo sentido, estrangeira.

Florens está obcecada pelo ferreiro, e sua fala é a de uma mulher em desespero, que precisa, a qualquer custo, encontrar o homem amado. Se, por um lado, é o desejo por ele que a move, é também esse desejo que a torna ainda menos livre.

Não é sem frieza que ele lhe diz: “Seja dona de si mesma, mulher, e deixe a gente em paz”, acusando-a de ser escrava não por ter sido comprada, como ela afirma, mas por ter se feito uma. A partir de então, quando entende que não ficará com ele, a adolescente vive, além da dor do passado, a dor do futuro que não se realizará, definhando por dentro, cada vez mais tragada pela aspereza da vida.

Travessia corajosa

Apesar de cruel, a travessia é marcada pela coragem e pela solidariedade entre as personagens. Ao ver uma águia morrer, Florens pergunta à Lina sobre seus ovos: “Sobrevivem?” Ao que Lina responde: “Nós sobrevivemos”. E aqui a sobrevivência é uma vitória, o resultado dos laços de afeto entre essas mulheres de quem a vida exige a mesma força.

Mas é só no final que o título do livro emerge em todo o seu esplendor. Uma voz inesperada aparece e, com o impacto provocado pela doçura em meio a tanta aspereza, traz à tona o sentido da palavra compaixão.

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* TATIANA SALEM LEVY é escritora, autora de “A Chave de Casa” (Record).

COMPAIXÃO
Autora: Toni Morrison
Tradução: José Rubens Siqueira
Editora: Companhia das Letras, 160 págs.

Fonte: Folha de S. Paulo, 12.09.2009, disponível em http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq1209200911.htm

Autor desfaz estereótipos sobre conflito – por Moacyr Scliar

05/09/2009

O conflito árabe-israelense é frequentemente, e simploriamente, descrito pelos dois lados como uma briga de mocinhos e bandidos. Neste enfoque, adversários de Israel veem o país como implacável máquina de guerra, operada por impiedosos robôs.

É preciso um grande escritor para desfazer o estereótipo, e David Grossman o faz de forma magistral em “A Mulher Foge”.

A mulher do título, Orah, tem dois filhos, o mais moço dos quais, Ofer, é convocado para uma operação do Exército israelense em represália a um dos atentados na região. O ex-marido, Ilan, e o filho mais velho, Adam, estão no exterior. Sozinha, sem suportar a expectativa, Orah decide passar dias caminhando por Israel, o que fará junto com Avram, amigo e ex-amante. Uma jornada rumo à memória e ao entendimento: Orah, Avram e Ilan formam um triângulo, e boa parte da narrativa consiste na evocação do passado dos três, e também dos dois filhos. Neste processo, Grossman vai traçando um painel do que é a sociedade israelense, com sua problemática social, política e emocional.

Não lhe falta qualidade para isso. Com Amós Oz e A.B. Yeoshua, Grossman compõe a tríade de autores que servem de intérpretes e consciência viva de seu país. Os três são de Jerusalém e intelectuais; têm imenso público leitor, são multipremiados e multitraduzidos; são ativistas políticos e pacifistas.

Grossman, o mais moço, estudou filosofia e teatro em Jerusalém, trabalhou em rádio e logo virou autor de sucesso: “O Vento Amarelo”, ensaio sobre palestinos da Cisjordânia e Gaza por ele entrevistados em visita à região, teve repercussão mundial. Em português, saíram ainda “Dormindo na Corda-Bamba”, “Alguém para Correr Comigo” e “Ver: Amor”.

Em “A Mulher Foge” há uma sombria e dolorosa coincidência. Grossman começou a escrever o livro em 2003. Três anos depois, seu filho Uri, de 20 anos, alistou-se e virou sargento numa unidade de tanques.

Escreveu Grossman: “Uri conhecia bem o enredo e os personagens do livro… Ocasionalmente partilhava comigo suas experiências [de militar]. Na época tinha a sensação -ou melhor, o desejo- de que o livro que eu escrevia o protegeria”. Não protegeu: Uri foi morto em combate pouco antes do cessar-fogo na segunda guerra do Líbano, em agosto de 2006.

Passado o luto, Grossman voltou ao livro e o terminou. À ocasião, escreveu um pungente texto, que diz: “Aprendi, com Uri, que precisamos nos proteger do pensamento onipotente e simplista, do cinismo, da corrupção de nossos corações e do tratamento cruel dos seres humanos, a maior maldição para aqueles que, como nós, vivem numa região conflagrada”. “A Mulher Foge” é uma definitiva contribuição neste sentido.

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Fonte: Folha de S. Paulo, 05.09.09, disponível em http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq0509200913.htm (Foto: David Grossman).

Uma resposta fantástica – por Homero Freitas de Andrade

02/09/2009

Em conto agora traduzido no Brasil, Dostoiévski aborda os conflitos políticos e culturais da Rússia do século 19 de forma cômica e delirante

No início de 1873, ao publicar o conto “Bobók”, ou “Notas de uma Pessoa”, Fiódor Dostoiévski (1821-1881) já tinha escrito boa parte de sua obra de ficção. Um mês antes, para enfrentar a habitual falta de dinheiro, ele assumira o cargo de redator-chefe de “Grajdanin” (O Cidadão), um semanário de política e literatura editado em São Petersburgo que era porta-voz da direita czarista. Ali, publicava também a coluna “Diário de um Escritor”, com reflexões de cunho histórico-filosófico sobre a conturbada atualidade russa, suas idéias literárias e, vez ou outra, algum conto ou novela, como é o caso desse “Bobók”.

A situação na Rússia não ia nada bem. A intelligentsia crescia e tentava ocupar os espaços de atuação política, abertos com as reformas promulgadas por Alexandre 2º em 1861, que tinham abolido a servidão e criado condições mínimas para a implantação do capitalismo e o surgimento de uma sociedade burguesa. Esse segmento de oposição ao poder autocrático, constituído de nobres, intelectuais e letrados, cujas correntes ideológicas iam do centro à extrema-esquerda, pretendia grosso modo instruir o povo, conscientizá-lo de seus direitos e conferir-lhe cidadania.

A direita não deixava por menos. Apoiada nos estatutos do império, defendia a ferro e a fogo a autoridade do czar e do Santo Sínodo, perseguia, censurava e fazia deportar para os trabalhos forçados, quando não executar, aqueles que se envolviam com o liberalismo. No interior da intelligentsia, as disputas ideológicas corriam soltas, as facções mais à esquerda tentavam impor ao movimento formas mais radicais de atuação.

Dostoiévski, antigo simpatizante do socialismo, condenado por isso aos trabalhos forçados na Sibéria, tinha causado perplexidade nos meios progressistas, por apresentar um retrato da intelligentsia nada lisonjeiro em seu romance “Os Demônios”, publicado em dezembro do ano anterior. Isso lhe valeu uma saraivada de críticas negativas, além dos epítetos de traidor da causa, renegado e até mesmo louco.

“Bobók”, a que o leitor brasileiro terá acesso numa bela tradução direta do russo, elaborada por Paulo Bezerra, é uma resposta do escritor aos seus críticos de então e de antes, como demonstra o tradutor no minucioso ensaio analítico que acompanha o conto. E que resposta!

Sono e vigília

Mas não é só isso, certamente. Trata-se de um conto fantástico, cuja ação (quase nenhuma), narrada por um literato amigo do copo, se passa num cemitério. Depois do enterro de um parente distante, o escritor Ivan Ivánitch deita-se em cima de um túmulo para tirar um cochilo. Ao acordar, se é que chega a fazê-lo, começa a ouvir as vozes dos defuntos que o rodeiam, a maioria deles aristocratas, e mais não conto, que é para não tirar o prazer do leitor.

Balbucio? Bobók… bobók… Borborigmo, burburinho? Bobók… bobók… Algo que vem do fundo e explode surdamente à superfície? Bobók… bobók… Carniça em fermentação? Bobók… bobók é fava. O morto em seu caixão. Embrião da próxima vida. Enxofre aprisionado na matéria. Alimento dos mortos. “Elemento essencial para a comunhão com os Invisíveis” (“Dictionnaire des Symboles”, de J. Chevalier e A. Gheerbrant; Paris, R. Laffont, 1982).

Morto o sujeito, diz que o espírito ainda leva algum tempo a abandonar o cadáver. A demora, segundo os entendidos, depende de várias coisas. Da percepção da própria morte, do grau de apego do finado às coisas terrenas, de seu estágio de evolução espiritual, de mistérios inacessíveis à compreensão humana, e assim por diante.

Pelo menos, esta é a explicação que dá à sociedade dos mortos ali reunida o falecido “filósofo, naturalista e grão-mestre” Platon Nikoláievitch, cujo nome remete aos “Diálogos Socráticos” que têm a morte por tema. De onde ele tirou isso? Ora, a própria Igreja Ortodoxa celebra o ofício referente ao “Sorokovíny”, o período de 40 dias após a morte, durante o qual a alma passa por uma série de provações antes de se desligar definitivamente do corpo.

Outra coisa não disse Allan Kardec, o fundador da doutrina espírita, que codificou esses assuntos no século 19 em seu “Livro dos Espíritos” (1857), seguindo os mais modernos métodos do pensamento positivista. Antes dele, o filósofo e inventor sueco Emanuel Swedenborg (1688-1772) também desenvolvera algo semelhante em seus textos teosóficos. Já o suíço Johann Kaspar Lavater (1741-1801), inventor da “fisiognomia” e partidário das teorias de Swedenborg, manteve por correspondência (1798) interessante discussão com a czarina Maria, mulher de Paulo 1º, a respeito do “estado da alma após a morte” (“Correspondance Inédite de Lavater avec l’Impératrice Marie de Russie”, em “Revue Spirite – Journal d’Etudes Psychologiques”, março de 1868).

As idéias de Swedenborg tiveram significativa repercussão na Rússia durante o século 19. Suas “descobertas” eram assunto obrigatório nas altas rodas, dando ensejo, inclusive, à prática de jogos de salão em que se invocavam os espíritos dos mortos. Poucos o tinham lido, tanto que em “A Dama de Espadas”, numa de suas provocativas mistificações, Púchkin ridiculariza o fato, inventando uma citação à guisa de epígrafe, cuja autoria atribui ao pensador sueco.

Espíritos e narrativa

É de se imaginar, também, que o “Livro dos Espíritos” tenha causado “frisson” na aristocracia russa. De qualquer modo, a idéia de uma influência de Swedenborg na obra de Dostoiévski foi sugerida pela primeira vez pelo estudioso Leonid Grossman em “A Biblioteca de Dostoiévski – Materiais Inéditos” (1919).

Grossman informa que o escritor possuía diversos livros de e sobre Swedenborg, inclusive a primeira tradução para o russo de seu “O Mundo dos Espíritos”. Porém, não se pode esquecer que em “Bobók” as concepções de Swedenborg são apresentadas em chave cômica, já que se trata de um conto satírico, inspirado nos modelos de sátira menipéia da Antigüidade.

Em “O Universo de Bobók”, evocando diversos estudiosos russos, mas principalmente Mikhail Bakhtin, Paulo Bezerra propõe esse conto como repositório dos principais procedimentos de composição de que se servia Dostoiévski em sua práxis.

Assim, além da sátira menipéia, o ensaísta trata do uso particular que Dostoiévski fazia do fantástico, como elemento de revelação da realidade. Esmiúça com riqueza documental e analítica a questão do dialogismo e das relações dialógicas que se estabelecem nesta narrativa com outras obras da literatura clássica (Sêneca, Platão, Luciano de Samósata) e com a tradição russa (Púchkin, Gógol, Odóievski, Schedrin etc.). Enfim, a leitura do ensaio complementa bem a leitura do conto e permite ao leitor fazer uma idéia mais nítida de que bobók é esse. Bobók… bobók…

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* Homero Freitas de Andrade é professor de literatura russa da USP e tradutor. Autor de “O Diabo Solto em Moscou” (Edusp) e organizador de “Os Males do Tabaco e Outras Peças em um Ato”, de Tchekhov (Ateliê).
Fonte: Folha de S. Paulo, Mais, 02.10.2005, disponível em http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs0210200537.htm

A violência da história – por Alcino Leite Neto

29/08/2009

Obra de Malraux dramatiza confronto entre a moral do indivíduo e a fatalidade do real; para seu mais importante biógrafo, escritor acreditava que religião teria papel decisivo no século 21

“Você quer fazer do terrorismo uma espécie de religião?”, pergunta Souen a Tchen em “A Condição Humana” (1933), de André Malraux. Souen continua: “Eu sou menos inteligente que você, Tchen, mas para mim… para mim… não. (…) É pelos nossos que eu combato, não por mim”. Tchen retruca: “Para os nossos você não pode fazer coisa melhor do que decidir morrer. A eficácia de nenhum homem pode ser comparada àquela do homem que escolheu isso”. Mais tarde, Tchen vai levar a cabo o seu ataque suicida contra Chiang Kai-shek: “Dar um sentido imediato ao indivíduo sem esperança e multiplicar os atentados, não por uma organização, mas por uma idéia: fazer renascerem os mártires. (…) Tchen apertou a bomba sobre seu braço com conhecimento de causa. (…) O carro do general estava a cinco metros, enorme. Ele correu na sua direção com uma alegria extática, se lançou por cima dele, com os olhos fechados”.

Ler, reler André Malraux é quase uma obrigação nestes tempos. A história não acabou, como previam alguns, e poucos, como o escritor francês, puderam retratar com tanto vigor os conflitos entre o indivíduo e a história, a associação política e a decisão moral, os atos da vontade e a fatalidade dos fatos. O centenário de seu nascimento, no próximo dia 3 de novembro, é também um bom pretexto para voltar a sua obra. Outro ainda é o que o Mais! oferece agora ao leitor, com a publicação de um desconhecido e apaixonado texto do crítico e escritor Paulo Emílio Salles Gomes sobre Malraux. O texto de Paulo Emílio (1916-1977) é uma longa resenha a respeito da mais célebre biografia do escritor francês: “André Malraux – Une Vie dans le Siècle” (Uma Vida no Século), feita pelo jornalista Jean Lacouture. Foi escrita em 1973, ano em que a editora Seuil publicou o livro na França. No mesmo estilo que Paulo Emílio consagraria em suas críticas de cinema, a resenha é simultaneamente um apanhado extensivo da vida de Malraux, uma análise de sua obra, de seu perfil moral e político e uma crítica propriamente dita ao livro de Lacouture.

Radiografia do terrorismo

A Folha conversou com Lacouture em Paris a respeito de um dos elementos que hoje aparecem com mais força na obra do escritor: a sua observação radiográfica do terrorismo e da violência da história. Para o biógrafo, Malraux, que morreu em 1976, já tinha consciência do que aguardava o mundo nestes dias. “Ele acreditava em duas coisas: que o mundo é transformado pela violência e que a religião teria papel bastante importante no século 21″, afirma Lacouture, hoje com 80 anos.
A escritora Lygia Fagundes Telles, que foi casada com Paulo Emílio, conta que Malraux era uma das grandes admirações do crítico. “Ele adorava “A Condição Humana”. Achava que ninguém havia falado com tanta precisão no romance sobre os dramas dos revolucionários. Paulo conheceu Malraux em Paris. Tinha um exemplar do livro com dedicatória”, diz Lygia.

Malraux teve simpatias pelo socialismo, lutou ao lado dos comunistas contra Hitler e junto com os republicanos espanhóis contra Franco, mas nunca aderiu ao marxismo. “A Condição Humana” conta as ações secretas dos comunistas na China e a insurreição armada promovida por eles em Xangai, em 1927.

Paulo Emílio, por sua vez, foi desde a juventude um marxista que iria se inclinar pelo trotskismo. Por conta de sua militância, foi preso aos 19 anos, no bojo das perseguições feitas após o fracasso da Intentona Comunista (1935). Protagonizou uma fuga sensacional do presídio do Paraíso, em São Paulo, com 16 outros detentos, através de um túnel de dez metros. Exilou-se em Paris, onde passou dois anos. Nesse período, revela Lygia, Paulo Emílio foi analisado por Jacques Lacan. “Mas ele não gostaria que eu contasse isso.”

Segundo a escritora, Paulo Emílio identificava as suas atribulações políticas com aquelas por que passou Malraux -muito mais trágicas e aventurosas, aliás, como a sua tentativa de roubo de peças arqueológicas do Camboja, pelo que também foi preso e passou um ano no cárcere oriental. “Paulo falava muito da vida do Malraux, dos dramas que viveu, de sua fibra.”

Lygia define, porém, a fascinação de Paulo Emílio pelo escritor como “contraditória”. “Ele lamentava o fascínio que Malraux tinha pelo poder, o seu envolvimento com o Estado francês do pós-guerra. Paulo era um trotskista muito rigoroso e, para ele, Malraux teria traído a causa socialista”, conta a escritora.

A escritora Lygia Fagundes Telles, que foi casada com Paulo Emílio, conta que Malraux era uma das grandes admirações do crítico. “Ele adorava “A Condição Humana”. Achava que ninguém havia falado com tanta precisão no romance sobre os dramas dos revolucionários”, diz
Não foi só ele que pensou assim. Uma nova biografia publicada na França, “André Malraux – Une Vie” (ed. Gallimard), do jornalista Olivier Todd, enfatiza o anti-comunismo do escritor e revela, a partir de documentos da antiga KGB (o serviço secreto soviético), que os russos planejavam matá-lo durante a Guerra Civil Espanhola, por julgá-lo próximo demais dos anarquistas.

A associação com os comunistas durante a Resistência aos nazistas também foi circunstancial. Já no fim da Segunda Guerra, ele se liga ao general Charles de Gaulle e o acompanha em sua escalada de poder na França. Em 1959, Malraux foi nomeado ministro da Cultura. “Paulo Emílio implicava muito que ele tivesse se associado tanto ao poder, mas também dizia que ele fez coisas boas, como limpar os prédios históricos de Paris”, diz Lygia. A escritora chegou a conhecer André Malraux no mesmo ano de 1959, quando ele esteve no Brasil durante uma missão diplomática pela América Latina: “Era um homem de olhos bonitos, largos, brilhantes, uma cara fortíssima”.

Lygia não se lembra por que o texto de Paulo Emílio permaneceu inédito, mas talvez seja esse o motivo: foi escrito em pleno governo Médici (1969-1974), quando o regime militar de 64 vivia a sua fase mais repressiva. Sem descuidar do personagem nem da biografia, Paulo Emílio procura no livro os temas que lhe interessam no momento. Sua desmontagem do mito Malraux é também uma forma de afrontar o poder instituído. Seu comentário sobre a tortura, ao final do texto, é um protesto contra as práticas do regime militar brasileiro e contra o terrorismo de Estado.

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* Fonte: Folha de S. Paulo, Mais, 28.10.2001. Disponível em http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs2810200105.htm


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