Archive for maio \31\UTC 2007

O autor favorito de Marx

31/05/2007

Maurício Santana Dias

A obra de Honoré de Balzac não só alimentou uma legião de escritores do século 19 (Flaubert, Tolstói, Hardy, Machado), mas também contribuiu muito para fundar uma disciplina que surgia naquele momento: a sociologia. Mais que isso, a ficção balzaquiana foi em grande medida responsável pela construção do pensamento político mais influente desde então, o marxismo. O próprio Marx costumava dizer que “A Comédia Humana” tinha sido mais importante para a sua compreensão da sociedade francesa do que os muitos tratados de economia, história e filosofia devorados por ele. A mesma opinião era partilhada por Friedrich Engels, que em carta a Margareth Harkness (1888) afirmou ter aprendido com Balzac “mais do que aprendi com todos historiadores, economistas e estatísticos profissionais do período”.

Marx foi talvez o primeiro a perceber que a literatura, embora não se situasse no plano do factual nem estivesse compromissada com ele, poderia revelar com mais acuidade os movimentos que regem as relações humanas do que os muitos tratados de ciências sociais e afins. Balzac, autor predileto de Marx, tornou-se então uma referência central em sua obra. Uma das noções de Marx que se tornaram quase um lugar-comum é a idéia de que o indivíduo Balzac, embora fosse um conservador que admirava a aristocracia e olhava com temor a ascensão das massas, acabou criando uma obra progressista, que expunha com a força da evidência os instrumentos de dominação de uma classe sobre as outras. Essa irrupção da realidade, que se impunha quase que por si mesma, é o que Engels chamou de “o triunfo do realismo”.

Segundo a crítica de orientação marxista, era justamente essa irrupção da realidade que, ao fim e ao cabo, seria responsável pela derrocada do capitalismo – desmascarado em seus fundamentos – e o advento do comunismo. Ironicamente, a própria realidade histórica, sobretudo essa dos últimos 60 anos, acabou se revelando bem mais complexa, esquiva e obscura do que parecia ser.

Mas para Marx, assim como para os marxistas do século 20 (Lukács e Goldmann à frente), era possível identificar na literatura, e mais ainda na “Comédia Humana”, as estratégias de exploração operantes no mundo capitalista. No segundo volume de “O Capital”, por exemplo, Marx escreve: “Numa sociedade dominada pela produção capitalista, até o produtor não-capitalista é dominado por concepções capitalistas. Em seu último romance, ‘Os Camponeses’, Balzac, geralmente notável pela profunda assimilação das condições reais, descreve com competência como o pequeno camponês, no intuito de conservar a boa vontade do seu usurário, lhe executa muitas pequenas tarefas gratuitamente e pensa que não está dando coisa alguma por isso, porque o seu trabalho não lhe custa o mínimo dispêndio de dinheiro. O usurário, por outro lado, mata assim dois coelhos com uma cajadada. Poupa o dinheiro dos salários e conserva o agricultor cada vez mais preso na teia de aranha da usura”.

O mundo em que Balzac, Marx e Engels viveram certamente mudou, mas uma leitura de suas obras pode trazer o que permanece daquele tempo.

Fonte:
Folha de S. Paulo, Caderno Mais, 16/05/1999

Bertolt Brecht

29/05/2007

Dificuldade de governar

1.
Os ministros não cansam de dizer ao povo
Como é difícil governar. Sem os ministros
O grão de trigo cresceria para baixo, não para cima.
Nenhum pedaço de carvão sairia das minas
Se o Chanceler não fosse tão sábio. Sem o Ministro
da Propaganda
Nenhuma mulher ficaria grávida. Sem o Ministro da
Guerra
Jamais haveria guerra. Sim, se o sol se levantariade manhã
Sem a permissão do Führer
É inteiramente discutível, e se o fizesse
Seria no lugar errado.

2.
Igualmente difícil é, eles nos dizem
Dirigir uma fábrica. Sem o proprietário
As paredes desmoronariam e as máquinas enferrujariam, dizem.
Mesmo que em algum lugar se fabricasse um arado
Ele nunca chegaria a um campo
Sem as palavras sabidas que o empresário escreve
aos camponeses: senão
Quem poderia informá-los que existe arados? E o que
Seria de uma fazenda sem o fazendeiro? Certamente
Semeariam centeio onde já se encontram batatas.

3.
Se governar fosse fácil
Não seriam necessários espíritos iluminados como o
Führer
Se o trabalhador soubesse como utilizar sua máquina
E o agricultor soubesse distinguir um campo de uma
tábua de fazer macarrão
Não seriam necessários industriais e fazendeiros.
Somente porque são tão estúpidos
Precisa-se de alguns tão espertos.

4.
Ou é possível que
Governar seja tão difícil
Apenas porque a fraude e a exploração
Exigem algum aprendizado?

Fonte:
Bertolt Brecht. Poemas (1913-1956).
Tradução: Paulo Cesar Souza
São Paulo: Ed. Brasiliense, 1987

Lima Barreto

25/05/2007

Uma crônica de 1915, que, infelizmente, permanece atual…

O novo manifesto

Eu também sou candidato a deputado. Nada mais justo. Primeiro: eu não pretendo fazer coisa alguma pela Pátria, pela família, pela humanidade.

Um deputado que quisesse fazer qualquer coisa dessas, ver-se-ia bambo, pois teria, certamente, os duzentos e tantos espíritos dos seus colegas contra ele.

Contra as suas idéias levantar-se-iam duas centenas de pessoas do mais profundo bom senso.

Assim, para poder fazer alguma coisa útil, não fazei coisa alguma, a não ser receber o subsídio.

Eis aí em que vai constituir o máximo da minha ação parlamentar, caso o preclaro eleitorado sufrague o meu nome nas urnas.

Recebendo os três contos mensais, darei mais conforto à mulher e aos filhos, ficando mais generoso nas facadas aos amigos.

Desde que minha mulher e os meus filhos passem melhor de cama, mesa e roupas, a humanidade ganha. Ganha, porque, sendo eles parcelas da humanidade, a sua situação melhorando, essa melhoria reflete sobre o todo de que fazem parte.

Concordarão os nossos leitores e prováveis eleitores que o meu propósito é lógico e as razões apontadas para justificar a minha candidatura são bastante ponderosas.

De resto, acresce que nada sei da história social, política e intelectual do país; que nada sei da sua geografia; que nada entendo de ciências sociais e próximas, para que o nobre eleitorado veja bem que vou dar um excelente deputado.

Há ainda um poderoso motivo, que, na minha consciência, pesa para dar este cansado passo de vir solicitar dos meus compatriotas atenção para o meu obscuro nome.

Ando mal vestido e tenho uma grande vocação para elegâncias.

O subsídio, meus senhores, viria dar-me elementos para realizar essa minha velha aspiração de emparelhar-me com a deschanelesca[1] elegância do senhor Carlos Peixoto.

Confesso também que, quando passo pela rua do Passeio e outras do Catete, alta noite, a minha modesta vagabundagem é atraída para certas casas cheias de luzes, com carros e automóveis à porta, janelas com cortinas ricas, de onde jorram gargalhadas femininas, mais ou menos falsas.

Um tal espetáculo é por demais tentador, para a minha imaginação; e, eu desejo ser deputado para gozar esse paraíso de Maomé sem passar pela algidez da sepultura.

Razões tão ponderosas e justas, creio, até agora, nenhum candidato apresentou, e espero da clarividência dos homens livres e orientados o sufrágio do meu humilde nome, para ocupar uma cadeira de deputado, por qualquer estado, província ou emirado, porque, nesse ponto, não faço questão alguma.

Às urnas

Vida Urbana, 16.01.1915
In: Lima Barreto. Crônicas Escolhidas. São Paulo: Folha de S. Paulo: Ed. Ática, 1995, pp. 89-91.
Imagem: Luiz Ricardo Leitão. Lima Barreto – O rebelde imprescindível. São Paulo: Expressão Popular
link: www.expressaopopular.com.br/internas.asp?id=51

[1] Deschanel, Paul (1855-1922): Político francês, presidente da República de fevereiro a setembro de 1920.

leituras & livros (John Steinbeck)

24/05/2007
leituras & livros indicados
SETEINBECK, John
A Leste do Éden
São Paulo: Abril Cultural, 1984
(Volumes I e II)

Apresentação*

O título deste romance tem valor simbólico. O leste do Éden é a região onde Caim, filho de Adão e Eva, se refugiou depois de ter matado seu irmão, Abel. Na Bíblia, essa é a primavera da humanidade. Neste romance, é a primavera de uma nação: os Estados Unidos da América.

A Leste do Éden é um das grandes epopéias modernas, escrita por um autor cuja obra se confunde com a história dos Estados Unidos. É um romance profundamente norte-americano, que ao mesmo tempo não faz apologia da política e do poderio dessa potência – porque ele é a exaltação de algo ainda tradicionalmente norte-americano: o individualismo e a valorização do indivíduo.

O Éden deste romance é o vale de las salinas, região do Estado da Califórnia. E a época vai desde a virada do século XX até o advento das grandes cidades, da indústria e da sociedade de massas. Os pioneiros que povoaram a região com seus sítios e fazendas vão aos poucos dar lugar aos self-made men, os empreendedores que farão o progresso dos EUA Grande Potência.

Mas o livro faz uma advertência: esse progresso está em uma região simbólica, a leste do Éden, lugar de refúgio do Homem, depois que ele cometeu um crime.

A Leste do Éden é um romance de tese, que procura trazer à luz algumas mensagens. Mas é ao mesmo tempo uma narrativa realista, rica de personagens que fascinam pelo seu calor humano. E esse é o grande trunfo de John Steinbeck (1902-1968), prêmio Nobel de Literatura de 1962: criar figuras humanas marcantes e saber contar histórias que emocionam e fazem a epopéia de seu povo.

Escrito em 1952, A Leste do Éden, começa onde termina outro romance muito famoso, obra da escritora Margareth Mitchell (1900-1949): E o Vento Levou (1936), maior best-seller de todos os tempos. E o Vento Levou narra histórias românticas do tempo da Guerra de Secessão (1861/65), época da Abolição da Escravatura nos EUA. Estamos em plena sociedade patriarcal norte-americana. A Leste do Éden vai mostrar o fim dessa era – do tempo dos imigrantes e pioneiros que povoavam o país até o advento da moderna sociedade de massas.

A Leste do Éden é a moderna Epopéia do Indivíduo, encarnada na história de duas famílias. Seus protagonistas são pessoas falíveis, que cumprem o destino bíblico de se situar entre o Bem e o Mal, numa terra de erros e acertos, alegrias e tormentos.

A parte fina do livro, que conta a história dos gêmeos Aron e Caleb (Abel e Caim norte-americanos) será tema de um clássico do cinema: Vidas Amargas (1955), dirigido por Elias Kazan e interpretado pelo mitológico James Dean (1931-1955), “rebelde sem causa e jovem sem futuro”.

É significativo que James Dean, ídolo da nova geração americana da sociedade de massas, tenha representado na tela o angustiado personagem Caleb, profeta do leste do Éden. Caleb irá ferir mortalmente a alma de seu irmão, porque o fará ver o Mal– encarnado na figura da sua mãe, a terrível Catherine, “mulher que nasceu com uma deformação moral, assim como há gente que nasce com um defeito físico”. Mas o livro fará com que também nós nos defrontemos com o Mal que está em nossos próprios corações: “Quem não sondou as águas escuras de sua mente?”

A obra de Steinbeck reflete o espírito norte americano de todo um período histórico – da Grande Depressão de 1929 e do New Deal (política de recuperação econômica implantada pelo presidente Franklin Delano Roosevelt de 1933 a 1939) ao Pós-Guerra e à Guerra Fria –, marcado pela divisão do mundo em dois blocos.

A Grande Depressão e o espírito do New Deal estarão presentes em obras como As vinhas da Ira (1939) e Ratos e Homens (1937) – que denunciam as desumanas condições de vida dos trabalhadores agrícolas da Califórnia e fazem parte da história social dos EUA neste século.

A Leste do Éden já está impregnado pelo espírito do Pós-Guerra, quando a literatura norte-americana troca o realismo e a denúncia pela alegoria ideológica e pela ênfase nos problemas individuais. Mas é esta individualidade dos personagens que dá força a esta longa e inesquecível narrativa, capaz de arrebatar pelo seu vigoroso calor humano.

* Fonte: STEINBEK, J. A Leste do Éden. São Paulo: Abril Cultural, 1984 (Vol. 1), pp. 07-08.

Stanislaw Ponte Preta

23/05/2007

Com a ajuda de Deus

TIA ZULMIRA, pesquisadora do nosso folclore, descobre mais um conto anônimo. Conforme os senhores estão fartos de saber, quando uma coisa não tem dono, passa a ser do tal de folclore. Assim é com este conto muito interessante que a sábia macróbia colheu alhures.
Diz que era um lugar de terra seca e desgraçada, mas um matuto perseverante um dia conseguiu comprar um terreninho e começou a trabalhar nele e, como não existe terra bem tratada que deixe quem a tratou bem na mão, o matuto acabou dono da plantação mais bonita do lugar.
Foi quando chegou o padre. O padre chegou, olhou para aquele verde repousante e perguntou quem conseguira aquilo. O matuto explicou que fora ele, com muita luta e muito suor.
— E a ajuda de Deus— emendou o sacerdote.
O matuto concordou. Disse que no começo era de desanimar, mas deu um duro desgraçado, capinou, arou, adubou e limpou todas as pragas locais.
— E com a ajuda de Deus— frisou o padre.
O matuto fez que sim com a cabeça. Plantou milho, plantou legumes, passou noites inteiras regando tudo com cuidado e a plantação floresceu que era uma beleza. O padre já ia dizer que fora com a ajuda de Deus, quando o matuto acrescentou:
— Mas deu gafanhoto por aqui e comeu tudo.
O matuto ficou esperando que o padre dissesse que deu gafanhoto com a ajuda de Deus, mas o padre ficou calado. Então o matuto prosseguiu. Disse que não esmorecera. Replantara tudo, regara de novo, cuidara da terra como de um filho querido e o resultado estava ali, naquela verdejante plantação.
— Com a ajuda de Deus— voltou a afirmar o padre.
Aí o matuto achou chato e acrescentou:
— Sim, com a ajuda de Deus. Mas antes, quando Ele fazia tudo sozinho, o senhor precisava ver, seu padre. Esta terra não valia nada.

[Stanislaw Ponte Preta nasceu no Rio de Janeiro em 11/01/1923 (+ 29/09/1968).
Fonte: Ponte Preta, Stanislaw. O melhor de Stanislaw Ponte Preta: crônicas escolhidas; seleção e organização de Valdemar Cavalcanti. Rio de Janeiro: José Olympio, 2004, p. 85]