leituras & livros (John Steinbeck)

leituras & livros indicados
SETEINBECK, John
A Leste do Éden
São Paulo: Abril Cultural, 1984
(Volumes I e II)

Apresentação*

O título deste romance tem valor simbólico. O leste do Éden é a região onde Caim, filho de Adão e Eva, se refugiou depois de ter matado seu irmão, Abel. Na Bíblia, essa é a primavera da humanidade. Neste romance, é a primavera de uma nação: os Estados Unidos da América.

A Leste do Éden é um das grandes epopéias modernas, escrita por um autor cuja obra se confunde com a história dos Estados Unidos. É um romance profundamente norte-americano, que ao mesmo tempo não faz apologia da política e do poderio dessa potência – porque ele é a exaltação de algo ainda tradicionalmente norte-americano: o individualismo e a valorização do indivíduo.

O Éden deste romance é o vale de las salinas, região do Estado da Califórnia. E a época vai desde a virada do século XX até o advento das grandes cidades, da indústria e da sociedade de massas. Os pioneiros que povoaram a região com seus sítios e fazendas vão aos poucos dar lugar aos self-made men, os empreendedores que farão o progresso dos EUA Grande Potência.

Mas o livro faz uma advertência: esse progresso está em uma região simbólica, a leste do Éden, lugar de refúgio do Homem, depois que ele cometeu um crime.

A Leste do Éden é um romance de tese, que procura trazer à luz algumas mensagens. Mas é ao mesmo tempo uma narrativa realista, rica de personagens que fascinam pelo seu calor humano. E esse é o grande trunfo de John Steinbeck (1902-1968), prêmio Nobel de Literatura de 1962: criar figuras humanas marcantes e saber contar histórias que emocionam e fazem a epopéia de seu povo.

Escrito em 1952, A Leste do Éden, começa onde termina outro romance muito famoso, obra da escritora Margareth Mitchell (1900-1949): E o Vento Levou (1936), maior best-seller de todos os tempos. E o Vento Levou narra histórias românticas do tempo da Guerra de Secessão (1861/65), época da Abolição da Escravatura nos EUA. Estamos em plena sociedade patriarcal norte-americana. A Leste do Éden vai mostrar o fim dessa era – do tempo dos imigrantes e pioneiros que povoavam o país até o advento da moderna sociedade de massas.

A Leste do Éden é a moderna Epopéia do Indivíduo, encarnada na história de duas famílias. Seus protagonistas são pessoas falíveis, que cumprem o destino bíblico de se situar entre o Bem e o Mal, numa terra de erros e acertos, alegrias e tormentos.

A parte fina do livro, que conta a história dos gêmeos Aron e Caleb (Abel e Caim norte-americanos) será tema de um clássico do cinema: Vidas Amargas (1955), dirigido por Elias Kazan e interpretado pelo mitológico James Dean (1931-1955), “rebelde sem causa e jovem sem futuro”.

É significativo que James Dean, ídolo da nova geração americana da sociedade de massas, tenha representado na tela o angustiado personagem Caleb, profeta do leste do Éden. Caleb irá ferir mortalmente a alma de seu irmão, porque o fará ver o Mal– encarnado na figura da sua mãe, a terrível Catherine, “mulher que nasceu com uma deformação moral, assim como há gente que nasce com um defeito físico”. Mas o livro fará com que também nós nos defrontemos com o Mal que está em nossos próprios corações: “Quem não sondou as águas escuras de sua mente?”

A obra de Steinbeck reflete o espírito norte americano de todo um período histórico – da Grande Depressão de 1929 e do New Deal (política de recuperação econômica implantada pelo presidente Franklin Delano Roosevelt de 1933 a 1939) ao Pós-Guerra e à Guerra Fria –, marcado pela divisão do mundo em dois blocos.

A Grande Depressão e o espírito do New Deal estarão presentes em obras como As vinhas da Ira (1939) e Ratos e Homens (1937) – que denunciam as desumanas condições de vida dos trabalhadores agrícolas da Califórnia e fazem parte da história social dos EUA neste século.

A Leste do Éden já está impregnado pelo espírito do Pós-Guerra, quando a literatura norte-americana troca o realismo e a denúncia pela alegoria ideológica e pela ênfase nos problemas individuais. Mas é esta individualidade dos personagens que dá força a esta longa e inesquecível narrativa, capaz de arrebatar pelo seu vigoroso calor humano.

* Fonte: STEINBEK, J. A Leste do Éden. São Paulo: Abril Cultural, 1984 (Vol. 1), pp. 07-08.

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2 Respostas to “leituras & livros (John Steinbeck)”

  1. Anonymous Says:

    Ozaí:Parabéns pelo belíssimo texto sobre “A leste do Éden”. Steinbeck é um dos meus autores preferidos, e junto com “As vinhas da ira”, “A leste do Éden” é meu preferido também!Um abraço,Urda Alice Kluegerurda@flynet.com.br escritora e historiadora.

  2. Anonymous Says:

    A leste do Édem é um marco na literatura a escolha do vale de Salinas onde Steinbeck nasceu.E a luta dos irmãos para conquistar o amor do pai.Cathy a mãe de Aron é uma dona de um bordel sem escrupulos e devassa,apesar de enriquecida trai o pai do seu filho .Com o irmão deste. Acaba revelando já velha e solitária a complexidade da culpa.De não haver conhecido o filho de ums vids desperdiçada. Uma crítica ao capitalismo americano subilinar.Quando no almoço de “Ação de Graças” oferece dinheiro ao pai para diminuir as perdas que teve na mal sucedida empreitada comercial. O pai:Meu filho veja o exemplo de seu irmão Aron no Semíminário dinheiro não é tudo o que vale e uma vida bem vivida. O mordono chinês Lee é uma peça importante na narrativa de Steinbeck,como conselheiro. O livro é uma obra prima para leitores de gosto apurado.Mesmo contando com ícones do cinema americano como James Dean que foi exibido com o nome de “Vidas Amargas”,não possui a grandeza do livro.Obra indispensavél aos amantes da boa leitura. RicardoGMDuarte Jornalista e escritor

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