Lima Barreto

Uma crônica de 1915, que, infelizmente, permanece atual…

O novo manifesto

Eu também sou candidato a deputado. Nada mais justo. Primeiro: eu não pretendo fazer coisa alguma pela Pátria, pela família, pela humanidade.

Um deputado que quisesse fazer qualquer coisa dessas, ver-se-ia bambo, pois teria, certamente, os duzentos e tantos espíritos dos seus colegas contra ele.

Contra as suas idéias levantar-se-iam duas centenas de pessoas do mais profundo bom senso.

Assim, para poder fazer alguma coisa útil, não fazei coisa alguma, a não ser receber o subsídio.

Eis aí em que vai constituir o máximo da minha ação parlamentar, caso o preclaro eleitorado sufrague o meu nome nas urnas.

Recebendo os três contos mensais, darei mais conforto à mulher e aos filhos, ficando mais generoso nas facadas aos amigos.

Desde que minha mulher e os meus filhos passem melhor de cama, mesa e roupas, a humanidade ganha. Ganha, porque, sendo eles parcelas da humanidade, a sua situação melhorando, essa melhoria reflete sobre o todo de que fazem parte.

Concordarão os nossos leitores e prováveis eleitores que o meu propósito é lógico e as razões apontadas para justificar a minha candidatura são bastante ponderosas.

De resto, acresce que nada sei da história social, política e intelectual do país; que nada sei da sua geografia; que nada entendo de ciências sociais e próximas, para que o nobre eleitorado veja bem que vou dar um excelente deputado.

Há ainda um poderoso motivo, que, na minha consciência, pesa para dar este cansado passo de vir solicitar dos meus compatriotas atenção para o meu obscuro nome.

Ando mal vestido e tenho uma grande vocação para elegâncias.

O subsídio, meus senhores, viria dar-me elementos para realizar essa minha velha aspiração de emparelhar-me com a deschanelesca[1] elegância do senhor Carlos Peixoto.

Confesso também que, quando passo pela rua do Passeio e outras do Catete, alta noite, a minha modesta vagabundagem é atraída para certas casas cheias de luzes, com carros e automóveis à porta, janelas com cortinas ricas, de onde jorram gargalhadas femininas, mais ou menos falsas.

Um tal espetáculo é por demais tentador, para a minha imaginação; e, eu desejo ser deputado para gozar esse paraíso de Maomé sem passar pela algidez da sepultura.

Razões tão ponderosas e justas, creio, até agora, nenhum candidato apresentou, e espero da clarividência dos homens livres e orientados o sufrágio do meu humilde nome, para ocupar uma cadeira de deputado, por qualquer estado, província ou emirado, porque, nesse ponto, não faço questão alguma.

Às urnas

Vida Urbana, 16.01.1915
In: Lima Barreto. Crônicas Escolhidas. São Paulo: Folha de S. Paulo: Ed. Ática, 1995, pp. 89-91.
Imagem: Luiz Ricardo Leitão. Lima Barreto – O rebelde imprescindível. São Paulo: Expressão Popular
link: www.expressaopopular.com.br/internas.asp?id=51

[1] Deschanel, Paul (1855-1922): Político francês, presidente da República de fevereiro a setembro de 1920.

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3 Respostas to “Lima Barreto”

  1. Urariano Mota Says:

    Texto e autor muito bem escolhidos, Ozaí. Parabéns.

  2. Anonymous Says:

    Parabéns pela escolha do texto e do autor que sofreu bastante discriminação pela sociedade da época. Na minha opinião, ele faz uma crítica muito interessante e realista da nossa realidade brasileira. Entretanto, é triste perceber que nada mudou. Como você mesmo destaca, bastante atual.Rose Marie

  3. Anonymous Says:

    Ozai,Muito obrigada por ter recuperado e nos oferecido este texto de Lima Barreto. Este brilhante escritor que com sua ironia fina escreve um texto que atravessa o século e não apresenta uma ruga sequer.Reitero meus agradecimentos Ozaí, por este seu trabalho.M.Lucia Boarini

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