Archive for junho \21\UTC 2007

Reflexões sobre a sociedade burguesa: entre o vento de Balzac e a ventania de Marx e Engels

21/06/2007
Thiago Tavares Reis(*)

“Não estaremos diante do único deus moderno em que todos acreditam, o Dinheiro em sua onipotência, expresso por uma única fisionomia?”

Balzac em Eugénie Grandet.

Se Balzac oferece-nos uma aquarela dos traços da sociedade burguesa – mesmo que sob um viés, muito das vezes, nostálgico e casmurro – Marx e Engels indica-nos o mesmo painel histórico – isto é, uma sociedade na qual tudo é submetido ao crivo da mercadoria e tudo que é sólido desmancha em valor de troca – só que com outros tons. Visamos relacionar a miragem conservadora presente em Balzac com a crítica negativa presente no materialismo histórico e dialético.

Em Eugénie Grandet, Balzac está preocupado em observar as cenas da vida provinciana nos seus dramas quase mudos, nas suas personagens sutis. O enredo desdobra-se em torno do Sr.Grandet, um dos avarentos burlescos que povoam a galeria das personagens que integram a Comédia Humana de Balzac. A pena de Balzac consegue, aqui, alcançar a verve lírica e dramática de Marx ao caracterizar a irracionalidade de uma sociedade calcada na produção de mercadorias. Vejamos:

“O olhar de um homem acostumado a tirar de seus capitais um juro enorme adquire necessariamente, como o do libertino, o do jogador ou do cortesão, certos hábitos indefiníveis, movimentos furtivos, ávidos, misteriosos, que não se escapam aos correligionários. Essa linguagem secreta constitui de certo modo a maçonaria das paixões”. [1]

Para Marx a riqueza social produzida na sociedade burguesa era um imenso acúmulo de mercadorias. Naquela sociedade, tudo é produzido em face de seu valor de troca, pouco importando o valor de uso daquilo que é produzido. É nestas condições, que o ser genérico do homem se desfaz em meio de sua existência física.Aliás, Balzac capta com acuidade que sob a sociedade burguesa, até mesmo o tempo – outrora natural – é submetido a lógica da mercadoria, já que em Eugénie Grandet os comerciantes diziam: está um bom tempo, um tempo de ouro.

Além destas considerações, o romance pega de soslaio o cinismo do fetichismo da mercadoria, uma vez que até os recônditos da sensibilidade são maculados pela dinâmica daquele fetiche. Eugénie Grandet – filha do Sr.Grandet – apaixonada pelo seu primo Charles espera ansiosamente pelo retorno deste último – uma vez que Charles, após a morte de seu pai, que cometera suicídio em face de sua falência, fora fazer fortuna na Ásia, e o faz através do comércio de escravos; no entanto, as promessas de retorno nada mais foram do que promessas de avarento, juras de amor. O próprio Charles escrevera para sua prima: O amor, no casamento, é uma quimera. Hoje minha experiência me diz que é preciso obedecer a todas às leis sociais e reunir todas as conveniências exigidas pelo mundo no casamento[2].

Passou pelas franjas da sociedade burguesa tanto o vento de Balzac como a ventania de Marx e Engels. O vento de Balzac não deseja ir adiante, mas antes voltar ao sagrado de outrora que na sociedade burguesa foi profanado, foi enquanto a ventania dos segundos visa captar os nexos determinantes daquela sociedade no intuito de transformá-la.

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(*) Aluno do 5° Período de Ciências Sociais da Universidade Federal de Uberlândia. Agradeço aqui ao Prof. Antonio Ozaí da Silva que, sem rabugens acadêmicas, indicou a possibilidade que este artigo fosse publicado em seu blog de Literatura e Política. Obrigado.
[1] BALZAC, Honoré. Eugénie Grandet. Rio Grande do Sul: L&PM, 2006. p.21.
[2] Ibidem.

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leituras & livros indicados

20/06/2007

PONDÉ, Luiz Felipe.
Crítica e profecia: a filosofia da religião em Dostoiévski
São Paulo: Ed. 34, 2003 (288 p.)

A ambição mais elevada da literatura é proporcionar aos homens um conhecimento acerca de si mesmos através de imagens verdadeiras, isto é, aquelas que o escritor produz ao se rearticular de modo crítico e fictício a dramaticidade da existência, quase sempre disfarçada pelas máscaras do pragmatismo cotidiano. Os operadores críticos que permitem superar a realidade ideologicamente construída e defrontar-se com o enigma podem contemplar vários veios de decifração, no intuito de atingir os desvãos de uma interioridade recalcada, e privilegiar, dentre eles, os aspectos sociais e históricos, metafísicos e religiosos que incidem numa certa organização da vida em que o Eu flutua na superfície da existência, como que paradoxalmente apoiando-se na profundidade sempre presente sob si, embora nunca explorada.

O livro de Luiz Felipe Pondé nos mostra que, para Dostoiévski, todos esses aspectos, que são outros tantos níveis de conflito entre o indivíduo e a totalidade, estão condensados numa força ao mesmo tempo indefinível e determinada, unidade contraditória de afirmação infinita e de negação radical: a religião. Mas desde que não se lhe atribua qualquer significado consolador ou conciliador, porque a religião não redime o homem de sua insuficiência, mas antes deve levá-lo à consciência mais desesperadamente lúcida que se possa ter dessa condição. Trata-se de uma compreensão da redenção que afasta qualquer renovação da humanidade: o cristianismo veio para que os homens continuamente se lembrem do pecado, da culpa e do mal, não para que os superem.

Parece ser esse o sentido da convergência entre pessimismo e sobrenaturalidade que Pondé nos aponta em Dostoiévski. Se a sacralidade do humano provém de um Deus criador, essa sobrenatureza está comprometida com todas as linhas que forma a teia do enigma dessa criação: o mistério absoluto que une a bondade infinita, a graça e a positividade do mal. Por isso o homem recusa em si a sobrenaturalidade, porque é isso que o torna desconhecido e incompreensível para si mesmo. Daí a opção pela funcionalidade mundana do “niilismo racional”, da qual uma das figuras pode ser a religião. Como teologia e antropologia se entrelaçam em Dostoiévski, a segunda participa necessariamente do caráter apofático da primeira.

Sendo essa a experiência humana é intrinsecamente religiosa, a tal ponto que inclui até mesmo a negação de Deus. Dostoiévski teria intuído que o homem, ao não compreender sua própria sobrenaturalidade, trai a Deus e a si mesmo: o ateísmo é o paroxismo da contradição, que já está presente na crença, na relação que o homem, esse ser “antinômico”, mantém com Deus. É nesse sentido que não se pode viver a religião a religião apenas historicamente, isto é, de forma racionalmente articulada. A verdade está sempre distante quando o conhecimento “objetivo” opera racionalmente com essa distância, ele funcionaliza a experienciada finitude e naturaliza a transcendência. Somente a experiência religiosa, que faz da opacidade um meio de ver, e da distância uma aproximação, pode devolver o homem à antinomia existencial, condição da qual se procura fugir através de uma “apostasia naturalista” na imanência. E não é preciso refletir muito para encontrarmos, naquelas personagens atormentadas, muitos de nós, de nossas angústias e de nossas fugas. Pondé nos mostra Dostoiévski como um grande intérprete da condição humana, testemunha e precursor, crítico e profeta.

Franklin Leopoldo e Silva
[texto da orelha do livro]

Friedrich Engels

08/06/2007

Sobre Balzac

Balzac, que considero de longe o maior mestre do realismo de todos os Zolas do passado, presente ou futuro, proporciona-nos na sua Comédie Humaine, uma história maravilhosamente realista da “sociedade” francesa, descrevendo, no estilo de crônica, quase ano por ano, de 1816 q 1848, a pressão crescente da ascensão da burguesia sobre a sociedade dos nobres que se estabeleceu a partir de 1815 e voltou a instalar, na medida do possível, (tant bien que mal), o padrão da vieille politesse française (velha delicadeza francesa). Descreve como os derradeiros resíduos daquela, para ele, sociedade modelo sucumbiram gradualmente ante a explosiva intrusão dos vulgares endinheirados ou foi corrompida por eles. Como a grande dame, cujas infidelidades conjugais não passavam de uma maneira de firmar a sua posição, em perfeito acordo com a forma como lhe tinham destinado o casamento, cedeu lugar à burguesia, que adquiriu o marido em troca de dinheiro. E em torno desta imagem central, o autor tece uma história completa da sociedade francesa, com a qual, mesmo em pormenores econômicos (como, por exemplo, a redistribuição da propriedade real e privada após a Revolução Francesa), aprendi mais do que com todos os historiadores, economistas e estatísticos profissionais do período.

Ora, Balzac era politicamente um legitimista; a sua obra grandiosa constitui uma elegia permanente da decadência irreparável da boa sociedade; as suas simpatias vão para a classe destinada à extinção. Mas, apesar de tudo isso, a sua sátira nunca se revela mais mordaz, a sua ironia nunca é mais amarga, do que quando põe em movimento os próprios homens e mulheres com os quais simpatiza mais profundamente – os nobres. E os únicos homens aos quais se refere com clara admiração são os seus antagonistas políticos mais acirrados, os heróis republicanos do Cloitre Saint Mary, aqueles que nessa época (1830-36) eram os verdadeiros representantes das massas populares.

O fato de Balzac se ver compelido a agir contra as suas próprias simpatias de classe e preconceitos políticos, de ver a necessidade da queda dos seus favoritos nobres e os descrever como pessoas que não merecem melhor sorte, de ver os verdadeiros homens do futuro onde, temporariamente, se encontravam – tudo isto afigura-se-me um dos maiores trunfos do realismo e das maiores características do velho Balzac.

Fonte:
Friedrich Engels. “Carta a Margaret Harkness, Abril de 1888”.
Original existente no Instituto Marx-Engels-Lênin, Moscou.
In: Marx-Engels. Sobre Literatura e Arte. São Paulo: Global Editora, 1979, pp. 71-72.