leituras & livros indicados

PONDÉ, Luiz Felipe.
Crítica e profecia: a filosofia da religião em Dostoiévski
São Paulo: Ed. 34, 2003 (288 p.)

A ambição mais elevada da literatura é proporcionar aos homens um conhecimento acerca de si mesmos através de imagens verdadeiras, isto é, aquelas que o escritor produz ao se rearticular de modo crítico e fictício a dramaticidade da existência, quase sempre disfarçada pelas máscaras do pragmatismo cotidiano. Os operadores críticos que permitem superar a realidade ideologicamente construída e defrontar-se com o enigma podem contemplar vários veios de decifração, no intuito de atingir os desvãos de uma interioridade recalcada, e privilegiar, dentre eles, os aspectos sociais e históricos, metafísicos e religiosos que incidem numa certa organização da vida em que o Eu flutua na superfície da existência, como que paradoxalmente apoiando-se na profundidade sempre presente sob si, embora nunca explorada.

O livro de Luiz Felipe Pondé nos mostra que, para Dostoiévski, todos esses aspectos, que são outros tantos níveis de conflito entre o indivíduo e a totalidade, estão condensados numa força ao mesmo tempo indefinível e determinada, unidade contraditória de afirmação infinita e de negação radical: a religião. Mas desde que não se lhe atribua qualquer significado consolador ou conciliador, porque a religião não redime o homem de sua insuficiência, mas antes deve levá-lo à consciência mais desesperadamente lúcida que se possa ter dessa condição. Trata-se de uma compreensão da redenção que afasta qualquer renovação da humanidade: o cristianismo veio para que os homens continuamente se lembrem do pecado, da culpa e do mal, não para que os superem.

Parece ser esse o sentido da convergência entre pessimismo e sobrenaturalidade que Pondé nos aponta em Dostoiévski. Se a sacralidade do humano provém de um Deus criador, essa sobrenatureza está comprometida com todas as linhas que forma a teia do enigma dessa criação: o mistério absoluto que une a bondade infinita, a graça e a positividade do mal. Por isso o homem recusa em si a sobrenaturalidade, porque é isso que o torna desconhecido e incompreensível para si mesmo. Daí a opção pela funcionalidade mundana do “niilismo racional”, da qual uma das figuras pode ser a religião. Como teologia e antropologia se entrelaçam em Dostoiévski, a segunda participa necessariamente do caráter apofático da primeira.

Sendo essa a experiência humana é intrinsecamente religiosa, a tal ponto que inclui até mesmo a negação de Deus. Dostoiévski teria intuído que o homem, ao não compreender sua própria sobrenaturalidade, trai a Deus e a si mesmo: o ateísmo é o paroxismo da contradição, que já está presente na crença, na relação que o homem, esse ser “antinômico”, mantém com Deus. É nesse sentido que não se pode viver a religião a religião apenas historicamente, isto é, de forma racionalmente articulada. A verdade está sempre distante quando o conhecimento “objetivo” opera racionalmente com essa distância, ele funcionaliza a experienciada finitude e naturaliza a transcendência. Somente a experiência religiosa, que faz da opacidade um meio de ver, e da distância uma aproximação, pode devolver o homem à antinomia existencial, condição da qual se procura fugir através de uma “apostasia naturalista” na imanência. E não é preciso refletir muito para encontrarmos, naquelas personagens atormentadas, muitos de nós, de nossas angústias e de nossas fugas. Pondé nos mostra Dostoiévski como um grande intérprete da condição humana, testemunha e precursor, crítico e profeta.

Franklin Leopoldo e Silva
[texto da orelha do livro]

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