Reflexões sobre a sociedade burguesa: entre o vento de Balzac e a ventania de Marx e Engels

Thiago Tavares Reis(*)

“Não estaremos diante do único deus moderno em que todos acreditam, o Dinheiro em sua onipotência, expresso por uma única fisionomia?”

Balzac em Eugénie Grandet.

Se Balzac oferece-nos uma aquarela dos traços da sociedade burguesa – mesmo que sob um viés, muito das vezes, nostálgico e casmurro – Marx e Engels indica-nos o mesmo painel histórico – isto é, uma sociedade na qual tudo é submetido ao crivo da mercadoria e tudo que é sólido desmancha em valor de troca – só que com outros tons. Visamos relacionar a miragem conservadora presente em Balzac com a crítica negativa presente no materialismo histórico e dialético.

Em Eugénie Grandet, Balzac está preocupado em observar as cenas da vida provinciana nos seus dramas quase mudos, nas suas personagens sutis. O enredo desdobra-se em torno do Sr.Grandet, um dos avarentos burlescos que povoam a galeria das personagens que integram a Comédia Humana de Balzac. A pena de Balzac consegue, aqui, alcançar a verve lírica e dramática de Marx ao caracterizar a irracionalidade de uma sociedade calcada na produção de mercadorias. Vejamos:

“O olhar de um homem acostumado a tirar de seus capitais um juro enorme adquire necessariamente, como o do libertino, o do jogador ou do cortesão, certos hábitos indefiníveis, movimentos furtivos, ávidos, misteriosos, que não se escapam aos correligionários. Essa linguagem secreta constitui de certo modo a maçonaria das paixões”. [1]

Para Marx a riqueza social produzida na sociedade burguesa era um imenso acúmulo de mercadorias. Naquela sociedade, tudo é produzido em face de seu valor de troca, pouco importando o valor de uso daquilo que é produzido. É nestas condições, que o ser genérico do homem se desfaz em meio de sua existência física.Aliás, Balzac capta com acuidade que sob a sociedade burguesa, até mesmo o tempo – outrora natural – é submetido a lógica da mercadoria, já que em Eugénie Grandet os comerciantes diziam: está um bom tempo, um tempo de ouro.

Além destas considerações, o romance pega de soslaio o cinismo do fetichismo da mercadoria, uma vez que até os recônditos da sensibilidade são maculados pela dinâmica daquele fetiche. Eugénie Grandet – filha do Sr.Grandet – apaixonada pelo seu primo Charles espera ansiosamente pelo retorno deste último – uma vez que Charles, após a morte de seu pai, que cometera suicídio em face de sua falência, fora fazer fortuna na Ásia, e o faz através do comércio de escravos; no entanto, as promessas de retorno nada mais foram do que promessas de avarento, juras de amor. O próprio Charles escrevera para sua prima: O amor, no casamento, é uma quimera. Hoje minha experiência me diz que é preciso obedecer a todas às leis sociais e reunir todas as conveniências exigidas pelo mundo no casamento[2].

Passou pelas franjas da sociedade burguesa tanto o vento de Balzac como a ventania de Marx e Engels. O vento de Balzac não deseja ir adiante, mas antes voltar ao sagrado de outrora que na sociedade burguesa foi profanado, foi enquanto a ventania dos segundos visa captar os nexos determinantes daquela sociedade no intuito de transformá-la.

________________
(*) Aluno do 5° Período de Ciências Sociais da Universidade Federal de Uberlândia. Agradeço aqui ao Prof. Antonio Ozaí da Silva que, sem rabugens acadêmicas, indicou a possibilidade que este artigo fosse publicado em seu blog de Literatura e Política. Obrigado.
[1] BALZAC, Honoré. Eugénie Grandet. Rio Grande do Sul: L&PM, 2006. p.21.
[2] Ibidem.

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3 Respostas to “Reflexões sobre a sociedade burguesa: entre o vento de Balzac e a ventania de Marx e Engels”

  1. Robson Says:

    Thiago, parabéns pelo texto.´Processo social e litertaura não são pólos antagônicos, ma compreendem uma profunda dinâmica. A literatura, como comprova seu artigo, comporta um forma destacada de compreensão da realidade social. Essa, por mais que recusem os partidários do mundo como um invento textual, ainda existe de forma bastante injusta. Abraços

  2. Anonymous Says:

    Aprendi muito

  3. ronaldo Says:

    Caro Thiago Tavares Reis

    Solicito sua atenção para a proposta abaixo, que além de defender toda o pensamento liberal, introduz a variante social. Seria muito construtivo que os tecnocratas neoliberais entendessem que, embora necessário, ajuste das contas orçamentárias não é o valor supremo do universo do desenvolvimento. É necessário, mas não suficiente

    Embora o texto abaixo se refira à crise brasileira, os argumentos listados se aplicam a discussão central no mundo atual. Se substituirmos, neste texto, o conflito brasileiro de neoliberais x socialistas por americanos republicanos conservadores x liberais democratas ou ainda por gregos socialistas x conservadores alemães – genericamente falando o mundo discute atualmente: austeridade x necessidades sociais e exige respostas claras, objetivas, de aplicação prática e convincentes.

    Empresários e trabalhadores: uni-vos!!!!

    “Os lugares mais quentes do inferno são destinados àqueles que escolhem a neutralidade em tempos de crise” – Dante Alighieri (1265-1321)

    Coletivismo é a crença que o individuo deve ser subserviente ao grupo, significa que seus valores e crenças são, muitas vezes, irrelevantes.
    “Há apenas um tipo de liberdade, que é a liberdade individual. Nossas vidas vêm de nosso Criador e nossa liberdade vem do nosso Criador. Não tem nada a ver com concessão de governo”. Ron Paul – ex senador americano republicano

    Crise e confronto de ideias, este o Brasil de hoje, milhões de brasileiros nas ruas de ambas as ideologias dominantes: coxinhas e petralhas. Vamos tentar radiografar isto, olhando além de interesses pessoais e políticos. Certamente o foco é a visão de mundo, a economia e posturas politicas.
    Coxinhas acreditam e priorizam a austeridade, colocar as contas do governo sob controle, não gastar mais que arrecadam e deixar os problemas sociais por conta de programas que serão ativados conforme disponibilidade de recursos. Algo como: este é o salario mínimo possível, se os petralhas conseguirem comer é problema deles, não da pra pagar mais. Estes neoliberais ou neocon acreditam na possibilidade de gerenciar as leis econômicas!!! Priorizam, sobretudo, o pagamento aos banqueiros que são nossos credores e financiadores de nosso desenvolvimento, geradores de empregos. Em outras palavras, coxinhas acreditam que o econômico, baseado na credibilidade do País, vai avançar sobre o social e todos viverão felizes. Seria muito construtivo que os tecnocratas neoliberais entendessem que, embora necessário, ajuste das contas orçamentárias não é o valor supremo do universo do desenvolvimento. FMI e neoliberais acreditam nesta meia verdade. É necessário, mas não suficiente. Resultado da filosofia dos coxinhas é uma elite de privilegiados, capitaneada pelos banqueiros, e uma multidão de excluídos. Sabe quando os petralhas conseguirão comer – nunca.

    “O melhor programa econômico de governo é não atrapalhar aqueles que produzem, investem, poupam, empregam, trabalham e consomem”.
    (Barão de Mauá – 1813-1889)

    Petralhas priorizam o social, descobriram na própria pele, que para gerar trabalho produtivo é preciso estar alimentado, com saúde e educação – o que é uma verdade biológica, ate o automóvel precisa de combustível a priori para rodar. Entretanto, isto fornecido pelo governo, vale dizer pelos impostos capturados de trabalhadores e empresários, vai gerar um tremendo déficit e inviabilizar o governo que perde credibilidade internacional e reduz os investimentos. Acreditam, sobretudo, que pessoas bem alimentadas, com saúde e educação, vale dizer com o social resolvido o econômico se expande e todos viverão felizes. Sabe quando esta equação vai fechar – nunca.

    Nesta bagunça de concepções distintas, os políticos, legitimados por neo keynesianos, interferem na economia de forma desastrada – se intrometem até sobre compra de plataformas de petróleo de empresas estatais – absurdo dos absurdos – isto não pode dar certo!!! Esperteza de toda sorte, eles descobriram que eleição é um bem econômico com preço no mercado – bombeiam recursos dos prestadores de serviços, dependentes do governo, para suas campanhas eleitorais, deixando um pedaço nos próprios bolsos!!! Aqui coxinhas e petralhas agem de forma semelhante. Não tem Madre Teresa nesta casa de tolerância!!!
    O que podemos aprender disto tudo. Como podemos conciliar visões tão distintas?

    “O bem que o Estado pode fazer é limitado; o mal, infinito. O que ele nos pode dar é sempre menos do que nos pode tirar” (Roberto Campos)

    Coxinhas estão corretos em manter um orçamento equilibrado. Petralhas, corretíssimos, descobriram o óbvio: todos precisam se alimentar e ter acesso aos sistemas de saúde e educação.
    Temos que transformar estes 3 setores: nutrição, saúde e educação de despesa orçamentaria de governo em investimento empresarial – através de um novo Pacto Social onde empresas assumem estas responsabilidade sociais e governo reduz a tributação correspondente. A partir dai livre mercado, laisser faire, laissez passer!! Meritocracia, redução de governo, responsabilidade individual, reversão da migração campo-cidade, agricultura, saúde e educação altamente rentáveis, enfim resgatam-se os valores tradicionais que fizeram prospero e rico o mundo ocidental.
    Desta forma economia fica, definitivamente, separada de politica – são como óleo e agua – não se misturam.

    Esta proposta representa um chamamento a responsabilidade de empresários e trabalhadores – uni- vos !! É a única forma de tirar o governo de suas costas: assumir aquilo que representa intervenção legitima do governo: subsidiar os setores de agricultura, saúde e educação. Mais mercado, menos governo, mais comida menos pobreza. Difícil imaginar uma sociedade onde o lucro depende da saúde das pessoas. Aos céticos, oportuno lembrar que o fiador deste Pacto Social proposto será o pleno emprego produtivo e a ampla competição de mercado. Somente com pleno emprego não precisamos da supervisão do estado – mão invisível age de forma inexorável!!

    Uma palavra de gratidão ao juiz Sergio Moro que resgata a dignidade de todo o povo brasileiro, podemos andar de cabeça erguida, corrupção é caso de policia, não importa se coxinha ou petralha.

    Cordialmente

    Ronaldo Campos Carneiro – 16/4/16
    ex diretor da Associação Comercial do DF
    Engenheiro de produção, ex professor
    da USP/FGV/PUC. Ex negociador de projetos do governo brasileiro com
    Banco Mundial e BID. Foi proprietário e executivo de empresa privada na área de café e
    maquinas de café. Governador de Rotary 2008-9 – distrito 4530.
    rcarneiro4@gmail.com
    http://ronaldocarneiro.wordpress.com
    http://rcarneiro4.blogspot.com.br

    __,_._,___

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