Archive for julho \25\UTC 2007

leituras & livros indicados

25/07/2007

Urariano Mota. Os Corações Futuristas. Recife: Bagaço, 1999 (276p.)

A crueza assumida em Urariano Mota
por Alberto da Cunha Melo

Quando a ditadura militar se instalou no Brasil, em 1964, eu tinha 22 anos. Ou seja, apenas uns dois ou três anos mais velho do que os anti-heróis de Os Corações Futuristas, romance de Urariano Mota. Como eles, cheio de ingenuidade e de sonhos, andei de empresa em empresa atrás de emprego e, por sugestão de um amigo, que conhecia minha militância na política estudantil secundarista, levava no bolso uma carta de seu pai, negociante, atestando ser eu um “rapaz de formação católica”.

Pernambuco, ao lado do Rio, São Paulo e Minas Gerais, foi um dos Estados em que a repressão bateu mais forte. Afinal, aqui era a terra das Ligas Camponesas de Francisco Julião e da saga heróica de Gregório Bezerra, ambos brutalmente torturados em dependências militares. É nesse clima de terror estatal, durante quatro anos, de 1969 a 1973,que se desenrolam as desventuras, fraquezas e martírios dos personagens da ficção de Urariano Mota, estranhamente a primeira obra literária de fôlego, escrita em Pernambuco, sobre aquele vergonhoso período.

É um romance assumidamente realista e linear, de linguagem descascada, sem qualquer prurido experimental, sem qualquer concessão ao diálogo bem comportado, às etiquetas. A pobreza que sonha é a mais desgraçada das pobrezas. Tendo como único luxo o sonho, a juventude retratada por Urariano Mota pisa descalça no asfalto ardente de uma realidade que, sequer, podem ajudar a mudar. O sentimento de impotência, que se materializa ou, dito de outra maneira, se somatiza no personagem Carlos, faz contraponto com o sentimento de abandono espiritual personificado pelo doce e sério João. Todo esse quadro é apenas o fragmento de um painel que revela a devastação invisível que a ordem pervertida das tiranias vai espalhando por toda parte. Uma geração inteira teve seu destino interrompido, sem esquecer que parte dela o teve corrompido, numa espécie de subterrânea execução em massa de potenciais lideranças comprometidas, realmente, com os destinos da população brasileira.

Os Corações Futuristas é um panorama dessa devastação, vista através da ótica de uma juventude silenciada. Devastação hoje esquecida ou subestimada, porque todos os que foram responsáveis por ela se auto-indultaram, se auto-anistiaram e continuam no poder, mais ricos e poderosos do que nunca. A crueldade impune continua a chocar suas sementes daninhas, sob as camadas de um esquecimento que o romance de Urariano, com toda a sua crueza, tão bem consegue desenterrar.
[Texto da orelha do livro]

Sobre o autor:

Graduado em jornalismo. Bancário. Contos publicados na década de 70 nos jornais Movimento, Opinião, Tribuna da Imprensa, e revista Ficção (número especial de humor). Livro (“Arremedo de Vôo”) premiado na UBE, no Rio de Janeiro. Peça de teatro (“O Farol da Província”) vencedora do Concurso Universitário de Peças Teatrais, do Serviço Nacional de Teatro, para a região Nordeste, Na ocasião, antes de receber o prêmio, confessou estar fora da universidade. E por assim declarar, declararam-no fora também do prêmio. Depois, não sabe se por consolo, ganhou menção honrosa no Concurso Nacional de Teatro de Bonecos, do mesmo SNT. Em meses mais recentes tem publicado crônicas e artigos no Diário de Pernambuco, na página de opinião.

Sobre a obra de Urariano Mota

Entrevista publicada no La Insígnia: http://www.lainsignia.org/2006/marzo/cul_024.htm

Crítica de Nei Duclós, publicada no jornal Rascunho: http://www.lainsignia.org/2005/mayo/cul_035.htm

Fernando Soares, em Novae: http://www.novae.inf.br/site/modules.php?name=Conteudo&pid=657

Literatura para doer, quebrar o mar

21/07/2007
por Pedro Maciel

Franz Kafka, judeu, nascido em 1883 na cidade de Praga, Boêmia (hoje República Tcheca), então pertencente ao Império Austro-Húngaro, e morto no sanatório de Kierling, um mês antes de completar 41 anos, é um autor que está inserido no movimento dos escritores expressionistas, mas os relatos kafkianos são histórias que sonham a civilização contemporânea.

Quase desconhecido em vida, o autor de “A Metamorfose”, criou um mundo realista e absurdo. Reinventou fábulas, lendas e parábolas. Místico, ele compara a sua própria obra a “uma nova doutrina secreta, uma cabala”. O escritor era um sonhador e queria “viver dentro da verdade”. O autor de “O Castelo” concebeu a literatura como uma expedição rumo à verdade. “Eu quero que a minha literatura doa, que faça as pessoas sofrerem. Ela deve funcionar como um machado, capaz de quebrar o mar congelado que existe em cada um de nós”, afirmou.

Toda a sua obra expressa o fantástico, o estranho e a sátira, ao invés do patético. Seus livros desmistificam a organização social que se perpetua, graças a paciência dos subordinados que morrem sem imaginar seus direitos. Kafka é cômico, sarcástico, grotesco. A leitura de “O processo”, segundo seu biógrafo, Max Brod, provocou risadas no círculo de amizades do escritor. Max Brod é o amigo-editor que não atendeu o último pedido de Kafka, que desejava a destruição de seus manuscritos após a sua morte. A este amigo-editor devemos o conhecimento de uma das obras mais fantásticas da literatura contemporânea.

Depois de Kafka tudo ficou kafkiano. Otto Maria Carpeaux, que introduziu Kafka no Brasil, diz que “o romancista de ‘O processo’ é, para alguns, o satírico que zombou da burocracia austríaca; e para outros o profeta das contradições e do fim apocalíptico da sociedade burguesa; e para mais outros o porta-voz da angústia religiosa desta época; e para mais outros o inapelável juiz da fraqueza moral do gênero humano e do nosso tempo; e para mais outros um exemplo interessante do complexo de Édipo… Tudo em torno de Kafka é equívoco.”

Há muitas controvérsias entre diversos comentadores da obra de Franz kafka. Afinal, os textos kafkianos permitem diversas interpretações, já que são obras abertas, como os romances que ele nos legou. Os contos e novelas também refletem um mundo ambíguo. A forma e a matéria dos contos são condensadas, às vezes, em dois ou três parágrafos, revelando-se outras histórias, histórias novas que caracterizam os verdadeiros narradores. As histórias apresentam argumentos distintos, mas repetem-se na essência. Toda a literatura é uma reescritura.

Como em “Contemplação”, conjunto de peças breves e líricas, publicado em 1912, primeiro livro de Kafka. Os 18 contos são exemplos de textos paródicos, épicos em miniatura. Kafka diz sobre “Contemplação” (trad. de Modesto Carone; ed. Companhia das Letras), que “existe aí realmente uma desordem sem salvação, ou antes: são lampejos claros sobre uma confusão interminável e é preciso aproximar-se muito para ver alguma coisa”. Mas há muita poesia nos textos alegóricos. Segundo Walter Benjamin, “as alegorias são, no reino do pensamento, o que são as ruínas no reino das coisas”.

Já a novela “O foguista”, publicada por Kafka em 1923, primeiro capítulo do romance “América”, tem uma atmosfera de pesadelo, clima que norteará toda a obra de kafka. Narra as desventuras do herói karl Rossman no seu exílio americano. A estrutura dramática da novela remete à ficção alemã, praticada por Goethe, e retoma o estilo de Dickens através da narrativa realista.

A prosa universal de kafka é a história dos pesadelos do mundo moderno. Retrato ampliado das fraquezas e defeitos inerentes à espécie. Em sua biografia de kafka, Max Brod, diz que “qualquer estudo aprofundado de suas fraquezas demonstrará que todas elas emanam, tragicamente, de suas virtudes”. As situações intoleráveis, a angústia e o absurdo, os ambientes bizarros e a força psicológica dos seus argumentos são as idéias centrais deste autor clássico.

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AS ÁRVORES

Pois somos como troncos de árvores na neve. Aparentemente eles jazem soltos na superfície e com um pequeno empurrão deveria ser possível afastá-los do caminho. Não, não é possível, pois estão firmemente ligados ao solo. Mas veja, até isso é só aparente.
Conto de “Contemplação / O Foguista”, de Franz Kafka

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OS QUE PASSAM POR NÓS CORRENDO

Quando se vai passear à noite por uma rua e um homem já visível de longe _ pois a rua sobe à nossa frente e faz lua cheia _ corre em nossa direção, nós não vamos agarrá-lo mesmo que ele seja fraco e esfarrapado, mesmo que alguém corra atrás dele gritando, mas vamos deixar que continue correndo.

Pois é noite e não podemos fazer nada se a rua se eleva à nossa frente na lua cheia e além disso talvez esses dois tenham organizado a perseguição para se divertir; talvez ambos persigam um terceiro, talvez o primeiro seja perseguido inocentemente, talvez o segundo queira matar e nós nos tornássemos cúmplices do crime, talvez os dois não saibam nada um do outro e cada um só corra por conta própria para sua cama, talvez sejam sonâmbulos, talvez o primeiro esteja armado.

E finalmente _ não temos o direito de estar cansados, não bebemos tanto vinho? Estamos contentes por não ver mais nem o segundo homem.
Conto de “Contemplação / O Foguista”, de Franz Kafka

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Publicado no Caderno “Prosa & Verso”, jornal ‘O Globo’, em 08 de abril de 2000.
Pedro Maciel é autor do romance “A Hora dos Náufragos”, Ed. Bertrand Brasil

Franz Kafka não pertence a nenhum ismo

13/07/2007

Colóquio de Guido Araújo com Eduardo Goldstücker

[Revista Civilização Brasileira, Ano I, Nº 3, Julho de 1965. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, pp. 149-154 – Foto: Franz Kafka em companhia de sua noiva, Felícia]

A Eduard Goldstücker cabe o mérito de haver sido um dos idealizadores e principal organizador da Conferência de Líblice sobre Kafka (Liblice foi o castelo que serviu de tema para o célebre romance de Kafka), que constituiu o primeiro debate da obra kafkiana à luz do marxismo, em âmbito internacional.

Goldstücker realizou seus estudos de línguas latinas e germânicas na Universidade Carolina em Praga. Durante a guerra esteve na Inglaterra na qualidade de exilado político e tornou-se germanista pela Universidade de Oxford.

Em 1943, com a idade de 30 anos entrou para o serviço diplomático do governo tchecoslovaco do Presidente Benes. Serviu como diplomata em paris, Londres e Tel-Aviv até 1951, quando foi preso. Envolvido nos processos stalinistas dos primeiros anos da década de 50, que tiveram lugar na Tchecoslováquia, foi condenado em 1953 à prisão perpétua. Reabilitado em 1955 entrava no ano seguinte para a Faculdade de Filosofia de Praga como germanista, onde se encontra até hoje à frente da cátedra de línguas germânicas.

A partir de 1944 o professor Eduard Goldstücker vem publicando uma série de estudos sobre a literatura alemã. Foi ele o editor tcheco das Obras Escolhidas de Goethe e nos últimos anos dedica-se à pesquisa da literatura praguense em língua alemã, que possui grandes escritores como Rilke, Kafka, Brod, etc.

Além de valiosa contribuição à análise marxista da obra de Kafka – feita por ocasião da Conferência de Liblice – Goldstücker lançou no princípio deste ano um ensaio intitulado Sobre o Tema Franz Kafka (Na Tèma Franz Kafka) e no momento prepara uma monografia de Kafka, que trará contribuições novas para aclarar o problema das relações do autor de O Processo com a poetisa tcheca Milena Jasenská.

Pergunta: Em julho de 1962, no Congresso Mundial da Paz, em Moscou, Jean-Paul Sartre apelou para a desmilitarização de Kafka. Perguntaria se este apelo continua válido e qual a contribuição que ele trouxe para uma visão nova de Kafka na análise científica?

Goldstücker: Sartre, naquela ocasião, apelou sobretudo aos países socialistas para que não recusassem a herança da obra kafkiana porque – segundo sua maneira de ver – é possível muito bem integrar Kafka na cultura socialista, mas, na luta ideológica entre os mundos capitalista e socialista, se faz necessário que Kafka seja desmilitarizado. Penso que é uma exigência correta, porém devemos entender esta desmilitarização de um modo mais amplo do que imaginava Sartre.

Nos anos da guerra fria formou-se no mundo ocidental a idéia de que Kafka representa o aliado do Ocidente contra os países socialistas, e como tal o usavam. De qualquer maneira apoderaram-se dele. Tenho plena convicção de que a posse de Kafka pelos propagandistas ocidentais da guerra fria é completamente errada. Entretanto, apesar de ser contrária ao espírito da obra de Kafka, ela sobrevive até hoje. Por exemplo, através da própria experiência, sei que muitos órgãos de imprensa no ocidente interessam-se por Kafka, enquanto o podem aproveitar contra nós. Quando passamos a apreciar a obra kafkiana e sua importância do ponto de vista marxista, então esses mesmo órgãos de imprensa perdem o interesse por Kafka e passam a nos acusar de havê-lo roubado; como se Kafka lhes pertencesse, o que é naturalmente um absurdo!

Por outro lado, é óbvio que ninguém bem intencionado com o marxismo e a literatura chegaria à idéia de apresentar Kafka como algum socialista.

O problema de Kafka é precisamente o de não ser possível reclama-lo para nenhum ismo, nem político, nem filosófico, nem religioso. Sobre Erasmo de Roterdam se dizia que era “homo per se” – homem para si – que não pertencia a nenhum campo. Kafka, penso, é tal homem em nosso século. Kafka não podia e nem era capaz de inclinar-se para nenhuma opinião existente. Não pode plenamente aceitar nenhuma solução da problemática vital que lhe oferecia o seu tempo. Pesquisou todas elas, interessava-se por cada uma, mas não aceitou nenhuma, porque tinha a impressão de que em cada uma delas estava escondida alguma ilusão – e ele não queria acreditar nas ilusões; e, se aceitasse qualquer das soluções existentes da problemática vital, teria de fazer um compromisso. E ele não estava disposto e não era capaz nem de fazer compromissos, nem de acreditar nas ilusões.

Por isso, a demanda da desmilitarização de Kafka me parece um problema de minuciosa análise científica da obra de Kafka, para indicar até onde e em que sentido sua obra pertence à cultura mundial; a qual é, apesar da divisão do mundo, afinal, uma só.

– Aqui cabe a pergunta: até que ponto e se em geral Kafka é atual na sociedade que constrói o socialismo? Numa sociedade que é muito diferente daquela em que vivia e criava Franz Kafka.

Goldstücker: Esta pergunta representou o objeto da discussão na nossa Conferência sobre a vida e obra de Franz Kafka, que teve lugar em fins de maio de 1963, no Castelo de Liblice, perto de Praga.

Acho que Kafka é atual também na nossa sociedade, isto é, na sociedade em que a classe operária conquistou o poder. A revolução socialista ainda não culminou na nova sociedade e esta traz consigo muitas heranças da sociedade e que Kafka viveu e sentia como um grande obstáculo para a vida humana.

Pergunta: Que é a atualidade de Kafka?

Goldstücker: Segundo penso, a atualidade de Kafka encontra-se, sobretudo, no fato – que já tive oportunidade de mencionar de passagem – de que Kafka esforçava-se por ver o mundo e a vida sem ilusões. E nós precisamos de tal visão! Nós, que nos deixamos levar na vida pelas ilusões, que fomos, em freqüência, superficial e ingenuamente otimistas, necessitamos uma visão clara, sem compromisso e sem ilusões, da nossa vida e do nosso mundo. A obra de Kafka nos conduz a isso.

Tal pergunta é importante porque toda a vida moderna da época industrial nos encaminha ao perigo de uma desumanização. Precisamos, de algum modo, nos defender contra a pressão desumanizadora da civilização da máquina. Kafka mesmo a sentia em si de uma maneira muito aguda. Daí as suas imagens de uma vida desumanizada, mecânica e absurda.

Mas, apesar de que ele sozinho não haja encontrado a solução para a sua problemática, não foi subjugado pelo niilismo e cinismo, do qual nos tenta convencer essa pressão desumanizadora. Na última etapa do seu combate, vemos Kafka como se abrisse uma pequena janela da esperança. Esperança que se encontra no fato de que o verdadeiro sentido da vida humana é a luta. Kafka, que foi tão pouco combativo em vida, que não soube solucionar nenhum problema da sua existência: seja seu conflito com o pai, o matrimônio, uma vida unilateral de escritor, nada… em sua obra, segundo penso, nos diz que o único sentido que o homem pode dar à sua vida está na luta!

Na parte final da obra de Kafka a palavra luta aparece com muita freqüência: tanto nos seus diários como em todo o romance O Castelo. Luta para que o homem conserve a sua humanidade mesmo sob as mais difíceis condições, mesmo debaixo da pressão desumanizadora da civilização da máquina. Fato que representa ao mundo um apelo na obra de Kafka para que o homem seja imbuído do sentimento de responsabilidade pela sua vida e de seus semelhantes. Tudo isto, na minha opinião, é muito atual; válido ainda na nossa sociedade e continuará sendo por muito tempo, enquanto não finalizarmos a revolução socialista, enquanto não chegarmos ao objetivo almejado – a edificação da sociedade comunista.

Pergunta: Até que ponto a interpretação marxista da obra kafkiana, que vem sendo feita pelo senhor, Fischer, Garaudy e outros, tem contribuído para corrigir a falsa opinião generalizada de Kafka, tanto no Ocidente como no Oriente?

Goldstücker: A literatura sobre Kafka representa já hoje uma vasta biblioteca e constantemente aparecem novos livros, ensaios, tratados – novas interpretações de Kafka. Penso que a situação é tal que, enquanto as pesquisas kafkianas no Ocidente tem atrás de si pelo menos uma intensa tradição de um quarto de século, as buscas marxistas sobre Kafka apenas começam.

O problema, porém, é que a maioria preponderante das interpretações ocidentais de Kafka não leva em conta as circunstâncias histórico-sociais, sob as quais Kafka vivia e trabalhava. Interpreta a obra de Kafka isolada das situações sócio-históricas; transformando-a de algo bastante concreto num problema metafísico.

Eis a principal falta da interpretação kafkiana no Ocidente e o erro básico que deve ser corrigido. Quanto à atitude do que nós chamamos de Oriente para com Kafka, quer dizer, nos paises socialistas, foi, até faz pouco tempo, até o ano de 1962, em geral, uma atitude de considerar Kafka um escritor decadente. E, como a decadência era recusada, por conseguinte Kafka era recusado também e não lhe foi dedicada nenhuma atenção especial.

Felizmente, muita coisa já foi feita para corrigir esta falta e a nossa Conferência kafkiana representou um passo importante neste sentido.

É necessário ver Kafka com novos olhos, sem preconceitos do ponto de vista marxista; é necessário verificar o que da obra de Kafka teve uma importância apenas momentânea e o que é válido ainda hoje como parte viva de nossa herança cultural. Esta é a tarefa em que, atualmente, estão empenhados muitos ensaístas, críticos e pesquisadores marxistas.

Pergunta: É Kafka um autor realista?

Goldstücker: A questão do realismo em Kafka é mais complicada; Kafka pertence à geração que se formou no tempo em que desaparecia a era do liberalismo burguês, quando todas aquelas grandes ilusões da cognoscibilidade de todos os problemas, do constante progresso ininterrupto, do bem-estar de repente passaram a ser sentidas como falsas. Chegava o fim da era liberal e surgia o imperialismo que desejava abandonar toda a herança humanística da classe burguesa. Naquele tempo a jovem geração, isto é, a geração de Franz Kafka, sentiu de repente que todos os valores – os quais os seus pais desejavam entregá-los como patrimônio – deixaram de ser valores e não contribuíam para formar uma base existencial para a nova geração. Por isso esta geração sentia uma certa inimizade para com a opinião positivista, cuja essência da realidade pode ser vista pelos fenômenos superficiais; que basta constatar, colocar lado a lado os fenômenos superficiais da realidade e desta maneira já se conhece a sua essência. Ao contrário, os da geração de Kafka tinham a impressão de que nem a maior acumulação possível de detalhes da superfície é suficiente para descrever a verdadeira realidade do mundo e da vida.

Kafka é o escritor que neste sentido foi mais longe, de uma maneira mais radical – pelo menos aqui na Europa Central – porque ele se recusou a aceitar a realidade superficial em que vive o homem, preso à rede da moderna vida mecanizada do dia a dia. Ele a recusou como uma fachada irreal e falsa, atrás da qual encontra-se escondida a verdadeira realidade do mundo e da vida. Tinha a impressão que era necessário romper esta aparência e somente lá no fundo encontraria a face verdadeira da existência.

Por isso sua obra é como é. Quando Kafka chegava em casa, vindo do seu escritório, e sentava-se para escrever, quando fechava a porta, era como se eliminasse do seu quarto o mundo de cada dia, as experiências diárias – as quais ele considerava uma realidade falsa – e pela força de vontade e de sua imaginação criava um mundo no qual esperava encontrar a realidade verdadeira. Eis porque o seu mundo está subjugado a uma lógica diversa da que rege o universo das nossas experiências cotidianas; não se trata de uma lógica de sonhos, se não uma lógica – eu diria – de lucidez relaxada pelo cansaço demasiado; lucidez que temos, por exemplo, pouco antes de adormecermos; e assim ele esperava chegar até à realidade verdadeira. Em Kafka temos de distinguir duas facetas da realidade: uma falsa, tal como nos aparece na vida de cada dia e uma verdadeira pela qual é necessário ainda lutar.

Toda a arte de Kafka representa uma luta em busca da verdadeira realidade – luta que não foi acabada. E aí está porque ele mandou queimar depois da sua morte a maioria da sua obra, na qual sentia não ter conseguido o que desejava. Felizmente, sua intenção não foi realizada, falta-me tempo para tratar aqui deste assunto que está ligado com um problema muito importante da história da literatura em geral. Durante os últimos 150 a 170 anos sempre algumas camadas sociais que se encontravam no cume da sociedade, mediante as mudanças sociais e históricas, perderam a sua posição. De tais camadas surgem os artistas que possuem um sentimento de solidão e os quais, como se olhassem por debaixo das ruínas do seu mundo, vêem a sua época de uma maneira mais lúcida e em certos aspectos mais precisa do que os outros. Tal é o caso de alguns grandes fenômenos do romantismo europeu, tal é o caso por exemplo de Kleist na literatura alemã, tal é o caso de Baudelaire e de Kafka. Mas tudo aqui está esboçado de uma maneira breve, pois é um problema que ainda vai exigir uma elaboração mais detalhada.
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* Agradeço à Olga Ozaí da Silva por digitar o texto e apoiar este projeto.

Franz Kafka: a afirmação da liberdade

09/07/2007

Resenha:
Michael Löwy. Franz Kafka, sonhador insubmisso. Rio de Janeiro: Azougue Editorial, 2005 (208 p.)

Antonio Ozaí da Silva

para José Eduardo Izzo Junior

“Pode-se ainda dizer algo novo sobre Kafka?”, pergunta-se Michael Löwy. Ainda que a obra do escritor tcheco seja daquelas que produziram leituras interpretativas e exegéticas diversas, o autor de “Franz Kafka, sonhador insubmisso” aposta que sim. Mas é possível ser original e superar as leituras de cunho estritamente literário, biográfico, psicanalíticas, teológicas, judaizantes e sociopolíticas dos diversos comentadores e críticos literários que se debruçaram sobre a obra kafkiana? Löwy investe num olhar que procura captar o “fascinante poder de insubmissão” expresso na escrita de Franz Kafka (p. 07).

A leitura de Michael Löwy é marcada pela perspectiva antiautoritária do autor de O Processo. Essa é a chave da leitura que permite responder afirmativamente à questão colocada e, ao mesmo tempo, produz uma reflexão ímpar, que, situada no rol das interpretações sociopolítica, procura “articular os outros níveis, graças a um fio vermelho que permite ligar a revolta contra o pai, a religião da liberdade (de inspiração judaica ortodoxa) e o protesto (de inspiração libertária) contra o poder mortal dos aparelhos burocráticos: o antiautoritarismo” (p. 11).
A obra de Kafka, incorporada ao léxico de várias línguas através do termo kafkiano, expressa a crítica antiautoritária, vale frisar, a afirmação da liberdade, na medida em que seu significado é profundamente assimilado “pelos milhões de leitores modernos para os quais o nome de Kafka tornou-se sinônimo de inquietação, em face do sistema burocrático” opressor. “As cadeias da humanidade torturada são feitas de papel de escritório”, afirmou Kafka (págs. 13-14). Para Löwy, essa imagem kafkiana “sugere, ao mesmo tempo o caráter opressivo do sistema burocrático, que subjuga os indivíduos com seus documentos oficiais, e o caráter precário das cadeias, que facilmente poderiam ser rompidas se os homens quisessem libertar-se delas” (p. 15).

O olhar diferenciado de Michael Löwy lança luz sobre as potencialidades libertárias e insubmissas do autor de Praga. E, por outro lado, oferece ao leitor a possibilidade de realizar uma leitura política crítica. Mas não se trata de enquadrar ideologicamente a obra de Kafka e reduzi-la “a uma doutrina política, seja ela qual for”. Como esclarece Löwy: “Kafka não produz discursos, ele cria personagens e situações e exprime, em sua obra, sentimentos, atitudes, uma Stimmung. O mundo simbólico da literatura é irredutível ao mundo discursivo das ideologias; a obra literária não é um sistema conceitual abstrato, na trilha das doutrinas filosóficas e políticas, mas criação de um universo imaginário concreto, de personagens e coisas” (p. 19).

Eis a diferença fundamental entre literatura e textos de caráter político. Ainda que a obra literária tenha significado político, não se trata de política partidária ou adesão a uma ideologia específica. Neste caso, estaríamos diante de um panfleto. Isso não significa que o autor seja ideologicamente neutro, mas sim que o texto literário pertence a outro campo diverso da atividade humana, com características que lhes são próprias. Não obstante, isto não impede a leitura crítica da obra literária. Em relação a Franz Kafka, por exemplo, não impossibilita que se explore “as passagens, passarelas, os elos subterrâneos entre seu espírito antiautoritário, sua sensibilidade literária, suas simpatias socialistas, por um lado, e seus principais escritos, por outro” (id.).

O acesso à documentação sobre a vida e obra do autor, e o diálogo crítico e criterioso com os diversos intérpretes e comentadores, faz de Michael Löwy um leitor privilegiado da literatura kafkiana. Isto se evidencia no transcorrer do livro. O leitor não acostumado às querelas interpretativas pode até mesmo cansar-se diante das discussões e detalhes apresentados em certos trechos. Porém, o leitor interessado em compreender profundamente a obra kafkiana terá o seu esforço recompensado. O que parece bizantinismo em certos aspectos ganha importância na medida em que configura a riqueza da obra. Por outro lado, o diálogo de Löwy com as várias linhas interpretativas ilumina a sua argumentação e, conforme avançamos na leitura, delineia-se o perfil insubmisso de Franz Kafka.

Löwy analisa as inclinações socialistas de Kafka, um socialismo de verniz antiautoritário. Sua pesquisa se orienta nessa direção. Daí a referência ao anarquista russo Piotr Kropotkin. Ele se fundamenta em relatos contemporâneos e em determinados aspectos da obra kafkiana como América. Contudo, como nos alerta Löwy, não se trata de “demonstrar uma pretensa “influência” dos anarquistas de Praga – ou de Kropotkin – sobre seus escritos. Ao contrário, foi ele que, a partir de suas próprias experiências e de sua sensibilidade antiautoritária optou por freqüentar durante alguns anos, esses meios (e por ler alguns de seus textos). Com efeito, nada seria mais falso do que acreditar que ele tivesse desejado transcrever suas simpatias libertárias em sua obra literária” (p. 55).

É equívoco rotular a obra kafkiana de anarquista (ou outro ista qualquer). Mas é possível identificar o ethos libertário. Este “se exprime em diferentes situações que estão no centro dos seus principais textos literários, mas, antes de tudo, na maneira radicalmente crítica como é representado o semblante compulsivo e angustiante da não-liberdade: a autoridade”. O leitor que queira descobrir na obra kafkiana um livro que expresse diretamente a utopia libertária certamente se frustrará. Esta “não aparece como tal em lugar nenhum em seus romances e contos: ela existe somente em negativo, como crítica de um mundo totalmente desprovido de liberdade, submetido à lógica absurda e arbitrária de um “aparelho” todo-poderoso” (p. 56).

Löwy mostra que as experiências de vida do autor de Praga – a relação paterna, o emprego etc – reforçam a perspectiva antiautoritária. Esta não aparece enquanto doutrina política, mas na forma “de um estado de espírito e de uma sensibilidade crítica – cuja principal arma é a ironia, o humor” (p. 57). Se a sua obra expressa um dos aspectos fundamentais do pensamento anarquista, nem por isso é passível de defini-la enquanto tal. “Kafka estava longe de ser um “anarquista”, mas o antiautoritarismo – de origem romântica e libertária – atravessa o conjunto de sua obra romântica e libertária, num movimento de universalização e de abstração crescente do poder da autoridade paterna e pessoal até a autoridade administrativa e anônima” (p. 59), acentua Löwy.

Um dos elementos diferenciadores da análise de Michael Löwy é sua capacidade de universalizar a experiência para além das interpretações psicologizantes. A crítica à ditadura paterna constitui um dos fundamentos íntimos da perspectiva rebelde e insubmissa de Kafka. Ele se coloca do lado dos trabalhadores empregados do pai; fica do lado dos oprimidos. Por outro lado, como demonstra Löwy, o escritor tcheco nutre admiração especial por aqueles que se rebelam e lutam pela liberdade, com destaque para as figuras femininas.

A leitura do livro de Michael Löwy nos permite compreender a obra de Kafka. Sua análise revela o quanto o poder impessoal também pode ser tirânico e como este significado está presente nos livros e contos kafkianos. Em América, Na Colônia Penal, O Castelo, O Processo, etc., Kafka disseca e desvenda o poder em todas as suas manifestações. Simultaneamente, Löwy observa o quanto a obra de Kafka também está sujeita às interpretações conformistas ou mesmo aquelas que culpabilizam as vítimas do despotismo burocrático. É o caso de alguns intérpretes da obra O Processo. Löwy assinala que esse tipo de exegese tem em comum “o fato de neutralizarem ou apagarem a formidável dimensão crítica do romance, cujo tema central, como bem compreendeu Hannah Arendt, “é o funcionamento de uma hipócrita máquina burocrática na qual o herói foi inocentemente capturado” (p. 110).

Após apresentar e analisar as várias interpretações e se deter sobre a conclusão de O Processo, Löwy considera que esta “é ao mesmo tempo “pessimista” e resolutamente anticonformista. Ela exprime a sensibilidade do pária-rebelde em Kafka, que manifesta nessas páginas ao mesmo tempo a compaixão pela vítima e uma crítica da submissão voluntária. Podemos lê-las como um apelo à resistência” (págs. 126-127).

A obra de Kafka expressa uma theologia negativa, conforme notou Walter Benjamin. Michael Löwy resgata a correspondência entre Walter Benjamin e Gershom Scholem e concorda que este conceito “é efetivamente o único que pode dar conta de modo adequado do tipo muito particular de problemática religiosa presente nos romances de Kafka” (págs. 131-132). “Em outros termos”, afirma Löwy, “os escritos de Kafka descrevem um mundo entregue ao absurdo, à injustiça autoritária e à mentira, um mundo sem liberdade em que a redenção messiânica só se manifesta negativamente, por sua ausência radical” (p. 132). Configura-se, portanto, uma utopia negativa que tem afinidades eletivas com a teologia negativa. Um dos textos que melhor condensam esta “espiritualidade libertária” é a parábola “Diante da lei”. O significado deste texto é analisado por Löwy no capítulo com o sugestivo título “A religião da liberdade e a parábola “Diante da lei” (págs. 129-156).

A análise da obra O Castelo é atualíssima. A leitura nos propicia o entendimento de como o despotismo burocrático conta com a servidão voluntária para se legitimar. Com efeito, vivemos num mundo em que a acomodação e adaptação à ordem constituem comportamentos elogiáveis e aconselhados. Mesmo os que em tese deveriam nutrir posturas críticas diante da máquina burocrática se submetem efusivamente e aceitam as diretrizes emanadas dos órgãos superiores sem esboçar qualquer resistência. O comum é aceitar a autoridade burocrática como natural.

Löwy contextualiza os romances analisados. O Castelo está relacionado à conjuntura da vaga insurrecional que sacudiu a Europa nos anos 1818-1922. Isto explicaria porque, em sua avaliação, nesta obra a ênfase recai sobre a temática da resistência ao poder. Mas se trata da resistência individual. Nesta perspectiva, Löwy chama a atenção para um personagem em geral pouco observado. Trata-se de Amália, “uma dessas raras personagens nos romances de Kafka que encarnam, de modo irredutível, a recusa a obedecer, a insubmissão, em suma, a dignidade humana – pagando por isso um preço muito alto” (p. 185). Aqui, mais uma vez, nota-se a admiração de Kafka pelas mulheres que se rebelam contra o poder instituído.

Após discutir as interpretações sobre o “realismo” de Kafka, Michael Löwy finaliza este ensaio enfatizando “o poder de “iluminação profana” da obra kafkiana. A capacidade do autor de Praga em lançar luz sobre um mundo prisioneiro de “cadeias de papel de escritório”, um mundo despoticamente dominado por formas de poder impessoais e tiranias profeticamente apresentadas em textos como O Processo, “é, sem dúvida, uma das causas do seu extraordinário impacto sobre a cultura do século XX” (p. 201). Portanto, não é casual que o nome do autor tcheco tenha se tornado um adjetivo vinculado aos absurdos do nosso tempo. Como enfatiza Löwy: “Não é por acaso que o termo “kafkiano” entrou para a linguagem corrente: ele designa um aspecto da realidade que as ciências sociais tendem a ignorar e para o qual não têm qualquer conceito pertinente: a opressão e o absurdo da reificação burocrática tal como são vividos pelas pessoas comuns” (págs. 204-205). Não obstante, a obra de Kafka também expressa a possibilidade de resistir, de não se submeter. Para tanto, é preciso compreender os mecanismos que nos dominam e, como o autor, cultivar a insubmissão.

Para concluir, o livro de Michael Löwy também mostra o quanto determinados indivíduos influenciam as nossas vidas. No Post-Scriptum ele expõe em poucas linhas como chegou a esse tema e como suas pesquisas evoluíram durante anos até a publicação deste livro. Neste relato ele presta uma justa homenagem a Maurício Tragtenberg:

“Ouvi falar pela primeira vez de Kafka durante meus anos de ginásio no Brasil, numa conferência de Maurício Tragtenberg sobre “A burocracia em O Castelo de Kafka”.[1] Maurício era um jovem intelectual judeu-brasileiro, autodidata – mais tarde, faria uma carreira universitária – de sensibilidade marxista-libertária. Não me recordo dos detalhes da conferência, mas, em linhas gerais, ele sustentava que o romance de Kafka era uma das mais interessantes análises críticas da significação dos poderes burocráticos nas sociedades modernas. Meu livro deve muito a essa longínqua intervenção de meu amigo desaparecido, Maurício Tragtenberg” (p. 16).

Ainda bem que existem indivíduos e livros como esses. São palavras que permanecem e cativam as gerações. São exemplos de insubmissão. Os sonhadores utópicos e insubmissos resistem!

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Fonte: Revista Espaço Acadêmico, Ano VII, Nº 74, julho de 2007

[1] Em 1962, na Revista ALFA. Nº 1. Departamento de Letras da F.F.C.L. de Marília (SP), Maurício Tragtenberg publicou o texto “Franz Kafka – O Romancista do “Absurdo”, também disponível na Revista Espaço Acadêmico, nº 07, dezembro de 2001.

mais sobre Kafka

09/07/2007

Maurício Tragtenberg
Franz Kafka – O Romancista do “Absurdo”
Link: Revista Espaço Acadêmico, nº 07, dezembro de 2001.

J. Isaías Venera
Kafka e a vida como obra de arte
Link: http://devir.zip.net/arch2007-05-20_2007-05-26.html#2007_05-21_15_49_53-8760723-0