LÖWY E KAFKA

Leandro Konder

Michael Löwy e Franz Kafka. As afinidades são muito maiores do que se poderia imaginar. O ficcionista tcheco já havia morrido quando o crítico brasileiro nasceu. Lendo os comentários de Löwy sobre Kafka, entretanto, pode-se ter a impressão de que os dois se conheceram pessoalmente, que foram amigos.

Michael Löwy segue o conselho dado por Walter Benjamin aos leitores de Kafka: “É com prudência, com circunspecção, com desconfiança, que se deve avançar tateando, no interior de seus escritos”. Foi essa prudência, precisamente, que permitiu a Michael Löwy mergulhar fundo na obra do gênio, tornando-se íntimo dela, evitando, ao mesmo tempo, propor uma “nova chave” que abriria a porta para a compreensão do que seria o “verdadeiro Kafka”. Michael Löwy, brilhante crítico marxista, é também um ensaísta experiente, um cientista que respeita as demandas da metodologia mais adequada ao desafio que enfrenta, uma mente aberta e um espírito libertário, atento aos matizes do real, disposto a não deixar que um escritor tão complexo e tão sutil como Kafka seja sumariamente enquadrado em alguma classificação preconcebida.

Mas assim como não aceita classificações que deduzam Kafka a um “místico”, a um “caso psicanalítico”, a um “revolucionário” ou seja lá o que for, Michael Löwy também se insurge contra a subestimação de importantes aspectos da sua atitude existencial.

A documentação disponível – avaliada de maneira criteriosa, como faz Michael Löwy (que vale a pena lembrar, foi aluno de Antônio Cândido) – nos leva a reconhecer em Kafka um agudo rebelde que nunca se filiou a nenhum partido, porém simpatizava com o socialismo libertário.

Na vida como na obra de arte deste gênio da literatura, não são casuais as expressões do antiautoritarismo; a curiosidade que o levou a freqüentar, em silêncio, reuniões anarquistas; o antimilitarismo (como no conto Na Colônia Penal), o antiburocratismo ou anticlericalismo.

Este é um belo estudo, uma importante contribuição à remoção da venda ideológica que impede muitos (e bons!) leitores de enxergar a dimensão “formidavelmente crítica e subversiva da obra de Kafka”.

Fonte:
Michael Löwy. Franz Kafka, sonhador insubmisso.
Rio de Janeiro: Azougue Editorial, 2005
[Texto de orelhas]
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