Franz Kafka não pertence a nenhum ismo

Colóquio de Guido Araújo com Eduardo Goldstücker

[Revista Civilização Brasileira, Ano I, Nº 3, Julho de 1965. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, pp. 149-154 – Foto: Franz Kafka em companhia de sua noiva, Felícia]

A Eduard Goldstücker cabe o mérito de haver sido um dos idealizadores e principal organizador da Conferência de Líblice sobre Kafka (Liblice foi o castelo que serviu de tema para o célebre romance de Kafka), que constituiu o primeiro debate da obra kafkiana à luz do marxismo, em âmbito internacional.

Goldstücker realizou seus estudos de línguas latinas e germânicas na Universidade Carolina em Praga. Durante a guerra esteve na Inglaterra na qualidade de exilado político e tornou-se germanista pela Universidade de Oxford.

Em 1943, com a idade de 30 anos entrou para o serviço diplomático do governo tchecoslovaco do Presidente Benes. Serviu como diplomata em paris, Londres e Tel-Aviv até 1951, quando foi preso. Envolvido nos processos stalinistas dos primeiros anos da década de 50, que tiveram lugar na Tchecoslováquia, foi condenado em 1953 à prisão perpétua. Reabilitado em 1955 entrava no ano seguinte para a Faculdade de Filosofia de Praga como germanista, onde se encontra até hoje à frente da cátedra de línguas germânicas.

A partir de 1944 o professor Eduard Goldstücker vem publicando uma série de estudos sobre a literatura alemã. Foi ele o editor tcheco das Obras Escolhidas de Goethe e nos últimos anos dedica-se à pesquisa da literatura praguense em língua alemã, que possui grandes escritores como Rilke, Kafka, Brod, etc.

Além de valiosa contribuição à análise marxista da obra de Kafka – feita por ocasião da Conferência de Liblice – Goldstücker lançou no princípio deste ano um ensaio intitulado Sobre o Tema Franz Kafka (Na Tèma Franz Kafka) e no momento prepara uma monografia de Kafka, que trará contribuições novas para aclarar o problema das relações do autor de O Processo com a poetisa tcheca Milena Jasenská.

Pergunta: Em julho de 1962, no Congresso Mundial da Paz, em Moscou, Jean-Paul Sartre apelou para a desmilitarização de Kafka. Perguntaria se este apelo continua válido e qual a contribuição que ele trouxe para uma visão nova de Kafka na análise científica?

Goldstücker: Sartre, naquela ocasião, apelou sobretudo aos países socialistas para que não recusassem a herança da obra kafkiana porque – segundo sua maneira de ver – é possível muito bem integrar Kafka na cultura socialista, mas, na luta ideológica entre os mundos capitalista e socialista, se faz necessário que Kafka seja desmilitarizado. Penso que é uma exigência correta, porém devemos entender esta desmilitarização de um modo mais amplo do que imaginava Sartre.

Nos anos da guerra fria formou-se no mundo ocidental a idéia de que Kafka representa o aliado do Ocidente contra os países socialistas, e como tal o usavam. De qualquer maneira apoderaram-se dele. Tenho plena convicção de que a posse de Kafka pelos propagandistas ocidentais da guerra fria é completamente errada. Entretanto, apesar de ser contrária ao espírito da obra de Kafka, ela sobrevive até hoje. Por exemplo, através da própria experiência, sei que muitos órgãos de imprensa no ocidente interessam-se por Kafka, enquanto o podem aproveitar contra nós. Quando passamos a apreciar a obra kafkiana e sua importância do ponto de vista marxista, então esses mesmo órgãos de imprensa perdem o interesse por Kafka e passam a nos acusar de havê-lo roubado; como se Kafka lhes pertencesse, o que é naturalmente um absurdo!

Por outro lado, é óbvio que ninguém bem intencionado com o marxismo e a literatura chegaria à idéia de apresentar Kafka como algum socialista.

O problema de Kafka é precisamente o de não ser possível reclama-lo para nenhum ismo, nem político, nem filosófico, nem religioso. Sobre Erasmo de Roterdam se dizia que era “homo per se” – homem para si – que não pertencia a nenhum campo. Kafka, penso, é tal homem em nosso século. Kafka não podia e nem era capaz de inclinar-se para nenhuma opinião existente. Não pode plenamente aceitar nenhuma solução da problemática vital que lhe oferecia o seu tempo. Pesquisou todas elas, interessava-se por cada uma, mas não aceitou nenhuma, porque tinha a impressão de que em cada uma delas estava escondida alguma ilusão – e ele não queria acreditar nas ilusões; e, se aceitasse qualquer das soluções existentes da problemática vital, teria de fazer um compromisso. E ele não estava disposto e não era capaz nem de fazer compromissos, nem de acreditar nas ilusões.

Por isso, a demanda da desmilitarização de Kafka me parece um problema de minuciosa análise científica da obra de Kafka, para indicar até onde e em que sentido sua obra pertence à cultura mundial; a qual é, apesar da divisão do mundo, afinal, uma só.

– Aqui cabe a pergunta: até que ponto e se em geral Kafka é atual na sociedade que constrói o socialismo? Numa sociedade que é muito diferente daquela em que vivia e criava Franz Kafka.

Goldstücker: Esta pergunta representou o objeto da discussão na nossa Conferência sobre a vida e obra de Franz Kafka, que teve lugar em fins de maio de 1963, no Castelo de Liblice, perto de Praga.

Acho que Kafka é atual também na nossa sociedade, isto é, na sociedade em que a classe operária conquistou o poder. A revolução socialista ainda não culminou na nova sociedade e esta traz consigo muitas heranças da sociedade e que Kafka viveu e sentia como um grande obstáculo para a vida humana.

Pergunta: Que é a atualidade de Kafka?

Goldstücker: Segundo penso, a atualidade de Kafka encontra-se, sobretudo, no fato – que já tive oportunidade de mencionar de passagem – de que Kafka esforçava-se por ver o mundo e a vida sem ilusões. E nós precisamos de tal visão! Nós, que nos deixamos levar na vida pelas ilusões, que fomos, em freqüência, superficial e ingenuamente otimistas, necessitamos uma visão clara, sem compromisso e sem ilusões, da nossa vida e do nosso mundo. A obra de Kafka nos conduz a isso.

Tal pergunta é importante porque toda a vida moderna da época industrial nos encaminha ao perigo de uma desumanização. Precisamos, de algum modo, nos defender contra a pressão desumanizadora da civilização da máquina. Kafka mesmo a sentia em si de uma maneira muito aguda. Daí as suas imagens de uma vida desumanizada, mecânica e absurda.

Mas, apesar de que ele sozinho não haja encontrado a solução para a sua problemática, não foi subjugado pelo niilismo e cinismo, do qual nos tenta convencer essa pressão desumanizadora. Na última etapa do seu combate, vemos Kafka como se abrisse uma pequena janela da esperança. Esperança que se encontra no fato de que o verdadeiro sentido da vida humana é a luta. Kafka, que foi tão pouco combativo em vida, que não soube solucionar nenhum problema da sua existência: seja seu conflito com o pai, o matrimônio, uma vida unilateral de escritor, nada… em sua obra, segundo penso, nos diz que o único sentido que o homem pode dar à sua vida está na luta!

Na parte final da obra de Kafka a palavra luta aparece com muita freqüência: tanto nos seus diários como em todo o romance O Castelo. Luta para que o homem conserve a sua humanidade mesmo sob as mais difíceis condições, mesmo debaixo da pressão desumanizadora da civilização da máquina. Fato que representa ao mundo um apelo na obra de Kafka para que o homem seja imbuído do sentimento de responsabilidade pela sua vida e de seus semelhantes. Tudo isto, na minha opinião, é muito atual; válido ainda na nossa sociedade e continuará sendo por muito tempo, enquanto não finalizarmos a revolução socialista, enquanto não chegarmos ao objetivo almejado – a edificação da sociedade comunista.

Pergunta: Até que ponto a interpretação marxista da obra kafkiana, que vem sendo feita pelo senhor, Fischer, Garaudy e outros, tem contribuído para corrigir a falsa opinião generalizada de Kafka, tanto no Ocidente como no Oriente?

Goldstücker: A literatura sobre Kafka representa já hoje uma vasta biblioteca e constantemente aparecem novos livros, ensaios, tratados – novas interpretações de Kafka. Penso que a situação é tal que, enquanto as pesquisas kafkianas no Ocidente tem atrás de si pelo menos uma intensa tradição de um quarto de século, as buscas marxistas sobre Kafka apenas começam.

O problema, porém, é que a maioria preponderante das interpretações ocidentais de Kafka não leva em conta as circunstâncias histórico-sociais, sob as quais Kafka vivia e trabalhava. Interpreta a obra de Kafka isolada das situações sócio-históricas; transformando-a de algo bastante concreto num problema metafísico.

Eis a principal falta da interpretação kafkiana no Ocidente e o erro básico que deve ser corrigido. Quanto à atitude do que nós chamamos de Oriente para com Kafka, quer dizer, nos paises socialistas, foi, até faz pouco tempo, até o ano de 1962, em geral, uma atitude de considerar Kafka um escritor decadente. E, como a decadência era recusada, por conseguinte Kafka era recusado também e não lhe foi dedicada nenhuma atenção especial.

Felizmente, muita coisa já foi feita para corrigir esta falta e a nossa Conferência kafkiana representou um passo importante neste sentido.

É necessário ver Kafka com novos olhos, sem preconceitos do ponto de vista marxista; é necessário verificar o que da obra de Kafka teve uma importância apenas momentânea e o que é válido ainda hoje como parte viva de nossa herança cultural. Esta é a tarefa em que, atualmente, estão empenhados muitos ensaístas, críticos e pesquisadores marxistas.

Pergunta: É Kafka um autor realista?

Goldstücker: A questão do realismo em Kafka é mais complicada; Kafka pertence à geração que se formou no tempo em que desaparecia a era do liberalismo burguês, quando todas aquelas grandes ilusões da cognoscibilidade de todos os problemas, do constante progresso ininterrupto, do bem-estar de repente passaram a ser sentidas como falsas. Chegava o fim da era liberal e surgia o imperialismo que desejava abandonar toda a herança humanística da classe burguesa. Naquele tempo a jovem geração, isto é, a geração de Franz Kafka, sentiu de repente que todos os valores – os quais os seus pais desejavam entregá-los como patrimônio – deixaram de ser valores e não contribuíam para formar uma base existencial para a nova geração. Por isso esta geração sentia uma certa inimizade para com a opinião positivista, cuja essência da realidade pode ser vista pelos fenômenos superficiais; que basta constatar, colocar lado a lado os fenômenos superficiais da realidade e desta maneira já se conhece a sua essência. Ao contrário, os da geração de Kafka tinham a impressão de que nem a maior acumulação possível de detalhes da superfície é suficiente para descrever a verdadeira realidade do mundo e da vida.

Kafka é o escritor que neste sentido foi mais longe, de uma maneira mais radical – pelo menos aqui na Europa Central – porque ele se recusou a aceitar a realidade superficial em que vive o homem, preso à rede da moderna vida mecanizada do dia a dia. Ele a recusou como uma fachada irreal e falsa, atrás da qual encontra-se escondida a verdadeira realidade do mundo e da vida. Tinha a impressão que era necessário romper esta aparência e somente lá no fundo encontraria a face verdadeira da existência.

Por isso sua obra é como é. Quando Kafka chegava em casa, vindo do seu escritório, e sentava-se para escrever, quando fechava a porta, era como se eliminasse do seu quarto o mundo de cada dia, as experiências diárias – as quais ele considerava uma realidade falsa – e pela força de vontade e de sua imaginação criava um mundo no qual esperava encontrar a realidade verdadeira. Eis porque o seu mundo está subjugado a uma lógica diversa da que rege o universo das nossas experiências cotidianas; não se trata de uma lógica de sonhos, se não uma lógica – eu diria – de lucidez relaxada pelo cansaço demasiado; lucidez que temos, por exemplo, pouco antes de adormecermos; e assim ele esperava chegar até à realidade verdadeira. Em Kafka temos de distinguir duas facetas da realidade: uma falsa, tal como nos aparece na vida de cada dia e uma verdadeira pela qual é necessário ainda lutar.

Toda a arte de Kafka representa uma luta em busca da verdadeira realidade – luta que não foi acabada. E aí está porque ele mandou queimar depois da sua morte a maioria da sua obra, na qual sentia não ter conseguido o que desejava. Felizmente, sua intenção não foi realizada, falta-me tempo para tratar aqui deste assunto que está ligado com um problema muito importante da história da literatura em geral. Durante os últimos 150 a 170 anos sempre algumas camadas sociais que se encontravam no cume da sociedade, mediante as mudanças sociais e históricas, perderam a sua posição. De tais camadas surgem os artistas que possuem um sentimento de solidão e os quais, como se olhassem por debaixo das ruínas do seu mundo, vêem a sua época de uma maneira mais lúcida e em certos aspectos mais precisa do que os outros. Tal é o caso de alguns grandes fenômenos do romantismo europeu, tal é o caso por exemplo de Kleist na literatura alemã, tal é o caso de Baudelaire e de Kafka. Mas tudo aqui está esboçado de uma maneira breve, pois é um problema que ainda vai exigir uma elaboração mais detalhada.
______________
* Agradeço à Olga Ozaí da Silva por digitar o texto e apoiar este projeto.

Anúncios

3 Respostas to “Franz Kafka não pertence a nenhum ismo”

  1. Marta Bellini Says:

    Bom este texto! Gostei mesmo!

  2. li Says:

    Às vezes me permito trancar a porta do meu apartamento e esquecer tudo que acontece lá fora!Parabéns pelo blogLilubia

  3. li Says:

    Fiquei mais intressada no assunto.Muito bomLilubia

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: