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Urariano Mota. Os Corações Futuristas. Recife: Bagaço, 1999 (276p.)

A crueza assumida em Urariano Mota
por Alberto da Cunha Melo

Quando a ditadura militar se instalou no Brasil, em 1964, eu tinha 22 anos. Ou seja, apenas uns dois ou três anos mais velho do que os anti-heróis de Os Corações Futuristas, romance de Urariano Mota. Como eles, cheio de ingenuidade e de sonhos, andei de empresa em empresa atrás de emprego e, por sugestão de um amigo, que conhecia minha militância na política estudantil secundarista, levava no bolso uma carta de seu pai, negociante, atestando ser eu um “rapaz de formação católica”.

Pernambuco, ao lado do Rio, São Paulo e Minas Gerais, foi um dos Estados em que a repressão bateu mais forte. Afinal, aqui era a terra das Ligas Camponesas de Francisco Julião e da saga heróica de Gregório Bezerra, ambos brutalmente torturados em dependências militares. É nesse clima de terror estatal, durante quatro anos, de 1969 a 1973,que se desenrolam as desventuras, fraquezas e martírios dos personagens da ficção de Urariano Mota, estranhamente a primeira obra literária de fôlego, escrita em Pernambuco, sobre aquele vergonhoso período.

É um romance assumidamente realista e linear, de linguagem descascada, sem qualquer prurido experimental, sem qualquer concessão ao diálogo bem comportado, às etiquetas. A pobreza que sonha é a mais desgraçada das pobrezas. Tendo como único luxo o sonho, a juventude retratada por Urariano Mota pisa descalça no asfalto ardente de uma realidade que, sequer, podem ajudar a mudar. O sentimento de impotência, que se materializa ou, dito de outra maneira, se somatiza no personagem Carlos, faz contraponto com o sentimento de abandono espiritual personificado pelo doce e sério João. Todo esse quadro é apenas o fragmento de um painel que revela a devastação invisível que a ordem pervertida das tiranias vai espalhando por toda parte. Uma geração inteira teve seu destino interrompido, sem esquecer que parte dela o teve corrompido, numa espécie de subterrânea execução em massa de potenciais lideranças comprometidas, realmente, com os destinos da população brasileira.

Os Corações Futuristas é um panorama dessa devastação, vista através da ótica de uma juventude silenciada. Devastação hoje esquecida ou subestimada, porque todos os que foram responsáveis por ela se auto-indultaram, se auto-anistiaram e continuam no poder, mais ricos e poderosos do que nunca. A crueldade impune continua a chocar suas sementes daninhas, sob as camadas de um esquecimento que o romance de Urariano, com toda a sua crueza, tão bem consegue desenterrar.
[Texto da orelha do livro]

Sobre o autor:

Graduado em jornalismo. Bancário. Contos publicados na década de 70 nos jornais Movimento, Opinião, Tribuna da Imprensa, e revista Ficção (número especial de humor). Livro (“Arremedo de Vôo”) premiado na UBE, no Rio de Janeiro. Peça de teatro (“O Farol da Província”) vencedora do Concurso Universitário de Peças Teatrais, do Serviço Nacional de Teatro, para a região Nordeste, Na ocasião, antes de receber o prêmio, confessou estar fora da universidade. E por assim declarar, declararam-no fora também do prêmio. Depois, não sabe se por consolo, ganhou menção honrosa no Concurso Nacional de Teatro de Bonecos, do mesmo SNT. Em meses mais recentes tem publicado crônicas e artigos no Diário de Pernambuco, na página de opinião.

Sobre a obra de Urariano Mota

Entrevista publicada no La Insígnia: http://www.lainsignia.org/2006/marzo/cul_024.htm

Crítica de Nei Duclós, publicada no jornal Rascunho: http://www.lainsignia.org/2005/mayo/cul_035.htm

Fernando Soares, em Novae: http://www.novae.inf.br/site/modules.php?name=Conteudo&pid=657

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