Archive for agosto \18\UTC 2007

Carlos Drummond de Andrade

18/08/2007

Eu Etiqueta

Em minha calça está grudado um nome
Que não é meu de batismo ou de cartório
Um nome… estranho.
Meu blusão traz lembrete de bebida
Que jamais pus na boca, nessa vida,
Em minha camiseta, a marca de cigarro
Que não fumo, até hoje não fumei.
Minhas meias falam de produtos
Que nunca experimentei
Mas são comunicados a meus pés.
Meu tênis é proclama colorido
De alguma coisa não provada
Por este provador de longa idade.
Meu lenço, meu relógio, meu chaveiro,
Minha gravata e cinto e escova e pente,
Meu copo, minha xícara,
Minha toalha de banho e sabonete,
Meu isso, meu aquilo.
Desde a cabeça ao bico dos sapatos,
São mensagens,
Letras falantes,
Gritos visuais,
Ordens de uso, abuso, reincidências.
Costume, hábito, permência,
Indispensabilidade,
E fazem de mim homem-anúncio itinerante,
Escravo da matéria anunciada.

Estou, estou na moda.
É duro andar na moda, ainda que a moda
Seja negar minha identidade,
Trocá-la por mil, açambarcando
Todas as marcas registradas,
Todos os logotipos do mercado.
Com que inocência demito-me de ser
Eu que antes era e me sabia
Tão diverso de outros, tão mim mesmo,
Ser pensante sentinte e solitário
Com outros seres diversos e conscientes
De sua humana, invencível condição.
Agora sou anúncio
Ora vulgar ora bizarro.
Em língua nacional ou em qualquer língua
(Qualquer principalmente.)
E nisto me comparo, tiro glória
De minha anulação.
Não sou – vê lá – anúncio contratado.
Eu é que mimosamente pago
Para anunciar, para vender
Em bares festas praias pérgulas piscinas,
E bem à vista exibo esta etiqueta
Global no corpo que desiste
De ser veste e sandália de uma essência
Tão viva, independente,
Que moda ou suborno algum a compromete.

Onde terei jogado fora
Meu gosto e capacidade de escolher,
Minhas idiossincrasias tão pessoais,
Tão minhas que no rosto se espelhavam
E cada gesto, cada olhar
Cada vinco da roupa
Sou gravado de forma universal,
Saio da estamparia, não de casa,
Da vitrine me tiram, recolocam,
Objeto pulsante mas objeto
Que se oferece como signo dos outros
Objetos estáticos, tarifados.
Por me ostentar assim, tão orgulhoso
De ser não eu, mas artigo industrial,
Peço que meu nome retifiquem.
Já não me convém o título de homem.
Meu nome novo é Coisa. Eu sou a Coisa, coisamente..

Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago

13/08/2007
I

“Estou cego”, afirma desesperadamente o motorista paralisado em frente ao semáforo (p. 12).* Mas o que ele “vê”, se assim se pode afirmar, não é a treva, mas uma brancura infinita. “Sim, entrou-me um mar de leite”, diz o cego (p. 14). É uma cegueira incompreensível, repentina e sem explicações. Os que vêem não podem acreditar que o cego assim se encontra. Mesmo o médico, especialista nas coisas da visão humana, não descobre a causa da doença. “Os olhos do homem parece sãos, a íris apresenta-se nítida, luminosa, a esclerótica branca, compacta como porcelana” (p. 12).

A cegueira branca é uma alegoria sobre a falta de visão social e política diante da realidade que nos circunda. Os indivíduos, alienados, encontram-se apartados do mundo, imersos na ideologia individualista e consumista. Eles vivem fora da realidade, ainda que tenham olhos não a reparam. Tudo lhes parece natural. Se a satisfação hedonista alimenta a “cegueira”, é o medo da perda e da impossibilidade de saciar-se e manter-se em “segurança” que os tornam cegos. Diante da insegurança e das incertezas, cegam-se. Talvez nos encontremos no estado de cegueira, ainda que nossos olhos vejam. “O medo cega, disse a rapariga dos óculos escuros, São palavras certas, já éramos cegos no momento em que cegamos, o medo nos cegou, o medo nos fará continuar cegos” (p. 131).

Se o medo caminha de par com a insegurança, ele também é irmão da necessidade. Os homens e mulheres estão dispostos a ceder devido ao medo, mas também porque precisam de segurança. O domínio não se explica apenas pela capacidade de coerção, mas também pela inculcação do medo. E é sob o medo e a necessidade que os cegos internados se submetem ao grupo que passa a controlar a comida. Este funciona como o governo que impõe a ordem. Os homens e mulheres parecem incapazes, por seu egoísmo e instinto de sobrevivência, de governarem-se. Eles precisam passar pelo aprendizado da solidariedade e autonomia. Mas a situação miserável em que se encontram, sob todos os aspectos, dificulta o autogoverno e parece mais fácil, e mais prudente, submeter-se. Isto ocorre devido ao estado deplorável dos cegos. Na vida real, mesmo em situações de normalidade democrática o medo é utilizado como instrumento de persuasão.

Os que conseguem manter uma certa civilidade também se mostram apegados ao governo hierárquico, buscam a autoridade que possa ordenar o caótico em que vivem. E esta se vincula ao prestígio alcançado na sociedade. É irônico que os cegos tenham no médico de olhos a possível autoridade. “O melhor seria que o senhor doutor ficasse de responsável, sempre é médico, Um médico para que serve, sem olhos nem remédio. A mulher do médico sorriu, Acho que deves aceitar, se os mais estiverem de acordo, claro está” (p. 53).

Esta mulher é a única que vê, e isto a fará sofrer com ainda maior intensidade. Só ela verá a que ponto chegamos quando nos faltam as condições para a segurança. É como se, diante dela, estivessem nus, em todos os sentidos, e a ela fosse possível ver a essência, o que realmente somos. A mulher é a que sofre porque tem a sabedoria. O conhecimento, a consciência do real, gera sofrimento. Os que sabem estão condenados a sofrer.

Será possível a autoridade numa situação de desespero, quando a existência humana está sob xeque e a espécie é reduzida à luta pela sobrevivência? Não seria o reino da necessidade o salve-se quem puder, a guerra de todos contra todos, o homem lobo do homem?

II

No início são apenas seis cegos internados; serão dezenas em alguns dias e não se entendem. Os homens submetem as mulheres à violência animalesca dos que controlam a comida e aceitam tudo para se manterem vivos. Elas se dispõem a se sacrificar e enfrentam o moralismo inútil dos homens. No entanto, é possível vislumbrar a esperança de que os homens e mulheres cooperem, se solidarizem e, inclusive, sejam capazes de combater o medo e resistir à opressão.

Mesmo quando são isolados, os cegos parecem preferir a prisão à liberdade – desde que tenham a “segurança” de que continuarão a viver. “Bem vistas as coisas, nem se está mal de todo. Desde que a comida não venha a faltar, sem ela é que não se pode viver, é como estar num hotel. Ao contrário, que calvário seria o de um cego lá fora, na cidade, sim, que calvário” (p. 109). Nesta altura ainda há a perspectiva de que a cegueira não se generalizará, ou seja, há a ilusão de que o governo cuida deles. E se os governantes e todos os que sustentam o aparato administrativo burocrático cegarem? Metaforicamente temos aqui a expressão da dependência dos governados, sem que lhes passe pela cabeça de que eles podem governar-se. E terão que o fazer quando a situação exigir.

Mas primeiro terão que enfrentar o medo. E não é mero acaso que a única que vê, a mulher do médico, será a primeira a mostrar o caminho. A força se enfrenta com a força, só esta é capaz de derrubar o despotismo. Os que dominam pelo medo precisam experimentar do próprio veneno. É preciso que não se sintam tão seguros de que seus meios permanecem eficazes para manter o domínio. É necessário que tenham dúvidas, insegurança e medo. A violência não se aplaca com belas palavras e com a moral da paz dos cemitérios e dos conformistas. A mulher do médico mata o cego ditador com a sua tesoura. Ela sabe que era necessário e que alguém precisava fazê-lo. Eis o preço da liberdade!

É interessante o discurso governamental para justificar o enclausuramento:

“O Governo lamenta ter sido forçado a exercer energicamente o que considera ser seu direito e dever, proteger por todos os meios as populações na crise que estamos a atravessar, quando parece verificar-se algo de semelhante a um surto epidémico de cegueira, provisoriamente designado por mal-branco, e desejaria poder contar com o civismo e a colaboração de todos os cidadãos para estancar a propagação do contágio, supondo que de contágio se trata, supondo que não estamos perante uma série de coincidências por enquanto inexplicáveis. A decisão de reunir num mesmo local as pessoas afetadas, e, em local próximo, mas separado, as que com ela tiveram algum tipo de contacto, não foi tomada sem séria ponderação. O Governo está perfeitamente consciente das suas responsabilidades e espera que aqueles a quem esta mensagem se dirige assumam, como cumpridores cidadãos que devem de ser, as responsabilidades que lhes competem, pensando também que o isolamento em que agora se encontram representará, acima de quaisquer outras considerações, um ato de solidariedade para com o resto da comunidade nacional” (p. 194).

A mensagem do governo é repetida cotidianamente pelo alto-falante. Os cegos logo perceberão que foram abandonados à própria sorte. As promessas se revelam falsas. A comida se torna escassa e, por fim, não será mais entregue. Há mesmo, entre as autoridades, quem considere a perspectiva de que os cegos matem uns aos outros. Não seria esta uma cura eficaz?! Suposições e pedidos de obediência em nome da segurança geral e da nação! E os governados consentem. Eles precisam crer que há alguém que cuida deles, que existe uma “autoridade” capaz de impor a ordem ao caos.

III

Em meio ao desespero a mulher do médico representa a esperança. Ela conclui “que não tinha qualquer sentido, se o havia tido alguma vez, continuar com o fingimento de ser cega, está visto que aqui já ninguém se pode salvar, a cegueira também é isto, viver num mundo onde se tenha acabado a esperança” (p. 204). Ela reconhece que é preciso resistir. A visão também tem o sentido de acreditar que a realidade pode ser transformada. Os que vêem têm a responsabilidade de contribuir para, no mínimo, acalentar os que não vêem e tentar mostrar o caminho e lhes abrir os olhos. “A responsabilidade de ter olhos quando os outros os perderam” (p. 241) pode ser motivo de maior sofrimento, mas também expressa a possibilidade de que este cesse.

O fato de ver o grau de miserabilidade humana também nos torna capazes de reconhecer as fraquezas humanas e a sermos modestos. Os próprios cegos, ao vivenciarem as agruras decorrentes da cegueira, de terem que se virar, até do ponto de vista da higiene pessoal, passam a se conceber e aos demais de maneira mais humana, pois “quando a aflição aperta, quando o corpo se nos demanda de dor e angústia, então é que se vê o animalzinho que somos” (p. 243). É curioso como algumas mentes elitistas esquecem destas fraquezas animais, de como nosso organismo biológico não nos torna diferentes das espécies que se alimentam e defecam.

A mulher do médico representa a luz dos que não vêem. Não se trata do sonho vanguardista que alimenta o pesadelo de que precisamos de uma autoridade que nos ordene e a quem devamos obedecer, mas que cuidará da nossa segurança. Os cegos libertam-se do manicômio, após o incêndio deste e, como o restante da população, precisam aprender a sobreviver. O grupo que está com a mulher que vê se mantém unido. Sabe que isto ampliará as suas chances. Mas será preciso que alguém mande? Quem será o líder. Ora, pelas circunstâncias está claro que o mérito acadêmico não é o melhor critério. A mulher do médico, e não ele, é quem ancora o grupo. Isto não significa que ela se impõe como mais capaz. “Tu não estás cega, disse a rapariga dos óculos escuros, por isso tens sido a que manda e organiza, Não mando, organizo o que posso, sou, unicamente, os olhos que vocês deixaram de ter, Uma espécie de chefe natural, um rei com olhos numa terra de cegos, disse o velho da venda preta. Se assim é, então deixem-se guiar pelos meus olhos enquanto eles durarem”, disse ela (p. 245). São olhos que servem. Muito diferente dos que mandam ou que acreditam que, por ter olhos, devem ter seguidores. Estes pressupõem que a luz sempre estará apenas com eles e que, ainda que alcance os demais, será mais intensa neles.

Como compreende a mulher do médico, o ver não a torna essencialmente melhor do que os demais. Apenas amplia a sua responsabilidade e o sofrer diante do horror que vê. “É que vocês não sabem, não o podem saber, o que é ter olhos num mundo de cegos, não sou rainha, não, sou simplesmente a que nasceu para ver o horror, vocês sentem-no, eu sinto-o e vejo-o”, disse (p. 262). A visão e o sentimento do horror pode nos fazer ver quem somos. Como fala a personagem dos óculos escuros: “Dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos” (Idem).

A leitura deste um livro ajuda a compreender melhor o que somos e o animalzinho que se esconde em nosso devaneio, egoísmo e vaidade. “É uma grande verdade a que diz que o pior cego foi aquele que não quis ver” (p. 283). Poucos vêem e muitos dos que vêem fecham os olhos e tentam apaziguar a sua consciência. Como escreve Saramago: “Por que foi que cegámos, Não sei, talvez um dia se chegue a conhecer a razão, Queres que te diga o que penso, Diz, Penso que não cegámos, penso que estamos cegos. Cegos que vêem, Cegos que, vendo, não vêem” (p. 310) E quando verem terão atingido a lucidez. Então, a cegueira mostrará a sua verdadeira face.

__________
* SARAMAGO, José. Ensaio sobre a cegueira. São Paulo: Companhia das Letras, 1995 (310p.)
* Publicado originalmente em http://antoniozai.blog.uol.com.br/, nos dias 17, 18 e 19 de janeiro de 2007.

O dilema do leitor

01/08/2007

In: KOESTLER, Arthur. O Iogue e o Comissário. São Paulo: Instituto Progresso Editorial, S. A., 1947, págs. 51-60 [Publicado pela primeira vez no Tribunbe (Londres), abril de 1944]

por Arthur Koestler

Caro Cabo Leff:

Recebi a sua carta alarmante, e farei o possível para respondê-la. Você escreve:

Tenho vinte e dois anos. Antes de ser convocado, fui técnico em rádio em L. escrevo-lhe para indagar qual o crítico que devo ler para ter um guia seguro na compra de livros. Posso somente comprar um livro por mês, e estou economizando 2 s. por semana para compra-lo. Leio o News Cronicle e às vezes consigo o Tribune ou o New Statesman. Porém na maioria das vêzes as críticas são um pouco intelectuais e elevedas demais para mim… Na minha unidade há pouco gente interessada em livros… Nosso acampamento encontra-se em local bastante isolado…

É possível que muita gente pense que qualificar sua carta de “alarmante” seja exagero. Não o creio. Não estou muito preocupado com a questão técnica em sua carta, mas sim com o apelo patético que leio nas entrelinhas. Como fui conferencista militar nos últimos três anos, encontrei-me com centenas de homens em sua condição e de seu tipo: o pensativo cabo do exército de recrutas. Digno de confiança e sério, você terá obtido sem grande dificuldades suas duas divisas, porém exceto a R.A.F., não chegará jamais à terceira. Enquanto leio sua carta, você começa a tomar forma para mim, apesar de nunca o haver visto. Imagino-o numa tarde de sábado, vasculhando a sombria biblioteca da Associação Cristã de Moços, ou pedindo à linfática jovem da barraca W.H. Smith uma edição Pingüim esgotada. Você sente-se vagamente atraído pelos movimentos de tendências socialistas e no entanto o simples nome do partido Trabalhista lhe sabe a cerveja azeda; você mantem mais ou menos em dia seu diário e planeja escrever um conto sôbre a vida do soldado no exército, para o Tribune ou o New Writing e, nas conferências que ouvir, fazer perguntas cuidadosamente preparadas sobre a linha Curzon e como reeducar os alemães. Há alguns anos você era assinante do Clube do livro da esquerda, porém desistiu por causa daquele mesmo gosto azedo na boca ou por causa do pacto Stálin-Hitler. Nas danças você escolhe uma jovem séria que entretanto é magra e anêmica e, em contradição com a lei da procura e oferta, é mais virtuosa que suas irmãs mais belas. Você vê seu futuro através de uma perspectiva bastante desagradável de classes e leituras noturnas, e um complicado plano de economia para uma visita de uma semana à França. Você não inveja os ricos, porém ressente-se amargamente da pobreza. “A luta de classe” é para você uma expressão abstrata, e “barricadas” um termo romântico associado à idéia de Paris e ao século passado. O denominador comum de seus pensamentos e emoções, é uma massa enorme, cinzenta, cheia de frustrações.

Mas voltaremos ao seu problema pessoal mais tarde; trataremos inicialmente de seu problema técnico. Há uma resposta curta para ele e outra longa. A curta é para a ficção: leia Betjeman no Herald; para a não-ficção, a página bibliográfica do Observer; e se quiser uma crítica mais minuciosa folheie o Listener. Seus julgamentos não são infalíveis, porém em geral seguros e independentes; são retos, nem jocosos nem aborrecidos; raramente deixam escapar um livro importante. E agora a explicação mais longa.

Antes de tudo, creio que a crítica neste país não é tão má em seu conjunto, comparada com a dos outros países. Na Rússia, por exemplo, a diretriz da literatura é decretada por porta-vozes do governo e os debates literários são cheios de acusações de “desvios contra-revolucionários”; fazer uma crítica desfavorável a Gide durante sua visita a Moscou, significaria “sabotar as relações culturais internacionais da U.R.S.S”; dar-lhe uma boa crítica depois de ele ter-se tornado um herege, teria sido igualmente perigoso para o crítico e o editor. Um importante burocrata literário em Moscou (J.R. Becher) disse-me de uma feita: “Nós fazemos as reputações dos escritores que julgamos aproveitáveis e destruímos os escritores que julgamos perniciosos; considerações estéticas são preconceitos pequeno-burgueses”.

Na Alemanha, é escusado dizer, as cousas são ainda piores. A crítica é sujeita a considerações raciais e partidárias; Heine, o judeu, Thomas Mann, o liberal, Silone, o socialista, são banidos por esses motivos, sem consideração pelo seu mérito literário.

Na França, a imprensa nunca levou a crítica dos livros muito a sério; os jornais ingleses devotaram aos livros apreço e cuidado consideravelmente maiores. A intriga e corrupção lá tomaram conta da política literária; os prêmios anuais (Goncourt, Femina, etc) eram troféus das lutas de “cliques”; o êxito de um livro dependia mais do esforço do editor (o que ás vezes, incluía o suborno da crítica) do que aqui. Lembro-me que quando meu primeiro livro foi publicado na França, meu editor, o falecido Albin Michel, fez-me passar um dia inteiro em seu escritório, assinando uns trezentos exemplares para serem mandados para críticos, editores e pessoas influentes e geral. Tinha ele uma longa lista escrita à máquina, da qual ditava as variáveis formas de dedicatória – hommage de l’auteur – hommage distingue – hommage très distingue – hammage distingue et respectueux – e não sei mais o quê, de acordo com a posição social do endereçado. Pelo menos isto é, graças a Deus, desconhecido aqui. Há, naturalmente, almoços de editores e críticos; há alguma propaganda que às vezes estende uma película discreta e calmante de óleo sobre as tempestuosas colunas dos livros; há entre autor e crítico a amizade pessoal e as “cliques”; porém tudo isto dentro de limites razoáveis, e a crítica na Inglaterra é no seu conjunto mais decente e honesta do que em qualquer parte da Europa (antes da guerra).

Entretanto, é este um mérito relativo. Passando em revista as colunas bibliográficas, especialmente aquelas que tratam de ficção, deduzi que sua queixa era justificada, que o efeito era mais de molde a confundir que ajudar, quando chegava a ocasião de resolver se valia a pena comprar o livro. A principal dificuldade reside, creio, em que a maioria dos críticos profissionais do romance perdeu a medida dos valores desde há alguns anos. Naturalmente, não se pode ter uma régua para medir o mérito literário, nem um termômetro para o calor emocional; entretanto espera-se que uma crítica tenha o senso da proporção com referência à importância da obra criticada. Tomemos como exemplo a coluna de Mr. Ralph Strauss no Sunday Times; no último número (abril 9. 1944) criticou eles três novelas; as linhas finais de cada crítica, terminavam respectivamente como segue:

“…companhia excelente e não há uma página aborrecida em seu livro”.
“…lê-se excepcionalmente bem e pode ser calorosamente recomendado”.
“…promissor e formoso. Um bom trabalho”.

Escolhendo ao acaso, outra semana (março, 19), há cinco críticas, que terminam por sua vez;

“…é um prazer ser-lhe apresentado (à autora)”.
“…segue um curso altamente pitoresco”.
“…uma história contada de maneira interessante e simpática”.
“…de leitura fácil e agradável”.
“…seu diálogo é fácil e natural”.

Pensei em seus dois “shillings” por semana, e meu coração encheu-se de consternação; como você pode saber como aplica-los, lendo estas eternas e idênticas prescrições produzidos pela máquina de fazer salsichas; uma sentença introdutória, a história relatada em três ou quatro, uma palavra de branda crítica e de louvor como os exemplos acima? A salsicha é enchida, selada com três asteriscos e segue-se outra. Suponhamos que entre os romances publicados esta semana, haja um chamado “Rosas de um jardim de Kent” por uma Miss Margery Edwardes, e outro chamado “Crime e castigo”. Cada um receberia mais ou menos vinte linhas, separados por asteriscos; aproximadamente assim:

…da bela paisagem de Kent. Seus caracteres são bem esboçados e a história, se bem que às vezes manquitolando, é contada graciosa e habilmente.

***

O Sr. Dostoievski, russo, não possui o humor delicado de Miss Edwardes. Um estudante, jovem e excitado, mata uma usuária a machado…efeito algo mórbido. Porém, os caracteres são bem esboçados, o diálogo é fluente e, no conjunto, a história é contada com habilidade e acerto.

Nessa escala, uma tonelada pesa tanto quanto uma onça; e apesar de admitir que Strauss é um exemplo estremo, esta falta de perspectiva e proporção constitui, em graus variáveis, a principal fraqueza das críticas bibliográficas nos jornais diários e dominicais. Examina-las uma por uma seria tedioso; portanto, voltemo-nos para a sua principal angústia, os semanários. Você acha que essas críticas são demasiado intelectuais e elevadas para você, é aí que seu problema pessoal se manifesta naquele sentimento de ressentimento e frustração que se revela nas entrelinhas de sua carta.

Creio que posso adivinhar o que você sente. Você começa a ler um artigo ansiosamente, digamos no New Statesman; suponhamos que escrito por Raimundo Mortimer ou Stonier; depois de algumas linhas você tropeça em uma alusão que não entende – uma referência a Proust, ou Kafka, ou Pèguy – autores que você nunca leu. Porém o autor do artigo supõe que todos leram, ou pelo menos deviam tê-los lido; e assim você começa a se sentir como um aluno que não aprendeu sua lição ou melhor como o conviva não convidado de uma festa; deixado de lado, humilhado, invejoso, melindrado. E aqui chegamos ao ponto crucial: estamos face a face com a parede, a trágica barreira que separa a “intelligentsia” progressista da classe operária educada.

Não sejamos hipócritas neste assunto. A parede já se acha, e quanto mais tentamos afasta-la por meio de explicações, mais batemos com a cabeça de encontro a ela. Por volta de 1930, intelectuais da Esquerda tentaram passar por proletários; foi uma farsa. Tentaram escrever “para as massas”; foi um malogro. Não adianta saltar o muro; nossa tarefa é derruba-lo. Isso é, porém, uma tarefa política, não literária. É, creio eu, a principal e derradeira tarefa do socialismo.

Toda esta conversa sobre os intelectualmente superiores e os outros é uma cortina de fumaça. Os fatos brutais são que os pais dos críticos puderam pagar durante dezesseis anos em média para que eles pudessem ler, aprender ociosamente, e afundar-se naquele alimento espiritual que você tanto deseja. Você pode freqüentar a escola durante mais ou menos nove anos – foi uma escola diferente e havia menos lazeres. Eis a barreira que se ergue entre você e ele e entre mim e você. Quando estamos um pouco tocados ou sentimentais, ou confraternizamos em uma simples reunião, a barreira parece desaparecer, porém quando voltamos cada qual à própria rotina, lá está ela novamente. Não adianta o fato de eu me sentir culpado em relação a você, nem você em relação à minha pessoa. Compartilho seu sentimento de frustração; desprezo a classe que é a causa disso; mas não espere que eu me reúna àqueles que brinca, de atacar os intelectuais. Destrua o intelectual e você ficará da mesma forma marcando passo (um passo de ganso) diante de outro intelectual. E’ uma diversão fascista; nós devemos atacar a barreira. Enquanto ela estiver de pé, a democracia será em engodo.

E agora voltando à sua pergunta. Quem disse a você que para divertir-se com leitura, deve tortura-se com essa mistificação da crítica bibliográfica? Parece-me uma aproximação totalmente falsa. Invertendo o provérbio, você obriga-se a comer as uvas porque elas têm gosto azedo. Meu conselho é: considere a leitura como um prazer, e não como uma tarefa a ser realizada rangendo os dentes.

Posso contar-lhe uma história? Vivi durante muito tempo na França, e gosto muito de vinho. Alguns amigos meus, escritores franceses, crescidos entre os vinhedos, eram dotados daquela admirável faculdade de dizer, depois de aspirar e tomar um gole, em qual distrito a uva havia crescido e o ano da colheita. Quando jantávamos juntos, eles tinham longas discussões sobre colheitas raras, das quais eu nunca ouvira falar. Sentia-me deslocado, humilhado, invejoso, ressentido. Aqueles sabidos, como você diria, eram demasiadamente sagazes para mim. Tentei imita-los em um esforço frenético – ranger os dentes e tomar o vinho. Mas não fui criado entre vinhedos; meus primeiros vinte anos decorreram em países onde pouco vinho é bebido. Uma noite, embebedei-me feliz e completamente, bebendo de tudo misturado. Desde então, bebo somente para meu próprio gozo. Posso distinguir um clarete de qualquer outro vinho, um vinho novo de um velho, um vinho bom de um mau, e isto é tudo o que necessito para alegrar-me com o bendito líquido.

Não me interprete mal. Reconheço que o gozo do conhecedor está em um plano mais elevado do que o meu; e o mesmo digo com referência à arte, música e livros também. Nosso desejo é que cada um tenha oportunidade de alcançar um plano mais elevado no terreno particular por ele escolhido; que cada um de nós cresça entre os vinhedos. Porém enquanto isso não se dá, podemos obter o melhor de nossas limitadas possibilidades em vez de obter o pior.

Leia por prazer, homem, e não se incomode com Pèguy e Finnegans Wake![1] Vá a biblioteca pública ou barraca de livros, abra um ao acaso, leia uma página, e verá se quer ler o livro ou não. Nunca se obrigue a ler um livro – é um esforço perdido. O bom livro será aquele que exigir de você exatamente a mesma quantidade de esforço que é necessário para desligar o rádio. Só leia livros de ficção se eles o atraem; todas as grandes obras de ficção, mesmo o Pilgrim’s Progress[2] são literatura atraente para certo tipo de leitores em certo período da vida. Se o livro certo cair em suas mãos no momento exato, você não conseguirá larga-lo. Em qualquer outro momento será desperdício para você. E o mesmo se dirá com referência a ensaios, história, filosofia. Se você não sente que o livro tem uma relação definida com seus próprios interesses pessoais, problemas e aborrecimentos, largue-o. porém nunca, nunca leia rangendo os dentes, só por ler. A que se destinam afinal de contas a literatura e a arte, se não para dar ao mundo sentimento e significação, para alargar e aprofundar a compreensão de nós mesmos e as cousas ao redor de nós? E isto está ao seu alcance.

E note bem, eu não prego a resignação. É seu direito e dever sentir-se frustrado e ressentido porém no plano político. Cuidado com o uso que faz de seu ressentimento – é o único capital histórico dos pobres; sem ele, viveriam ainda em servidão. Outros gostariam de desvia-lo para a luta contra a “intelligentsia”, a cultura, a arte; para fazer você cuspir naqueles valores de que eles o privam. É uma sutil manobra de diversão; os nazistas não foram os primeiros nem os últimos a ter êxito com ela. Não caia na armadilha. O que está contra V, não é o intelectual superior, porém o rico.
__________
[1] Última obre de James Joyce (N. do T.)
[2] Obra de John Bunyan 1628-1688 (N. do T.)