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Um diálogo sobre Caim e Abel, rejeição e culpa

24/11/2007

Em sua obra, A Leste do Éden, John Steinbeck, cita o trecho bíblico que se refere ao assassinato de Abel e faz com que as personagens dialoguem sobre o significado deste relato, extremamente marcante para a humanidade. Vale a pena acompanhar os argumento e, é claro, ler o livro na integra.

Eis o diálogo:

“Adam disse:

− Eu me lembro que fiquei um pouco indignado com Deus. Tanto Caim como Abel lhe deram o que tinham, mas Deus aceitou Abel e rejeitou Caim. Nunca imaginei que fosse uma coisa justa. E jamais compreendi. Vocês podem compreender?

− Talvez pensemos com base em experiências diferentes – disse Lee. – Lembro de que essa história foi escrita por e para um povo de pastores. Não eram lavradores. O deus dos pastores não acharia um cordeiro gordo mais valioso que um feixe de cevada? Um sacrifício deve ser feito com o melhor e o mais valioso.

− Tem razão, o argumento é procedente – disse Samuel. – Mas devo adverti-lo, Lee, a não expor seu raciocínio oriental à atenção de Liza.

Adam estava bastante excitado:

− Mas por que Deus condenou Caim? É uma injustiça.

− Há uma vantagem em se prestar atenção às palavras – comentou Samuel. – Deus não condenou Caim, absolutamente. Até Deus pode ter uma preferência, não é mesmo? Vamos supor que Deus gostasse mais de ovelha do que de vegetais. Acho que isso acontece comigo. Caim talvez tenha levado uma porção de cenouras. E Deus falou: “Não gosto disso. Tente de novo. Traga-me alguma coisa de eu goste e eu o porei junto a seu irmão”. Mas Caim ficou furioso, estava com os brios feridos. E quando os brios de um homem estão feridos, ele quer descarregar em alguma coisa. Acontece que Abel estava no caminho de sua ira.

− São Paulo disse aos hebreus que Abel tinha fé – disse Lee.

− Não há qualquer referência a isso no Gênesis – comentou Samuel. – Nenhuma ou pouca fé. Há apenas uma insinuação sobre a índole de Caim.

− O que a Ara. Hamilton pensa dos paradoxos da Bíblia? – indagou Lee.

− Ela não pensa nada, porque não admite que existam…

− Mas…

− Pergunte diretamente a ela. Tenho certeza de que sairá da conversa mais velho, mas não menos confuso.

Adam interveio:

− Vocês dois estudaram o assunto, mas eu me limitei a absorvê-lo e não ficou muita coisa. Caim foi depois expulso por assassinato?

− Isso mesmo, por assassinato.

− E Deus marcou-o?

− Não prestou atenção? Caim ostentava a marca não para destruí-lo, mas para salvá-lo. E havia uma maldição reservada a qualquer homem que o matasse. Era uma marca de preservação.

− Não consigo superar a impressão de que Caim levou a pior nessa história – murmurou Adam.

− É possível – disse Samuel. – Mas Caim viveu e teve filhos, enquanto Abel vive apenas na história. Nós somos os filhos de Caim. E não é estranho que três homens adultos, neste século, tantos milhares de anos depois estejam discutindo esse crime, como se tivesse ocorrido ontem em King City e ainda não tivesse sido levado a julgamento” (pp. 282-283).

Carregamos a culpa por algo que não fizemos. Mas todo o mistério talvez esteja na rejeição e no que esta desencadeia. Eis o argumento de Lee:

“ – Creio que se trata da história mais conhecida do mundo porque é a história de todos. Acho que é a história que simboliza a alma humana. Estou agora procurando meu caminho… não me pressionem se não for muito claro. O maior terror que uma criança pode ter é a possibilidade de não ser amada. A rejeição é o inferno que teme. Acho que todas as pessoas do mundo, em grau maior ou menos, já experimentaram a rejeição. E com a rejeição vem a ira, com a ira vem alguma espécie de crime em vingança, com o crime vem a culpa… e aí está a história da humanidade. Acho que se a rejeição pudesse ser eliminada, a humanidade não seria o que é. Poderia haver menos loucos. Tenho certeza de que não haveria tantas cadeias. Está tudo aí, o ponto de partida, o começo. Se uma criança vê recusado o amor por que anseia, chuta o gato e oculta a sua culpa secreta. Outra rouba para que o dinheiro a torne amada. Uma terceira conquista o mundo. E sempre se encontra a culpa, vingança e mãos culpa. O ser humano é o único animal culpado” (p. 284).

No segundo volume, o autor retoma a discussão sobre Abel e Caim. Ele insere, através do personagem Lee, a questão da tradução bíblica – o que pode interferir sobre a compreensão do significado do mito. Lee afirma que leu uma versão diferente, a do Rei James. Nesta, Jeová fala a Caim, quando este está furioso:

“Se procederes bem, não é certo que serás aceito? Se, todavia, procederes mal, eis que o pecado jaz à porta, teu desejo será contra ti, mas haverás de dominá-lo” (p. 14).

Lee chama a atenção para o “haverás”. Para ele, “era uma promessa de que Caim dominaria o pecado” (id.). Ele defende a tese que, na verdade, Jeová deixa em aberto, isto é, Caim tem a opção de trilhar um caminho ou outro. Diz Lee:

“A tradução do Rei James faz uma promessa em “Haverás”, indicando que os homens inevitavelmente triunfarão sobre o pecado. Mas a palavra hebraica é “Poderás”, o que representa uma opção. Pode ser a palavra mais importante do mundo. Mostra que o caminho está aberto. e se volta contra o homem. Pois se “Poderás”, também é verdade que “Não Poderás” (p. 16).

Isto parece uma discussão sem sentido, bizantina. Mas não é, pois se os homens e mulheres estão dispostos a tomar as palavras ao pé da letra, a interpretá-las e, em qualquer caso, morrer por elas, é melhor tentar esclarecê-las. Como nota Lee:

“Qualquer escrito que influenciou o pensamento e a vida de incontáveis pessoas é importante. Há milhões de pessoas em seitas e igreja que aceitam como ordem: “Cumpre a ti”. Com isso, recaem na obediência. Há outros milhões que sentem a predestinação em “Haverás”. Nada do que façam poderá interferir com o que serão. Mas “Poderás”! Ora, isso faz com que um homem seja grande, proporciona semelhança com os deuses, pois em sua fraqueza, corrupção e assassinato do irmão ele ainda tem a possibilidade da grande opção. Ele pode escolher seu curso, lutar até o fim e triunfar” (p. 16).

E você, caro leitor, o que pensa sobre este tema? Como avalia este diálogo? A conclusão é sua…

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Referência:

STEINBECK, J. A Leste do Éden. São Paulo: Abril Cultural, 1984 (Volumes I e II)

O Inferno – por Graciliano Ramos

14/11/2007

Graciliano Ramos, nasceu em Quebrângulo (AL), em 1892. É autor de Caetés (1925), seu primeiro romance; São Bernardo (1934) e Angústia (1936, ano em que foi preso pelo governo de Getúlio Vargas, sob a acusação de subversão). O escritor relatou essa experiência em Memórias do Cárcere (1953). O texto reproduzido abaixo faz parte do livro Infância (1945), no qual o autor narra episódios de sua vida. Graciliano Ramos faleceu em 1953.

O inferno

Às vezes minha mãe perdia as arestas e a dureza, animava-se, quase se embelezava. Catorze ou quinze anos mais moço que ela, habituei-me, nessas tréguas curtas e valiosas, a julgá-la criança, uma companheira de gênio variável, que era necessário tratar cautelosamente. Sucedia desprecatar-me e enfadá-la. Os catorze ou quinze anos surgiam entre nós, alargavam-se de chofre – e causavam-me desgosto.

Um dia, em maré de conversa, na prensa de farinha do copiar, minha mãe tentava compor frases no vocabulário obscuro dos folhetos, Eu me deixava embalar pela música. E de quando em quando aventurava perguntas que ficavam sem respostas e perturbavam a narradora.

Súbito ouvi uma palavra doméstica e veio-me a idéia de procurar a significação exata dela. Tratava-se do inferno. Minha mãe estragou a curiosidade: impossível um menino de seis anos, em idade de entrar na escola, ignorar aquilo. Realmente eu possuía noções. O inferno era um nome feio, que não devíamos pronunciar. Mas não era apenas isso. Exprimia um lugar ruim, para onde pessoas mal-educadas mandavam outras, em discussões. E num lugar existem casas, árvores, açudes, igrejas, tanta coisa, tanta coisa que exigi uma descrição. Minha mãe condenou a exigência e quis permanecer nas generalidades. Não me conformei. Pedi esclarecimentos, apelei para a ciência dela. Por que não contava o negócio direitinho? Instada, condescendeu. Afirmou que aquela terra era diferente das outras. Não havia lá plantas, nem currais, nem lojas, e os moradores, péssimos, torturados por demônios de rabo e chifres, viviam depois de mortos em fogueiras maiores que a de S. João e em tachas de breu derretido. Falou um pouco a respeito dessas criaturas.

Fogueiras de S. João eu conhecia. Tinha-se feito uma diante de casa. Eu andara à tardinha em redor do monte de lenha que o moleque José arrumava. Admirando os aprestos, espantava-me de haver nascido ali de supetão um mamoeiro carregado de frutos verdes. Á noite deitara-se na pilha uma garrafa de querosene,viera um tição. E eu ficara na calçada até dez horas,olhando as labaredas, que meu pai alimentava com aduelas e sarrafos. A gente da vila mexia-se, ria e cantava, iluminada por outros fogos. No dia seguinte as folhas do mamoeiro se torravam, pulverizavam. E na rua, desentulhada, apareciam grandes manchas negras.

Também conhecia o breu derretido. No armazém, barricas finas continham substância escura que, pisada, tirava a cor das moedas de vintém livres do azinhavre, raspadas no tijolo, molhadas e enxutas. Eu havia esfarelado um pedaço dessa maravilha, com um peso de meio quilo, junto à balança romana da loja. Tinha posto a massa dourada num cartucho de jornal, riscado um fósforo em cima e esperado o fenômeno. Uma lágrima correra no papel, alcançara-me o dedo anular, descera da unha a primeira falange. Largando a experiência, eu me desesperara, abafando os gritos, fora meter a mão num pote de água. Tinha sofrido em silêncio, receando que percebessem a traquinada e a queimadura.

Quando minha mãe falou em breu derretido, examinei a cicatriz do dedo e balancei a cabeça, em dúvida. Se o pequeno torrão, esmagado com o peso de meio quilo, originara aquele desastre, como admitir que pessoas resistissem muitos anos a barricas cheias derramadas em tachas fundas, sobre fogueira de S. João?

– A senhora esteve lá?

Desprezou a interrogação inconveniente e prosseguiu com energia.

— Eu queria saber se a senhora tinha estado lá.

Não tinha estado, mas as coisas se passavam daquela forma e não podiam passar-se de forma diversa. Os padres ensinavam que era assim.

— Os padres estiveram lá?

A pergunta não significava desconfiança na autoridade. Eu nem pensava nisso. Desejava que me explicassem a região de hábitos curiosos. Não me satisfaziam as fogueiras, as tachas de breu, vítimas e demônios. Necessitava pormenores.

Minha mãe estragara a narração com uma incongruência. Assegurara que os diabos se davam bem na chama e na brasa. Desconhecia, porém, a resistência das almas supliciadas. Dissera que elas suportariam padecimentos eternos. Logo insinuara que, depois de estágio mais ou menos longo, se transformariam em diabos. Indispensável esclarecer esse ponto. Não busquei razões, bastavam-me afirmações. Achava-me disposto a crer, aceitaria os casos extraordinários sem esforço, contanto que não houvesse neles muitas incompatibilidades. Reclamava uma testemunha, alguém que tivesse visto diabos chifrudos, almas nadando em breu. Ainda não me havia capacitado de que se descrevem perfeitamente coisas nunca vistas.

¾ Os padres estivaram lá? — Tornei a perguntar.

Minha irritou-se, achou-me leviano e estúpido. Não tinham estado, claro que não tinham estado, mas eram pessoas instruídas, aprendiam tudo no seminário, nos livros. Senti forte decepção: as chamas eternas e as caldeiras medonhas esfriaram. Começava a julgara história razoável, adivinhava por que motivo Padre João Inácio, poderoso e meio cego, furava os braços da gente, na vacina. Com certeza Padre João Inácio havia perdido um olho no inferno e de lá trouxera aquele mau costume. A resposta de minha mãe desiludiu-me, embaralhou-me as idéias. E pratiquei um ato de rebeldia:

— Não há nada disso.

Minha mãe esteve algum tempo analisando-me, de boca aberta, assombrada. E eu, numa indignação por se haverem dissipado as tachas de breu, os demônios, o prestígio de Padre João Inácio, repeti:

—Não há não. É conversa.

Minha mãe curvou-se, descalçou-se e aplicou-me várias chineladas. Não me convenci. Conservei-me dócil, tentando acomodar-me às esquisitices alheias. Mas algumas vezes fui sincero, idiotamente. E vieram-me chineladas e outros castigos oportunos.