Um diálogo sobre Caim e Abel, rejeição e culpa

Em sua obra, A Leste do Éden, John Steinbeck, cita o trecho bíblico que se refere ao assassinato de Abel e faz com que as personagens dialoguem sobre o significado deste relato, extremamente marcante para a humanidade. Vale a pena acompanhar os argumento e, é claro, ler o livro na integra.

Eis o diálogo:

“Adam disse:

− Eu me lembro que fiquei um pouco indignado com Deus. Tanto Caim como Abel lhe deram o que tinham, mas Deus aceitou Abel e rejeitou Caim. Nunca imaginei que fosse uma coisa justa. E jamais compreendi. Vocês podem compreender?

− Talvez pensemos com base em experiências diferentes – disse Lee. – Lembro de que essa história foi escrita por e para um povo de pastores. Não eram lavradores. O deus dos pastores não acharia um cordeiro gordo mais valioso que um feixe de cevada? Um sacrifício deve ser feito com o melhor e o mais valioso.

− Tem razão, o argumento é procedente – disse Samuel. – Mas devo adverti-lo, Lee, a não expor seu raciocínio oriental à atenção de Liza.

Adam estava bastante excitado:

− Mas por que Deus condenou Caim? É uma injustiça.

− Há uma vantagem em se prestar atenção às palavras – comentou Samuel. – Deus não condenou Caim, absolutamente. Até Deus pode ter uma preferência, não é mesmo? Vamos supor que Deus gostasse mais de ovelha do que de vegetais. Acho que isso acontece comigo. Caim talvez tenha levado uma porção de cenouras. E Deus falou: “Não gosto disso. Tente de novo. Traga-me alguma coisa de eu goste e eu o porei junto a seu irmão”. Mas Caim ficou furioso, estava com os brios feridos. E quando os brios de um homem estão feridos, ele quer descarregar em alguma coisa. Acontece que Abel estava no caminho de sua ira.

− São Paulo disse aos hebreus que Abel tinha fé – disse Lee.

− Não há qualquer referência a isso no Gênesis – comentou Samuel. – Nenhuma ou pouca fé. Há apenas uma insinuação sobre a índole de Caim.

− O que a Ara. Hamilton pensa dos paradoxos da Bíblia? – indagou Lee.

− Ela não pensa nada, porque não admite que existam…

− Mas…

− Pergunte diretamente a ela. Tenho certeza de que sairá da conversa mais velho, mas não menos confuso.

Adam interveio:

− Vocês dois estudaram o assunto, mas eu me limitei a absorvê-lo e não ficou muita coisa. Caim foi depois expulso por assassinato?

− Isso mesmo, por assassinato.

− E Deus marcou-o?

− Não prestou atenção? Caim ostentava a marca não para destruí-lo, mas para salvá-lo. E havia uma maldição reservada a qualquer homem que o matasse. Era uma marca de preservação.

− Não consigo superar a impressão de que Caim levou a pior nessa história – murmurou Adam.

− É possível – disse Samuel. – Mas Caim viveu e teve filhos, enquanto Abel vive apenas na história. Nós somos os filhos de Caim. E não é estranho que três homens adultos, neste século, tantos milhares de anos depois estejam discutindo esse crime, como se tivesse ocorrido ontem em King City e ainda não tivesse sido levado a julgamento” (pp. 282-283).

Carregamos a culpa por algo que não fizemos. Mas todo o mistério talvez esteja na rejeição e no que esta desencadeia. Eis o argumento de Lee:

“ – Creio que se trata da história mais conhecida do mundo porque é a história de todos. Acho que é a história que simboliza a alma humana. Estou agora procurando meu caminho… não me pressionem se não for muito claro. O maior terror que uma criança pode ter é a possibilidade de não ser amada. A rejeição é o inferno que teme. Acho que todas as pessoas do mundo, em grau maior ou menos, já experimentaram a rejeição. E com a rejeição vem a ira, com a ira vem alguma espécie de crime em vingança, com o crime vem a culpa… e aí está a história da humanidade. Acho que se a rejeição pudesse ser eliminada, a humanidade não seria o que é. Poderia haver menos loucos. Tenho certeza de que não haveria tantas cadeias. Está tudo aí, o ponto de partida, o começo. Se uma criança vê recusado o amor por que anseia, chuta o gato e oculta a sua culpa secreta. Outra rouba para que o dinheiro a torne amada. Uma terceira conquista o mundo. E sempre se encontra a culpa, vingança e mãos culpa. O ser humano é o único animal culpado” (p. 284).

No segundo volume, o autor retoma a discussão sobre Abel e Caim. Ele insere, através do personagem Lee, a questão da tradução bíblica – o que pode interferir sobre a compreensão do significado do mito. Lee afirma que leu uma versão diferente, a do Rei James. Nesta, Jeová fala a Caim, quando este está furioso:

“Se procederes bem, não é certo que serás aceito? Se, todavia, procederes mal, eis que o pecado jaz à porta, teu desejo será contra ti, mas haverás de dominá-lo” (p. 14).

Lee chama a atenção para o “haverás”. Para ele, “era uma promessa de que Caim dominaria o pecado” (id.). Ele defende a tese que, na verdade, Jeová deixa em aberto, isto é, Caim tem a opção de trilhar um caminho ou outro. Diz Lee:

“A tradução do Rei James faz uma promessa em “Haverás”, indicando que os homens inevitavelmente triunfarão sobre o pecado. Mas a palavra hebraica é “Poderás”, o que representa uma opção. Pode ser a palavra mais importante do mundo. Mostra que o caminho está aberto. e se volta contra o homem. Pois se “Poderás”, também é verdade que “Não Poderás” (p. 16).

Isto parece uma discussão sem sentido, bizantina. Mas não é, pois se os homens e mulheres estão dispostos a tomar as palavras ao pé da letra, a interpretá-las e, em qualquer caso, morrer por elas, é melhor tentar esclarecê-las. Como nota Lee:

“Qualquer escrito que influenciou o pensamento e a vida de incontáveis pessoas é importante. Há milhões de pessoas em seitas e igreja que aceitam como ordem: “Cumpre a ti”. Com isso, recaem na obediência. Há outros milhões que sentem a predestinação em “Haverás”. Nada do que façam poderá interferir com o que serão. Mas “Poderás”! Ora, isso faz com que um homem seja grande, proporciona semelhança com os deuses, pois em sua fraqueza, corrupção e assassinato do irmão ele ainda tem a possibilidade da grande opção. Ele pode escolher seu curso, lutar até o fim e triunfar” (p. 16).

E você, caro leitor, o que pensa sobre este tema? Como avalia este diálogo? A conclusão é sua…

__________

Referência:

STEINBECK, J. A Leste do Éden. São Paulo: Abril Cultural, 1984 (Volumes I e II)
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4 Respostas to “Um diálogo sobre Caim e Abel, rejeição e culpa”

  1. Douglas Says:

    É evidente, caro Ozaí, que eu não resistiria a esse diálogo. Mas, como meu comentário é um pouco extenso (quatro páginas) e composto por argumentação fundamentalmente teológica, preferi te enviar por e-mail. Poderia ser cansativo para aqueles que querem dialogar. Fica a seu critério fazer qualquer recorte no texto e trazer para o debate – ou não! :)Abraço.

  2. douglas facci Says:

    Deus é a fonte da justiça, jamais perverterá o juízo.O exame e a meditação das Sagradas Escrituras é, segundo diz a própria Bíblia Sagrada, o melhor caminho para o esclarecimento de seu conteúdo; até porque se trata, antes de tudo, de um auto-esclarecimento na alma do indivíduo, de sua consciência íntima. É preciso, no entanto, buscar as chaves de compreensão de seu conteúdo, dentro de seu próprio código, ou seja, esclarecer suas partes dentro do todo. As reflexões e especulações a partir de outro código de pensamento, de outra estrutura de valores, não apenas não revela muito sobre seu conteúdo, como tende a julgá-lo, em vez de compreendê-lo. O drama de Caim, por exemplo, é descrito de forma sucinta, não sendo, em um primeiro momento, ou em uma reflexão isolada de outras passagens, de compreensão clarividente. Mas a Bíblia Sagrada está repleta de passagens que servem como chave para sua compreensão, e esclarecem porque Deus “atentou” para a oferta de Abel, e não para a de Caim. Muitas reflexões e especulações sobre essa passagem bíblica tende a perverter o juízo, colocando Caim como sendo o justo, e Deus, o injusto, levando a pensar que Caim foi injustiçado por Deus, e que Deus é quem lhe despertou o desejo de assassinar seu irmão. Para esclarecer a rejeição de Deus à oferta de Caim, podemos remeter a diversas passagens do Antigo e do Novo Testamento. Começamos aqui pelo Salmo 50. Nele o Senhor diz, “da tua casa não tirarei bezerro nem bodes dos teus currais. Porque meu é todo o animal da selva, e as alimárias sobre milhares de montanhas. Conheço todas as aves dos montes; e minhas são todas as feras do campo. Se eu tivesse fome, não to diria, pois meu é o mundo e a sua plenitude. Comerei eu a carne de touros ou beberei o sangue de bodes (pergunta). Oferece a Deus sacrifício de louvor, e paga ao Altíssimo teus votos. (…) Mas ao ímpio o Senhor diz: Que tens que recitar os meus estatutos, e que tomar o concerto na tua boca. Pois aborreces a correção, e lança as minhas palavras para detrás de ti (pergunta). Quando vês o ladrão, consentes com ele, e tens a tua parte com adúlteros. Soltas a tua boca para o mal, e a tua língua compõe o engano. Assentas-te a falar contra teu irmão; falas mal contra o filho da tua mãe. Estas coisas tens feito, e eu me calei; pensavas que era tal como tu, mas eu te argüirei, e as porei por ordem diante dos teus olhos: Ouvi pois isto, vós que vos esqueceis de Deus; para que eu vos não faça em pedaços, sem haver quem vos livre. Aquele que oferece o sacrifício de louvor me glorificará; e àquele que bem ordena o seu caminho eu mostrarei a salvação de Deus”. Aqui diz que o Senhor não se agrada de sacrifícios vãos, sobretudo dos ímpios que não andam em retidão, mas, se agrada e mostrará a salvação àquele que bem ordena seu caminho. No capítulo primeiro do Livro do profeta Isaías, está descrita a exasperação de Deus, quanto aos sacrifícios de um povo tomado de iniqüidade. “De que me serve a mim a multidão de vossos sacrifícios, diz o SENHOR? Já estou farto dos holocaustos de carneiros, e da gordura de animais cevados; nem me agrado de sangue de bezerros, nem de cordeiros, nem de bodes. Quando vindes para comparecer perante mim, quem requereu isto de vossas mãos, que viésseis a pisar os meus átrios? Não continueis a trazer ofertas vãs; o incenso é para mim abominação, e as luas novas, e os sábados, e a convocação das assembléias; não posso suportar iniqüidade, nem mesmo a reunião solene. As vossas luas novas, e as vossas solenidades, a minha alma as odeia; já me são pesadas; já estou cansado de as sofrer. Por isso, quando estendeis as vossas mãos, escondo de vós os meus olhos; e ainda que multipliqueis as vossas orações, não as ouvirei, porque as vossas mãos estão cheias de sangue. Lavai-vos, purificai-vos, tirai a maldade de vossos atos de diante dos meus olhos; cessai de fazer mal. Aprendei a fazer bem; procurai o que é justo; ajudai o oprimido; fazei justiça ao órfão; tratai da causa das viúvas. Vinde então, e argüi-me, diz o SENHOR: ainda que os vossos pecados sejam como a escarlata, eles se tornarão brancos como a neve; ainda que sejam vermelhos como o carmesim, se tornarão como a branca lã”. Deus está cansado de receber as ofertas de mãos que se precipitam para o mal. São ofertas vãs, porque repletas de hipocrisia, que não procede de um coração puro e sincero. Os livros de Isaías, de Jeremias, e os Salmos, estão repletos de escritos semelhantes, com a mensagem de que Deus aborrece a oferta hipócrita e, se agrada antes, da obediência, ou seja, da retidão do caminho e das boas obras. No Novo Testamento, Jesus Cristo reforça a mensagem em seus ensinamento: “Eu, porém, vos digo que qualquer que, sem motivo, se encolerizar contra seu irmão, será réu de juízo; e qualquer que disser a seu irmão: Raca, será réu do sinédrio; e qualquer que lhe disser: Louco, será réu do fogo do inferno. Portanto, se trouxeres a tua oferta ao altar, e aí te lembrares de que teu irmão tem alguma coisa contra ti. Deixa ali diante do altar a tua oferta, e vai reconciliar-te primeiro com teu irmão e, depois, vem e apresenta a tua oferta. (S. Mateus 5)Voltando ao drama de Caim e Abel, é importante atentar nas palavras empregadas no texto bíblico (tradução de João Ferreira de Almeida):“E aconteceu ao cabo de dias que Caim trouxe do fruto da terra uma oferta ao SENHOR. E Abel também trouxe dos primogênitos das suas ovelhas, e da sua gordura; e atentou o SENHOR para Abel e para a sua oferta. Mas para Caim e para a sua oferta não atentou.” Não está escrito que Deus “preferiu” a oferta de Abel em detrimento da oferta de Caim. As ofertas em si mesmas são equivalentes aos olhos de Deus. Caim deu o melhor do fruto de seu trabalho, assim como o fez Abel. Deus não fez acepção entre as ofertas, ao menos não acepção material. Mas, não era a qualidade material o mais importante para o Senhor. Como mencionamos antes, as palavras do Senhor no Salmo 50: “Se eu tivesse fome, não to diria, pois meu é o mundo e a sua plenitude”. O Senhor não precisa ser servido pelos homens, o que ele requer é que os homens sejam retos em seus caminhos. A oferta que lhe agrada, é a de um coração puro. É o sentimento puro do coração, nesse caso, materializado em uma forma táctil, que Ele deu valor. Assim, embora a oferta de Abel e Caim fossem, em si mesmas, equivalentes a Deus, todavia, o Senhor “atentou” para a de Abel, mas não para a de Caim. Porque a oferta de Abel era condizente com sua conduta reta, era sincera. Ao passo que a de Caim, ao que o texto indica, era hipócrita, uma vez que suas atitudes eram más para com Deus. A acepção de Deus, não foi segundo a oferta material, mas segundo o coração e as obras de cada um. Por isso, quando Deus viu o semblante de Caim cair, disse-lhe : “Por que descaiu o teu semblante? Se bem fizeres, não é certo que serás aceito?” Como quem diz: não aceitei sua oferta, por que não fazes bem; mas, se fizeres bem, eu aceitarei, como aceitei a de teu irmão”. E como mencionamos no capítulo primeiro do Livro de Isaías, “Lavai-vos, purificai-vos, tirai a maldade de vossos atos de diante dos meus olhos; cessai de fazer mal. Aprendei a fazer bem; procurai o que é justo; Vinde então, e argüi-me, diz o SENHOR: ainda que os vossos pecados sejam como a escarlata, eles se tornarão brancos como a neve; ainda que sejam vermelhos como o carmesim, se tornarão como a branca lã”. Decerto que, de acordo com os textos bíblicos, Deus rejeitou a oferta de Caim, por desaprovar a sua conduta, e a intenção de seu coração. Pois Deus não julga segundo a vista dos olhos, mas segundo as intenções do coração de cada um. O coração é a oferta que o Senhor quer. As ofertas materiais são símbolos. Então, Deus não apenas não despertou um desejo maléfico em Caim, como o argüiu sobre os seus maus caminhos. E deu-lhe uma opção de escolha junto a uma advertência: Se fizeres bem, também haverá aceitação para ti; mas, “se não fizeres bem, o pecado jaz à porta, e sobre ti será o seu desejo, mas sobre ele deves dominar.”. De acordo com essa tradução de Almeida, o Senhor aconselha a Caim a dominar o seu mau desejo, mas, em vez disso, “sucedeu que, estando eles [Caim e Abel] no campo, se levantou Caim contra o seu irmão Abel, e o matou.Muitos são os que optam por ver a Caim, assim como a Judas Iscariotes, como vítimas de Deus, quando, segundo as Sagradas Escrituras, são réus que, mesmo alertados pelo Senhor sobre o mau desejo de seus corações, não se desviaram do erro, antes, o executaram. Deus deu ao homem de escolher entre o bem e o mal, prometendo ajuda-lo, se sua inclinação for para o bem, e aconselhando e advertindo quanto ao mal – para que, no dia do julgamento, não digas: eu sou inocente, eu não sabia. Para fazer uma observação (outra) sobre a obra A Leste do Éden, de John Steinbeck, na fala − É possível – disse Samuel. – Mas Caim viveu e teve filhos, enquanto Abel vive apenas na história. Nós somos os filhos de Caim.Há um erro de concordância com o código bíblico. Todas as gerações de Caim, que habitaram, sobretudo, nas terras de Sodoma e Gomorra, pereceram com o Dilúvio. Só restara o patriarca Noé, como raiz das novas gerações pós-diluvianas. Mas Noé não é da descendência de Caim, mas sim de Sete, o terceiro filho de Eva, dado por Deus em lugar de Abel. Somos filhos de Sete.

  3. Marta Says:

    Eu amo este livro! Que legal, acabei de lhe indicar como um dos dez!

  4. Antonio Carlos Lobato de Almeida Says:

    Pra mim é um deus muitoooo INJUSTO…

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