Archive for janeiro \26\UTC 2008

Terrorista, de John Updike

26/01/2008

John Updike

Terrorista

São Paulo: Comapanhia das Letras, 2007 (336p.)

“Em Terrorista, um americano muçulmano de 18 anos se prepara para a jihad, a guerra santa. Ahmad, que vive em New Prospect, cidade fictícia no estado de Nova York, é um personagem bem construído. Uma aula de como se constrói um personagem complexo” (Gisela Anauete, Época).

“Sem descambar para a paranóia ou mesmo para o racismo, Updike descreve à exaustão os rituais islâmicos de ensino do Alcorão com a mesma intensidade com que narra uma cerimônia religiosa de negros protestantes, cujo fervor se aproxima do erotismo” (Luiz Chagas, IstoÉ).

“Ele se voltou para a incômoda reação islâmica – não como um simples crítico, mas principalmente como um intelectual interessado em descobrir as causas de tanto atrito, sem jamais esquecer o ponto de vista do outro. (…) A rejeição do capitalismo e dos valores da sociedade americana movem a história” (Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo).

“Influenciado pelos atentados de 11 de Setembro e pela chamada guerra antiterror, Updike opta por um tema complexo e comete alguns deslizes. [Mas] retrata o tecido urbano dos Estados Unidos por meio de um olhar aguçado e uma técnica narrativa elaborada que convidam à leitura” (Paulo Daniel Farah, Folha de S. Paulo).

“Uma das coisas mais interessantes no livro é a convergência de visões figuradas a respeito de como são os Estados Unidos de fato e de como o país se apresenta. O final é de forte tensão. Traz junto, em útil enredo, uma provocação questionável e motivados atos de heroísmo” (Robert Stone, EntreLivros/Book Review).

Fonte: EntreLivros, Ano 3, Nº25, maio de 2007, p. 11

A cidade do sol, de Khaled Hosseini

25/01/2008

Khaled Hosseini
A cidade do sol
Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2007 (280 p.)

A revista EntreLivros se referiu ao autor como “O caçador de best-sellers”. Segundo o texto, publicado na edição nº 29, de setembro de 2007, p. 11:

“No lugar de Khaled Hosseini, muitos escritores teriam sido mais cautelosos. Desde que publicou seu primeiro livro, O caçador de pipas, em 2003, o médico afegão, naturalizado americano, se tornou um best-seller mundial – a adaptação para o cinema de sua obra de estréia já começou, o que pode multiplicar suas vendas. Os cautelosos resistiriam um pouco mais antes de se lançar a outra empreitada; aguardariam por mais tempo antes de arriscar o que, para muitos, foi apenas sorte.

Hosseini não esperou, e aparentemente escolheu o caminho mais difícil: seu cenário é, de novo, o Afeganistão, onde duas narradoras se alternam, Mariam e Laila, desenvolvem seu enredo sobre amizade em tempo de guerra. Apesar de alguns deslizes apontados pela crítica – personagens estereotipados e excesso de história na ficção –, a nova obra, A cidade do sol, já está na lista dos mais vendidos nos Estados Unidos. O resultado se repete no Brasil (…) A receita de sucesso é conhecida: drama em doses suficientes para emocionar o leitor.”

Na edição seguinte, nº 30, outubro de 2007, p. 11, a EntreLivros reproduz trechos de resenhas publicadas em revistas nacionais e internacionais:

“(…) Hosseini oferece um retrato palpável da vida no Afeganistão. (…) A cidade do sol é uma espécie de Sidney Sheldon islâmico: um romance sobre mulheres sofredoras, amaldiçoadas pela sorte e humilhadas por homens maus, mas que no fim conseguem (ou, pelo menos, uma delas consegue) dar a volta por cima” (Jerônimo Teixeira, Veja).

“Mesmo sendo um escritor de poucos recursos, Hosseini sabe contar uma história, envolvendo o leitor com doses exatas de informação e emoção. Hosseini criou uma trama de leitura fácil e perfeita para ser levada ao cinema” (Ivan Cláudio, IstoÉ).

“Enquanto O caçador de pipas tinha um começo instigante e tropeçava em artifícios e sentimentalismo, A cidade do sol começa de modo esquemático e ganha velocidade e força emocional enquanto se desenrola lentamente” (Michiko Kakutani, The New York Times).

O caçador de pipas seduz com uma história surpreendente, narrada com simplicidade. A cidade do sol não possui a mesma força, até porque, em quatro anos, a inovação degenerou em clichê” (Luís Antônio Giron, Época).

“Por precaução, você deve estar imaginando se A cidade do sol, de Khaled Hosseini, é tão bom quanto O caçador de pipas. A resposta é: não. É melhor” (Jonathan Yardley, Washington Post).

Ps.: O livro A cidade do sol foi indicado por Raymundo de Lima.

Parque Industrial, de Patrícia Galvão (Pagu)

22/01/2008

Fonte:

Revista EntreLivros
Ano 2, Nº 22, fevereiro de 2007, p. 13.

“A musa proletária

Na época em que se faziam manifestos e movimentos literários também havia as musas, e a jornalista e escritora Patrícia Galvão, a Pagu (1910-1962), foi uma delas. A jovem preocupada com vanguardas artísticas, colaboradora da Revista de Antropofagia, também fez política nos anos modernistas. Foi militante comunista, presa e torturada algumas vezes, e entre outras proezas publicou aquele que é considerado o primeiro romance proletário brasileiro, Parque industrial. Esgotado havia anos, acaba de sair pela José Olympio como parte da coleção Sabor Literário.

A obra se destaca mais pelo valor histórico-social do que pelo estético. O romance, hoje, “poderá parecer ingênuo”, como nota o autor da apresentação, o jornalista Geraldo Galvão Ferraz, filho de Pagu. Mas o livro não deixa de envolver o leitor pelo que tem de “generoso e sincero”, diz Ferraz. Quando o lançou, em 1933, a autora usou o pseudônimo Mara Lobo – não somente para evitar a perseguição da polícia, mas também porque sofria restrições dos próprios comunistas devido ao seu passado “pequeno-burguês”. Pagu se esforçou para se adequar à causa: na época de militante, abandonou a família e se tornou operária. A primeira edição, de pequena tiragem, foi financiada por Oswald de Andrade, com quem se casara. As duas reedições posteriores também tiveram tiragens reduzidas.”

À Espera dos Bárbaros, de J.M. COETZEE

21/01/2008

COETZEE, J.M. À Espera dos Bárbaros. São Paulo: Companhia das Letras: 2006 (208p.)


O autor, Prêmio Nobel de Literatura, escreve sobre o seu país natal, a África do Sul. Eis algumas opiniões sobre a obra:

“Em sua raiz moderna, a obra de Coetzee nos alerta para o sofrimento sul-africano, mas contra o pano de fundo mais vasto das múltiplas falas caladas ou extraídas à força, alargando enormemente seu alcance: os bárbaros já chegaram há muito e, eles sim, falam pelos cotovelos” – Fábio de Souza Andrade (Folha de S. Paulo)

“Ao transformar o protagonista numa espécie de Quixote ao mesmo tempo comovente e ridículo, Coetzee parece compor um réquiem pelo espírito humanista e prenunciar a era das trevas globalizadas. Essa má notícia em forma de ótima literatura nos chega com 26 anos de atraso, mas com a força revigorada que só as obras de arte possuem” – José Geraldo Couto (Carta Capital)

“(…) No início da década de 1980, um Império subjugando uma província nao era somente uma alegoria cabível em romance, mas, sim, algo presente na África do Sul. Nesse aspecto, mais do que visionário, o escritor consegue, com muito êxito, atingir o ápice literário; (…) tornando possível, inclusive, um paralelo como nossos tempos sombrios” – Fábio Silvestre Cardoso (Rascunho)

“Um livro perturbadoramente belo e cruel, que expõe a miséria humana no que ela tem de mais feio e doloroso. Os efeitos da dominação e da tirania étnica não se dão apenas na realidade objetiva, mas ocorrem dentro de nós, naquele ponto obscuro que desperta quando colocamos a cabeça no travesseiro e quano nosso espírito divaga” – Elias Fajardo (O Globo)

“Seu ponto alto é a linguagem ecônomica, cuja secura realça um lirismo ríspido e melancólico. A rédea curta evita escorregãoes na demagogia, e a consciência afiada do protagonista produz trechos de alta voltagem reflexiva. Seria o bastante no contexto da atual ficção. Mas é pouco para quem, 20 anos depois, publicou Desonra” – Michel Laub (EntreLivros)

Fonte: EntreLivros, nº 14, junho de 2006, p. 13.

Arte, formas de governo e liberdade na óptica de Oscar Wilde

19/01/2008

Fonte:
Oscar Wilde.
A alma do homem sob o socialismo.
Porto Alegre: L&PM, 2003, pp.69-73

Às vezes questiona-se qual forma de governo mais convém a um artista. Há apenas uma resposta para essa pergunta. A forma de governo que mais lhe convém é nenhum governo. É ridícula a autoridade sobre o artista e sua arte. Afirma-se que, sob o despotismo, os artistas criaram obras adoráveis. Isso não é bem assim. Os artistas visitavam os déspotas, não como indivíduos a serem subjugados, mas como sonhadores errantes, personalidades excêntricas e fascinantes, a quem se deveria receber e festejar e a quem se deveria deixar em paz e livres para criar. Há o seguinte a se dizer em favor do déspota: ele, como indivíduo, pode ter cultura; a plebe, por ser monstro, não tem nenhuma. O Imperador e o Rei podem abaixar-se e apanhar do chão um pincel e devolvê-lo a um pintor, mas quando a democracia se abaixa, é apenas para atirar na lama, embora nunca tenha se abaixado a exemplo do Imperador. Na verdade, quando quer jogar na lama, não é preciso que fique mais agachada do que está. Mas não há necessidade alguma de separar o monarca da plebe: toda autoridade é igualmente má.

Há três espécies de déspotas. Há o que tiraniza o corpo. Há o que tiraniza a alma. Há o que tiraniza o corpo e a alma. O primeiro chama-se Príncipe. O segundo chama-se Papa. O terceiro chama-se Povo. O Príncipe pode ser culto, e muitos o foram. Mas corre-se perigo com os Príncipes. Vem à memória Dante no banquete amargo de Verona, ou Tasso na cela de Ferrara em que fora encarcerado como louco. É melhor que o artista não conviva com Príncipes. O Papa pode ser culto. Muitos o foram; e também os maus Papas. Eles amavam o Belo, quase tão apaixonadamente, ou antes, com tanta cólera quantos os bons Papas odiavam as Idéias. À perversidade do Papado, muito deve a humanidade. A benevolência do Papado tem, com esta, espantosa dívida de sua parte. E, embora o Vaticano tenha mantido a retórica trovejante e perdido o condão iluminador, é melhor que o artista não conviva com os Papas. Foi um Papa quem disse, falando de Cellini a um conclave de Cardeais, que as leis e a autoridade comuns não forma feitas para ele; mas foi um Papa quem o confinou na prisão, e o manteve lá até que se exasperasse de raiva, e criasse visões irreais para si mesmo, e, vendo o sol dourado entrar em sua cela, ficasse tão enamorado dele que procurasse fugir, e se esgueirasse de torre a torre, e, saltando através do ar vertiginoso da madrugada, se mutilasse, e, escondido sob as folhas de parreira com o que cobriria um vinhateiro, fosse conduzido numa carroça para alguém que, amante das coisas belas, cuidou dele. Corre-se perigo com os Papas. E quanto ao Povo, que é dele e de sua autoridade? Talvez dele e de sua autoridade já se tenha falado o suficiente. A autoridade do Povo é uma coisa cega, surda e hedionda; grotesca, trágica e divertida; séria e obscena. É impossível ao artista conviver com o Povo. Todos os déspotas corrompem. O Povo corrompe e embrutece. Quem lhe disse para exercer para exercer autoridade? Ele foi destinado a viver, ouvir e amar. Alguém lhe fez um grande mal: ele se perdeu pela imitação dos superiores. Tomou o cetro do Príncipe. Como usá-lo? O povo é como um palhaço prostrado pela dor. Como um sacerdote cuja alma ainda não nasceu. Que todos os amantes da beleza apiedem-se dele. Embora ele próprio não ame a Beleza, que ainda assim se apiede de si mesmo. Quem lhe ensinou a artimanha da tirania?

Há outras coisas a ressaltar. Entre elas, que a Renascença foi magnífica porque não procurou resolver nenhum problema social e não se ocupou de coisas dessa ordem, mas deixou que o indivíduo se desenvolvesse de maneira harmoniosa e natural; teve, assim, artistas magníficos e singulares. Ou então que Luís XIV, ao criar o Estado moderno, destruiu o individualismo do artista e tornou tudo disforme, pela repetição invariável e desprezível, pela conformidade à regra, destruindo em toda a França aquela perfeita liberdade de expressão que inovara em beleza e tradição e que fizera das formas novas e da antiga uma só unidade. Mas de importância alguma é o passado. De importância alguma, o presente. É com o futuro que temos de tratar. Pois o passado é o que o homem não deveria ter sido. O presente é o que o homem não deve ser. O futuro é o que os artistas são.

Naturalmente se dirá que um projeto como este aqui apresentado é impraticável e contrário à natureza humana. Não há dúvida. É impraticável e contrário à natureza humana. Eis porque vale a pena ser posto em execução, e eis porque é proposta. Pois o que é um projeto prático? É um que ou já está em vigência, ou que poderia ser posto em execução nas condições vigentes. Mas é exatamente contra essas condições que ele se insurge; e qualquer projeto que pudesse aceitá-las seria injusto e descabido. Passarão as condições, e natureza humana se transformará. Transformação vem a ser a única qualidade que lhe podemos atribuir. Os sistemas que fracassam são aqueles que se fiam na continuidade invariada da natureza humana, e não em seu crescimento e aperfeiçoamento. O erro de Luís XIV foi ter julgado que ela seria sempre a mesma. A conseqüência de seu erro foi a Revolução Francesa. Foi uma conseqüência notável, como são notáveis todas as conseqüências dos erros governamentais.
OSCAR WILDE (1854-1900).
O ensaio “A Alma do Homem sob o Socialismo” foi publicado originalmente em maio de 1895.