Apontamentos sobre literatura

por Carlos Eduardo de Magalhães*

A prosa literária se utiliza de duas ferramentas para existir, o enredo e a palavra. Anterior às duas vem a idéia, que as justifica e legitima. Sobre a idéia: ela é o mais e o menos importante. É dela que o livro nasce, mas ela deve se perder na linguagem e história. Deve ser como o princípio ativo dos remédios homeopáticos. Diluídos ao extremo até que reste um nada, ou, segundo os mais exagerados, apenas a memória daquele princípio ativo. Bom mesmo é que o escritor, quando acabe o trabalho, nem se lembre mais dela. E ela, dessa maneira escondida, diluída, agirá sobre o leitor. Uma idéia escancarada não é literatura, é panfleto, por melhor que ela seja.

A idéia é a alma do livro, é através do seu corpo físico, a palavra, que o leitor poderá enxergá-la. Ou não. Normalmente o que acontece é o leitor enxergar coisas que para ele façam sentido naquele momento. Por isso duas leituras nunca são iguais, ainda que feitas pela mesma pessoa. Existem também os fundamentos anteriores à primeira página escrita, e posteriores à idéia do livro. Antes de começá-lo, decisões são tomadas. A primeira, o tamanho. Dessa definição sai o ritmo, a profundidade, a velocidade de impacto. Um conto deve ter alta velocidade de impacto, dizer logo a que veio. Um romance deve ter velocidade controlada, uma sintonia fina no pé do acelerador. O sem-número de contos que um romance contém são os centros de atenção nessa viagem, que tem seu ponto final em alguma estação desconhecida. No prólogo de Doze contos peregrinos, Gabriel García Márquez nos diz que se deve também saber algo sobre a estrutura que se vai usar e sobre algum personagem, que servirá de referência para outros personagens, ainda que esse primeiro um perca a força na construção da história. Pois se trata mesmo de uma construção. A estrutura são alicerces nos quais o livro se apoiará. Escolhe-se o tipo, ou os tipos, de narrador, como o tempo se passa, a linguagem a ser usada, entre outros parafusos e sacos de cimento. E um projeto elétrico consistente, que dimensione a rede para toda a carga de energia que iluminará o escritor, seus dedos a percorrer um caminho que ele desconhece, e que não raro o surpreenderá. O enredo, a história, o fundo literário, é a gênese da prosa literária. A palavra escrita, a linguagem, a forma literária, é seu meio de existência. Depois da idéia perder-se, a história é de importância fundamental. Se a palavra elaborada é o combustível, a história é o motor que dá sentido à engenhoca toda. Escrever bem é pré-requisito. Uma bula de remédio, um artigo de jornal, uma peça publicitária engraçadinha devem ser bem escritas, e os três não são literatura. Bem sei que como contar uma história é tão importante quanto o que contar, ou a história em si.

E existem tantos exemplos disso, mas fiquemos só em William Faulkner e Guimarães Rosa. Mas é necessário que haja uma história, e uma história boa. Faulkner e Rosa, outra vez. A técnica pela técnica, tão apreciada por alguns, me parece estéril, como ser muito bom em fazer embaixadinha. Vira só curiosidade ou referência, ou diverte o público nos intervalos dos jogos, quando os jogadores de futebol estão nos vestiários recebendo instrução do técnico. Se a embaixadinha existe, deve estar no meio de uma jogada, dar sentido a ela, ser tão genial que dê sentido à própria partida. Por outro lado, a linguagem literária aperfeiçoa a língua, a palavra escrita.

Talvez, mais correto que aperfeiçoa, seja atualiza, traz a palavra escrita para o mundo contemporâneo a ela, sendo seu reflexo. Hoje, no mundo fragmentado e veloz, um mundo sem tempo e com infinitos estímulos, a palavra é nervosa, seca, precisa. Contos breves, mini-contos, frases curtas apareceram refletindo e definindo esse mundo sem metáforas. Às vezes nos esquecemos que literatura é, sobretudo, entretenimento. Não nos permitimos dizê-lo. Mas é. E quanto mais elaborada a palavra, quanto mais escondida a idéia, quanto mais rica a história, mais sofisticado o entretenimento. Um bom livro nos incomoda e nos inquieta, é o veículo em que somos passageiros solitários em uma viagem, por vezes árida, com destino a nós mesmos. Um bom livro carrega-se a vida inteira.

Um bom livro define uma geração. Como reconhecer o grande livro? Você o reconhece, esteja certo. Uma dica? Ele é aquele te derruba. E, derrubado, você começa a sentir o chão que te sustenta. Por fim, não nos deixemos enganar, não nos esqueçamos, sob pena da construção toda desmoronar feito um arranha-céu construído com cimento ralo e areia da praia – saibamos todos que o principal objetivo da literatura não é nem a história, nem a palavra. Elas são meios, o fim é o homem. A literatura talvez seja a maneira mais formidável que o homem descobriu para investigar-se, iluminar, ainda que precariamente, as sombras do seu ser.

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* Graduado em Administração de empresas pela Fundação Getúlio Vargas – SP (1989), com especialização nas áreas de finanças e marketing. Desde 1994 dedica-se à literatura, tendo vários livros publicados. Este artigo foi originalmente publicado na revista EntreLivros, Ano 2, nº14, junho de 2006, p.66.

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Uma resposta to “Apontamentos sobre literatura”

  1. Abel Sidney Says:

    Ozaí, A escolha do oportuno texto do Carlos Eduardo de Magalhães foi feliz, a despeito de alguns trechos que me pareceram um tanto truncados…Destaque para o trecho:Um bom livro nos incomoda e nos inquieta, é o veículo em que somos passageiros solitários em uma viagem, por vezes árida, com destino a nós mesmos.Por meio dele, o autor irá pontuar mais uma vez o que ele defende explicitamente mais tarde: a literatura é meio (ou meios). E critica: quando se torna um fim em si mesmo transforma-se em virtuosismo que pode agradar a alguns doutos, mas se distancia de grande parte dos leitores. O arremate foi perfeito: a literatura como maneira mais formidável que o homem descobriu para investigar-se, iluminar, ainda que precariamente, as sombras do seu ser diz muito (se não tudo!).Gostei.

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