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Ler a Divina Comédia

29/03/2008

por Eduardo Navarro Stotz*

Borges[1] disse que a Comédia é um livro que todos devem ler. Por quê? Para não nos privarmos da felicidade de ter acesso a uma das mais belas obras da literatura. Eu diria que a leitura é mais feliz, no sentido borgiano, na idade madura, aquela em que o poeta, como se lê nos primeiros versos, se encontrava, dilemático:

Nel mezzo del cammin di nostra vita
mi ritrovai per una selva oscura.
A meio do caminho desta vida
achei-me por uma selva escura.
(Inferno: I, 1-2)

No meio do caminho desta vida, a errar por uma selva escura: é assim, perdido, que Dante Alighieri (1265-1321) se encontrava na idade madura. Ao invés da benesse do tempo de recolher os frutos de uma vida de labuta, tinha de lidar com a degradação, o exílio, o confisco dos bens e a pena de morte imposta pela comuna de Florença, afastado de todos aqueles que amava, da esposa e dos filhos, do círculo de parentes e amigos. Foi então, em 1306, no exílio em Pádua, recolhido na torre do velho castelo do Val di Magra que “tomou da pena e, coordenando os pensamentos que lhe afluíam à mente, começou a redação definitiva da Comédia, compondo os primeiros cantos do Inferno”, escreve Cristiano Martins.[2]

Ler a Divina Comédia é reencontrar-se com Dante, no meio do caminho da vida e descobrir com maior profundidade os sentidos do amor. O amor em sua multiplicidade de objetos, dentre os quais a arte. A leitura é o exercício de amar um texto, de deixar o intelecto envolver-se e emocionar-se com a obra escrita.

Borges afirma que se deve ler A Divina Comédia ingenuamente, para depois relê-la mais de uma vez. Preferencialmente em voz alta, pois a poesia é para ser declamada.

Mesmo assim, a primeira leitura é difícil, não há compartilhamento de sentidos entre seu autor e época e nós, separados pelo tempo, isto é, pelas diferenças na obra de arte. Diferenças marcantes no gênero literário, na estrutura composicional e na cosmovisão subjacentes à obra.

Cartografia do mundo eterno

Comédia é um gênero literário especial, um poema épico no qual o drama vivido por um herói se resolve positivamente.

Dante imaginou e elaborou, no retiro de seu exílio, em Pádua, o texto de uma viagem ao reino do eterno na qual os dilemas de sua existência se confundem com os do povo italiano. A inspiração vinha de fontes diversas: das narrativas de Luciano, na Descida de Menipo ao Inferno e de Virgílio, na Eneida, bem como das narrativas das relações entre os mundos dos vivos e dos mortos que faziam parte de uma tradição conhecida por todo o continente europeu, como a do Purgatório de São Patrício e a lenda Tundale. Esta última descrevia detalhadamente os domínios dos reinos do inferno, Purgatório e Paraíso.

Para Carpeaux, o mundo eterno nascera com a reforma cluniacense, após o ano 1000, quando os senhores feudais foram confrontados pela aliança entre bispos e reinos nacionais da França e Alemanha. À pacificação relativa dos povos destas regiões seguiu-se a preocupação com o trabalho, tarefa a que se lançam outros monges, os cistercienses. A paz pelo amor de Deus impôs o deslocamento da preocupação humana da pobreza, fome e guerra da vida terrestre para a vida espiritual e a conquista do mundo eterno. O dia santo dos mortos consagrou a comunhão entre vivos e mortos e o mundo eterno foi cuidadosamente elaborado com a sua hierarquia de pecados e salvação.[3]

Três séculos após a reforma cluniacense-cisterciense, Dante depara-se com uma Igreja Católica corrompida pela mesma aliança, enquanto a guerra civil devasta Florença e mergulha as cidades italianas em infindáveis conflitos. Como veremos, a história adentra a Divina Comédia por meio da incerteza de sua vida, mergulhada na “selva escura”.

O poeta ainda preserva, nesta travessia poética do mundo eterno, a divisão tripartida dos seus reinos: Inferno, Purgatório e Paraíso. Ele não deixa de se preocupar, contudo, em descrever – na verdade expor a sua visão pessoal – os reinos do mundo eterno em sua pormenorizada cartografia. Usamos aqui o termo cartografia como o tratado ou a exposição das representações dos acessos, passagens, movimentos e evolução dos “pontos” constitutivos – um verdadeiro mapa – de cada um dos reinos e de suas mútuas relações.

Na cartografia dantesca, os reinos são compreendidos melhor em suas transposições. Assim é que o Inferno e o Purgatório são descritos no Canto XXXIV, versos 121-126 que concluem a passagem pelo reino infernal:

Quando, punido, desabou do céu,
a terra que secava ali, outrora,
adentrou, de pavor, do mar o véu,

e foi sair no outro hemisfério fora;
fez lá o poço, e aqui, então, formado,
o monte alçou, que vamos ver agora.

Quando, punido, desabou Lúcifer, derrotado na luta com os arcanjos por querer igualar-se a Deus, sua queda provocou um impacto tal que abriu um vão mar adentro onde se localiza o inferno; a terra que se abriu para formá-lo, diz o tradutor, teria dado origem à ilha com o imenso monte, o Monte do Purgatório, situado em algum lugar do oceano de onde se poderia avistar o Cruzeiro do Sul, isto é, o Atlântico sul. O Inferno, subterrâneo, caracteriza-se por círculos que afundam para o núcleo gelado da Terra. O Purgatório, seu inverso, é um Monte pelo qual as almas ascendem por terraços.

No topo do Monte (Canto XVIII) chega-se à floresta edênica separada por dois rios, o Letes (esquecimento) e o Eunoé (memória), passagem indispensável à remissão dos pecados e erros para a ascensão, além do mundo no qual estão os vivos[4]. O Paraíso se organiza em torno das esferas celestes concêntricas. Oito das nove esferas correspondem à cosmovisão ptolomaica: na primeira se encontra a Lua; na segunda, Mercúrio; na terceira, Vênus; na quarta, o Sol; na quinta, Marte; na sexta, Júpiter; na sétima, Saturno; na oitava, as estrelas fixas; e na acrescida nona esfera, o Primo Móbile, motor de todos os seres e coisas, o centro de todo o mundo, a luz que “vive eternamente de seu próprio ardor”, Deus.

A unidade do mundo em seus três reinos é vislumbrada logo no início da jornada, quando Dante e Virgílio passam a porta na qual se lê a inscrição ameaçadora:

Por mim se vai à cidadela ardente,
Por mim se vai à sempiterna dor.
Por mim se vai á condenada gente.

Só justiça moveu o meu autor;
Sou obra dos poderes celestiais,
Da suma sapiência e primo amor.

Antes de mim não foi coisa jamais
Criada senão eterna, e, eterna, duro.
Deixai toda esperança, ó vós, que entrais.
(Canto III, 1-9)

Esta cosmovisão dantesca perduraria muito tempo além da chamada revolução copernicana. Mas o poeta John Milton que, por ser protestante, recusa o Purgatório, descreve a queda do homem como fruto da invasão do Paraíso pelo mal. O Inferno, apesar contido por nove muralhas, encontra-se num outro plano, como se um planeta fosse:

Este mundo suspenso, do tamanho de uma estrela
De pequena grandeza, próximo da lua.
[5]

Poeta de um século copernicano e sob a influência de Galileu, Milton situará o Paraíso para além do “abismo sombrio”, do “vácuo profundo da noite imaterial”, palavras poéticas para descrever o éter que separa os mundos materiais e simbólicos do Inferno e do Paraíso.

Metáforas: acessos, trânsitos, mediações

Evidentemente toda a cartografia dantesca é simbólica, delimitação de fronteiras e de passagens ou transições entre reinos do mal e do bem.

Numa ordem definida por Deus (Paraíso, I, 103-123), Dante introduz uma continuidade entre o mundo greco-romano e o medieval cristão. Não por acaso será guiado pelos desvãos do Inferno por Virgílio e, do Purgatório, por este último e Estácio, aspirante ao Paraíso. Virgílio será detido às margens do rio Letes, no topo da Montanha do Purgatório, à borda do Paraíso.

Para cantar o Inferno e o Purgatório, Dante socorre-se das Musas. Invoca Apolo para ajudá-lo a cantar o Paraíso. Para compor a estrutura dos reinos em que se divide o mundo eterno lança mão, nalgumas vezes, do recurso poético da imaginação criativa, noutras dos personagens mitológicos. É o caso dos acessos e saídas dos reinos do mundo dos mortos: assim, na ante-sala do Inferno encontra-se o barqueiro Caronte (Canto III); no sopé da montanha do Purgatório, encontra-se Catão (Canto I) e, na borda do Paraíso, Matelda, alma de uma condessa destacada por sua fé religiosa. Os acessos são franqueados pelos anjos que enfrentam demônios, como no Canto IX, quando, chegados às portas da cidade infernal, são impedidos de entrar por Prosérpina e suas servas, as Eríneas, e a Medusa ou Górgona.

Em nenhum momento, porém, Dante cede ao paganismo. É o que adverte nos versos 61-63 deste último canto:

Ó vós que tendes o intelecto são,
Meditai na doutrina que se oculta
Nestes meus versos, sob um véu pagão.

A mediação fundamental para o trânsito do poeta é feita por Beatriz que, do Paraíso, acompanha os movimentos de Dante e Virgílio.

A selva escura

A Divina Comédia inicia-se com Dante, perdido numa “selva escura”, encontrar-se acossado por três feras: uma pantera, um leão e uma loba. Dante percebe, com uma dor profunda, a sua morte civil – política, diríamos hoje – acossado, de acordo com Cristiano Martins, pelos símbolos da luxúria, o governo de Florença, da violência, a Casa de França e da avareza, a Cúria papal. Terá de vivenciar esta morte para lograr a recuperação do sentido da vida, do que move a vida, o amor.

Clama por ajuda e quem lhe socorre é Virgílio, poeta romano imortalizado pelo poema épico “Eneida”.

Ao leitor imediatamente ocorre perguntar por que Dante, para escapar à “selva escura”, precisa descer aos círculos do Inferno.

Nos versos do primeiro canto, Virgílio, o guia que o conduzirá nesta descida, diz:

Convém fazeres nova viagem
disse-me, então, ao ver-me soluçando
e escaparás deste lugar selvagem.
(Inferno: I, 91-93)

Conveniência para escapar da morte caminhando em sua direção! – eis o paradoxo que lhe propõe Virgílio. Fala-se aqui de uma situação-limite. Muito mais adiante, no sopé do Monte do Purgatório, Catão, símbolo da liberdade civil, guarda desta esfera do mundo, pergunta-lhes com o apoio de quem conseguiram romper “as leis do abismo” e, assim, devassar o caminho tenebroso (Purgatório: I, 43-46). Ele ouve de Virgílio a resposta de que por força de uma dama celeste (Beatriz) trazia Dante ainda vivo, “mas pela insânia a teve [morte] tão vizinha/que por bem pouco não seria tal”.

Pela insânia, ou seja, pelas loucuras e erros de sua vida, por pouco não morreu. Dante reflete sobre as próprias responsabilidades no desfecho que o conduziu ao exílio. Não há como fugir de si mesmo. É esta situação que o obriga a percorrer o caminho tenebroso tendo Virgílio, seu mestre, como guia. Então se percebe que Dante terá uma morte simbólica para renascer outra vez, livre da insânia, redimido de suas loucuras e erros, de seus excessos.

No início, porém, Dante apenas imagina que será inicialmente uma viagem terrível. È inclusive Virgílio que lhe diz ser uma viagem

…ao âmago do inferno,
onde a inveja primeira refocila.
(Inferno: I, 110-111)

O Inferno é a esfera do mundo dos mortos que é dominada pela “inveja primeira”, aquela que levou à revolta de Lúcifer e sua posterior queda, isto é, o desejo de igualar-se a Deus, de ser um criador.

Dante ao manifestar o seu temor, numa passagem em que alude à Eneida, poema de Virgílio no qual Enéias teria, ainda vivo, descido ao Inferno, retruca claramente:

Receio que empreender um tal destino,
Na minha pequenez, é uma loucura.

Ao que Virgílio adverte ser a covardia fruto de uma alma alienada da razão e incapaz de elevado empreendimento.

Não por acaso Dante situa na ante-sala do Inferno, às margens do rio Aqueronte, os tíbios e covardes que, aguilhoados por moscas e vespas, correm em eterno desespero. Sequer podem entrar no Inferno.

Contudo, Dante pode enfrentar o temor da morte com a garantia de estarem atuando com ele, nesta jornada a iniciar, forças celestes. À inveja opõe-se o amor, que tudo pode: é por intercessão de Beatriz que estas forças atuam, que ele será conduzido ao mundo infernal e de lá sairá vivo. Mas terá de fazer uma escolha.

O amor

O grande motivo da Divina Comédia é o amor. O poema termina com os versos:

O Amor que move o sol, como as estrelas.

O que é o amor? No Canto XVII do Purgatório, Virgílio define para ele tratar-se da tendência humana para fazer o bem dos outros. O ser humano tende natural, espontaneamente ao bem: é uma afirmação ousada que se afasta radicalmente do preceito cristão, pois para este, o homem nasce em pecado porque se separou de Deus. Aqui vale lembrar a ausência, notada por Borges, da personagem de Cristo na Divina Comédia.

O ser humano é naturalmente bom – diz-lhe a condessa Matelda de Canossa, pessoa profundamente religiosa que o poeta encontra no topo do Monte do Purgatório, ali onde o sopro gerado pelo movimento do céu produzia uma aura, uma brisa sutil (Purgatório: XXVIII, 91-96).

Dada por Deus às criaturas, o amor é da ordem natural, mas seu desenvolvimento depende da vontade humana. O amor é, assim, uma “pulsão” que tende ao seu objeto (o bem real ou imaginado) ora com exagerada força, ora com a falta dela. O amor se corrompe, por excesso ou limitação. Assim, há quem por elevar-se mais, almeja do próximo a desgraça.

Um dos momentos mais sublimes de expressão desse amor excessivo – amore d’ animo – é o encontro de Dante com Francesca e Paola, no Canto V do Inferno, círculo no qual os condenados pela luxúria ficam incessantemente submetidos à ventania. A piedade manifesta pelo sofrimento do casal que gira eternamente junto, sem poder comunicar-se, é uma piedade infinita, projeção de um amor perdido, observa Borges. A emoção é tão forte que ele desmaia:

Enquanto aquela sombra o triste amor
Lembrava, a outra gemia em desconforto;
E quase à morte fui, de tanta dor.

E caí, como cai um corpo morto.[6]

Então se entende o sentido da inscrição no portal do Inferno. Mais do que ameaça, uma advertência. A travessia do Inferno é a parte mais pungente da Divina Comédia porque o poeta se defronta com seus próprios sentimentos, muitas vezes sente compaixão e deixa-se tomar pelo sofrimento dos condenados daquela prisão sempiterna, sem saída.

O amor ainda será apenas sentimento, compaixão, dor. Séculos depois, Milton irá abordar o amor não mais como uma tendência intelectiva, mas uma emoção humana, aquela pela qual Adão, para não separar-se de Eva, aceita a expulsão do Paraíso.

O livre arbítrio

Dante que não cometera pecados mortais, mas capitais, adentra na esfera onde se os purga. O anjo fere-lhe na testa a letra P sete vezes, para indicar os sete pecados capitais: a negligência, a soberba, a inveja, a ira, a avareza, a gula e a luxúria.

Deve-se lembrar a recepção de Dante no Purgatório feita por Catão. Virgílio pede-lhe o acolhimento do poeta. Ao pedir-lhe que o acolha, lembra a unidade de propósitos que une Dante a Catão, a liberdade moral. É Catão quem deve admitir a sua entrada no Purgatório, porque, transição entre o Inferno e o Paraíso, ali estão os seres destinados a libertar-se dos pecados e do sofrimento por sua própria vontade: a liberdade moral é o seu valor supremo.

Dissemos a travessia poética do mundo eterno por Dante Alighieri tem o sentido de representar uma interrogação e busca de resposta aos dilemas individuais e coletivos do homem. Autores como Skinner situam o poeta no medievalismo, sob os pressupostos agostinianos do primado divino da Fortuna sobre a Virtú, o destino natural sobre a vontade humana. Parece-nos uma interpretação limitada, apesar do recurso ao próprio poema (Inferno, Canto VII, 67-94). Limitada porque o destino move as coletividades, força que distribui misérias e felicidades entre os povos, de tal modo que um se ergue enquanto o outro decai. Ao indivíduo, porém, atribui o livre-arbítrio, a vontade de poder escolher e fazer ou deixar de fazer. É o que se pode constatar no discurso de Marco Lombardo, no terraço onde, no Purgatório, padecem os iracundos (Canto XVI, 64-79).

É surpreendente ouvir dele a crítica à ideologia da maioria que foge da responsabilidade humana por seus próprios atos. Os versos falam dos homens a caminhar como cegos, sem ver a si mesmos:

Na verdade
o mundo é cego, e vê-se que vens dele.

Vós, os viventes, com simplicidade,
julgais estar aos céus tudo imputado,
por força de fatal necessidade.

Mas com isto se vira erradicado
O livre-arbítrio, e senso não faria
Haver-se o mal punido e o bem premiado.

O céu vossos atos inicia,
Não direi todos, mas se assim fizesse,
Dada vos foi a luz que aponta a via.

Expressão evidente da vontade, a dúvida é o método para alcançar a verdade. A própria Beatriz, ao observar o rigor da dúvida sem fim que o torturava e o faz acompanhar sua viagem pelo Paraíso (Canto IV, 16-17, 130-132), afirma tratar-se de um dom divino:

O dom maior de deus, sublime e certo,
O que mais lhe reflete a faculdade
E que de seu amor está mais perto,
Foi o de querer a inata liberdade
À criatura outorgada inteligente,
E a ela tão só, com exclusividade.
(Paraíso: Canto V, 19-24).

Exercitar a dúvida permite ao poeta questionar os rumos da Igreja junto a teólogos como São Tomás de Aquino, afirmar os princípios do fransciscanismo, resgatar a contribuição dos antigos culpados de paganismo e discernir a sabedoria e a fé. Dante Alighieri ao antever o fim de sua época, vislumbra o nascimento de outro mundo no qual o ser humano tem o poder, em certas circunstâncias, de agir conforme sua vontade.

Rio de Janeiro, 31 de outubro de 2004;
24 de março de 2008.

__________
* Doutor em Ciências da Saúde, atua no Departamento de Endemias Samuel Pessoa da Escola Nacional de Saúde Pública/FIOCRUZ. Blog: http://www.estotz.prosaeverso.net/
[1] Jorge Luis Borges. Sete noites. Rio de Janeiro: Max Limonad, 1987.
[2] Dante Alighieri. A Divina Comédia. Tradução, apresentação e notas de Cristiano Martins para a co-edição da Editora Itatiaia com a Editora da Universidade de São Paulo, 1979, com ilustrações de Gustave Doré. A referência encontra-se na apresentação “A vida atribulada de Dante Alighieri”, na página 69.
[3] Carpeux, Otto Maria. História da Literatura Ocidental. , vol 1. Rio de Janeiro: Allhambra, 1978.
[4] Ou seja, o mundo sublunar, a superfície da Terra.
[5]John Milton. Coleção “Gigantes da Literatura Universal”. Lisboa: Editorial Verbo, 1972.
[6] Veja-se a ilustração de Gustave Doré no início do texto.

Quando queimam as bibliotecas

22/03/2008

por Felipe Fortuna*

Tudo é possível quando a política se une à barbárie – incluindo-se a publicação de um livro e a queima de uma biblioteca. Cada um de nós reagirá de modo previsível diante do lançamento editorial e do ato de vandalismo: respeito e admiração por um, horror e repulsa pelo outro. Num poema ainda ensinado nas escolas francesas como lição de humanismo, “De Quem é o Erro?”, Victor Hugo castiga com dureza uma pessoa que acaba de confessar haver incendiado uma biblioteca. E começa a exclamar colericamente: “Crime cometido por você contra você mesmo, infame! / Você acaba de matar o raio de luz de sua alma! / É a sua própria chama que você acaba de assoprar! / (…) Uma biblioteca é um ato de fé (…) / Então você esqueceu que o seu libertador / É o livro? (…)” Terminada a longa descompostura, em tom de sermão, o poeta que falou sobre a verdade, a virtude e o progresso permite que o delinqüente possa pronunciar uma única frase: “Eu não sei ler.” Subitamente, todo o poema se transforma numa composição irônica na qual a força moral do poeta torna-se oca diante do descaso da sociedade em relação a um analfabeto, que reagiu e se vingou a seu modo.

Por associação, lembrei-me do poema enquanto lia um ensaio perturbador, “Por Que Queimamos as Bibliotecas?”, que trata das violências sociais contra a cultura escrita. Seus autores são dois sociólogos franceses, Denis Merklen e Numa Murard, estudiosos dos recentes episódios de revolta popular que atingiram os subúrbios de Paris – e, especialmente, as bibliotecas de bairro. Eles explicam que, desde 2005, dezenas de bibliotecas foram atacadas e destruídas por moradores do lugar, e se perguntam qual seria o alvo nos casos em questão: uma instituição pública? um prédio que representa o poder ou a República? Essas questões conduzem os sociólogos, por fim, à interrogação decisiva: o que significa, para os vândalos, uma biblioteca?

Imaginei que, tal como aconteceu no poema de Victor Hugo, os responsáveis pelo incêndio seriam chamados a falar, para que pudéssemos conhecer sua motivação. Seriam eles “analfabetos” ou cidadãos “que não sabem ler” e protestam, então, contra os poderosos “iletrados” que se encontram do lado oposto? Não escapa aos sociólogos a quantidade de contradições acumulada no ato de destruir: pois, embora trazida pela municipalidade, a biblioteca oferece algum prestígio ao local. No caso de um país como a França, a biblioteca também se ocupa de abrigar a cultura de diversas etnias, e assim há livros em árabe, em línguas asiáticas e em espanhol nas prateleiras. Trata-se, pois, de um espaço de afirmação individual – a servir até mesmo às mulheres, que encontram na biblioteca, muitas vezes, um modo de escapar ao controle patriarcal.

Aparentemente, contudo, “as bibliotecas são percebidas às vezes como uma força social vinda do exterior”. Ou seja: o espaço de leitura atuaria como a imposição de uma ordem sobre a outra, pela qual até mesmo a disciplina, o isolamento e a interiorização que caracterizam a relação do corpo com o livro se opõem à cultura da rua – que se manifesta pelos protestos do rap, do hip-hop e por agitações e movimentos ruidosos. Nesse sentido, o Estado promoveria um “espaço de virtude” contrário aos desarranjos sociais. Pior ainda: como se fossem a repercussão do poema de Victor Hugo, os ataques recentes às bibliotecas são executados pelos excluídos dos empregos e das escolas, que se sentem ameaçados pelo poder estabelecido a partir do domínio da palavra escrita. Ou como exclamou um cidadão entrevistado para a pesquisa sociológica: “Me dê trabalho no lugar de bibliotecas!”.

Infelizmente para os que se horrorizam diante da queima dos livros, os protestos nos subúrbios de Paris demonstrariam que uma biblioteca pode ser apenas um presente estatal com vistas a serenar os conflitos da sociedade.

Termino a leitura do ensaio em estado de perplexidade: sou de um país onde as bibliotecas são historicamente atacadas não por incendiários populares, mas pelo contínuo abandono e pela escassez de recursos financeiros e humanos. Em vez de fogo, há mofo, poeira, descaso e obsolescência. Na minha infância, por mais que insistisse, não havia biblioteca pública habilitada a estimular a leitura ou alguma vocação. Estudei numa faculdade federal cuja biblioteca, segundo me relatam, foi indignamente surrupiada: pilharam-lhe, por exemplo, edições raríssimas de Luís de Camões e primeiras edições de Machado de Assis, em meio a goteiras e infiltrações. Portanto, se houvesse necessidade de uma agitação social, no caso em questão, creio que teria caráter paradoxalmente construtivo: as pessoas exigiriam locais adequados de leitura, em vez de incendiá-los. E existem iniciativas assim, freqüentemente focadas pela mídia como excentricidades: o pedreiro que mora num subúrbio carioca decidiu transformar a sua casa em biblioteca, pois considera que “o livro transmite a vida”; em Brasília, um comerciante estabeleceu um sistema bem-sucedido de empréstimos grátis de livros em pontos de ônibus.**

Mas algo ainda me inquieta nessas histórias de vândalos e bibliotecas. Trata-se, em poucas palavras, de uma advertência que encontrei num ensaio justamente intitulado “Alfabetização Humanista”, incluído por George Steiner em seu livro Linguagem e Silêncio (1967). O autor indica que estudará “linguagem, literatura e o inumano”, e se mostra pessimista quanto ao valor de uma cultura literária e humanística: “O grau máximo de barbárie política desenvolveu-se no cerne da Europa. (…) Sabemos que alguns dos homens que conceberam e administraram Auschwitz foram educados lendo Shakespeare ou Goethe, e continuavam a lê-los. Isso tem uma óbvia e assustadora relevância para o estudo ou ensinamento da literatura.” Para o crítico, haveria “uma contradição entre o teor de inteligência moral desenvolvido no estudo da literatura e aquele necessário ao discernimento social e político.”

O que fazer? Estaríamos sob o ataque dos que não sabem ler, dos que não querem ou não podem ler, e dos que sabem ler e não se importam com os valores humanistas essenciais. E é por isso que as bibliotecas queimam – e, em casos extremos, as pessoas também.

__________
* Publicado com a autorização do autor. (Fonte: Jornal do Brasil. Caderno Idéias & Livros. Sábado, 15 de março de 2008).
** Mestre em Literatura Brasileira (PUC/RJ), é poeta, ensaísta e autor de várias obras. Home page: www.felipefortuna.com
*** Imagem: Londres, 1940: biblioteca bombardeada.

A sombra do vento, de Carlos Ruiz Zafón

19/03/2008

A Sombra do Vento
Carlos Ruiz Zafón
Rio de Janeiro: Objetiva, 2004
Romance. 464 páginas

Barcelona, 1945. Logo após o fim da guerra, a cidade cuida de suas feridas nas sombras. Um menino chamado Daniel acorda na noite de seu aniversário de 11 anos e descobre que não consegue mais se lembrar do rosto da mãe já morta. Para consolá-lo, seu pai – dono de um famoso sebo – leva-o até o Cemitério dos Livros Esquecidos, uma biblioteca secreta que funciona como depósito para obras abandonadas pelo mundo à espera de que alguém as descubra.

Encorajado pelo pai a escolher um volume da labiríntica biblioteca, Daniel fica fascinado pelo romance A Sombra do Vento, de Julián Carax. Obcecado, empreende uma busca pelas obras do autor e, para sua surpresa, descobre que alguém vem destruindo sistematicamente os exemplares de todos os livros que este já escreveu. Na verdade, o livro que Daniel tem em mãos pode ser o último exemplar existente – o que acabará por colocar sua vida em risco.

Em sua investigação aparentemente inocente, Daniel percorre as praças e cafés do Bairro Gótico, as Ramblas e o Tibidabo, e adentra os mistérios e segredos mais obscuros de Barcelona, vivendo uma história épica de assassinato, magia, loucura e amores perdidos. Logo entenderá que, se não descobrir a verdade sobre Julián Carax, ele e aqueles que ama terão um destino terrível. (Texto da orelha)

alguns links sobre o livro:

http://www.carlosruizzafon.com/

http://www.editoras.com/objetiva/604-9.htm

http://www.observatoriodoalgarve.com/cna/opinioes_ver.asp?opiniao=159

http://www.digestivocultural.com/colunistas/coluna.asp?codigo=1439

http://tigredefogo.blogspot.com/2007/06/primeiro-captulo-sombra-do-vento-shadow.html

http://palavrasdoces.blogs.sapo.pt/31499.html

http://www.livrariadocrime.com.br/?secao=livro&cd_livro=10002049

e etc…

Como perturbar os Bibliotecários

12/03/2008



por Eugenio C. G. Hansen,
bibliotecário da UFRGS

Dia 12 de Março é o Dia do Bibliotecário. Como membro desta categoria não vou imcomodar a vocês com auto-elogios à profissão, vou ensiná-los a nos perturbarem.

Apresentadas pelo bibliotecário indiano S. R. Ranganathan, as Leis da biblioteconomia são as mais eficazes formas de perturbar um bibliotecário. Estas leis são:

1) Os livros são para o uso;
2) A cada leitor o seu livro;
3) A cada livro o seu leitor;
4) Poupe o tempo do leitor
5) A biblioteca é um organismo em crescimento.

Os livros não estão na biblioteca para o deleite do bibliotecário, vocês têm o direito de usarem os livros, conhecer pessoalmente seus conteúdos. Assim toda a vez que um bibliotecário ficar mais preocupado em “salvar” os livros do que atender vocês: reclamem, questionem.

Pela segunda lei, vocês têm o direito de conseguir o livro adequado às suas necessidades. Assim o estudante do ensino médio que está escrevendo um trabalho sobre ossos quebrados não deve aceitar passivamente se lhe for entregue um manual complexo (e em alemão) sobre o tratamento da tíbia e, se tiver recebido o material adequado e desejar aprofundar no tema deve conseguir isto (pelo menos a indicação de outra biblioteca).

A terceira lei é difícil de ser usada pelas pessoas comuns, mas os diretores de escolas, administradores de empresas que mantêm bibliotecas podem questionar sobre a permanência de livros que não são procurados. Um livro não deve estar na biblioteca só por estar, eles ocupam espaço, precisam ser limpos etc. ou seja: não são objetos inocentes e inofensivos.

Chegamos à quarta lei e esta é a mais fantástica para vocês nos perturbarem. Se você é professor e a biblioteca compra um livro que lhe ajudará a preparar uma aula não permita que um bibliotecário seqüestre este livro sob a desculpa de que precisa ser classificado e catalogado, isto pode ser feito depois. Também rebelem-se contra normas e procedimentos que “burrocraticamente” comem o tempo, perguntem o porquê, apresentem alternativas…

A última lei dá a vocês o direito de solicitarem novos e melhores serviços (informatização, hora do conto etc.), que sempre ocorram novas aquisições. Uma biblioteca que não se atualiza está doente e logo pode morrer. Finalizo com o segredo dos segredos para nos perturbarem: O bibliotecário não existe por causa dos livros, mas sim por causa de vocês leitores!

Aspectos políticos de “O Leopardo” de Tomasi di Lampedusa

08/03/2008

por André Del Grossi Assumpção*

RESUMO: “O Leopardo” de Tomasi di Lampedusa é romance histórico-político que ilustra a composição de interesses entre a velha nobreza siciliana e a burguesia nascente. Conceitos usados por Bobbio, como o de poder político, econômico e ideológico são perfeitamente aplicados ao texto. Antes conexas que isoladas, estas formas do poder se completam. O Dom Fabrizio da obra de Lampedusa é o patrão de muitos empregados, é um intelectual próximo à Igreja local, detém apoio armado da monarquia. A passagem destes elementos à burguesia transfere poder e força-o, como a todos os outros nobres de seu tempo, a transigir amargamente.

A obra de Lampedusa

Quando Giusepe Tomasi, príncipe de Lampedusa, escreveu sua obra prima na década de cinqüenta deste século, tinha perfeita consciência da carga histórica que ela trazia. Publicamente manifestou em vida o desejo de escrever sobre a Sicília de seu bisavô paterno, Giulio di Lampedusa, astrônomo como o Dom Fabrizio de seu livro, provavelmente tão desapontado com os acontecimentos de seu tempo quanto o personagem da Casa dos Salina. Portanto, a história de Dom Fabrizio, sua decadência e a de sua família; o enlace de Tancredi com Angélica, filha do burguês ascendente; a solidão da filha Concetta, tudo isso tem enquadramento num momento determinado. Esse momento é o da adesão siciliana à unificação da Itália na segunda metade do século XIX, descritas as condições em que se inicia a ação de Garibaldi, desembarcando na ilha com seus revoltosos camisas vermelhas e sendo depois afastado de um governo que interrompe diversas das reformas a que se propunha o movimento, quando assume a dinastia dos Savóia.

Como texto histórico, para além da prosa de ficção, o livro do príncipe de Lampedusa pode ser também estudado sob o ângulo político. Na leitura de “O Leopardo” observaram-se conceitos apresentados por Norberto Bobbio em “O Significado de Política”. Mais do que procurar a semântica da palavra, Bobbio apresenta os elementos de constituição do que vem a ser política. E o estudo do poder e dos fins da política dão o tom à análise de personagens e fatos no texto do romancista. De um lado temos uma classe política em transição e ajustamento, de outro o estudo da atividade política voltado para certos objetivos. Aliás, a ordem e a estabilidade estão no centro dos acontecimentos do romance, onde tudo muda para que nada mude, buscada no caso uma determinada ordem em especial, aquela que garante a sobrevivência imediata da aristocracia.

Política e leopardos

O termo “política” é na Idade Moderna ligado a ações como “conquistar, manter, defender, ampliar, reforçar, abater, derrubar o poder estatal etc.” (Bobbio, O Significado…, p.6). Maquiavel é exemplo dessa nova disposição. Entendida assim como realização humana, a política está intimamente ligada ao poder, compreendido este como a posse dos meios, seja o domínio sobre outros ou sobre a natureza, para que na relação entre as pessoas se possa obter os efeitos desejados. É, assim, o poder de um homem sobre outro homem, possível em diversas formas; algo que na história dos Salina se evidencia. Na verdade o poder político é só uma das formas de poder. Na tradição clássica destacam-se o poder paterno, o despótico e o político. No jusnaturalismo de Locke apresentam-se o poder paterno, o poder despótico e poder civil. No entanto, mais científico é buscar a classificação usando por critério o meio usado pelo “sujeito ativo da relação para condicionar o comportamento do sujeito passivo”, de onde surgem três principais classes de poder. O primeiro é o poder econômico, que se pauta na posse de certos bens que, por sua escassez, induz outrem ao trabalho como condição de obtê-los. Outro é o poder ideológico, baseado na influência de alguém revestido de autoridade suficiente (sacerdotes, cientistas, intelectuais) para inculcar com eficiência suas idéias. Diferente destes é o poder político, que se apóia sobre a posse dos meios para o exercício da força física, poder de coação no seu sentido mais estrito. São as três formas juntas que normalmente fundam o poder num grupo social, advindas de subsistemas ao sistema social, respectivamente a organização das forças produtivas, a organização do consenso e a organização da coação. Prima o poder político, pois a ameaça de violência é sabidamente o derradeiro recurso da dominação.

Mas a atividade política não é orientada somente pela busca maquiavélica de poder. O poder pelo poder é a forma degenerada daquilo que, na realidade, tem tantos fins quantas são as metas definidas por um grupo específico. Se Lampedusa apresenta senhores ávidos por interromper o progresso “excessivo” das revoltas que se viam, então vemos claro o objetivo da manutenção de uma ordem, a saber, a ordem que tradicionalmente existe. Mas é clara a má-vontade do príncipe Salina quanto a qualquer tipo de mudança, pois qualquer alteração interfere inevitavelmente na sua condição aristocrática já tão ofendida. Situação em que o príncipe vê-se alijado de decisões que lhe dizem respeito, atividade política na qual o maior objetivo de sua classe é conservar-se. A previsão de um espaço acanhado no novo governo gera essa grande indisposição. Faz lembrar as diversas invasões que a ilha já sofreu. E talvez agora o destino de um Salina seja pior, entendido que não lhe será deixado seu pequeno domínio particular, formado por seus privilégios postos sobre suas terras. Essa indisposição que Dom Fabrizio externa, atribui mesmo a todos os sicilianos ao falar da natural imobilidade de seu povo. Nesse sentido é significativa a visita de Aimone Chevalley di Monterzuolo, secretário da prefeitura, a convidar o príncipe para o cargo de senador do novo Reino da Itália. O príncipe não o aceita porque, como explica,

“nós, os sicilianos, habituamo-nos durante uma longa, muito longa hegemonia de governantes que não eram da nossa religião, que não falavam a nossa língua, a mil sutilezas. Quem não fazia isto não podia escapar aos exatores bizantinos, aos emires berberes, aos vice-reis espanhóis. Agora fomos dobrados de novo, somos assim feitos. Disse adesão, não disse ‘participação’. Nestes seis últimos meses, desde que o Garibaldi dos senhores pôs o pé em Marsala, foram feitas demasiadas coisas sem nos consultarem para que se possa agora vir pedir a um membro da velha classe dirigente que as tome em mãos e as tome em bom termo. Não quero discutir neste momento se o que se fez foi mal ou bom; por minha conta, acho que muitas coisas foram más; (…) Na Sicília não importa fazer mal ou fazer bem: o pecado que nós, sicilianos, não perdoamos nunca é simplesmente o de ‘fazer’. Somos velhos, Chevalley, terrivelmente velhos. (…) Não o digo para lamentar-me: a culpa é nossa. Mas, de qualquer maneira, estamos cansados e vazios.” (LAMPEDUSA: 1963, p.109).

E ainda diria: “o sono (…) é o que os sicilianos querem, e eles odiarão sempre a quem quiser despertá-los, nem que seja para lhes trazer os mais belos presentes; e, aqui entre nós, tenho fortes dúvidas de que o novo regime tenha muitos presentes para nós em sua bagagem” (LAMPEDUSA: 1963, p.110).

E aí o fim da articulação política entre burguesia e aristocracia é a manutenção da ordem econômica, primordialmente dos grandes patrimônios. É o elo que une nova e antiga classes dominantes, no momento determinado. A despeito de instantes específicos, Bobbio ensina que a segurança interna e externa e a ordem pública são o fim mínimo de qualquer política; ao qual se integra como instrumento o monopólio da força.

Ao acatarmos a definição de política de Schmitd, relação amigo-inimigo, destacam-se as relações de antagonismo entre homens e grupos sociais. No romance em questão a oposição formadora da política é basicamente entre burguesia e velha nobreza, mas, ainda observando sobre o ponto de vista de amizade e inimizade, podemos apontar que a união entre esses grupos na instalação do novo governo responde a interesses conjunturais, do momento. As classes mais fortes compõem-se para afastar um inimigo comum: as camadas mais baixas e suas aspirações. Por isso as propostas mais corajosas no campo social não são concretizadas ao fim de tudo. Não devemos aceitar a existência das ditas “necessidades históricas”, onde não sobra ao homem o arbítrio político, mas na naquele instante o príncipe tinha apenas duas prováveis conclusões dos fatos, garantir algum espaço junto à burguesia ou arriscar-se à República. Quando cabe ao príncipe escolher, a escolha já está feita, é ineficaz evitar que a burguesia avance. É possível, porém, evitar que os fatos desemboquem numa República, demasiadamente popular, algo ainda mais repulsivo para a nobreza que a aliança com os capitalistas.

A política e o social, ou Estado e sociedade civil, como diz Bobbio, são mais apartados à medida que a atividade mercantil burguesa se desenvolve. Em “O Leopardo”, estamos vivendo já a consolidação de uma nova realidade estabelecida pela Revolução Industrial, em outros países da Europa e mesmo em alguns Estados italianos continentais. Os liberais do texto do príncipe de Lampedusa estão integrados nessa nova concepção de Estado. Onde a liberdade de iniciativa requer menor interferência, e onde já não cabem privilégios de nobreza feudal. Os Salina serão igualados a Dom Calógero na sua capacidade de juntar a si os fatores de poder. Ao mesmo tempo se completa o impedimento da interferência desmedida da Moral junto ao governo. É de se lembrar que o principal alvo dos liberais são as terras da Santa Madre Igreja, o que não pareceria justo aos mais religiosos. Em nome da sobrevivência, podem-se ver nobres como Salina manifestarem vontade contrária à sua consciência, votando diferente do que diria a fidelidade ao rei. Mesmo os males de uma guerra são justificados porque “em contrapartida, teremos liberdade, segurança, menores impostos, facilidades, comércio, todos ficaremos melhor; só os padres vão perder”(LAMPEDUSA: 1963, p.36).

Unificação italiana: a Política à época de Dom Fabrizio

A Sicília é a maior ilha do Mediterrâneo, separada da Itália continental pelo estreito de Messina. Sua localização incitou a cobiça estrategista estrangeira desde as mais antigas datas. Houve invasões gregas, cartaginesas, romanas e sarracenas (de muçulmanos norte-africanos). O clima mediterrâneo é ameno mas o solo siciliano é em geral pobre e no verão torna-se ressecado pela falta de chuvas, quando até mesmo os rios secam. Esta situação, que as modernas técnicas de irrigação só começam a alterar a partir de meados deste século XX, é bem evidenciada na obra de Lampedusa, principalmente nas descrições de Donnafugata, propriedade familiar do príncipe, onde a falta de água é patente e os poços servem tanto como fonte como cemitério de animais.

Vários foram os momentos de prosperidade na história da ilha, mas longo foi seu subdesenvolvimento. Desde o século XV as terras foram divididas em grandes propriedades que pertenciam a poucas famílias. As indústrias sempre foram, até a Segunda Guerra, raras, quase não as havia. Os fazendeiros praticavam uma agricultura sob métodos antiquados e faziam poucos esforços para evitar a erosão do solo. Daí a pobreza ser um dos males mais inquietantes entre a maioria da população, reforçando o poder econômico dos proprietários. Dom Fabrizio é um desses grandes proprietários, e seu poder, nas formas do texto de Bobbio, vem diretamente da propriedade, em pleno acordo com a tradição feudal, em que o proprietário tem direito até sobre aqueles que sobre suas terras se instalam.

Em 1848 diversas revoltas despontaram na Áustria, França, vários Estados germânicos e todas as cidades importantes da Itália. Sardenha e Nápoles ganharam Constituições, Milão expulsou os exércitos austríacos, novas Repúblicas surgiram em Veneza, Roma e Toscana. No ano seguinte a Áustria controlou as rebeliões. Vítor Emanuel II assume o trono da Sardenha. E o rei de Nápoles, Fernando II da Casa Bourbon, então fugido para a Sicília, parte integrante do Reino das Duas Sicílias, cancela a Constituição e tenta restabelecer seu absolutismo. Com a ajuda da França o Papa retoma para si Roma. As revoluções parecem terminadas. Mas a Sardenha manteve sua Constituição e a bandeira tricolor, símbolo do patriotismo italiano. Ao que parece é bandeira essa que Tancredi de “O Leopardo” promete trazer de suas campanhas junto aos liberais.

O primeiro-ministro Cavour da Sardenha trabalhou para projetar a imagem de um Estado progressista e independente, tomando a posição de porta-voz da Itália contra a Áustria. Essa liderança irritou os austríacos que abriram guerra, cedendo, porém, à resistência dos soldados italianos unidos aos franceses. Porém, Napoleão III da França estava descontente pelo que julgava excessivo poder da Sardenha afinal, e retira seu apoio. E quando Garibaldi, veterano da Guerra dos Farrapos, aqui no Brasil, avançou por mar sobre a Sicília com seus mil “camisas vermelhas”, vencendo as tropas napolitanas e alcançando o continente, a Sardenha de Cavour temeu que o ataque a Roma trouxesse França e Áustria contra eles. Medo ainda maior era o de que Garibaldi conseguisse estabelecer na Itália uma República, e não a Monarquia que se esperava. Então as tropas garibaldinas foram barradas pelas de Cavour. Vítor Emanuel II, dinastia de Savóia, proclamou o reino da Itália, em 1861. O povo aprovou a unificação através de um plebiscito, descrito no romance de que tratamos. De qualquer modo consumada a anexação do território, e convencido da necessidade de apoiar naquele momento os liberais, Dom Fabrizio havia difundido entre os seus o voto de “sim”. No entanto a conversa com Dom Ciccio mostra-o que houve votos pelo “não”. Ele mesmo não se sente bem em votar a favor da unificação mas “nem mesmo concebia que se pudesse proceder de outra forma: “quer porque se estava perante um fato consumado, quer por respeito à teatral banalidade do ato; acrescenta-se ainda a necessidade histórica, e o receio pelas desgraças que aconteceriam às pessoas humildes se a sua atitude negativa fosse descoberta.”(LAMPEDUSA:1963, p.88). Se muitas pessoas não votaram o “sim” teria sido porque “havia entrado em jogo o maquiavelismo abstrato dos sicilianos que tantas vezes induzia essa gente (…)”, “Como clínicos muito hábeis que se tivessem baseado em análises de sangue e urina totalmente falseadas, e cuja correção não fizessem por preguiça excessiva, os sicilianos (de então) acabavam por matar o doente, ou seja, a si próprios, precisamente pela sua astúcia, quase nunca apoiada no conhecimento real dos problemas ou dos interlocutores.”(LAMPEDUSA:1963, p.88), “Alguns destes (…) julgavam impossível que um Príncipe de Salina pudesse votar a favor da Revolução (…) e interpretavam os seus raciocínios como ditos irônicos”. Aqueles que acreditaram no voto do príncipe consideraram-no insensato, “convencidos a não lhe dar ouvidos e obedecer, pelo contrário, ao provérbio milenar, que aconselha a preferir um mal já conhecido a um bem não experimentado”(LAMPEDUSA:1963, p.89), votando o “não” por essa razão ou por motivos pessoais de outra ordem.

A situação antes fragmentada da Itália não interessava aos objetivos comerciais dos burgueses italianos. Por isso liberais como Dom Calógero são essenciais na movimentação revolucionária. O continente, a partir de 1830, passa a acompanhar importante desenvolvimento industrial, e os investidores, principalmente dos Estados italianos mais avançados, sentiram necessidade de prover a centralização que expandiria seus negócios. Porém, esta classe sentia-se receosa quanto à instalação dos ideais republicanos. Não tinham ainda força suficiente para tomar para si o comando do governo. Assim, evitando as mudanças estruturais que a ameaçassem como classe proprietária, a burguesia busca a monarquia constitucional que pudesse com mais segurança desenvolver a economia. Ainda é a propriedade, e as rendas, que moldam a política do novo Estado, embora tudo tenha uma nova face. O verdadeiro maquiavelismo, como ação isenta da moral que deveria reger as ações individuais, foi usar a população mais simples para atingir vitórias sem jamais pensar nas reformas que esta reclamava. Assim é demonstrado quando chegam Tancredi e seu amigo Cavriaghi à casa dos Salina, dirigindo-se ao príncipe: “Não se fala mais em garibaldinos, Tiozão. Nós fomo-lo, mas acabou-se. Cavriaghi e eu, graças a Deus, somos oficiais do exército regular de Sua Majestade, Rei da Sardenha por alguns meses ainda, da Itália dentro de pouco tempo. Quanto ao exército de Garibaldi, foi dissolvido e mandaram-nos escolher: ou voltar para casa, ou ficar nos exércitos do rei. Ele e eu, como muitos outros, entramos no exército, no ‘verdadeiro’ ” (LAMPEDUSA:1963, p. 122).

Marcantes as declarações emocionadas de Dom Ciccio Tumeo: “Há muito pano para manga para traficantes como Sedàra, para quem o lucro é uma lei da natureza. Para nós, a arraia miúda, as coisas ficam na mesma” e continua “Era ‘súdito fiel’, virei um ‘bourbônico sujo’. Agora toda a gente é ‘saboiana’!” (LAMPEDUSA:1963, p.94).

O poder econômico: as Revoluções

A história dos Salina é a todo momento apresentada segundo símbolos. A função de cada representação é elevar o enredo ao seu plano original, a história real da Itália. Assim, o casamento de Tancredi e Angélica quer dizer mais do que o casamento destas personagens, refere-se à articulação entre a antiga nobreza feudal e a burguesia ascendente. A “pílula amarga” que o Príncipe engoliu foi na verdade engolida por muitos nobres contemporâneos seus, e é isso que o autor quer nos trazer. Assim como os burgueses evitam avanços “demasiados” na sua política liberal, apoiando uma unificação monárquica. Também os aristocratas são impulsionados a participarem de uma aliança que sabem ser um duro golpe ao seu poder, mas necessária para evitar uma queda absoluta pelas mãos dos mais entusiásticos liberais. Da mesma forma a submissão do padre Pirrone a Dom Fabrizio não remete a outra coisa senão à relação entre a religião e os grandes senhores, situação que até a última página do livro é alterada, desfecho também mostrado de forma simbólica.

Conforme escreve Bobbio, embora seja o fator político de força o único capaz de, em última instância, fazer resistir um Estado, é de se notar que o fator econômico é muito significativo. O poder ideológico pode ser melhor exercido se acompanhado pela superioridade econômica. A violência poderá ser invocada com maior sucesso se houver recursos financeiros que possibilitem isso. Sendo a conjugação entre eles que possibilitou e tem possibilitado a dominação por um ou outro grupo, tais fatores estão também presentes na família Salina. Primeiro é de se lembrar que a Sicília, embora tenha prosperado muitas vezes em sua longa história, tornou-se economicamente subdesenvolvida a partir do século XV. A maior parte das terras foi dividida em grandes propriedades, que pertenciam a um pequeno número de pessoas. As pessoas se empregavam no campo. Reforçam-se os laços de dependência entre a população miserável das “villas” e aqueles que têm o poder econômico.

Na Sicília da época a passagem do dinheiro dos aristocratas aos burgueses representa, portanto, passagem de poder. Dom Calógero é extremamente avarento, mas, “quando é preciso, sabe gastar; e porque cada ‘tari’ que se gasta neste mundo vai parar nos bolsos de alguém, acontece que neste momento muita gente depende dele” (LAMPEDUSA: 1963, p.97). Aqui não está outra coisa senão a descrição do poder econômico tratado por Bobbio. E se ao burguês se deve a perda de poder dos nobres, é ao mesmo Dom Calógero, “às suas intrigas obscuras, à sua avareza e avidez tenazes que se devia o sentido de morte que, agora, claramente, ensombrecia estes palácios”. (p.179). Juntamente com a riqueza crescia também a influência política: “tornara-se chefe dos liberais na povoação e até nos lugares vizinhos; quando se fizessem as eleições tinha a certeza de que seria feito deputado.”(LAMPEDUSA: 1963, p.58). O príncipe chega a ironicamente recomendá-lo ao Senado: “Ele tem mais méritos que eu (…); mais do que aquilo que o senhor chama prestígio, ele tem o poder” (LAMPEDUSA: 1963, p.110). E a idéia de apresentar-se inferior assusta a Dom Fabrizio: “ Não só ele, o príncipe, não era já o maior proprietário de Donnafugata, como era obrigado a receber em traje de tarde um convidado que se apresentava em traje de cerimônia.” (LAMPEDUSA: 1963, p.67).

É essencial considerar a situação de um príncipe como Dom Fabrizio, suas posses são antigas, passaram por aquele reforço do feudalismo no século XV, como dissemos. Aí se insere o atraso da região em relação às outras áreas da Europa e ainda a cidades italianas como Florença, refúgios de idéias republicanas, destacando-se ainda nos primórdios do Renascimento. O poder do Príncipe vem de sua propriedade, sobre terras e também sobre pessoas que nelas vivam. Exerce o poder em seu direito de dono. As “villas” pertenciam ao senhor e eram apenas administradas por um síndico. Os principados da ilha não resistiriam às intenções liberais que ideário da República trazia. Já decadentes, os príncipes sabem, contudo, que somente com a manutenção de algumas distinções é que poderão sobreviver. Por isso negam seus laços com o monarca e apóiam os liberais. O trecho que melhor representa essa intenção é a argumentação de Tancredi ao seu tio quando parte para integrar os exércitos liberais, em favor da unificação. “Do lado do rei, com certeza, mas de que rei?” e “Se nós não estivermos lá, eles fazem uma República. Se quisermos que tudo fique como está, é preciso que tudo mude”(LAMPEDUSA: 1963, p.32). Sobre o grifo que fizemos existe a referência à necessidade de projetar alterações para evitar mudanças significativas, fator maior de interesse político nas classes da obra de Lampedusa. Significa exatamente o reconhecimento do fortalecimento dos liberais. É também o mesmo critério que diferencia “Revoluções” e “revoluções”. As verdadeiras Revoluções alteram a base do sistema, mudam essencialmente as relações que caracterizam a organização social. Pretensiosas revoluções são aquelas que tratam da simples substituição de governos ou relações superficiais, sem interferir naquelas que realmente formam a base da construção social. A idéia de que as coisas não mudam prevê a sobrevivência da aristocracia. Pensamos que a história contada por Lampedusa pode ser entendida tanto por um como por outro ponto de vista. Não é Revolução se considerarmos que já era consagrada a atividade capitalista em desfavor do feudalismo e a unificação não alterará a relação que as elites têm com a propriedade e a riqueza. Mas será uma Revolução se considerarmos que naquele momento se completa na Sicília o que já ocorrera em outras nações, a longa transição do feudalismo ao capitalismo. Os desgastes são calculados e melhor que deter-se fiel a um rei sem perspectivas é participar da atividade revolucionária e, terminados os confrontos, ter meios para barganhar junto ao novo rei por alguma segurança ao velho patrimônio. Tudo muda, mas na essência tudo fica como antes. Não é despercebido, porém, o fato de que os nobres não teriam jamais o poder que já tiveram. Isso porque:

“As riquezas com muitos séculos de existência haviam-se transformado em arrebiques, em luxo, em prazeres, e nada mais; a abolição dos direitos feudais decapitara ao mesmo tempo as obrigações e os privilégios; a riqueza, como um vinho velho, deixava cair no fundo da pipa as bôrras da cobiça, dos cuidados, e mesmo as da prudência, para conservar apenas o calor e a côr. E assim, acabava por se destruir a si própria: esta riqueza, que havia atingido o seu objetivo, compunha-se agora apenas de essências e, como essências, evaporava-se ràpidamente. E já algumas daquelas propriedades de ar festivo haviam levantado vôo e delas restavam apenas telas pintalgadas e os seus nomes. Outras pareciam aquelas andorinhas de setembro que, embora ainda presentes, já estão reunidas em grande gritaria nas árvores, prestes a partir. Mas eram tantas…; parecia que jamais poderiam acabar.” (LAMPEDUSA:1963, p.33).

É a consciência da degradação, aliada a uma boa dose de egoísmo, que proporciona o ajuste com os liberais no novo governo “Para nós, um paliativo que nos garanta mais cem anos de vida equivale à eternidade”. (LAMPEDUSA: 1963, p.41). Isso reforçado pela já referida convicção de que nessa disputa ocorrerão “Negociações ao ritmo de descargas inofensivas. Depois tudo ficará na mesma, embora tudo tenha mudado.”(LAMPEDUSA: 1963, p.34).

“Afinal, esta gente, êstes liberais do campo queriam, apenas, poder enriquecer mais fàcilmente. Era tudo. A andorinhas iriam levantar vôo mais cedo. E nada mais. De resto havia ainda muitas no ninho. (…) Muita coisa iria acontecer mas tudo seria uma comédia; uma ruidosa e romântica comédia com algumas gotas de sangue nas roupas burlescas. A Itália era o país dos reajustamentos, não havia nela a fúria francesa; mas também que havia acontecido de novo em França com exceção do movimento revolucionário de junho de 48?”(LAMPEDUSA:1963, p.37).

O poder político

Luigi Banzini, autor dos textos agrupados em “Os Italianos”, aponta quatro grandes males que caracterizaram, no seu modo de ver, a configuração do povo italiano.

O primeiro deles é a pobreza, marcante a concentração de riquezas. Em segundo temos a ignorância, que afasta o povo comum dos embates pelos rumos da política. Em terceiro vem a injustiça. Por todos os lugares da Itália há marcas de brutalidade e impunidade. Histórias de injustiças na atrasada Sicília são os instrumentos de Tancredi para divertir-se com os temores do secretário da prefeitura, Chevalley di Monterzuolo, quando os visita para convidar o príncipe ao cargo de senador. Em quarto aparece o medo. Cada uma destas mazelas tem seu espaço na sociedade italiana, mas, como escreveu Banzini, o medo é fator mais destacado, tanto mais porque se forma a partir da conjugação dos outros problemas, derivando-se deles. Do mesmo modo encontramos as colocações de Bobbio aplicada ao texto de Lampedusa. O mal da pobreza é a fonte do poder econômico. A ignorância é campo fértil ao poder ideológico. Injustiça e medo estão presentes na eficácia da ação violenta, do poder político na acepção de Bobbio. Assim como em “O Significado de Política”, prevalece o “argumento” coativo. A posição social de cada indivíduo é determinada pelo grau de medo que seja capaz de inspirar, em função direta do halo de temor que o circunda. Afora a propriedade de suas terras e a intimidação intelectual, o príncipe Salina detém também influência sobre a força policial, poder decorrente da proximidade da aristocracia siciliana junto ao governo. Demonstra isso a passagem em que Dom Fabrizio e o padre Pirrone recebem acompanhamento de soldados na viagem até uma casa de prostituição na cidade (LAMPEDUSA: 1963, p.27). O trecho que parece melhor simbolizar a decadência do poder político, este no conceito de Bobbio, é aquele em que o empregado Russo apresenta ao patrão o apoio de seus amigos, prometendo tranqüilidade na “villa”. “O príncipe sentia-se humilhado: neste momento via-se descido à categoria de protegido dos amigos de Russo; o seu único mérito, ao que parecia, era ser tio de Tancredi” e também “Dentro de uma semana acabarei por descobrir que vou salvar a vida porque tenho Bendicò aqui em casa”(LAMPEDUSA: 1963, p.37).

Salvo o exagero, se as armas de um príncipe consistem em um cão, não há mais príncipe.

O poder ideológico

Acompanhando a perda de riqueza e poder político, desgastam-se as bases para o poder ideológico. Mas ainda por muito tempo a distinção de nobreza é capaz de comover os novos burgueses e tradicionalmente continua a colher alguma estima e admiração dos trabalhadores das “villas”. Porém a detenção de conhecimento e difusão das idéias aristocráticas por si sós não mais podem assegurar a primazia dos príncipes em relação aos homens ricos. Tal distinção se torna, assim, o arrimo em que se escoram senhores como Dom Fabrizio, algumas vezes compensando-se pelas perdas gerais, outras tentando colocar-se ao alto dos adversários, como no episódio em que o Príncipe se compraz do mau-gosto no corte das roupas de Dom Calógero.

O conhecimento intelectual compõe também o poder ideológico. A astronomia era para o príncipe tal qual a “morfina” (LAMPEDUSA: 1963, p.34) usada nos Estados Unidos, uma requintada distração que adormece os sentidos e evita ser mais dolorosa a decadência. Aliás, daí parece ser possível evidenciar uma metáfora que permeia todo o livro: a decadência dos aristocratas, do Príncipe Salina em especial, como uma “doença” que evolui inexoravelmente. A astronomia é morfina, para acalmar a angústia. A união à família de Dom Calógero é uma “pílula amarga”. O voto de “sim” no plebiscito pela unificação é um copinho de “óleo de rícino” (LAMPEDUSA: 1963, p.91). Ora, o Príncipe está doente, seu mal é o enfraquecimento dos Salina. Mas esses “tratamentos” não levam à cura; são apenas paliativos. E a morte anda à espreita: “o aspecto do príncipe, seu rosto, tornaram-se tão solenes e sombrios que ele parecia caminhar atrás de um invisível carro fúnebre” (LAMPEDUSA: 1963, p.90). Nas páginas que cercam essa descrição se impõem as palavras luto e remorso pelo abandono à monarquia anterior. De qualquer forma, é logo aí anunciada a “concessão de um subsídio de duas mil liras para os esgotos, obra que terminaria no ano de 1961, como assegurou o síndico, caindo num daqueles ‘lapsus’ de que Freud deveria explicar o mecanismo muitas dezenas de anos depois”. Evidentemente, o erro de datas por esse síndico não foi resultado de uma sua predisposição positiva. A Itália que nascia em Sicília com aquele plebiscito afastava então para sempre o velho Reino, e, sabia o Príncipe, também seu poder como já fora um dia.

Porém estava clara a grande composição que se faria ali. A burguesia detinha agora o poder econômico, o Estado italiano colocaria a força coativa a favor de quem lhe importasse. No entanto, a idéia de ascensão social inclui o ganho de títulos honoríficos; estes títulos estariam a venda de diversas formas, pelo casamento, pela fraude nas investigações genealógicas ou mesmo pela compra direta. Em sua mente o Príncipe dizia: “Vocês não nos querem aniquilar, a nós, os vossos ‘pais’. Querem apenas tomar o nosso lugar. Com doçura, com boas maneiras, metendo-nos talvez no bôlso alguns milhares de ducados.” (LAMPEDUSA: 1963, p.91). Nesse momento os burgueses obterão títulos e Salina já pode ver o chamado Russo dizendo-se descendente de um grão-duque de Moscou, embora o nome russo provavelmente derive é da textura de seu cabelo, russo. Poderíamos dizer que nobres e burgueses realizam uma troca. De um lado burgueses abastados buscam nobreza, de outro, aristocratas empobrecidos buscam dinheiro. “Tancredi era para Angélica a promessa de um primeiro lugar na alta sociedade siciliana, mundo que ela imaginava cheio de maravilhas bem diferentes do que na realidade aí existiam.” (LAMPEDUSA: 1963, p.117). E “nos bailes de Palermo, afugentados os espectros da expropriação e da violência, as duzentas pessoas que compunham ‘a sociedade’ não se cansavam de encontrar-se, sempre as mesmas, para se congratularem de existir ainda” (LAMPEDUSA:1963, p.171). E, de forma geral, não é tão pesaroso tal encontro de classes porque nas festas em Palermo “os palermitanos são italianos, tão sensíveis portanto quanto os outros ao fascínio da beleza e ao prestígio do dinheiro”(LAMPEDUSA:1963, p.175). Outros símbolos do poder ideológico dos Salina, como a capela por eles construída, pintada com leopardos, são igualmente perdidos até o final do livro. A perda da influência junto à Igreja é cabal quando se dá a visita do clérigo encarregado de “selecionar” o que é válido na capela da família. “Temos então de nos apresentar diante das pessoas das nossas relações como acusadas; isto de uma inspeção à nossa capela, desculpe-me que lhe diga, monsenhor, não devia sequer ter passado pela cabeça de Sua Eminência”(LAMPEDUSA:1963, p.204). “Esse papa faria melhor se se ocupasse do que lhe diz respeito”(LAMPEDUSA: 1963, p.205).

“O prestígio do nome em si mesmo tinha-se desvanecido pouco a pouco. O patrimônio, dividido e redividido, na melhor das hipóteses, equivalia ao de tantas outras casas menos ilustres e era muitíssimo menor que o de alguns opulentos industriais. Mas, no que diz respeito à Igreja, às suas relações com ela, os Salina tinham sempre conservado a sua proeminência (…). Mas agora?” (LAMPEDUSA: 1963, p.210).

Mesmo as lembranças, guardadas em telas e pequenos objetos, acabam por se esvaziar de sentido. Na consolidada realidade liberal da Itália unificada não há mais espaço para reais privilégios de nobreza e nome. Em “O Leopardo”, juntado esse termo ao fracasso pessoal na vida dos sucessores como Concetta, isso é simbolicamente apresentado no arremesso ao lixo de Bendicò empalhado. É ele a única lembrança forte dos tempos de ainda alguma distinção social e diferenciada dignidade. Na realidade não nesse ponto, mas bem antes disso, já estava a superação da antiga nobreza pela burguesia capitalizada.

Conclusões

“O Leopardo” retrata mais do que o drama da família Salina, mas a história de uma Sicília quase feudal em pleno século dezenove. Sob as lentes de “O Significado de Política”, de Bobbio, o livro se mostra vivo em exemplos e aplicações práticas da exposição sobre as formas de poder, os fins da política, as relações que configuram essa atividade humana, a atividade política. Os Salina tiveram o poder econômico, e com ele juntaram sob si mesmos diversas pessoas em suas “villas”. Fez-se presente o poder político, pois os instrumentos coativos do Estado se põem ao lado da classe mais privilegiada. E também cultivaram o poder ideológico; o príncipe tem perto de si a Igreja, representada tanto pela capela quanto pelo próprio padre Pirrone, trabalha uma ciência e recebeu educação distinta.

Nas dificuldades que o movimento revolucionário impõe é possível observar o ajustamento com os burgueses. Como foi escrito, as coisas teriam de mudar para que nada mudasse de verdade. O fim da política desse tempo, ou seja, os resultados buscados pela atividade política, parecem não ser outros que a manutenção de uma ordem específica e a estabilidade voltadas para o progresso comercial e industrial. As classes mais fortes temem mais que tudo a ameaça a suas vitórias econômicas. Enganados estariam, como sabemos, os grandes proprietários tradicionais de terras, sua decadência não será imediata mas virá certamente. O Príncipe “imaginou ser um imponente leopardo de pelo liso e perfumado que se preparava para despedaçar um chacalzinho amedrontado; mas, por uma daquelas involuntárias associações de idéias que são o flagelo das naturezas como a sua, veio-lhe à memória a imagem de um daqueles quadros históricos franceses nos quais desfilam marechais e generais austríacos, no ato da rendição, carregados de condecorações e penachos, perante um Napoleão irônico; eram mais elegantes que ele, sem dúvida, mas, seja como for, o vitorioso é o homenzinho de capote cinzento.” (LAMPEDUSA: 1963, p.101).

Contrariando a dinamicidade que caberia à posição de mando, tal como Maquiavel teria exortado aos governantes, Dom Fabrizio não se rebela contra sua decadência. Se em algum momento se irrita, procura antes esquecer de tudo através da caça ou de viagens a suas propriedades. Cabe-lhe a pergunta de Tancredi “Cortejas a morte?” (LAMPEDUSA: 1963, p.182). Resta-nos concluir que está contada a história de uma classe que se perde e sabe disso, e que com a monarquia savoiana apenas ganha tempo. Lembre-se que o cão empalhado Bendicò é o último vestígio do passado aristocrático. Extremamente significativo que a lembrança mais viva da nobreza dos Salina estivesse morta há várias décadas.

Bibliografia
BANZINI, Luigi. Os Italianos. Tradução de Newlands Neto. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1966.
BOBBIO, N. Curso de Introdução à Ciência Política. O Significado de Política. s.n.
LAMPEDUSA, Tomasi di. O Leopardo. Tradução de Rui Cabeçadas. 3. Ed. São Paulo: Difusão Européia do livro, 1963.
MAQUIAVEL. O Príncipe. Tradução Antonio Caruccio-Caporale. Porto Alegre: L & PM Pocket, 1999.

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* Bacharel em Direito pela Universidade Estadual de Maringá – UEM – e Promotor de Justiça no Estado do Paraná. Originalmente publicado em: Revista Urutágua. Ano I, N.º 01, Maio de 2001, Bimensal, Maringá – PR.