Critérios da crítica literária

por Antonio Gramsci*

O conceito de que a arte é arte e não propaganda política “desejada” e proposta será, em si mesmo, um obstáculo à formação de determinadas correntes culturais que sejam reflexo do seu tempo e que contribuam para reforçar determinadas correntes políticas? Não parece. Antes pelo contrário, parece que tal conceito coloca o problema em termos mais radicais e em termos de uma crítica mais eficiente e conclusiva. Pelo fato de que na obra de arte se deve procurar apenas o caráter artístico, não quer dizer que se tenha de excluir a pesquisa sobre aquela massa de sentimentos, sobre a atitude para com a vida, que circula na própria obra de arte. Pelo contrário: que tal seja admitido pelas modernas correntes estéticas é o que se vê em De Sanctis e no próprio Croce. O que se exclui é que uma obra seja bela, pelo seu conteúdo moral e político, e não pela sua forma em que o conteúdo abstrato se fundou e identificou. Mais ainda: indaga-se se uma obra de arte faliu porque o autor foi desviado por preocupações práticas exteriores, isto é, postiças e não sinceras. Este parece ser o ponto crucial da polêmica. Fulano “quer” exprimir artificiosamente um determinado conteúdo e não faz obra de arte. A falência artística dessa obra de arte (porque Fulano demonstrou ser artista noutras obras por ele realmente sentidas e vivias) demonstrou que esse conteúdo em Fulano é matéria surda e rebelde, que o entusiasmo de Fulano é fictício e querido exteriormente, que Fulano não é, naquele determinado caso, artista, mas servo que quer agradar aos patrões. Há portanto duas séries de fatos: uma de caráter estético, ou de arte pura, a outra de política cultural (isto é, de política, pura e simplesmente). O fato de se chegar a negar o caráter artístico de uma obra, pode servir ao crítico político, como tal para demonstrar que Fulano, como artista, não pertence àquele determinado mundo político, e porque a sua personalidade é prevalentemente artística, que na sua vida íntima e mais sua, aquele determinado mundo não age, mas existe: Fulano, portanto, é um comediante da política, quer fazer crer que é o que não é, etc., etc. O crítico político denuncia portanto Fulano, não como artista, mas como “oportunista político”.

Que o homem político faça uma pressão para que a arte do seu tempo exprima um determinado mundo cultural, é atividade política e não de crítica artística: se o mundo cultural, pelo que se luta, é um fato vivente e necessário, a sua expansividade será irresistível, encontrará os seus artistas. Mas se apesar da pressão, esta irressistibilidade não se vê e não age, significa que se tratava de um mundo fictício e postiço, elucubração livresca de medíocres que se lamentam que os homens de maior estrutura não estejam de acordo com eles. O mesmo modo de por a questão pode ser um indicio de solidez de um tal mundo moral e cultural, e de fato o chamado “caligrafismo” não é senão a defesa de pequenos artistas, que afirmam oportunisticamente certos princípios, mas se sentem incapazes de os exprimir artisticamente, isto é, na atividade que lhes é própria e então deliram de forma pura que é seu próprio conteúdo, etc., etc. O princípio formal da distinção das categorias espirituais e da sua unidade de circulação, mesmo no seu abstracionismo, permite colher a realidade dos fatos e criticar a arbitrariedade e a pseudovida de quem não quer jogar com as cartas na mesa, ou é simplesmente um medíocre, e que foi posto por acaso num posto de comando.

No número de março de 1933 da Educação Fascista, veja-se o artigo polêmico de Argo contra Paul Nizan (Idee d’odre confine), a propósito da concepção de uma nova literatura que surja de integral renovação intelectual e moral. Nizan parece que põe bem o problema quando começa por definir o que é uma integral renovação das premissas culturais e por limitar o campo da própria pesquisa. A única objeção fundada de Argo é a seguinte: a impossibilidade de saltar um estágio nacional, autóctone, da nova literatura e os perigos “cosmopolitas” da concepção de Nizan. A partir deste ponto de vista, muitas críticas de Nizan a grupos de intelectuais franceses se devem rever: “N.R.F.”[1], o “populismo”, etc., até o grupo do “Monde”[2], não porque as críticas não sejam justas politicamente, mas precisamente porque é impossível que a nova literatura deixe de se manifestar “nacionalmente” em combinações e ligas diversas, mais ou menos híbridas. É toda a corrente que é preciso examinar e estudar objetivamente.

Aliás, pelo que diz respeito à relação entre literatura e política, há que ter presente este critério: que o literato deve ter perspectivas necessariamente menos precisas e definidas que o homem político, deve ser menos “sectário”, se assim se pode dizer, mas de um modo “contraditório”. Para o homem político toda imagem “fixa” “a priori” é reacionária: o político considera todo o movimento no seu devir. O artista deve pelo contrário ter imagens “fixas” e moldadas na sua forma definitiva. O político imagina o homem como ele é, e, ao mesmo tempo, como deveria ser para atingir um determinado fim; o seu trabalho consiste precisamente em conduzir os homens a moverem-se, a saírem do seu presente para se tornarem capazes coletivamente de atingir o fim proposto, isto é, a “conformarem-se” ao fim. O artista representa necessariamente aquilo que existe, num certo momento, de pessoal, de não-conformista, etc., realisticamente. Por isso, do ponto vista político, o político nunca estará contente com o artista e nunca poderá estar: encontrá-lo-á sempre atrasado com os tempos, sempre anacrônico, sempre superado pelo movimento real. Se a história é um contínuo processo de libertação e de autoconsciência, é evidente que cada estágio, como história, neste caso como cultura, será imediatamente superado e já não interessará mais. Tudo isto me parece que é preciso ter em conta para avaliar os juízos de Nizan sobre os diversos grupos.

Mas de um ponto de vista objetivo, assim como ainda hoje, para certos estratos da população, é “atual” Voltaire, assim podem ser atuais, e o são de fato, estes grupos literários e as combinações que eles representam: objetivo quer dizer neste caso, que o desenvolvimento da renovação intelectual e moral não é simultâneo em todos os estratos sociais, muito pelo contrário: ainda hoje, é bom repeti-lo, muitos são ptolemaicos e não copernicianos. Existem muitos “conformismos”, muitas lutas por novos “conformismos”, e combinações diversas entre aquilo que é (adjetivado de muitas maneiras) e aquilo que se procura fazer aparecer (e são muitos os que trabalham neste sentido). Colocar-se do ponto de vista de uma “única” linha de movimento progressivo, pelo qual cada nova aquisição se acumula e se torna a premissa de novas aquisições, é um grave erro: não só as linhas são múltiplas, mas verificam-se também passos atrás na linha “mais progressista”. Além disso, Nizan não sabe por a questão da chamada “literatura popular”, isto é, a questão do sucesso que tem nas massas populares a literatura de cordel (de aventuras, policial, etc.), sucesso que é favorecido pelo cinema e pelo jornal. E mesmo assim, é esta questão que representa a maior parte do problema de uma nova literatura enquanto expressão de uma renovação intelectual e moral: porque só a partir dos leitores de literatura de cordel se pode selecionar o público suficiente e necessário para criar a base cultural da nova literatura. Parece-me que o problema é este: como criar um corpo de literatos que esteja para a literatura de cordel como Dostoievski estava para Sue e para Soulié, ou como Chesterton, no romance policial, estava para Conan Doyle e para Wallace, etc.? É preciso para tal abandonar muitos preconceitos, mas é preciso pensar especialmente que não só não se pode ter o monopólio, mas que se encontrará uma formidável organização de interesses editoriais.

O preconceito mais comum é este: que a nova literatura se deve identificar com uma escola artística de origem intelectual, como aconteceu com o futurismo. A premissa da nova literatura não pode deixar de ser histórica, política, popular: deve tender a elaborar o que já existe, polemicamente de outra forma, não importa; o que importa é que mergulhe as suas raízes no hómus da cultura popular tal como é, com os seus gostos, as suas tendências, etc., com o seu mundo moral e intelectual, ainda que seja atrasado e convencional.

__________

* In: GRAMSCI, Antonio. Obras Escolhidas. São Paulo: Martins Fontes, 1978, p.362-364.
[1] Nouvelle Revue Française (NEI).
[2] Trata-se da revista fundada em 1928 por Henri Barbusse que desempenhou grande papel na criação de uma frente de luta antifascista e dos intelectuais (NEF).
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