A política e o romance, de Irving Howe

Considerado um clássico da crítica americana, no que diz respeito às relações entre romance e política. Nesta obra, o autor analisa como os grandes romancistas dos séculos XIX e XX encontraram na política uma fonte de inspiração. Na primeira parte, ele discute a concepção do romance político e: Stendhal e a política da sobrevivência; Dostoiévski e a política da salvação; Conrad: ordem e anarquia; Turguiêniev e a política da hesitação; e Henry James e a vocação política. Na segunda parte, analisa romancistas americanos e a política do isolamento. Na parte III, ele discute os autores Malraux, Silone e Koestler, no século XX; e Orwell e a história como pesadelo. No epílogo, ele analisa escritores contemporâneos, como Kundera, e a difícil relação entre romance e política.

Howe considera o romance “Os possessos”, também traduzido como “Os demônios”, escrito por Dostoiévski, como: “O maior de todos os romances políticos, Os Possessos, foi escrito com o objetivo explícito de excomungar todas as crenças que encontram salvação em qualquer outro lugar que não o Deus cristão” (p.8). Ele observa que Dostoiévski abomina o iluminismo. Com efeito, o problema que mais atormentava os intelectuais russos no século XIX era a relação com o povo. Para Irving Howe, Dostoiévski fazia um esforço desesperado pelo amor e a humildade. Era uma forma de expiação:

“Pelo menos em parte, a política de Dostoiévski é uma função de sua psicologia, isto é, de sua luta para sanar sua fissura moral, e de sua aversão à doença que encontra em todos os homens. Dostoiévski temia o intelecto autônomo, o vaguear sem fé que ele próprio experimentara e retrataria posteriormente em Ivan Karamazov; ele temia que o intelectual, relaxado dos controles do cristianismo e alienado do calor humano do povo russo, sentir-se-ia livre para cometer os atos mais monstruosos, para satisfazer a sede de sua vaidade” (p.36).

Ele ressalta que “para Dostoiévski, a salvação advém apenas do sofrimento extremo” (p.51). E observa ainda que “Dostoiévski encarava o radicalismo como uma conspiração marginal, uma enfermidade que havia infectado a intelligentsia e o lumpenproletariat” (p.156).

A respeito de Stendhal, Howe afirma: “O Vermelho e o Negro é um romance sobre política numa época que torna a política impossível” (p.20). Também é interessante a referência feita à Maquiavel: “Aqueles que virtuosamente condenam Maquiavel geralmente o detestam por pregar o que eles próprios praticam, e ainda mais, por descrever o que praticam” (25).

Howe faz uma análise crítica de O Zero e o Infinito, escrito por Arthur Koestler. Para ele, “o romance é crucialmente falho” (p.175). Koestler cria um personagem, cuja lógica da capitulação estaria dialeticamente determinada no ser individual. O crítico observa que antes de Rubachov capitular, ele já foi destruído e se autodestruiu. A capitulação não pode, portanto, ser compreendida como um ato de expiação, a resultante natural psíquica do indivíduo ou uma estratégia de denúncia do stalinismo. O indivíduo sucumbe porque é o elo fraco na engrenagem repressiva do Estado.

O autor aborda o personagem através da alternativa ou/ou: o ativismo amoral (Os fins justificam os meios) ou a passividade moral. Tratas-se de um raciocínio fundado em absolutos – e nesse sentido o stalinismo pode ser justificado, já que perde-se a noção de que a história é feita por opções dos homens e que estas não se resumem apenas a alternativas duais.

Ainda sobre o stalinismo e suas origens, o autor analisa o romance “O caso do camarada Tulaire”, de Victor Serge.

Essas obras anunciam uma “história como pesadelo”, a qual seria a melhor definição para o livro “1984”, de George Orwell:

“1984 projeta um pesadelo no qual a política substitui a humanidade e o Estado sufocou a sociedade. Num certo sentido, é um livro profundamente antipolítico, cheio de ódio pelo tipo de mundo no qual reivindicações públicas destroem as possibilidades da vida pessoal… (…) Nenhum outro livro conseguiu interpretar de forma tão completa a característica essencial do totalitarismo” (p.184).

Uma das observações mais importantes aos que se interessam por esse gênero literário, consiste em reconhecer que: “Romancistas comprometidos com temas políticos não têm necessariamente que chegar a conclusões políticas: em geral é melhor que não tentem fazê-lo” (p.197). Muitas vezes, a tentativa de imprimir o caráter político à obra literária resulta no empobrecimento desta, no mais puro panfletarismo. Por outro lado, obras literárias escritas sem a ambição de expressarem uma mensagem política, tornaram-se, por fatores muitas vezes externos às mesmas, excelentes obras políticas. Em suma, a riqueza de uma obra literária não é necessariamente determinada pela intenção política do seu autor.

Vale a pena ler “A política e o romance”, de Irving Howe (São Paulo: Perspectiva, 1998), bem como as obras relacionadas e analisadas por ele.
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