O espelho do mundo atual

Considerada “menor”, a ficção científica tem se mostrado mais realista do que a “grande literatura”, ao abordar as transformações tecnológicas e sociais causadas pela informática e pela globalização, tornando o controle social ainda mais sofisticado

por Valerio Evangelisti**

A globalização da economia, o papel hegemônico da informática, o poder de uma economia desmaterializada, as novas formas de autoritarismo ligadas ao controle da comunicação, todos estes temas parecem deixar indiferentes os escritores da “grande literatura”, pelo menos na Europa. Na maior parte de seus romances, o mundo parece imutável. Predominam as histórias intimistas, que poderiam ter-se passado há cinqüenta anos – ou que poderiam acontecer daqui a cinqüenta anos… Amores, paixões e traições perpetuam seu consumo à luz de uma vela, num mundo de cores pálidas e cheirando a poeira e talco. Há, é claro, algumas exceções; mas na maior parte do tempo o cenário geral é imoderadamente “minimalista”.

O estilo insosso, extenuado, passou a ser considerado como realista. Parece deter a verdade, a ponto de tornar-se a única forma de literatura nobre. Pouco importa se o autor, que não tem tempo a perder, digita seu texto num computador e o envia por correio eletrônico. Pouco importa se o tempo de impressão foi reduzido em mais da metade graças às novas tecnologias. Essas inovações vulgares não poderiam refletir-se na história, sob pena de contaminá-la e reduzir sua carga de sublime. A prosa “realista” situa-se fora do tempo; o que é ancorado no tempo não tem valor.

Obediência ao mercado

É lógico que a literatura “branca” arrasta consigo sua antítese, o roman noir. Aqui, a rua, o conflito, o urbano, o social desempenham um papel importante. Já as estruturas planetárias do sistema, as evoluções históricas, as mutações psicológicas e comportamentais que o desenvolvimento tecnológico gera não têm papel algum, exceto em casos raros. Os acontecimentos se reduzem ao conflito entre alguns indivíduos animados pelas eternas paixões: ódio, vingança, amor, sede de justiça. O “maximalismo” do cenário se dissolve no “minimalismo” do tratamento: policial corrupto, ou dúbio, ou honesto, contra criminoso honesto, dúbio ou corrupto. Nem sempre, mas com bastante freqüência. E no entanto o sistema é questionado, em seu conjunto. Na realidade, trata-se de um “minimalismo” mais amplo, ou de um “maximalismo” reduzido. Dois passos à frente e um passo atrás.

O fato é que hoje, mais do que nunca, o sistema diluiu-se em escala continental e o controle sobre as vidas individuais se encontra nas mãos de um poder anônimo e longínquo. Um volume vertiginoso de trocas decide no espaço de um dia centenas de milhares de destinos: uma fábrica fecha na França, uma revolta estoura na Indonésia, uma empresa italiana desloca sua produção para a Albânia, um aventureiro ganha milhões de dólares na Austrália e os perde na Espanha no dia seguinte; tudo isso escoltado por milhares de dramas que ninguém se encarrega de registrar… Alguém gostaria de saber quem está na origem de tantas tragédias? Descobre-se que são acionistas inconscientes que confiaram suas economias a um administrador de fundos. Este último também é parcialmente inconsciente: tudo o que ele conhece é o mercado. Ora, o mercado não é uma entidade física, é um conjunto de equilíbrios gerado por regras. Quem impôs tais regras? Os governos. Mas os governos também são inconscientes, pelo menos em parte: tomam decisões em ligação com outros governos mais poderosos. A quem obedecem estes últimos? Em teoria, ao mercado, na realidade, a ninguém…

Estranho código genético

Se procurássemos o elemento detonador, talvez terminássemos por descobri-lo num professor alcoólatra, numa pequena universidade norte-americana de província… O qual, em pleno delírio etílico, elabora uma teoria fundada sobre nada, mas em afinidade total com o que, naquele momento, a política de seu governo exige… A teoria se mistura à ideologia, o resultado se metamorfoseia em político, a política se transforma em poder, o poder se faz potência.

O capitalismo tradicional contentava-se com a publicidade. Agora, vai mais longe: na imaginação, nos sonhos, nas mais íntimas visões do mundo. O crescimento da comunicação o permitiu, impondo modos de vida, criando necessidades onde não havia, aumentado a sede de afirmação do indivíduo. Não se compreende nada da sociedade contemporânea se não se levar em conta a rápida colonização do imaginário consumada nestes últimos anos. Antes, desempenhávamos um papel produtivo durante um certo número de horas por dia, enquanto o resto do tempo era dedicado à diversão e ao repouso, isto é, a nós mesmos. As atividades de descontração, todas baseadas na comunicação, prolongaram o campo da produtividade à custa do lazer e do tempo de repouso. Quase todos os espetáculos televisivos contêm incitações à compra, seja através de publicidade explícita ou referências a modos de vida considerados melhores para todos.

Imagens sem contexto

A imagem já causou verdadeiras comoções sociais: a corrida às mercadorias ocidentais depois da queda do muro de Berlim, a chegada maciça de albaneses à Itália, atraídos pela fascinação das ondas televisivas captadas além-Adriático… Mas se a informação é uma coisa, a sua manipulação é outra. Hoje em dia, a comunicação capitalista visa diretamente o inconsciente. A produção simbólica, antes ajustada à evolução dos séculos, tornou-se frenética. Incentiva-se sem pudor a perda de identidade.

Por outro lado, informação e comunicação são partilhadas quando os grandes temas estão em jogo. Imensas tragédias se reduzem a diligentes seqüências de imagens, tão rápidas que delas nada resta. Ver um jornal da CNN é não ver nada. Sai-se com uma série de noções inutilizáveis, porque ali falta o contexto, a análise, a reflexão. É verdade que a profundidade é a grande inimiga dos que controlam os destinos de outros (ainda que de forma anônima). O sistema só subsiste se os subordinados viverem na futilidade. E daí a exigência de introduzir em sua intimidade, até na sua psique, falsas informações, falsas representações para que não percebam sua condição.

As formas bastardas da ficção

A ficção científica, o fantástico, a literatura centrada no imaginário, têm o poder de reforçar a inventividade contra este gênero de agressões. Elas o utilizam menos do que seria necessário, e às vezes nem o utilizam. A ficção científica norte-americana contemporânea é a sombra do que foi: padronizada, pobre, reduz-se muitas vezes a formas bastardas de vulgarização científica, tão nulas literária quanto intelectualmente. A renúncia à ambigüidade e à provocação foi, certamente, fatal.

Todavia, não se deve esperar que a “grande literatura”, o mainstream (de tal forma indiferente à sociedade que o cerca que fez do descompromisso e do retorno sobre si um critério de qualidade) conduza a resistência contra a colonização do imaginário.

É necessário para isto uma narração “maximalista”, consciente de si mesma, que preocupe e não console. A ficção científica foi isto. Poderia sê-lo de novo.

Traduzido por Maria Elisabete de Almeida.

__________
* Fonte: Le Monde Diplomatique – Brasil, 12 de agosto de 2000. Disponível em: http://diplo.uol.com.br/2000-08,a1817, acesso em 26.04.08. Enviado por Alexandre Linares.
** Valério Evangelisti, nascido em Bolonha, em 1952, historiador e articulista político, é autor, entre outras obras, de Black Flag (2005), O Inquisidor (2006) e As Correntes da Inquisição (2007), publicados pela Editora Conrad (São Paulo). Sobre os dois últimos, ver as resenhas Sobre velhos e novos inquisidores e A permanência da Inquisição, publicadas respectivamente na Revista Espaço Acadêmico, nº 60 (maio de 2006) e nº 75 (agosto de 2007). Disponíveis em http://www.espacoacademico.com.br/060/60res_ozai.htm e http://www.espacoacademico.com.br/075/75res_ozai.htm.

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