Archive for maio \31\UTC 2008

A literatura contra o efêmero – por Umberto Eco

31/05/2008

O ensaísta italiano fala sobre a permanência dos clássicos na era da realidade virtual

Para que serve a literatura? Eu poderia dizer que ela não serve para nada, mas uma visão tão crua do prazer literário corre o risco de igualar a literatura ao jogging ou às palavras cruzadas

Os grandes livros contribuíram para formar o mundo. A “Divina Comédia”, de Dante, por exemplo, foi fundamental para a criação da língua e da nação italianas. Certos personagens e situações literárias oferecem liberdade na interpretação dos textos, outros se mostram imutáveis e nos ensinam a aceitar o destino.

Reza a lenda, e “se non è vera, è ben trovata”, que certa vez Stálin perguntou quantas divisões tinha o papa. O que ocorreu nas décadas seguintes provou que, sem dúvida, as divisões são importantes em determinadas situações, mas não são tudo. Existem poderes imateriais cujo peso não se pode medir, mas que ainda assim pesam.

Estamos rodeados de poderes imateriais, que não se restringem aos chamados valores espirituais, como os das doutrinas religiosas. Também é um poder imaterial o das raízes quadradas, cuja rígida lei resiste aos séculos e aos decretos, não só de Stálin, mas do próprio papa. E entre esses poderes eu incluiria também o da tradição literária, isto é, do complexo de textos que a humanidade produziu e produz, não com fins práticos, mas “gratia sui”, por amor a si mesma, e que são lidos por prazer, elevação espiritual ou para ampliar os conhecimentos.

É verdade que os objetos literários são imateriais em parte, pois geralmente encarnam em veículos de papel. Mas houve um tempo em que eles encarnavam na voz de quem recordava uma tradição oral, ou entalhados em pedra, e hoje estamos discutindo o futuro dos e-books.

Mas para que serve esse bem imaterial, a literatura? Eu poderia responder, como já fiz noutras vezes, dizendo que ela é um bem que se consuma “gratia sui” e que portanto não serve para nada. Mas uma visão tão crua do prazer literário corre o risco de igualar a literatura ao jogging ou às palavras cruzadas, que, além do mais, também servem para alguma coisa, seja manter o corpo saudável, seja enriquecer o léxico. Do que estou tentando falar é, portanto, da série de funções que a literatura tem na nossa vida individual e social. A literatura mantém a língua em exercício e, sobretudo, a mantém como patrimônio coletivo. A língua, por definição, vai para onde ela quer, nenhum decreto superior, nem político nem acadêmico, pode interromper seu caminho nem desviá-lo para situações que se pretendem ótimas. A língua vai para onde quer, mas é sensível às sugestões da literatura. Sem Dante não teria existido um italiano unificado. Dante, em “De Vulgari Eloquentia”, analisa e condena os vários dialetos italianos, propondo-se a forjar uma nova língua vulgar ilustrada. Ninguém apostaria nada nesse gesto de soberba, mas, com a “Comédia”, Dante ganhou o desafio. É verdade que vários séculos tiveram de passar para que o vulgar dantesco se tornasse uma língua falada por todos, e só o conseguiu porque a comunidade dos que acreditavam na literatura continuou a se inspirar naquele modelo. Sem esse modelo, talvez nem sequer tivesse vingado a idéia de uma unidade política. Mas a prática literária também mantém em exercício nossa língua individual. Hoje muitos lamentam o surgimento de uma linguagem neotelegráfica que se impõe por meio do correio eletrônico e das mensagens nos celulares, em que até para dizer “te amo” se usa uma sigla. Mas não esqueçamos que os jovens que trocam mensagens utilizando essa nova taquigrafia são, ao menos em parte, os mesmos que se apinham nas novas catedrais do livro, as megalivrarias, onde, mesmo que só folheando sem comprar, eles têm contato com estilos cultos e elaborados, aos quais não foram expostos nem seus pais nem seus avós.

A leitura das obras literárias obriga a um exercício de fidelidade e de respeito dentro da liberdade de interpretação. Há uma perigosa heresia crítica, típica dos dias de hoje, segundo a qual é possível fazer qualquer coisa com uma obra literária. Não é verdade. As obras literárias convidam à liberdade de interpretação porque propõem um discurso com muitos planos de leitura, defrontando-nos com a ambiguidade da linguagem e da vida.

Mas, para poder intervir nesse jogo, em que cada geração lê as obras literárias de um modo diferente, é preciso ter profundo respeito por aquilo que chamo a intenção do texto. No final do capítulo 35 de “O Vermelho e o Negro”, diz-se que Julien Sorel vai à igreja e atira contra Madame de Rênal.

Tendo observado que o braço do protagonista tremia, Stendhal diz que Julien dá um primeiro tiro, mas erra o alvo, depois dá um segundo, e a senhora cai. É possível sustentar que o tremor de seu braço, acrescido do fato de errar o primeiro tiro, indicam que Julien não foi à igreja com um firme propósito homicida, mas antes movido por um confuso impulso passional.

A essa interpretação é possível contrapor outra: que Julien tinha desde o início a intenção de matar, mas era um covarde. A partitura autoriza ambas as interpretações. Alguém também pode perguntar onde foi parar a primeira bala, o que é uma boa dúvida para os devotos stendhalianos. Assim como os devotos de Joyce vão a Dublin para procurar a farmácia onde Bloom teria comprado um sabonete em forma de limão, podemos imaginar devotos stendhalianos tentando descobrir em que lugar do mundo fica Verrières e sua igreja, esquadrinhando todas as colunas do templo em busca do buraco daquela bala. Seria um episódio de fanatismo bastante divertido.

Mas suponhamos agora que um crítico pretenda basear toda sua interpretação do romance no destino da tal bala perdida. Nos tempos que correm, isso não é inverossímil, até porque houve quem baseasse toda a sua leitura de “A Carta Roubada”, de Poe, na posição da carta em relação à lareira. Mas, se para Poe a posição da carta é explicitamente pertinente, Stendhal diz que nunca se soube mais nada daquela primeira bala, excluindo-a assim do conjunto de entidades fictícias. Sendo fiel ao texto stendhaliano, essa bala se perdeu definitivamente, e onde ela foi parar é irrelevante do ponto de vista narrativo. Por outro lado, o que se cala em “Armance” sobre a possível impotência do protagonista incita o leitor a tecer frenéticas hipóteses para completar aquilo que o relato não diz, ao passo que, em “Os Noivos”, de Alessandro Manzoni, uma frase como “a desventurada respondeu” não diz até que ponto Gertrude levou seu pecado com Egidio, mas o halo escuro de hipóteses induzidas ao leitor aumenta o fascínio dessa página tão pudicamente elíptica. Para muitos, essas coisas poderão parecer obviedades, mas tais obviedades (muitas vezes esquecidas) confirmam o mundo da literatura como inspirador da fé na existência de certas proposições que não podem ser postas em dúvida, com o que ele oferece um modelo de verdade, ainda que imaginário.

Migração

Podemos fazer afirmações verdadeiras sobre personagens literários porque o que lhes acontece está registrado em um texto, e um texto é como uma partitura musical. É verdade que Anna Karenina se suicida, assim como é verdade que a “Quinta Sinfonia” de Beethoven foi escrita em dó menor (e não em fá maior, como a “Sexta”) e se inicia com “sol, sol, sol, mi bemol”. Mas certos personagens literários, não todos, acabam saindo do texto em que nasceram e migrando para uma região do universo muito difícil de delimitar.

Foram emigrando de texto em texto (e, por meio de várias adaptações, de livro para filme ou balé, ou da tradição oral para o livro) tanto personagens dos mitos como da narrativa “leiga”: Ulisses, Jasão, o rei Artur ou Percival, Alice, Pinóquio, D’Artagnan. Mas, quando falamos de personagens desse tipo, referimo-nos a uma determinada partitura? Vejamos o caso de Chapeuzinho Vermelho. As duas versões mais célebres, a de Perrault e a dos irmãos Grimm, têm profundas diferenças. Na primeira, a menina é devorada pelo lobo, a história termina aí, inspirando portanto severas reflexões moralistas sobre os riscos da imprudência. Na segunda, aparece o caçador, que mata o lobo e devolve a vida à garota e à avó. Final feliz.

Pois bem, imaginemos uma mãe que conte a história para seus filhos e a encerre com o lobo devorando Chapeuzinho. As crianças protestariam e pediriam a “verdadeira” história, aquela em que Chapeuzinho ressuscita, e de nada valeria a mãe declarar ser uma filóloga estritamente ciosa das fontes literárias. As crianças conhecem uma história “verdadeira” em que Chapeuzinho de fato ressuscita, e essa história é mais afim à versão dos Grimm que à de Perrault.

Esses personagens se tornaram coletivamente verdadeiros, de certo modo, porque ao longo dos séculos a comunidade fez um investimento afetivo neles. Fazemos investimentos afetivos individuais em muitas fantasias que criamos nos nossos devaneios. Podemos realmente nos comover pensando na morte de uma pessoa amada, ou ter sensações físicas ao imaginar um contato erótico com essa pessoa. De modo semelhante, por meio de um processo de identificação ou de projeção, podemos nos comover com a sorte de Emma Bovary ou, como ocorreu com algumas gerações, sermos levados ao suicídio pelos sofrimentos de Werther ou de Jacopo Ortis. Mas, se alguém nos perguntasse se de fato morreu a pessoa cuja morte imaginamos, responderíamos que não, que foi apenas uma fantasia privadíssima. Contudo, se nos perguntassem se realmente Werther se matou, responderíamos que sim, e essa fantasia não é mais privada, mas uma realidade cultural com que toda a comunidade de leitores concorda. Tanto que julgaríamos louco quem se suicidasse por ter imaginado a morte da amada (sabendo que se trata de fruto de sua imaginação), ao passo que tentaríamos de algum modo justificar a atitude de quem se matasse por causa do suicídio de Werther, mesmo sabendo que se trata de um personagem fictício.

Teríamos então de encontrar a região do universo em que esses personagens vivem e determinam nosso comportamento, tanto que os tomamos como modelo de vida, própria e alheia, e entendemos muito bem quando se diz que alguém sofre de complexo de Édipo, tem uma fome de Pantagruel, um comportamento quixotesco, os ciúmes de um Otelo, uma dúvida hamletiana ou é um don Juan incorrigível. Contudo hoje há quem diga que também os personagens literários correm o risco de se tornar fugazes, mutáveis, inconstantes, de perder aquela fixidez que nos impedia negar seu destino. Entramos na era do hipertexto, e o hipertexto eletrônico nos permite não apenas viajar dentro de um novelo textual (seja uma enciclopédia inteira ou a obra completa de Shakespeare) sem necessariamente ter de “desenrolar” toda a informação que ele contém, penetrando-o como uma agulha de tricô num novelo de lã. Graças ao hipertexto, nasceu também a prática de uma escritura inventiva livre. Na Internet há programas para escrever histórias em grupo, em que os participantes tecem narrações cujos rumos podem ser modificados até o infinito. Pensem no seguinte: vocês leram “Guerra e Paz” com paixão, se perguntando se Natasha por fim cederia às lisonjas de Anatol, se o maravilhoso príncipe Andrea realmente morreria, se Pierre teria coragem de atirar em Napoleão, e agora vocês podem refazer seu Tolstói, dando a Andrea uma vida longa e feliz, transformando Pierre no libertador da Europa. E, muito mais, vocês podem reconciliar Emma Bovary, agora mãe feliz e pacificada, com seu pobre Charles; fazer Chapeuzinho Vermelho entrar no bosque e encontrar Pinóquio ou então ser raptada pela madrasta e obrigada a trabalhar com o nome de Cinderela para Scarlett O’Hara, ou então encontrar no bosque um mágico chamado Vladimir Propp, que lhe dá um anel encantado graças ao qual ela descobrirá, ao pé da bananeira sagrada dos tugues, o Aleph, aquele ponto de onde se vê todo o universo. E Anna Karenina não morrerá esmagada nos trilhos porque, sob o governo de Putin, os trens russos de bitola estreita funcionam pior do que os submarinos, enquanto longe, muito longe, além do espelho de Alice, Jorge Luis Borges lembra a Funes, o memorioso, que não se esqueça de devolver “Guerra e Paz” à biblioteca de Babel. Seria isso errado? Não, porque também a literatura já o fez, e antes dos hipertextos, com o projeto de “Le Livre”, de Mallarmé, os cadáveres “exquis” dos surrealistas, os milhões de poemas de Queneau, os livros móveis da segunda vanguarda. Iuri Lotman, em “Cultura e Explosão”, retoma a famosa recomendação de Tchecov segundo a qual, se no início de uma narração ou de um drama se mostra um fuzil pendurado na parede, antes do fim esse fuzil deverá disparar. Lotman dá a entender que o verdadeiro problema é se o fuzil realmente disparará. É justamente o fato de não saber se o fuzil disparará ou não que confere significância ao enredo. Ler uma história também é ser capturado por uma tensão, por um espasmo. Saber se no final o fuzil disparou ou deixou de disparar não tem o simples valor de uma notícia. É a descoberta de que as coisas aconteceram, e para sempre, de certo modo, à margem do desejo do leitor. O leitor deve aceitar essa frustração e, por meio dela, sentir o tremor ante o Destino. Se pudéssemos decidir o destino dos personagens, seria como ir ao balcão de uma agência de viagens: “Então, onde o senhor quer encontrar a Baleia, em Samoa ou nas Aleutas? E quando? Deseja matá-la o senhor mesmo ou deixa o serviço para Queequeg?”. A verdadeira lição de “Moby Dick” é que a baleia vai para onde ela quer.

Pelos olhos de Deus

Pensem na descrição que Hugo faz da batalha de Waterloo em “Os Miseráveis”. Diferentemente de Stendhal, que descreve a batalha pelos olhos de Fabrizio, que está dentro dela e não entende o que está acontecendo, Hugo a descreve pelos olhos de Deus, vê a cena do alto: sabe que, se Napoleão soubesse que além da crista do Mont Saint-Jean havia um precipício (o que seu guia omitira), os couraceiros de Milhaud não teriam sucumbido aos pés do exército inglês; que, se o pastorzinho que guiava Bülow tivesse sugerido outro percurso, a esquadra prussiana não teria chegado a tempo de decidir a sorte da batalha.

Numa estrutura hipertextual, poderíamos reescrever a batalha de Waterloo fazendo com que os franceses de Grouchy chegassem antes dos alemães de Blücher, e já existem divertidos jogos de guerra que nos permitem fazer isso. Mas a trágica grandeza daquelas páginas de Hugo reside no fato de (à margem do nosso desejo) as coisas acontecerem como acontecem. A beleza de “Guerra e Paz” está em que a agonia do príncipe Andrea termine com a morte, por mais que essa morte nos desagrade.

A dolorosa maravilha que cada releitura de um grande clássico nos proporciona se deve a que seus heróis, que poderiam fugir de um fim atroz, por debilidade ou por cegueira, não entendem contra o que se debatem e se precipitam no abismo que cavaram com os próprios pés. Por outro lado, Hugo disse, depois de mostrar as oportunidades que Napoleão poderia ter aproveitado: “Era possível que Napoleão ganhasse essa batalha? A resposta é não. Por quê? Por causa de Wellington? Por causa de Blücher? Não. Por causa de Deus”.

É isso o que dizem todas as grandes histórias, sendo possível, em todo caso, substituir Deus pelo destino ou pelas leis inexoráveis da vida. A função das narrativas imodificáveis é justamente essa: contrariando nosso desejo de mudar o destino, nos fazem experimentar a impossibilidade de mudá-lo. E assim, que seja a história que elas contem, contarão também a nossa, e é por isso que as lemos e as amamos. Necessitamos de sua severa lição “repressiva”. A narrativa hipertextual pode educar para o exercício da criatividade e da liberdade. Isso é bom, mas não é tudo. As histórias “já feitas” nos ensinam também a morrer. Creio que essa educação para o fado e para a morte é uma das principais funções da literatura. Talvez existam outras, mas agora me escapam.

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* Umberto Eco é escritor e semiólogo italiano, autor de, entre outros, “A Ilha do Dia Anterior” e “O Pêndulo de Foucault”, ambos da Record. O texto acima é uma versão de um discurso do autor sobre as funções da literatura. Tradução de Sergio Molina.
Fonte: Folha de São Paulo, Caderno “Mais”, de 18/2/2001. Disponível em
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs1802200105.htm
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Sobre os perigos da leitura – por Rubem Alves

24/05/2008

Nos tempos em que eu era professor da Unicamp, fui designado presidente da comissão encarregada da seleção dos candidatos ao doutoramento, o que é um sofrimento.

Dizer “esse entra, esse não entra” é uma responsabilidade dolorida da qual não se sai sem sentimentos de culpa. Como, em 20 minutos de conversa, decidir sobre a vida de uma pessoa amedrontada? Mas não havia alternativas. Essa era a regra.

Os candidatos amontoavam-se no corredor recordando o que haviam lido da imensa lista de livros cuja leitura era exigida. Aí tive uma idéia que julguei brilhante. Combinei com os meus colegas que faríamos a todos os candidatos uma única pergunta, a mesma pergunta. Assim, quando o candidato entrava trêmulo e se esforçando por parecer confiante, eu lhe fazia a pergunta, a mais deliciosa de todas: “Fale-nos sobre aquilo que você gostaria de falar!”.

Pois é claro! Não nos interessávamos por aquilo que ele havia memorizado dos livros. Muitos idiotas têm boa memória. Interessávamo-nos por aquilo que ele pensava. O candidato poderia falar sobre o que quisesse, desde que fosse aquilo sobre o que gostaria de falar. Procurávamos as idéias que corriam no seu sangue!

A reação dos candidatos, no entanto, não foi a esperada. Aconteceu o oposto: pânico. Foi como se esse campo, aquilo sobre que eles gostariam de falar, lhes fosse totalmente desconhecido, um vazio imenso. Papaguear os pensamentos dos outros, tudo bem. Para isso, eles haviam sido treinados durante toda a sua carreira escolar, a partir da infância. Mas falar sobre os próprios pensamentos — ah, isso não lhes tinha sido ensinado!

Na verdade, nunca lhes havia passado pela cabeça que alguém pudesse se interessar por aquilo que estavam pensando. Nunca lhes havia passado pela cabeça que os seus pensamentos pudessem ser importantes.

Uma candidata teve um surto e começou a papaguear compulsivamente a teoria de um autor marxista. Acho que ela pensou que aquela pergunta não era para valer. Não era possível que estivéssemos falando a sério. Deveria ser uma dessas “pegadinhas” sádicas cujo objetivo é confundir o candidato. Por vias das dúvidas, ela optou pelo caminho tradicional e tratou de demonstrar que havia lido a bibliografia. Aí eu a interrompi e lhe disse: “Eu já li esse livro. Eu sei o que está escrito nele. E você está repetindo direitinho. Mas nós não queremos ouvir o que já sabemos. Queremos ouvir o que não sabemos. Queremos que você nos conte o que você está pensando, os pensamentos que a ocupam…”. Ela não conseguiu. O excesso de leitura a havia feito esquecer e desaprender a arte de pensar.

Parece que esse processo de destruição do pensamento individual é consequência natural das nossas práticas educativas. Quanto mais se é obrigado a ler, menos se pensa. Schopenhauer tomou consciência disso e o disse de maneira muito simples em alguns textos sobre livros e leitura.

O que se toma por óbvio e evidente é que o pensamento está diretamente ligado ao número de livros lidos. Tanto assim que se criaram técnicas de leitura dinâmica que permitem ler “Grande Sertão: Veredas” em pouco mais de três horas. Ler dinamicamente, como se sabe, é essencial para se preparar para o vestibular e para fazer os clássicos “fichamentos” exigidos pelos professores. Schopenhauer pensa o contrário: “É por isso que, no que se refere a nossas leituras, a arte de não ler é sumamente importante”.

Isso contraria tudo o que se tem como verdadeiro, e é preciso seguir o seu pensamento. Diz ele: “Quando lemos, outra pessoa pensa por nós: só repetimos o seu processo mental”. Quanto a isso, não há dúvidas: se pensamos os nossos pensamentos enquanto lemos, na verdade não lemos. Nossa atenção não está no texto. Ele continua: “Durante a leitura, nossa cabeça é apenas o campo de batalha de pensamentos alheios. Quando esses, finalmente, se retiram, o que resta? Daí se segue que aquele que lê muito e quase o dia inteiro perde, paulatinamente, a capacidade de pensar por conta própria. Esse, no entanto, é o caso de muitos eruditos: leram até ficar estúpidos. Porque a leitura contínua, retomada a todo instante, paralisa o espírito ainda mais que um trabalho manual contínuo”.

Nietzsche pensava o mesmo e chegou a afirmar que, nos seus dias, os eruditos só faziam uma coisa: passar as páginas dos livros. E com isso haviam perdido a capacidade de pensar por si mesmos. “Se não estão virando as páginas de um livro, eles não conseguem pensar. Sempre que se dizem pensando, eles estão, na realidade, simplesmente respondendo a um estímulo — o pensamento que leram… Na verdade eles não pensam; eles reagem. (…) Vi isso com meus próprios olhos: pessoas bem-dotadas que, aos 30 anos, haviam se arruinado de tanto ler. De manhã cedo, quando o dia nasce, quando tudo está nascendo, ler um livro é simplesmente algo depravado…”

E, no entanto, eu me daria por feliz se as nossas escolas ensinassem uma única coisa: o prazer de ler! Sobre isso falaremos…

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* Rubem Alves, é escritor e educador, autor de “Conversas sobre a Educação” (Verus), “Quando Eu Era Menino” (Papirus) e “Livro sem Fim” (Loyola), entre outros. Site: http://www.rubemalves.com.br/
Fonte: Folha Online [Sinapse], 16.12.03. Disponível em http://www1.folha.uol.com.br/folha/sinapse/ult1063u687.shtml

Franz Kafka – A Metamorfose

17/05/2008

Formato: e-book / © VirtualBooks 2000, Kbs

I

Numa manhã, ao despertar de sonhos inquietantes, Gregório Samsa deu por si na cama transformado num gigantesco inseto. Estava deitado sobre o dorso, tão duro que parecia revestido de metal, e, ao levantar um pouco a cabeça, divisou o arredondado ventre castanho dividido em duros segmentos arqueados, sobre o qual a colcha dificilmente mantinha a posição e estava a ponto de escorregar. Comparadas com o resto do corpo, as inúmeras pernas, que eram miseravelmente finas, agitavam-se desesperadamente diante de seus olhos.

Que me aconteceu ? – pensou. Não era nenhum sonho. O quarto, um vulgar quarto humano, apenas bastante acanhado, ali estava, como de costume, entre as quatro paredes que lhe eram familiares. Por cima da mesa, onde estava deitado, desembrulhada e em completa desordem, uma série de amostras de roupas: Samsa era caixeiro-viajante, estava pendurada a fotografia que recentemente recortara de uma revista ilustrada e colocara numa bonita moldura dourada.

Mostrava uma senhora, de chapéu e estola de peles, rigidamente sentada, a estender ao espectador um enorme regalo de peles, onde o antebraço sumia!

Gregório desviou então a vista para a janela e deu com o céu nublado – ouviam-se os pingos de chuva a baterem na calha da janela e isso o fez sentir-se bastante melancólico. Não seria melhor dormir um pouco e esquecer todo este delírio? – cogitou. Mas era impossível, estava habituado a dormir para o lado direito e, na presente situação, não podia virar-se. Por mais que se esforçasse por inclinar o corpo para a direita, tornava sempre a rebolar, ficando de costas. Tentou, pelo menos, cem vezes, fechando os olhos, para evitar ver as pernas a debaterem-se, e só desistiu quando começou a sentir no flanco uma ligeira dor entorpecida que nunca antes experimentara.

[…]

Para ler na íntegra faça o download gratuito, basta clicar aqui

Para quem escreve Orhan Pamuk?

10/05/2008

Em artigo, Nobel diz que escritores escrevem para “leitor ideal, para as pessoas que amam, para eles mesmos ou para ninguém”

“Quer estejamos na Turquia ou não, a pergunta vem sempre acompanhada de um sorriso suspicaz e desdenhoso”

ORHAN PAMUK

Para quem você escreve?

Pelos últimos 30 anos – desde que comecei a escrever – , é essa a pergunta que tenho ouvido com mais freqüência de jornalistas e leitores. Os motivos para que a façam dependem do local e da época, e as coisas que desejam saber também. Mas todos usam o mesmo tom de voz suspeitoso, com certa dose de desdém.

Nos anos 70, quando decidi me tornar romancista, a questão refletia opinião comum entre os filisteus: arte e literatura eram luxos desnecessários em um país pobre e não-ocidental, onde problemas anteriores à modernidade se faziam sentir.

Havia também a sugestão de que alguém “tão culto e educado” poderia servir melhor ao país como médico no combate a epidemias ou como engenheiro, construindo pontes. O filósofo francês Jean-Paul Sartre emprestou respeitabilidade a esse tipo de opinião ao declarar, nos anos 70, que não se dedicaria a escrever romances se fosse um intelectual de Biafra.

Em anos posteriores, as pessoas que me perguntavam para quem escrevo estavam mais interessadas em descobrir que parte da sociedade eu esperava que viesse a admirar meu trabalho. Sabia que a pergunta era capciosa porque, se não respondesse que “escrevo para os pobres e oprimidos!”, seria acusado de proteger interesses dos grandes proprietários de terras e da burguesia da Turquia.

Isso a despeito do fato de que qualquer escritor ingênuo a ponto de alegar que escrevia para os camponeses e operários seria lembrado de que era pouco provável que viesse a ser lido por pessoas que mal podiam ser consideradas alfabetizadas.

Passados 30 anos, ouço essa pergunta com freqüência ainda maior. A questão agora tem mais a ver com o fato de que meus romances são hoje traduzidos para mais de 40 idiomas.

Especialmente nos dez últimos anos, os questionadores parecem preocupados com a possibilidade de que eu os interprete erroneamente, de modo que se sentem inclinados a acrescentar: “O senhor escreve em turco, o que quer dizer que escreve só para os turcos, ou agora também tem em mente a audiência mais ampla que pode atingir com as traduções?”

Quer estejamos conversando na Turquia, quer fora dela, a pergunta vem sempre acompanhada de um sorriso suspicaz e desdenhoso, o que me leva a concluir que, se eu quiser garantir a autenticidade de meu trabalho, cabe-me responder: “Escrevo só para os turcos”.

Gostos e idéias

A ascensão do romance como forma de arte coincidiu com a ascensão do Estado-nação. Quando os grandes romances do século 19 estavam sendo escritos, a arte do romance era uma arte nacional. Balzac, Dickens, Dostoiévski e Tolstói escreviam à classe média emergente em seus países, capaz de reconhecer nos livros cada cidade, rua, casa, sala e cadeira; os leitores compartilhavam nos livros de seus mesmos gostos e discutiam as mesmas idéias.

No século 19, os romances eram publicados nos cadernos de cultura dos jornais, porque seus autores falavam a uma nação. No fim do século 19, ler e escrever romances era participar de discussão nacional, fechada aos que estavam de fora.

Hoje, escrever romance possui significado completamente diferente, e o mesmo se aplica à leitura de romances literários. Os leitores de hoje aguardam um livro de García Márquez, J. M. Coetzee ou Paul Auster assim como seus predecessores esperavam por um romance de Dickens como a notícia mais recente. O quadro mundial de leitores de romances desse tipo é muito maior que o número de leitores que esses livros conquistam nos países de origem.

Os escritores escrevem para um leitor ideal, para as pessoas que amam, para eles mesmos ou para ninguém. Tudo isso é verdade. Mas é igualmente verdade que os escritores de hoje também escrevem para aqueles que os lêem. Assim, as suspeitas quanto às intenções desses escritores refletem uma inquietação sobre a nova ordem cultural que surgiu ao longo dos últimos 30 anos.

As pessoas que a consideram mais perturbadora são os representantes de países e instituições não-ocidentais. Os países não-ocidentais, vítimas de crises de identidade nacional, suspeitam dos romancistas criativos que encaram a história e o nacionalismo sob perspectiva não-nacional. Para eles, os romancistas que não escrevem a audiências nacionais tentam representar seu país como exótico, para “consumo estrangeiro”, e inventam problemas irreais.

Existe uma suspeita paralela no Ocidente, onde muitos leitores acreditam que as literaturas devam permanecer locais, puras e fiéis às suas raízes nacionais. O temor secreto desses países é que um escritor que se dirija a leitores internacionais e opere com base em tradições externas à sua cultura venha a perder sua autenticidade.

É porque todos os escritores têm profundo desejo de ser autênticos que continuo a amar quando me perguntam para quem escrevo.

Embora a autenticidade do escritor dependa de sua capacidade de abrir o coração ao mundo no qual vive, depende também de sua capacidade de entender a posição mutável que ele ocupa no mundo.

Não existe um leitor ideal, livre de toda a estreiteza mental e de todas as proibições sociais ou mitos nacionais, assim como não existe um romancista ideal. Mas a busca de um escritor pelo leitor ideal começa quando o romancista imagina que ele exista e passa a escrever livros o tendo em mente.

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Fonte: Folha de S. Paulo, 14.10.2006. Este artigo foi publicado originalmente em julho deste ano no “International Herald Tribune”. Tradução de PAULO MIGLIACCI

Um roteiro literário sobre a história e política dos Estados Unidos da América

03/05/2008
ALLEN, Walter. O sonho americano e o homem moderno. Rio de Janeiro: Lidador, 1972 (230p.)

Descobri esse livro por acaso nas prateleiras da Biblioteca Central da Universidade Estadual de Maringá. Trata-se se uma obra que, a partir da literatura, lança luz sobre a idéia do sonho americano, isto é, o simbolismo e a maneira como esta o expressa. O autor oferece um painel importante sobre a literatura estadunidense no século XIX e nas primeiras décadas do século XX. Elaborei um roteiro que apresenta os autores (em ordem alfabética), obras relacionadas e comentários de Walter Allen.

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Allen TATEThe Fathers (Os Patriarcas)

Sobre a Virginia. Vários líderes, considerados os “pais fundadores”, são deste Estado. Washington, Jefferson, Madison e Monroe (primeiro, terceiro, quarto e quinto presidentes dos Estados Unidos) eram da Virgínia.

Este romance expressa a “mais comovente glorificação da civilização sulista” (85).

Allison LURIEThe Nowhere City (A Cidade Imaginária)

Sobre o conflito entre o estilo de vida da tradição acadêmica da Nova Inglaterra e o estilo “mais livre” californiano, mais especificamente Los Angeles. Também expressa o “movimento para a fronteira”.

Bret HARTEThe Outcast of Poker Flat

Sobre a prática do linchamento onde a justiça e a lei não tinha alcance.

Caroline GORDONNone Shall Look Back (Ninguém olhará para trás)

Sobre a Virginia e os virginianos…

Edgar Allan POEOs Assassinatos da Rua Morgue e A Carta Roubada

Ambos contextualizados em Paris, onde o autor jamais esteve.

Edgar Allan POE “freqüentemente parece o pornográfico da morte” (157). POE teve uma vida tumultuada, órfão por duas vezes. Ele era sulista e se identificava com os valores aristocráticos, anti-burguês e escravagistas. “Como homem da Virginia, Poe também estava livre da tirania da consciência puritana” (159). Ele foi pioneiro em estórias policiais e de detetives.

Ernest HEMINGWAYThe Old Man and the Sea ( O velho e o mar)

Livro baseado na sociedade cubana. O mais famoso escritor do Centro-Oeste foi um homem deslocado.

F. Soctt FITZGERALDThe Great Gatsby (1925)

Início da década de 1920, era da proibição. O personagem principal, dividido entre o poder e o sonho, representa a própria América. O autor sugere que a nação norte-americana surgiu de uma concepção platônica de si mesma. Gatsby expressa o self made man, o homem que se fez sozinho – um dos fundamentos da ideologia americana.

“Em The Great Gatsby Scott Fitzgerald mostra-nos o sonho americano em seu aspecto trágico, em outras palavras, como um sonho incapaz de se realizar exatamente por ser um sonho. Mas torna-se evidente nos últimos parágrafos do romance que Fitzgerald equaciona Gatsby ao homem americano, e o considera como figura simbólica da experiência norte-americana” (8). “The Great Gatsby é uma clebração poética do sonho norte-americano e um comentário, talvez pessimista, sobre ele” (9).

Fanny KEMBLEJournal of a Residence on a Gerogian Plantation in 1838-39 (Diário de Residência numa “plantation” da Geórgia de 1838-39)

A autora, inglesa, casada com um rico cidadão da Filadélfia, escreve sobre o período no qual viveu na Geórgia, e relata o cotidiano de uma fazenda escravocrata.

Fenimore COOPEROs Pioneiros (1823), O Último dos Moicanos (1826), A Planície (1827), O Guia (1840), O Caçador (1841).

Os romances expressam o sonho de viver em liberdade, sem as amarras da civilização – representado pelo movimento para o Oeste. O autor foi o primeiro a escrever sobre este tema.

O Último dos Moicanos é contextualizado no ano de 1757, época das guerras de fronteira entre franceses e ingleses, na qual os índios se envolvem lutando ora de um lado, ora de outro.

A obra de COOPER apresenta o Oeste como uma espécie de paraíso, destruído pelos que chegaram depois para explorá-lo.

George SANTAYANAThe Last Puritan

Expressa a ideologia mestra do norte-americano, o ideal do “povo escolhido” e pretensamente superior aos demais.

Graham GREENEO Americano tranqüilo

Crítica a visão ingênua e simplória que o americano tem de si mesmo, a qual fundamenta-se numa pretensa superioridade moral e conformista, característica herdada do puritanismo.

Harold FREDERICThe Damnation of Theron Ware (A Perdição de Theron Ware, 1896)

Sobre a fuga para o Oeste, enquanto expressão da possibilidade de ascensão social. O centro-oeste e o Oeste cumpriram o mesmo papel que a Nova Inglaterra teve para os imigrantes europeus. O autor cita o personagem de Charles Dickens (Micawber ), que fora à bancarrota em Londres e fez fortuna na “colônia”. Esta era “um lugar em que os fracassados e desajustados podiam convenientemente desaparecer” (66).

Harriet Beecher STOWEA Cabana do Pai Tomás (1855)

Este romance “mostra frontalmente ao Norte seu envolvimento financeiro com a instituição da escravatura” (81). Segundo Walter Allen, este é o melhor livro sobre “todos os aspectos das condições possíveis em que viviam os escravos”; “é também provavelmente a melhor antologia das justificativas sulistas” da escravidão (83).

Henry ADAMSDemocracy (1880)

“A atitude do cavalheiro norte-americano, poder-se-ia mesmo dizer, do aristocrata norte-americano, para com o governo, é demonstrada claramente” neste romance. Uma visão crítica sobre o governo da União no pós-guerra civil.

Henry JAMESThe Portrait of a Lady, The Wings of the Dove e Os Europeus

A exemplo de W. Cather, H. Roth e J. T. Farrell, os livros deste autor “servem para demonstrar, entre outras coisas, a complexidade do relacionamento norte-americano com a Europa” (101). Nos romances de JAMES, os americanos tendem a representar a inocência corrompida pelos costumes europeus. The Portrait of a Lady e The Wings of the Dove exemplifica “a inocência esperançosa e idealista” contrastada com o “cinismo corrupto e luxurioso” identificados com a Europa. (Id.) Isto também se aplica à obra Os Europeus.

Henry ROTHCall it Sleep (1934)

“O cenário são as favelas de Nova Iorque, os personagens são judeus russos que vieram, em grande número, nos anos imediatamente anteriores à Primeira Grande Guerra” (99). Ver, também, a obra de Willa CATHER e James T. FARRELL. Nas obras destes autores, incluindo ROTH, os imigrantes “estão impedidos pela raça, pela religião, pela língua ou pela tradição nacional, de participar da vida norte-americana exceto em seus níveis mais baixos. Eram “europeus desprovidos” no sentido mais completo do termo” (103).

Henry THOREAUDesobediência Civil e Walden, or Life in The Woods

O autor trabalhou como jardineiro de Ralph Waldo Emerson, de quem foi amigo. Defensor da idéia da resistência passiva influenciou Tolstoi e Gandhi. Defende o reencontro do homem com a natureza, a vida real. “Parecia a Thoreau que a esmagadora maioria dos homens vivia o que não era vida; viviam “de maneira aviltante, como formigas’. “A nossa vida”, diz ele “dissipa-se em detalhes”, em simulações e desilusões; em trabalho e “quanto ao trabalho não temos nenhum de real importância…” (142).

J. D. SALINGERO Apanhador no Campo de Centeio (1951)

Na trilha de Vinhas da Ira, romance de J. Steinbeck, “O Apanhador no Campo de Centeio descreve uma fuga muito mais sem esperança, a fuga daquilo que aparece ao menino herói, as evasões e hipocrisias tacanhas, ausência de generosidade da vida adulta norte-americana” (58). Para Allen: “Esses dois romances, embora de maneira diferente, são igualmente críticas ao sonho norte-americano, porque demonstram sua inadequação em face das realidades brutais da vida norte-americana” (59).

James HOGGConfessions of a Justified Sinner

Contexto: Escócia no fim do século XVIII. Relato clássico da atitude arrogante fundada na crença puritana. O livro trata do triunfo absoluto do puritanismo, a exemplo dos Estados Unidos.

James T. FARRELLStuds Loningan (1932-35) e The Face of Time (1954)

O tema é a imigração [a exemplo de Willa CARTHER e Henry ROTH]. “Studs Loningan deve ser um dos romances mais deprimentes jamais escritos. É uma crítica, friamente selvagem, da qualidade da vida norte-americana de cidade grande” – o título se refere a um menino irlandês (100). The Face of Time “descreve a vida da família O’Flaherty na zona operária de Chicago durante os primeiros anos do século [XX]” (101).

John dos PASSOSThe 42and Parallel (1930), 1919 (1932) e The Big Money (1936)

Livros que compõe a trilogia U.S.A.; uma tentativa de revelar a totalidade da América. O autor utiliza recursos como utilizar manchetes de jornais, trechos de reportagens e de canções populares (“Newsreel”); inserir capítulos biográficos de importantes figuras da sociedade norte-americana. É uma obra crítica, de inspiração socialista. Segundo Allen, “sua crítica da vida norte-americana atinge o clímax quando encontramos o jovem “carona”, desempregado, anônimo, que resume em si milhares de desempregados anônimos, de pé à margem de uma estrada qualquer do Centro-Oeste tentando conseguir uma carona, enquanto sobre ele voam os aviões, com sua carga de homens de negócios, entre Nova Yorque e Los Angeles” (207).

John STEINBECKIn Dubious Battle (1936), Vinhas da Ira (1938) e Of Mice and Men

In Dubious Battle descreve a tentativa dos comunistas em organizar os colhedores de frutas, na Califórnia.

Vinhas da Ira simboliza o sonho da fronteira, mas numa perspectiva crítica diferenciada de TWAIN e COOPER. Este romance expõe a indignação do autor diante da miséria social causada pela grande depressão. Trata de uma família que, arrasada pela erosão do solo e pelas dívidas com banqueiros, procura a “terra prometida” – a Califórnia. Mas esta já tinha donos e estava ocupada… É o romance de protesto norte-americano mais bem sucedido. A exemplo de John dos PASSOS e James T. FARRELL, STEINBECK assume a “causa dos socialmente desfavorecidos contra o poder do capitalismo financeiro” (211).

Mark TWAINAs Aventuras de Huckleberry Finn, Idade Dourada (1873) e As Aventuras de Tom Sawyer (1876)

Um dos livros que retrata o fenômeno da fronteira, isto é, o movimento para o Oeste. Este movimento “permanece como a grande imagem do senso norte-americano de possibilidade”, “um dos mais importantes componentes do sonho norte-americano” (57).

As Aventuras de Huckleberry Finn é considerado um clássico da juventude e foi escrito na seqüência de As Aventuras de Tom Sawyer.

“Dramatiza o sonho de liberdade de cada um, ou melhor, o sonho de liberdade roubada na juventude, de cada homem. Era o sonho de liberdade do próprio Twain” (170).

MELVILLE – Moby Dick

A temática é a luta do bem contra o mal e, a exemplo de HAWTHORNE, tem a influência da herança calvinista.

Michael STRAIGHTCarrington

ALLEN alerta para a literatura, como a de Willa Carther e Fenimore Cooper, que expressa uma visão paradisíaca da conquista do Oeste. É um tipo de literatura que “omite os aspectos negativos do desbravamento do Oeste e da construção das ferrovias. A completa destruição dos rebanhos de búfalos e a guerra contra os índios”. Carrington representa “uma descrição mais precisa da conquista do Oeste após a Guerra Civil” (200).

Nathaniel HAWTHORNEThe House of the Seven Gables (A Casa das Sete Torres) e The Scarlet Letter (A Letra Escarlate, 1850)

Baseia-se na lenda da maldição lançada contra a sua família – seu bisavô foi um dos juizes no julgamento das feiticeiras de Salem, em 1692 [Ver o filme As Bruxas de Salem]. Em A Letra Escarlate, a temática é o pecado dentro da concepção puritana.

“O drama moral e psicológico que ele recria e investiga não poderia ser produto de nenhum outro lugar no mundo a não ser a costa marítima da Nova Inglaterra do século XVII, porque em nenhum outro lugar o Puritanismo existiu com tamanha pureza e em tamanho isolamento. A pureza era resultado do isolamento” (125).

Ralph Waldo EMERSONThe American Scholar (O Intelectual Americano)

Ensaio que traduz o tema da auto-suficiência para um plano nacional. “Um ataque ao pedantismo e ao tradicionalismo na literatura e na escolástica, o ensaio reforça a necessidade de uma literatura democrática moderna…” (140).

Sinclair LEWISMain Street (Rua Principal) e Babbitt

Crítica do modo de vida norte-americano. O autor foi o primeiro norte-americano a ganhar o Premio Nobel de Literatura, em 1930.

Main Street é uma sátira do estilo de vida numa pequena cidade imaginária, que expressa a realidade de muitas cidades americanas. O autor “tenta destruir, pelo ridículo, a mesquinhez e o provincianismo da vida nas pequenas cidades do interior” (196).

Babbitt tem como tema os pequenos homens de negócios nos Estados Unidos, a classe média. O título do livro surge da fusão de rabit (coelho) e baby (bebê), isto é, “um ser facilmente assustável e ainda não totalmente formado”. O romance descreve “as tímidas revoltas de Babbitt contra a pressa da rotina e do conformismo” (197).

[Na mesma linha temática de Babbitt: Dickens, Our Mutual Friend e H. G. Wells, Mr. Polly]

Thackeray The Virginians (Os Virginianos)

Sobre o estilo de vida na Virginia, espacialmente no período anterior à guerra civil.

Theodore DREISERThe Financier (O Financista), The Titan (O Titã) e A American Tragedy

Retratam “a maneira selvagem e amoral de aquisição na Idade Dourada”, da mesma forma que Democracy (91). A “idade dourada” corresponde à fase pós- guerra civil: expansão da indústria, individualismo sem escrúpulos, caça aos espólios e cargos…

Thomas WOLFELook Homeward, Angel, Of Time and the River, The Web and the Rock e You Can’t Go Home Again

Todos os livros baseiam-se na vida do autor, nascido em 1900, na Carolina do Norte (sul dos EUA). Expressa a tentativa de revelar o modo de vida norte-americano.

Walter Van TILBURGThe Incident Ox-Bow

Sobre Nevada na década de 1880 e a prática de linchamento. Esta era uma prática comum executada por grupos particulares. O termo deriva do nome Charles Lynch, grande proprietário da Virgínia, que suprimiu uma conspiração fazendo justiça com as próprias mãos.

Willa CATHERMy Antonia (1918) e Death Comes to the Archbishop (1927)

Expõe o sentido de perda do imigrante, de caráter muito mais cultural que política ou econômica. Relata a história de uma família imigrante checa. “Essa perda cultura, que podia resultar na diminuição consciente do imigrante ou na sua mutilação como homem, também está brilhantemente dramatizada no romance Call it Sleep de Henry Roth, publicado em 1934” (99). Segundo ALLEN, a autora “estava presa a uma idealização do passado da América e uma reação contra o seu presente” (200). Este último romance exemplifica-o.

William FAULKNERAbsalom! Absalom!

Um dos melhores relatos para a compreensão dos efeitos da escravatura sobre o Sul. Trata-se da “história essencial do Sul a partir da introdução do Negro. O cenário é o Mississipi, que só entrou para a União em 1817 e é, portanto, um dos mais novos estados sulistas” (88).

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