Um roteiro literário sobre a história e política dos Estados Unidos da América

ALLEN, Walter. O sonho americano e o homem moderno. Rio de Janeiro: Lidador, 1972 (230p.)

Descobri esse livro por acaso nas prateleiras da Biblioteca Central da Universidade Estadual de Maringá. Trata-se se uma obra que, a partir da literatura, lança luz sobre a idéia do sonho americano, isto é, o simbolismo e a maneira como esta o expressa. O autor oferece um painel importante sobre a literatura estadunidense no século XIX e nas primeiras décadas do século XX. Elaborei um roteiro que apresenta os autores (em ordem alfabética), obras relacionadas e comentários de Walter Allen.

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Allen TATEThe Fathers (Os Patriarcas)

Sobre a Virginia. Vários líderes, considerados os “pais fundadores”, são deste Estado. Washington, Jefferson, Madison e Monroe (primeiro, terceiro, quarto e quinto presidentes dos Estados Unidos) eram da Virgínia.

Este romance expressa a “mais comovente glorificação da civilização sulista” (85).

Allison LURIEThe Nowhere City (A Cidade Imaginária)

Sobre o conflito entre o estilo de vida da tradição acadêmica da Nova Inglaterra e o estilo “mais livre” californiano, mais especificamente Los Angeles. Também expressa o “movimento para a fronteira”.

Bret HARTEThe Outcast of Poker Flat

Sobre a prática do linchamento onde a justiça e a lei não tinha alcance.

Caroline GORDONNone Shall Look Back (Ninguém olhará para trás)

Sobre a Virginia e os virginianos…

Edgar Allan POEOs Assassinatos da Rua Morgue e A Carta Roubada

Ambos contextualizados em Paris, onde o autor jamais esteve.

Edgar Allan POE “freqüentemente parece o pornográfico da morte” (157). POE teve uma vida tumultuada, órfão por duas vezes. Ele era sulista e se identificava com os valores aristocráticos, anti-burguês e escravagistas. “Como homem da Virginia, Poe também estava livre da tirania da consciência puritana” (159). Ele foi pioneiro em estórias policiais e de detetives.

Ernest HEMINGWAYThe Old Man and the Sea ( O velho e o mar)

Livro baseado na sociedade cubana. O mais famoso escritor do Centro-Oeste foi um homem deslocado.

F. Soctt FITZGERALDThe Great Gatsby (1925)

Início da década de 1920, era da proibição. O personagem principal, dividido entre o poder e o sonho, representa a própria América. O autor sugere que a nação norte-americana surgiu de uma concepção platônica de si mesma. Gatsby expressa o self made man, o homem que se fez sozinho – um dos fundamentos da ideologia americana.

“Em The Great Gatsby Scott Fitzgerald mostra-nos o sonho americano em seu aspecto trágico, em outras palavras, como um sonho incapaz de se realizar exatamente por ser um sonho. Mas torna-se evidente nos últimos parágrafos do romance que Fitzgerald equaciona Gatsby ao homem americano, e o considera como figura simbólica da experiência norte-americana” (8). “The Great Gatsby é uma clebração poética do sonho norte-americano e um comentário, talvez pessimista, sobre ele” (9).

Fanny KEMBLEJournal of a Residence on a Gerogian Plantation in 1838-39 (Diário de Residência numa “plantation” da Geórgia de 1838-39)

A autora, inglesa, casada com um rico cidadão da Filadélfia, escreve sobre o período no qual viveu na Geórgia, e relata o cotidiano de uma fazenda escravocrata.

Fenimore COOPEROs Pioneiros (1823), O Último dos Moicanos (1826), A Planície (1827), O Guia (1840), O Caçador (1841).

Os romances expressam o sonho de viver em liberdade, sem as amarras da civilização – representado pelo movimento para o Oeste. O autor foi o primeiro a escrever sobre este tema.

O Último dos Moicanos é contextualizado no ano de 1757, época das guerras de fronteira entre franceses e ingleses, na qual os índios se envolvem lutando ora de um lado, ora de outro.

A obra de COOPER apresenta o Oeste como uma espécie de paraíso, destruído pelos que chegaram depois para explorá-lo.

George SANTAYANAThe Last Puritan

Expressa a ideologia mestra do norte-americano, o ideal do “povo escolhido” e pretensamente superior aos demais.

Graham GREENEO Americano tranqüilo

Crítica a visão ingênua e simplória que o americano tem de si mesmo, a qual fundamenta-se numa pretensa superioridade moral e conformista, característica herdada do puritanismo.

Harold FREDERICThe Damnation of Theron Ware (A Perdição de Theron Ware, 1896)

Sobre a fuga para o Oeste, enquanto expressão da possibilidade de ascensão social. O centro-oeste e o Oeste cumpriram o mesmo papel que a Nova Inglaterra teve para os imigrantes europeus. O autor cita o personagem de Charles Dickens (Micawber ), que fora à bancarrota em Londres e fez fortuna na “colônia”. Esta era “um lugar em que os fracassados e desajustados podiam convenientemente desaparecer” (66).

Harriet Beecher STOWEA Cabana do Pai Tomás (1855)

Este romance “mostra frontalmente ao Norte seu envolvimento financeiro com a instituição da escravatura” (81). Segundo Walter Allen, este é o melhor livro sobre “todos os aspectos das condições possíveis em que viviam os escravos”; “é também provavelmente a melhor antologia das justificativas sulistas” da escravidão (83).

Henry ADAMSDemocracy (1880)

“A atitude do cavalheiro norte-americano, poder-se-ia mesmo dizer, do aristocrata norte-americano, para com o governo, é demonstrada claramente” neste romance. Uma visão crítica sobre o governo da União no pós-guerra civil.

Henry JAMESThe Portrait of a Lady, The Wings of the Dove e Os Europeus

A exemplo de W. Cather, H. Roth e J. T. Farrell, os livros deste autor “servem para demonstrar, entre outras coisas, a complexidade do relacionamento norte-americano com a Europa” (101). Nos romances de JAMES, os americanos tendem a representar a inocência corrompida pelos costumes europeus. The Portrait of a Lady e The Wings of the Dove exemplifica “a inocência esperançosa e idealista” contrastada com o “cinismo corrupto e luxurioso” identificados com a Europa. (Id.) Isto também se aplica à obra Os Europeus.

Henry ROTHCall it Sleep (1934)

“O cenário são as favelas de Nova Iorque, os personagens são judeus russos que vieram, em grande número, nos anos imediatamente anteriores à Primeira Grande Guerra” (99). Ver, também, a obra de Willa CATHER e James T. FARRELL. Nas obras destes autores, incluindo ROTH, os imigrantes “estão impedidos pela raça, pela religião, pela língua ou pela tradição nacional, de participar da vida norte-americana exceto em seus níveis mais baixos. Eram “europeus desprovidos” no sentido mais completo do termo” (103).

Henry THOREAUDesobediência Civil e Walden, or Life in The Woods

O autor trabalhou como jardineiro de Ralph Waldo Emerson, de quem foi amigo. Defensor da idéia da resistência passiva influenciou Tolstoi e Gandhi. Defende o reencontro do homem com a natureza, a vida real. “Parecia a Thoreau que a esmagadora maioria dos homens vivia o que não era vida; viviam “de maneira aviltante, como formigas’. “A nossa vida”, diz ele “dissipa-se em detalhes”, em simulações e desilusões; em trabalho e “quanto ao trabalho não temos nenhum de real importância…” (142).

J. D. SALINGERO Apanhador no Campo de Centeio (1951)

Na trilha de Vinhas da Ira, romance de J. Steinbeck, “O Apanhador no Campo de Centeio descreve uma fuga muito mais sem esperança, a fuga daquilo que aparece ao menino herói, as evasões e hipocrisias tacanhas, ausência de generosidade da vida adulta norte-americana” (58). Para Allen: “Esses dois romances, embora de maneira diferente, são igualmente críticas ao sonho norte-americano, porque demonstram sua inadequação em face das realidades brutais da vida norte-americana” (59).

James HOGGConfessions of a Justified Sinner

Contexto: Escócia no fim do século XVIII. Relato clássico da atitude arrogante fundada na crença puritana. O livro trata do triunfo absoluto do puritanismo, a exemplo dos Estados Unidos.

James T. FARRELLStuds Loningan (1932-35) e The Face of Time (1954)

O tema é a imigração [a exemplo de Willa CARTHER e Henry ROTH]. “Studs Loningan deve ser um dos romances mais deprimentes jamais escritos. É uma crítica, friamente selvagem, da qualidade da vida norte-americana de cidade grande” – o título se refere a um menino irlandês (100). The Face of Time “descreve a vida da família O’Flaherty na zona operária de Chicago durante os primeiros anos do século [XX]” (101).

John dos PASSOSThe 42and Parallel (1930), 1919 (1932) e The Big Money (1936)

Livros que compõe a trilogia U.S.A.; uma tentativa de revelar a totalidade da América. O autor utiliza recursos como utilizar manchetes de jornais, trechos de reportagens e de canções populares (“Newsreel”); inserir capítulos biográficos de importantes figuras da sociedade norte-americana. É uma obra crítica, de inspiração socialista. Segundo Allen, “sua crítica da vida norte-americana atinge o clímax quando encontramos o jovem “carona”, desempregado, anônimo, que resume em si milhares de desempregados anônimos, de pé à margem de uma estrada qualquer do Centro-Oeste tentando conseguir uma carona, enquanto sobre ele voam os aviões, com sua carga de homens de negócios, entre Nova Yorque e Los Angeles” (207).

John STEINBECKIn Dubious Battle (1936), Vinhas da Ira (1938) e Of Mice and Men

In Dubious Battle descreve a tentativa dos comunistas em organizar os colhedores de frutas, na Califórnia.

Vinhas da Ira simboliza o sonho da fronteira, mas numa perspectiva crítica diferenciada de TWAIN e COOPER. Este romance expõe a indignação do autor diante da miséria social causada pela grande depressão. Trata de uma família que, arrasada pela erosão do solo e pelas dívidas com banqueiros, procura a “terra prometida” – a Califórnia. Mas esta já tinha donos e estava ocupada… É o romance de protesto norte-americano mais bem sucedido. A exemplo de John dos PASSOS e James T. FARRELL, STEINBECK assume a “causa dos socialmente desfavorecidos contra o poder do capitalismo financeiro” (211).

Mark TWAINAs Aventuras de Huckleberry Finn, Idade Dourada (1873) e As Aventuras de Tom Sawyer (1876)

Um dos livros que retrata o fenômeno da fronteira, isto é, o movimento para o Oeste. Este movimento “permanece como a grande imagem do senso norte-americano de possibilidade”, “um dos mais importantes componentes do sonho norte-americano” (57).

As Aventuras de Huckleberry Finn é considerado um clássico da juventude e foi escrito na seqüência de As Aventuras de Tom Sawyer.

“Dramatiza o sonho de liberdade de cada um, ou melhor, o sonho de liberdade roubada na juventude, de cada homem. Era o sonho de liberdade do próprio Twain” (170).

MELVILLE – Moby Dick

A temática é a luta do bem contra o mal e, a exemplo de HAWTHORNE, tem a influência da herança calvinista.

Michael STRAIGHTCarrington

ALLEN alerta para a literatura, como a de Willa Carther e Fenimore Cooper, que expressa uma visão paradisíaca da conquista do Oeste. É um tipo de literatura que “omite os aspectos negativos do desbravamento do Oeste e da construção das ferrovias. A completa destruição dos rebanhos de búfalos e a guerra contra os índios”. Carrington representa “uma descrição mais precisa da conquista do Oeste após a Guerra Civil” (200).

Nathaniel HAWTHORNEThe House of the Seven Gables (A Casa das Sete Torres) e The Scarlet Letter (A Letra Escarlate, 1850)

Baseia-se na lenda da maldição lançada contra a sua família – seu bisavô foi um dos juizes no julgamento das feiticeiras de Salem, em 1692 [Ver o filme As Bruxas de Salem]. Em A Letra Escarlate, a temática é o pecado dentro da concepção puritana.

“O drama moral e psicológico que ele recria e investiga não poderia ser produto de nenhum outro lugar no mundo a não ser a costa marítima da Nova Inglaterra do século XVII, porque em nenhum outro lugar o Puritanismo existiu com tamanha pureza e em tamanho isolamento. A pureza era resultado do isolamento” (125).

Ralph Waldo EMERSONThe American Scholar (O Intelectual Americano)

Ensaio que traduz o tema da auto-suficiência para um plano nacional. “Um ataque ao pedantismo e ao tradicionalismo na literatura e na escolástica, o ensaio reforça a necessidade de uma literatura democrática moderna…” (140).

Sinclair LEWISMain Street (Rua Principal) e Babbitt

Crítica do modo de vida norte-americano. O autor foi o primeiro norte-americano a ganhar o Premio Nobel de Literatura, em 1930.

Main Street é uma sátira do estilo de vida numa pequena cidade imaginária, que expressa a realidade de muitas cidades americanas. O autor “tenta destruir, pelo ridículo, a mesquinhez e o provincianismo da vida nas pequenas cidades do interior” (196).

Babbitt tem como tema os pequenos homens de negócios nos Estados Unidos, a classe média. O título do livro surge da fusão de rabit (coelho) e baby (bebê), isto é, “um ser facilmente assustável e ainda não totalmente formado”. O romance descreve “as tímidas revoltas de Babbitt contra a pressa da rotina e do conformismo” (197).

[Na mesma linha temática de Babbitt: Dickens, Our Mutual Friend e H. G. Wells, Mr. Polly]

Thackeray The Virginians (Os Virginianos)

Sobre o estilo de vida na Virginia, espacialmente no período anterior à guerra civil.

Theodore DREISERThe Financier (O Financista), The Titan (O Titã) e A American Tragedy

Retratam “a maneira selvagem e amoral de aquisição na Idade Dourada”, da mesma forma que Democracy (91). A “idade dourada” corresponde à fase pós- guerra civil: expansão da indústria, individualismo sem escrúpulos, caça aos espólios e cargos…

Thomas WOLFELook Homeward, Angel, Of Time and the River, The Web and the Rock e You Can’t Go Home Again

Todos os livros baseiam-se na vida do autor, nascido em 1900, na Carolina do Norte (sul dos EUA). Expressa a tentativa de revelar o modo de vida norte-americano.

Walter Van TILBURGThe Incident Ox-Bow

Sobre Nevada na década de 1880 e a prática de linchamento. Esta era uma prática comum executada por grupos particulares. O termo deriva do nome Charles Lynch, grande proprietário da Virgínia, que suprimiu uma conspiração fazendo justiça com as próprias mãos.

Willa CATHERMy Antonia (1918) e Death Comes to the Archbishop (1927)

Expõe o sentido de perda do imigrante, de caráter muito mais cultural que política ou econômica. Relata a história de uma família imigrante checa. “Essa perda cultura, que podia resultar na diminuição consciente do imigrante ou na sua mutilação como homem, também está brilhantemente dramatizada no romance Call it Sleep de Henry Roth, publicado em 1934” (99). Segundo ALLEN, a autora “estava presa a uma idealização do passado da América e uma reação contra o seu presente” (200). Este último romance exemplifica-o.

William FAULKNERAbsalom! Absalom!

Um dos melhores relatos para a compreensão dos efeitos da escravatura sobre o Sul. Trata-se da “história essencial do Sul a partir da introdução do Negro. O cenário é o Mississipi, que só entrou para a União em 1817 e é, portanto, um dos mais novos estados sulistas” (88).

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2 Respostas to “Um roteiro literário sobre a história e política dos Estados Unidos da América”

  1. Eugenio Hansen, Pai Says:

    Paz e bem!Bloguei no Discuta Política:http://discutapolitica.blogspot.com/2008/05/um-roteiro-literrio-sobre-histria-e.html

  2. Anonymous Says:

    Prezado Ozai,Li varios. Varios deles também deram excelentes filmes – por exemplo, As vinhas da ira.Acho que a lembrança mais forte, no entanto, é a de ter lido, entre infância e adolescência, Tom Sawyer e Huck.Dos autores citados, o autor de Tom Sawyer leu tudo o que veio antes dele e transformou num romance maravilhoso, verdadeira viagem iniciatica quando lido na idade certa. Um abraço,Regina

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