Sobre os perigos da leitura – por Rubem Alves

Nos tempos em que eu era professor da Unicamp, fui designado presidente da comissão encarregada da seleção dos candidatos ao doutoramento, o que é um sofrimento.

Dizer “esse entra, esse não entra” é uma responsabilidade dolorida da qual não se sai sem sentimentos de culpa. Como, em 20 minutos de conversa, decidir sobre a vida de uma pessoa amedrontada? Mas não havia alternativas. Essa era a regra.

Os candidatos amontoavam-se no corredor recordando o que haviam lido da imensa lista de livros cuja leitura era exigida. Aí tive uma idéia que julguei brilhante. Combinei com os meus colegas que faríamos a todos os candidatos uma única pergunta, a mesma pergunta. Assim, quando o candidato entrava trêmulo e se esforçando por parecer confiante, eu lhe fazia a pergunta, a mais deliciosa de todas: “Fale-nos sobre aquilo que você gostaria de falar!”.

Pois é claro! Não nos interessávamos por aquilo que ele havia memorizado dos livros. Muitos idiotas têm boa memória. Interessávamo-nos por aquilo que ele pensava. O candidato poderia falar sobre o que quisesse, desde que fosse aquilo sobre o que gostaria de falar. Procurávamos as idéias que corriam no seu sangue!

A reação dos candidatos, no entanto, não foi a esperada. Aconteceu o oposto: pânico. Foi como se esse campo, aquilo sobre que eles gostariam de falar, lhes fosse totalmente desconhecido, um vazio imenso. Papaguear os pensamentos dos outros, tudo bem. Para isso, eles haviam sido treinados durante toda a sua carreira escolar, a partir da infância. Mas falar sobre os próprios pensamentos — ah, isso não lhes tinha sido ensinado!

Na verdade, nunca lhes havia passado pela cabeça que alguém pudesse se interessar por aquilo que estavam pensando. Nunca lhes havia passado pela cabeça que os seus pensamentos pudessem ser importantes.

Uma candidata teve um surto e começou a papaguear compulsivamente a teoria de um autor marxista. Acho que ela pensou que aquela pergunta não era para valer. Não era possível que estivéssemos falando a sério. Deveria ser uma dessas “pegadinhas” sádicas cujo objetivo é confundir o candidato. Por vias das dúvidas, ela optou pelo caminho tradicional e tratou de demonstrar que havia lido a bibliografia. Aí eu a interrompi e lhe disse: “Eu já li esse livro. Eu sei o que está escrito nele. E você está repetindo direitinho. Mas nós não queremos ouvir o que já sabemos. Queremos ouvir o que não sabemos. Queremos que você nos conte o que você está pensando, os pensamentos que a ocupam…”. Ela não conseguiu. O excesso de leitura a havia feito esquecer e desaprender a arte de pensar.

Parece que esse processo de destruição do pensamento individual é consequência natural das nossas práticas educativas. Quanto mais se é obrigado a ler, menos se pensa. Schopenhauer tomou consciência disso e o disse de maneira muito simples em alguns textos sobre livros e leitura.

O que se toma por óbvio e evidente é que o pensamento está diretamente ligado ao número de livros lidos. Tanto assim que se criaram técnicas de leitura dinâmica que permitem ler “Grande Sertão: Veredas” em pouco mais de três horas. Ler dinamicamente, como se sabe, é essencial para se preparar para o vestibular e para fazer os clássicos “fichamentos” exigidos pelos professores. Schopenhauer pensa o contrário: “É por isso que, no que se refere a nossas leituras, a arte de não ler é sumamente importante”.

Isso contraria tudo o que se tem como verdadeiro, e é preciso seguir o seu pensamento. Diz ele: “Quando lemos, outra pessoa pensa por nós: só repetimos o seu processo mental”. Quanto a isso, não há dúvidas: se pensamos os nossos pensamentos enquanto lemos, na verdade não lemos. Nossa atenção não está no texto. Ele continua: “Durante a leitura, nossa cabeça é apenas o campo de batalha de pensamentos alheios. Quando esses, finalmente, se retiram, o que resta? Daí se segue que aquele que lê muito e quase o dia inteiro perde, paulatinamente, a capacidade de pensar por conta própria. Esse, no entanto, é o caso de muitos eruditos: leram até ficar estúpidos. Porque a leitura contínua, retomada a todo instante, paralisa o espírito ainda mais que um trabalho manual contínuo”.

Nietzsche pensava o mesmo e chegou a afirmar que, nos seus dias, os eruditos só faziam uma coisa: passar as páginas dos livros. E com isso haviam perdido a capacidade de pensar por si mesmos. “Se não estão virando as páginas de um livro, eles não conseguem pensar. Sempre que se dizem pensando, eles estão, na realidade, simplesmente respondendo a um estímulo — o pensamento que leram… Na verdade eles não pensam; eles reagem. (…) Vi isso com meus próprios olhos: pessoas bem-dotadas que, aos 30 anos, haviam se arruinado de tanto ler. De manhã cedo, quando o dia nasce, quando tudo está nascendo, ler um livro é simplesmente algo depravado…”

E, no entanto, eu me daria por feliz se as nossas escolas ensinassem uma única coisa: o prazer de ler! Sobre isso falaremos…

__________
* Rubem Alves, é escritor e educador, autor de “Conversas sobre a Educação” (Verus), “Quando Eu Era Menino” (Papirus) e “Livro sem Fim” (Loyola), entre outros. Site: http://www.rubemalves.com.br/
Fonte: Folha Online [Sinapse], 16.12.03. Disponível em http://www1.folha.uol.com.br/folha/sinapse/ult1063u687.shtml
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3 Respostas to “Sobre os perigos da leitura – por Rubem Alves”

  1. Blog do Ricardo Says:

    Levamos tanto sabão na graduação que ao entrar no mestrado decoramos todos os livros e continuamos levando uma escovada dos orientadores.Quando chega a hora do doutorado nós simplesmente estamos treinados a praticar o que vivenciamos a vida inteira. CITAÇÃO.Não adianta criar, desenvolver e reinventar na graduação e mestrado, você será podado. No doutorado, já com trinta anos, desiludido da vida, aí então te dão uma oportunidade, já quase sem luz neste túnel que é a profissão de professor do Ensino Superior Brasileiro.Gostaria tanto que você me fizesse essa pergunta!!! ahueahuaheAbraços.

  2. Quem sou eu Says:

    Se me propusessem: “Fale-nos sobre aquilo que você gostaria de falar!” Decerto eu não hesitaria em anunciar a Jesus Cristo crucificado e ressucitado. E se me perguntassem o que isso tem a ver com a ciência humana, diria estar nos ensinamentos de Cristo o “princípio da sabedoria”, a saber a humildade, e o temor de Deus, que é fonte de todo saber verdadeiro. Se me dissesse que não vale, então lhe diria: então diga logo o que quer ouvir, ora bolas!!!É verdade que pouquíssimos estão aptos a falar o que pensam, mas, também é verdadeiro que menos ainda são aqueles que estão aptos para ouvir o que pensamos, sobretudo, quando se trata de alguém que tem uma experiência intelectual ou uma posição mais conceituada que a nossa. Tive tanta dificuldade em explicar aos meus professores o objetivo de minha pesquisa, e pensava comigo: por mais dificuldade que eu tenha de me explicar claramente, sei que eles têm capacidader de compreender o que estou falando, se o quisessem. É dificil alcançar a humildade para ouvir e tentar entender o que o outro fala. Mais fácil é propagar a idéia daqueles que, todos já se esforçaram antes por compreender. Todavia, a crítica de Rubem Alves é-me excelente. Na vida acadêmica, ainda que alguns professores nos incitem a não nos deter ao pensamento dos autores, mas em desenvolvermos a partir deles, no entanto, pela carga excessiva de leitura, mal conseguimos fazer uma leitura “dinâmica”, apanhando os pontos centrais de seu pensamento. Mas, há esperança: existem professores que, apesar dos pesares do ofício, conseguem nos ajudar nesse sentido, pelo simples fato de se preocuparam com nossa formação e desenvolverem métodos mais viáveis para o aguçamento sólido de nossa consciência.

  3. Anonymous Says:

    Começo por uma citaçao do texto comentado (é mais garantido):”Quanto mais se é obrigado a ler, menos se pensa. Schopenhauer tomou consciência disso e o disse de maneira muito simples em alguns textos sobre livros e leitura.”Da até vontade de acreditar que ler Schpenhauer pode ser um prazer.Mas o que isso me faz pensar, é que um professor ou qualquer intelectual que so leia por obrigaçao, que so leia teoria, que so leia traduçoes prestigiosas, seria como um critico de pintura que so lesse livros sobre pintura sem nunca olhar um quadro, ou tentar refletir sobre o que vê ou imaginar como representar visualmente o que o emociona esteticamente, ao passar diante de seus olhos.Mas como convencer os candidatos a um lugar na universidade que o texto escrito é fonte de prazer e deve sê-lo, antes de fonte de informaçoes?E se o conseguissemos, seria bom para ele? O que a universidade ensina, o que ela pede, o que ela transmite estariam em conformidade com essa abordagem das aquisiçoes?Quero crer que a universidade privilegia realmente a seriedade e quer provas de que o candidato se empenhou em conhecer e compreender a matéria sobre a qual deve se expressar. Mas acho que nao se pode questionar os alunos – a luta pela vida é dura e muito mais hoje do que quando o senhor professor passou seus proprios testes… Isso dito, esse texto é uma bela reflexao sobre o que deve ser a leitura acadêmica. Aguardo a continuaçao, sobre o prazer da leitura. Regina

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