Menos política e mais literatura – por Antonio Fernando Borges

Na alvorada do século XIX, um já decadente Napoleão Bonaparte fazia a terrível profecia: a politização será o destino irreversível dos tempos modernos. No futuro (praguejava o corso, leitor aplicado de Maquiavel), os homens haveriam de politizar tudo, desprezando qualquer coisa que pretendesse se colocar acima da política. Trocando e miúdos: o precioso conjunto de valores morais e culturais que sempre sustentaram a civilização sairia de cena e, em seu lugar, entraria o bárbaro espetáculo da disputa voraz por poderes e idéias – ou seja, um tempo de pobreza do espírito, em proporções até então inéditas.

A profecia (ou maldição) parece que se realizou em pleno século XX, o século das revoluções e experiências sociais mais violentas – e, não por acaso, um dos períodos mais pobres para a literatura. Ao inverter o axioma aristotélico do primado da contemplação sobre a ação, fazendo da ação uma virtude em si mesma, o ciclo moderno colocou afinal a política no centro de tudo. E foi assim que a vida, em suas múltiplas possibilidades, passou a ser julgada por este viés exclusivo e reducionista. Desde então, à luz da Cartilha de Correção Política, um escritor genial como Jorge Luis Borges, por exemplo, é condenado pelo crime de conservadorismo, ao mesmo tempo em que se acusa nosso grande Machado de Assis de ter “embranquecido” e “traído a causa dos escravos”. Eu mesmo, valha-se Deus!, ganhei repetidas vezes os rótulos de “alienado” e “reacionário”, por ter Borges e Machado no topo de minhas preferências literárias.

A bem da verdade, essa cruzada contra a civilização não é episódica, nem recente: a história da humanidade tem sido a luta permanente do indivíduo para sobreviver ao assédio da política, que se nutre de invariáveis coletivizações. Desde os gregos, insistem em dizer que somos “animais políticos”. E desde, pelo menos Rousseau e Durkheim, garantem que jamais passaremos de mero produto da sociedade, única responsável por nossos erros e acertos. À astúcia prussiana de Hegel coube dar o tiro de misericórdia: quando elegeu como sujeito a história do mundo, o filósofo alemão relegou os sujeitos concretos à condição de meras abstrações. De lá para cá, não têm faltado teorias políticas sempre dispostas a negar voz, direitos e sobretudo liberdade ao indivíduo. Tudo sempre, é claro, em nome da política. O que equivale a dizer: feitas as contras, o saldo de tanta politização foi o aumento do autoritarismo e da barbárie.

E a literatura, em tudo isso? Pois é: agindo ao largo, em sua esfera própria, ela até conseguiu ser, por muito tempo, uma espécie de casamata para a liberdade individual – mas não é de hoje que tem perdido terreno para a onipresença da política, que insiste em substituir o essencial pelo contingente, o universal pelo conjuntural e o eterno pelo histórico. Uma das conseqüências mais graves é que, em nome de se atribuir à arte a “nobre missão” de transformar o mundo, rouba-se a ela o direito de continuar sendo a geradora de um conhecimento único, irredutível a qualquer outro.

O resultado pode ser visto nos balcões da livrarias e nos suplementos literários: cada vez mais, as questões metafísicas e estéticas que sempre tiveram na arte seu habitat ideal vem cedendo terreno ao imediatismo das “questões político-sociais”. A literatura se traveste em denuncismo naturalista e os escritores vão se tornando presunçosos “colecionadores de injustiças”. Cada vez se produzem mais panfletos e menos obras literárias, sendo que no Brasil, como é de hábito, as coisas vão ao exagero: a pretexto de se “dar voz aos excluídos”, eleva-se à condição de literatura o discurso dos rappers e funkeiros, malandros e contraventores da periferia das grandes cidades. O território antes livre da criação literária ganha assim uma geografia delimitada – quer dizer, limitada –, enquanto a arte vai virando literalmente um caso de polícia.

Para quem não tem o dom profético de um Napoleão, é difícil saber quanto tempo esse pesadelo pode durar, antes que a política volte a ocupar apenas o espaço (afinal restrito) que lhe cabe na vida humana. Mas nem é preciso ser profeta para supor que – até que isso aconteça – os estragos hão de ser enormes. De qualquer forma, não custa sugerir aqui, a meus colegas de ofício, uma “agenda mínima” para o novo ano: antes de tentar melhorar o mundo, que tal produzir uma literatura melhor?

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* Publicado originalmente em EntreLivros, ANO I, Nº 9, janeiro de 2006. São Paulo: Duetto Editorial, p.66; reproduzido com a autorização do autor.
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2 Respostas to “Menos política e mais literatura – por Antonio Fernando Borges”

  1. Anonymous Says:

    O articulista podia talvez seguir seu proprio conselho e tentar produzir um texto literario, quer dizer, com significaçao e forma articulados e adequados à percepçao intelectual e sensivel da palavra.Nao basta se alinhar no mesmo paragrafo que Borges e Machado de Assis para dizer coisas sensatas e bem construidas.Nao sei quais os critérios que permitem dizer que o século XIX foi pobre literariamente, nem se basta um apelo aos happy few para se produzir boa literatura – talvez dando a palavra a articulistas menos pretensiosos, esse jornal contribuisse para uma reflexao mais produtiva e menos redundante.Espero que este comentario seja censurado pelo dono do blog – até porque talvez seja uma perda de tempo tentar se alçar às alturas em que se coloca o articulista, evidentemente reservadas aos que se situam numa area auto-definida como a da elite.Regina

  2. Jovino Moreira da Silva Says:

    Amigo Ozaí:Gostei do artigo que acaba de ser postado e quero parabenizar a ambos: você e o autor. É pena que ainda carecemos no Brasil de bons textos e, mais ainda, de boas interpretações, sobretudo quando se deseja comentar de modo crítico algum autor. Para não comentar comentário em Blog quero dizer que realmente o Século XX é pobre não só em literatura, mas, no caso do Brasil, em Conhecimento e Informação. Ambos carem de que saibamos LER e INTERPRETAR e isto ainda não conseguimos desenvolver nas séries básicas e no nível médio. Daí, por conseqüências teremos péssimos profissionais de nível superior formados por tantos cursos (in-cursos) que temos por aí. Talvez, por isso, nossos Blogs (o seu e o meu) algumas vezes são “censurados” por postarmos artigos (nossos e de nossos amigos) como o que aqui está. Um abraçoJovino

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