Archive for agosto \30\UTC 2008

Os cem erros mais comuns na escrita

30/08/2008

Erros gramaticais e ortográficos devem, por princípio, ser evitados. Alguns, no entanto, como ocorrem com maior freqüência, merecem atenção redobrada. (…). Veja os cem mais comuns do idioma e use esta relação como um roteiro para fugir deles.

1 – “Mal cheiro”, “mau-humorado”. Mal opõe-se a bem e mau, a bom. Assim: mau cheiro (bom cheiro), mal-humorado (bem-humorado). Igualmente: mau humor, mal-intencionado, mau jeito, mal-estar.

2 – “Fazem” cinco anos. Fazer, quando exprime tempo, é impessoal: Faz cinco anos. / Fazia dois séculos. / Fez 15 dias.

3 – “Houveram” muitos acidentes. Haver, como existir, também é invariável: Houve muitos acidentes. / Havia muitas pessoas. / Deve haver muitos casos iguais.

4 – “Existe” muitas esperanças. Existir, bastar, faltar, restar e sobrar admitem normalmente o plural: Existem muitas esperanças. / Bastariam dois dias. / Faltavam poucas peças. / Restaram alguns objetos. / Sobravam idéias.

5 – Para “mim” fazer. Mim não faz, porque não pode ser sujeito. Assim: Para eu fazer, para eu dizer, para eu trazer.

6 – Entre “eu” e você. Depois de preposição, usa-se mim ou ti: Entre mim e você. / Entre eles e ti.

7 – “Há” dez anos “atrás”. Há e atrás indicam passado na frase. Use apenas há dez anos ou dez anos atrás.

8 – “Entrar dentro”. O certo: entrar em. Veja outras redundâncias: Sair fora ou para fora, elo de ligação, monopólio exclusivo, já não há mais, ganhar grátis, viúva do falecido.

9 – “Venda à prazo”. Não existe crase antes de palavra masculina, a menos que esteja subentendida a palavra moda: Salto à (moda de) Luís XV. Nos demais casos: A salvo, a bordo, a pé, a esmo, a cavalo, a caráter.

10 – “Porque” você foi? Sempre que estiver clara ou implícita a palavra razão, use por que separado: Por que (razão) você foi? / Não sei por que (razão) ele faltou. / Explique por que razão você se atrasou. Porque é usado nas respostas: Ele se atrasou porque o trânsito estava congestionado.

11 – Vai assistir “o” jogo hoje. Assistir como presenciar exige a: Vai assistir ao jogo, à missa, à sessão. Outros verbos com a: A medida não agradou (desagradou) à população. / Eles obedeceram (desobedeceram) aos avisos. / Aspirava ao cargo de diretor. / Pagou ao amigo. / Respondeu à carta. / Sucedeu ao pai. / Visava aos estudantes.

12 – Preferia ir “do que” ficar. Prefere-se sempre uma coisa a outra: Preferia ir a ficar. É preferível segue a mesma norma: É preferível lutar a morrer sem glória.

13 – O resultado do jogo, não o abateu. Não se separa com vírgula o sujeito do predicado. Assim: O resultado do jogo não o abateu. Outro erro: O prefeito prometeu, novas denúncias. Não existe o sinal entre o predicado e o complemento: O prefeito prometeu novas denúncias.

14 – Não há regra sem “excessão”. O certo é exceção. Veja outras grafias erradas e, entre parênteses, a forma correta: “paralizar” (paralisar), “beneficiente” (beneficente), “xuxu” (chuchu), “previlégio” (privilégio), “vultuoso” (vultoso), “cincoenta” (cinqüenta), “zuar” (zoar), “frustado” (frustrado), “calcáreo” (calcário), “advinhar” (adivinhar), “benvindo” (bem-vindo), “ascenção” (ascensão), “pixar” (pichar), “impecilho” (empecilho), “envólucro” (invólucro).

15 – Quebrou “o” óculos. Concordância no plural: os óculos, meus óculos. Da mesma forma: Meus parabéns, meus pêsames, seus ciúmes, nossas férias, felizes núpcias.

16 – Comprei “ele” para você. Eu, tu, ele, nós, vós e eles não podem ser objeto direto. Assim: Comprei-o para você. Também: Deixe-os sair, mandou-nos entrar, viu-a, mandou-me.

17 – Nunca “lhe” vi. Lhe substitui a ele, a eles, a você e a vocês e por isso não pode ser usado com objeto direto: Nunca o vi. / Não o convidei. / A mulher o deixou. / Ela o ama.

18 – “Aluga-se” casas. O verbo concorda com o sujeito: Alugam-se casas. / Fazem-se consertos. / É assim que se evitam acidentes. / Compram-se terrenos. / Procuram-se empregados.

19 – “Tratam-se” de. O verbo seguido de preposição não varia nesses casos: Trata-se dos melhores profissionais. / Precisa-se de empregados. / Apela-se para todos. / Conta-se com os amigos.

20 – Chegou “em” São Paulo. Verbos de movimento exigem a, e não em: Chegou a São Paulo. / Vai amanhã ao cinema. / Levou os filhos ao circo.

21 – Atraso implicará “em” punição. Implicar é direto no sentido de acarretar, pressupor: Atraso implicará punição. / Promoção implica responsabilidade.

22 – Vive “às custas” do pai. O certo: Vive à custa do pai. Use também em via de, e não “em vias de”: Espécie em via de extinção. / Trabalho em via de conclusão.

23 – Todos somos “cidadões”. O plural de cidadão é cidadãos. Veja outros: caracteres (de caráter), juniores, seniores, escrivães, tabeliães, gângsteres.

24 – O ingresso é “gratuíto”. A pronúncia correta é gratúito, assim como circúito, intúito e fortúito (o acento não existe e só indica a letra tônica). Da mesma forma: flúido, condôr, recórde, aváro, ibéro, pólipo.

25 – A última “seção” de cinema. Seção significa divisão, repartição, e sessão equivale a tempo de uma reunião, função: Seção Eleitoral, Seção de Esportes, seção de brinquedos; sessão de cinema, sessão de pancadas, sessão do Congresso.

26 – Vendeu “uma” grama de ouro. Grama, peso, é palavra masculina: um grama de ouro, vitamina C de dois gramas. Femininas, por exemplo, são a agravante, a atenuante, a alface, a cal, etc.

27 – “Porisso”. Duas palavras, por isso, como de repente e a partir de.

28 – Não viu “qualquer” risco. É nenhum, e não “qualquer”, que se emprega depois de negativas: Não viu nenhum risco. / Ninguém lhe fez nenhum reparo. / Nunca promoveu nenhuma confusão.

29 – A feira “inicia” amanhã. Alguma coisa se inicia, se inaugura: A feira inicia-se (inaugura-se) amanhã.

30 – Soube que os homens “feriram-se”. O que atrai o pronome: Soube que os homens se feriram. / A festa que se realizou… O mesmo ocorre com as negativas, as conjunções subordinativas e os advérbios: Não lhe diga nada. / Nenhum dos presentes se pronunciou. / Quando se falava no assunto… / Como as pessoas lhe haviam dito… / Aqui se faz, aqui se paga. / Depois o procuro.

31 – O peixe tem muito “espinho”. Peixe tem espinha. Veja outras confusões desse tipo: O “fuzil” (fusível) queimou. / Casa “germinada” (geminada), “ciclo” (círculo) vicioso, “cabeçário” (cabeçalho).

32 – Não sabiam “aonde” ele estava. O certo: Não sabiam onde ele estava. Aonde se usa com verbos de movimento, apenas: Não sei aonde ele quer chegar. / Aonde vamos?

33 – “Obrigado”, disse a moça. Obrigado concorda com a pessoa: “Obrigada”, disse a moça. / Obrigado pela atenção. / Muito obrigados por tudo.

34 – O governo “interviu”. Intervir conjuga-se como vir. Assim: O governo interveio. Da mesma forma: intervinha, intervim, interviemos, intervieram. Outros verbos derivados: entretinha, mantivesse, reteve, pressupusesse, predisse, conviesse, perfizera, entrevimos, condisser, etc.

35 – Ela era “meia” louca. Meio, advérbio, não varia: meio louca, meio esperta, meio amiga.

36 – “Fica” você comigo. Fica é imperativo do pronome tu. Para a 3.ª pessoa, o certo é fique: Fique você comigo. / Venha pra Caixa você também. / Chegue aqui.

37 – A questão não tem nada “haver” com você. A questão, na verdade, não tem nada a ver ou nada que ver. Da mesma forma: Tem tudo a ver com você.

38 – A corrida custa 5 “real”. A moeda tem plural, e regular: A corrida custa 5 reais.

39 – Vou “emprestar” dele. Emprestar é ceder, e não tomar por empréstimo: Vou pegar o livro emprestado. Ou: Vou emprestar o livro (ceder) ao meu irmão. Repare nesta concordância: Pediu emprestadas duas malas.

40 – Foi “taxado” de ladrão. Tachar é que significa acusar de: Foi tachado de ladrão. / Foi tachado de leviano.

41 – Ele foi um dos que “chegou” antes. Um dos que faz a concordância no plural: Ele foi um dos que chegaram antes (dos que chegaram antes, ele foi um). / Era um dos que sempre vibravam com a vitória.

42 – “Cerca de 18” pessoas o saudaram. Cerca de indica arredondamento e não pode aparecer com números exatos: Cerca de 20 pessoas o saudaram.

43 – Ministro nega que “é” negligente. Negar que introduz subjuntivo, assim como embora e talvez: Ministro nega que seja negligente. / O jogador negou que tivesse cometido a falta. / Ele talvez o convide para a festa. / Embora tente negar, vai deixar a empresa.

44 – Tinha “chego” atrasado. “Chego” não existe. O certo: Tinha chegado atrasado.

45 – Tons “pastéis” predominam. Nome de cor, quando expresso por substantivo, não varia: Tons pastel, blusas rosa, gravatas cinza, camisas creme. No caso de adjetivo, o plural é o normal: Ternos azuis, canetas pretas, fitas amarelas.

46 – Lute pelo “meio-ambiente”. Meio ambiente não tem hífen, nem hora extra, ponto de vista, mala direta, pronta entrega, etc. O sinal aparece, porém, em mão-de-obra, matéria-prima, infra-estrutura, primeira-dama, vale-refeição, meio-de-campo, etc.

47 – Queria namorar “com” o colega. O com não existe: Queria namorar o colega.

48 – O processo deu entrada “junto ao” STF. Processo dá entrada no STF. Igualmente: O jogador foi contratado do (e não “junto ao”) Guarani. / Cresceu muito o prestígio do jornal entre os (e não “junto aos”) leitores. / Era grande a sua dívida com o (e não “junto ao”) banco. / A reclamação foi apresentada ao (e não “junto ao”) Procon.

49 – As pessoas “esperavam-o”. Quando o verbo termina em m, ão ou õe, os pronomes o, a, os e as tomam a forma no, na, nos e nas: As pessoas esperavam-no. / Dão-nos, convidam-na, põe-nos, impõem-nos.

50 – Vocês “fariam-lhe” um favor? Não se usa pronome átono (me, te, se, lhe, nos, vos, lhes) depois de futuro do presente, futuro do pretérito (antigo condicional) ou particípio. Assim: Vocês lhe fariam (ou far-lhe-iam) um favor? / Ele se imporá pelos conhecimentos (e nunca “imporá-se”). / Os amigos nos darão (e não “darão-nos”) um presente. / Tendo-me formado (e nunca tendo “formado-me”).

51 – Chegou “a” duas horas e partirá daqui “há” cinco minutos. indica passado e equivale a faz, enquanto a exprime distância ou tempo futuro (não pode ser substituído por faz): Chegou há (faz) duas horas e partirá daqui a (tempo futuro) cinco minutos. / O atirador estava a (distância) pouco menos de 12 metros. / Ele partiu há (faz) pouco menos de dez dias.

52 – Blusa “em” seda. Usa-se de, e não em, para definir o material de que alguma coisa é feita: Blusa de seda, casa de alvenaria, medalha de prata, estátua de madeira.

53 – A artista “deu à luz a” gêmeos. A expressão é dar à luz, apenas: A artista deu à luz quíntuplos. Também é errado dizer: Deu “a luz a” gêmeos.

54 – Estávamos “em” quatro à mesa. O em não existe: Estávamos quatro à mesa. / Éramos seis. / Ficamos cinco na sala.

55 – Sentou “na” mesa para comer. Sentar-se (ou sentar) em é sentar-se em cima de. Veja o certo: Sentou-se à mesa para comer. / Sentou ao piano, à máquina, ao computador.

56 – Ficou contente “por causa que” ninguém se feriu. Embora popular, a locução não existe. Use porque: Ficou contente porque ninguém se feriu.

57 – O time empatou “em” 2 a 2. A preposição é por: O time empatou por 2 a 2. Repare que ele ganha por e perde por. Da mesma forma: empate por.

58 – À medida “em” que a epidemia se espalhava… O certo é: À medida que a epidemia se espalhava… Existe ainda na medida em que (tendo em vista que): É preciso cumprir as leis, na medida em que elas existem.

59 – Não queria que “receiassem” a sua companhia. O i não existe: Não queria que receassem a sua companhia. Da mesma forma: passeemos, enfearam, ceaste, receeis (só existe i quando o acento cai no e que precede a terminação ear: receiem, passeias, enfeiam).

60 – Eles “tem” razão. No plural, têm é assim, com acento. Tem é a forma do singular. O mesmo ocorre com vem e vêm e põe e põem: Ele tem, eles têm; ele vem, eles vêm; ele põe, eles põem.

61 – A moça estava ali “há” muito tempo. Haver concorda com estava. Portanto: A moça estava ali havia (fazia) muito tempo. / Ele doara sangue ao filho havia (fazia) poucos meses. / Estava sem dormir havia (fazia) três meses. (O havia se impõe quando o verbo está no imperfeito e no mais-que-perfeito do indicativo.)

62 – Não “se o” diz. É errado juntar o se com os pronomes o, a, os e as. Assim, nunca use: Fazendo-se-os, não se o diz (não se diz isso), vê-se-a, etc.

63 – Acordos “políticos-partidários”. Nos adjetivos compostos, só o último elemento varia: acordos político-partidários. Outros exemplos: Bandeiras verde-amarelas, medidas econômico-financeiras, partidos social-democratas.

64 – Fique “tranquilo”. O u pronunciável depois de q e g e antes de e e i exige trema: Tranqüilo, conseqüência, lingüiça, agüentar, Birigüi.

65 – Andou por “todo” país. Todo o (ou a) é que significa inteiro: Andou por todo o país (pelo país inteiro). / Toda a tripulação (a tripulação inteira) foi demitida. Sem o, todo quer dizer cada, qualquer: Todo homem (cada homem) é mortal. / Toda nação (qualquer nação) tem inimigos.

66 – “Todos” amigos o elogiavam. No plural, todos exige os: Todos os amigos o elogiavam. / Era difícil apontar todas as contradições do texto.

67 – Favoreceu “ao” time da casa. Favorecer, nesse sentido, rejeita a: Favoreceu o time da casa. / A decisão favoreceu os jogadores.

68 – Ela “mesmo” arrumou a sala. Mesmo, quanto equivale a próprio, é variável: Ela mesma (própria) arrumou a sala. / As vítimas mesmas recorreram à polícia.

69 – Chamei-o e “o mesmo” não atendeu. Não se pode empregar o mesmo no lugar de pronome ou substantivo: Chamei-o e ele não atendeu. / Os funcionários públicos reuniram-se hoje: amanhã o país conhecerá a decisão dos servidores (e não “dos mesmos”).

70 – Vou sair “essa” noite. É este que desiga o tempo no qual se está ou objeto próximo: Esta noite, esta semana (a semana em que se está), este dia, este jornal (o jornal que estou lendo), este século (o século 20).

71 – A temperatura chegou a 0 “graus”. Zero indica singular sempre: Zero grau, zero-quilômetro, zero hora.

72 – A promoção veio “de encontro aos” seus desejos. Ao encontro de é que expressa uma situação favorável: A promoção veio ao encontro dos seus desejos. De encontro a significa condição contrária: A queda do nível dos salários foi de encontro às (foi contra) expectativas da categoria.

73 – Comeu frango “ao invés de” peixe. Em vez de indica substituição: Comeu frango em vez de peixe. Ao invés de significa apenas ao contrário: Ao invés de entrar, saiu.

74 – Se eu “ver” você por aí… O certo é: Se eu vir, revir, previr. Da mesma forma: Se eu vier (de vir), convier; se eu tiver (de ter), mantiver; se ele puser (de pôr), impuser; se ele fizer (de fazer), desfizer; se nós dissermos (de dizer), predissermos.

75 – Ele “intermedia” a negociação. Mediar e intermediar conjugam-se como odiar: Ele intermedeia (ou medeia) a negociação. Remediar, ansiar e incendiar também seguem essa norma: Remedeiam, que eles anseiem, incendeio.

76 – Ninguém se “adequa”. Não existem as formas “adequa”, “adeqüe”, etc., mas apenas aquelas em que o acento cai no a ou o: adequaram, adequou, adequasse, etc.

77 – Evite que a bomba “expluda”. Explodir só tem as pessoas em que depois do d vêm e e i: Explode, explodiram, etc. Portanto, não escreva nem fale “exploda” ou “expluda”, substituindo essas formas por rebente, por exemplo. Precaver-se também não se conjuga em todas as pessoas. Assim, não existem as formas “precavejo”, “precavês”, “precavém”, “precavenho”, “precavenha”, “precaveja”, etc.

78 – Governo “reavê” confiança. Equivalente: Governo recupera confiança. Reaver segue haver, mas apenas nos casos em que este tem a letra v: Reavemos, reouve, reaverá, reouvesse. Por isso, não existem “reavejo”, “reavê”, etc.

79 – Disse o que “quiz”. Não existe z, mas apenas s, nas pessoas de querer e pôr: Quis, quisesse, quiseram, quiséssemos; pôs, pus, pusesse, puseram, puséssemos.

80 – O homem “possue” muitos bens. O certo: O homem possui muitos bens. Verbos em uir só têm a terminação ui: Inclui, atribui, polui. Verbos em uar é que admitem ue: Continue, recue, atue, atenue.

81 – A tese “onde”… Onde só pode ser usado para lugar: A casa onde ele mora. / Veja o jardim onde as crianças brincam. Nos demais casos, use em que: A tese em que ele defende essa idéia. / O livro em que… / A faixa em que ele canta… / Na entrevista em que…

82 – Já “foi comunicado” da decisão. Uma decisão é comunicada, mas ninguém “é comunicado” de alguma coisa. Assim: Já foi informado (cientificado, avisado) da decisão. Outra forma errada: A diretoria “comunicou” os empregados da decisão. Opções corretas: A diretoria comunicou a decisão aos empregados. / A decisão foi comunicada aos empregados.

83 – Venha “por” a roupa. Pôr, verbo, tem acento diferencial: Venha pôr a roupa. O mesmo ocorre com pôde (passado): Não pôde vir. Veja outros: fôrma, pêlo e pêlos (cabelo, cabelos), pára (verbo parar), péla (bola ou verbo pelar), pélo (verbo pelar), pólo e pólos. Perderam o sinal, no entanto: Ele, toda, ovo, selo, almoço, etc.

84 – “Inflingiu” o regulamento. Infringir é que significa transgredir: Infringiu o regulamento. Infligir (e não “inflingir”) significa impor: Infligiu séria punição ao réu.

85 – A modelo “pousou” o dia todo. Modelo posa (de pose). Quem pousa é ave, avião, viajante, etc. Não confunda também iminente (prestes a acontecer) com eminente (ilustre). Nem tráfico (contrabando) com tráfego (trânsito).

86 – Espero que “viagem” hoje. Viagem, com g, é o substantivo: Minha viagem. A forma verbal é viajem (de viajar): Espero que viajem hoje. Evite também “comprimentar” alguém: de cumprimento (saudação), só pode resultar cumprimentar. Comprimento é extensão. Igualmente: Comprido (extenso) e cumprido (concretizado).

87 – O pai “sequer” foi avisado. Sequer deve ser usado com negativa: O pai nem sequer foi avisado. / Não disse sequer o que pretendia. / Partiu sem sequer nos avisar.

88 – Comprou uma TV “a cores”. Veja o correto: Comprou uma TV em cores (não se diz TV “a” preto e branco). Da mesma forma: Transmissão em cores, desenho em cores.

89 – “Causou-me” estranheza as palavras. Use o certo: Causaram-me estranheza as palavras. Cuidado, pois é comum o erro de concordância quando o verbo está antes do sujeito. Veja outro exemplo: Foram iniciadas esta noite as obras (e não “foi iniciado” esta noite as obras).

90 – A realidade das pessoas “podem” mudar. Cuidado: palavra próxima ao verbo não deve influir na concordância. Por isso : A realidade das pessoas pode mudar. / A troca de agressões entre os funcionários foi punida (e não “foram punidas”).

91 – O fato passou “desapercebido”. Na verdade, o fato passou despercebido, não foi notado. Desapercebido significa desprevenido.

92 – “Haja visto” seu empenho… A expressão é haja vista e não varia: Haja vista seu empenho. / Haja vista seus esforços. / Haja vista suas críticas.

93 – A moça “que ele gosta”. Como se gosta de, o certo é: A moça de que ele gosta. Igualmente: O dinheiro de que dispõe, o filme a que assistiu (e não que assistiu), a prova de que participou, o amigo a que se referiu, etc.

94 – É hora “dele” chegar. Não se deve fazer a contração da preposição com artigo ou pronome, nos casos seguidos de infinitivo: É hora de ele chegar. / Apesar de o amigo tê-lo convidado… / Depois de esses fatos terem ocorrido…

95 – Vou “consigo”. Consigo só tem valor reflexivo (pensou consigo mesmo) e não pode substituir com você, com o senhor. Portanto: Vou com você, vou com o senhor. Igualmente: Isto é para o senhor (e não “para si”).

96 – Já “é” 8 horas. Horas e as demais palavras que definem tempo variam: Já são 8 horas. / Já é (e não “são”) 1 hora, já é meio-dia, já é meia-noite.

97 – A festa começa às 8 “hrs.”. As abreviaturas do sistema métrico decimal não têm plural nem ponto. Assim: 8 h, 2 km (e não “kms.”), 5 m, 10 kg.

98 – “Dado” os índices das pesquisas… A concordância é normal: Dados os índices das pesquisas… / Dado o resultado… / Dadas as suas idéias…

99 – Ficou “sobre” a mira do assaltante. Sob é que significa debaixo de: Ficou sob a mira do assaltante. / Escondeu-se sob a cama. Sobre equivale a em cima de ou a respeito de: Estava sobre o telhado. / Falou sobre a inflação. E lembre-se: O animal ou o piano têm cauda e o doce, calda. Da mesma forma, alguém traz alguma coisa e alguém vai para trás.

100 – “Ao meu ver”. Não existe artigo nessas expressões: A meu ver, a seu ver, a nosso ver.

__________
Fonte: http://www.vitoria.es.gov.br/manual/errocomum.htm

Pequena sabatina ao artista

28/08/2008

por Fabrício Brandão*

No terreno multifacetado das palavras, não são poucas as atribuições que podem ser percebidas em Affonso Romano de Sant’Anna. Poeta, ensaísta, professor e largamente conhecido pelo seu ofício de cronista, o autor é um daqueles observadores críticos da realidade de seu tempo. Munido desse olhar, matéria-prima essencial de sua obra, atravessou uma vida de íntima relação com as letras, aspecto que se desdobra em seus mais de quarenta livros publicados. A própria história da Diversos Afins é testemunha de alguns dos escritos dele, pois, durante o tempo de existência da revista, Affonso vem colaborando conosco de forma significativa com suas crônicas. Estar próximo a ele é perceber a postura reflexiva, compenetrada e, ao mesmo tempo, irônica de um verdadeiro inconformado com aquilo que fizemos de nossa contemporaneidade. Em meio às paisagens ensolaradas de Ilhéus, no litoral sul da Bahia, captamos um pouco das opiniões que posicionam o escritor como um questionador de um tudo. Exalando uma visão extremamente atenta e aguçada, Affonso conversa conosco sobre temas como os equívocos da pós-modernidade, os aspectos contemporâneos da poesia, a convergência das mídias e o complexo conceito de arte na atualidade. Esteta ou contestador, o fato é que estamos diante de um alguém que põe em crise as nossas próprias perplexidades.

DA – Suas crônicas percorrem uma universalidade de temas. Porém, o foco das atenções aponta para uma apreensão ampla do humano em todas as suas complexidades. Esse olhar é uma boa ferramenta de provocação?

AFFONSO ROMANO DE SANT’ANNA – Acho que escrever é um certo modo de olhar. Não só o escritor vê coisas que a pessoa normal não percebe, mas vê e expressa isso de uma maneira específica. E a crônica é a redescoberta do cotidiano, dentro do qual você tem as coisas que transcendem esse cotidiano.

DA – É possível acreditar na escrita como uma espécie de libertação?

AFFONSO ROMANO DE SANT’ANNA – Sim. Libertação, catarse e, ao mesmo tempo, aprisionamento. Desde o momento em que se transforma em escritor, você também é prisioneiro da linguagem, prisioneiro em vários sentidos. Você começa a ver o mundo através da linguagem. Assim como o músico ouve sons e melodias o tempo todo, o escritor só vê o mundo através dessa lente, dessa rede, que tem esse caráter duplo de aprisionar e libertar.

DA – É muito difícil chegar a um consenso quando o assunto é definir a qualidade de uma obra literária, sobretudo se a discussão aponta para os chamados juízos de valor. Em sua opinião, o que deve nortear esse tipo de avaliação?

AFFONSO ROMANO DE SANT’ANNA – O juízo de valor ético e estético entrou em crise sobretudo na modernidade, no século XX. Assim como deixou de haver limites entre o feio e o bonito, o louco e o são, o sujo e o limpo, o alto e o baixo, o dentro e o fora, houve, principalmente na segunda parte da modernidade, na chamada pós-modernidade, uma indisposição em relação ao valor, como se qualquer coisa equivalesse a qualquer coisa. O que é uma mentira. Entre as mentiras da pós-modernidade, essa é uma delas porque na vida de qualquer um, sobretudo na daqueles que pregam a ausência de valor, valores estão sendo decretados. Dizer que os valores morreram é decretar um valor.

DA – Aquilo que chamamos pós-modernidade, caracterizada principalmente pela avalanche de informações, vem carregado de sintomas de um tempo onde parecemos nos agarrar pouco à substância das coisas. Será que estamos perdendo a capacidade de resistir?

AFFONSO ROMANO DE SANT’ANNA – Está muito complicado realmente, ainda mais para uma pessoa que vem de outra geração, como é o meu caso. Um jovem que está começando agora, e ele já nasce nesse contexto, não tem parâmetros de experiências para avaliar o presente. Existe realmente uma tendência na atualidade para a superficialidade, a fragmentação, a aparência, a pressa, a negação dos valores. Isso tudo são características da pós-modernidade. Tem muita gente que endossa e gosta disso. Eu não, pois tenho uma posição crítica em relação a isso. Acho que o intelectual, o ficcionista, o teórico que endossa as coisas da pós-modernidade é um desastre. Ele está assumindo uma ideologia, enquanto que a função do intelectual é justamente contestar as ideologias porque atrás delas existe uma coisa mais visceral e mais autêntica.

DA – Vivemos um período de crescente convergência entre as mais diferentes mídias, onde tempo e espaço se comprimem simultaneamente. Em que medida essa conjunção de fatores pode ser uma aliada dos novos escritores?

AFFONSO ROMANO DE SANT’ANNA – Era muito mais simples antigamente quando os gêneros eram muito estabelecidos, não só os gêneros líricos, dramáticos, épicos, o que era romance e poesia, mas o que significavam esses suportes também. O livro era uma coisa, o teatro, outra. Hoje há uma superposição muito rica. Eu gosto disso. Seu texto de repente ganha uma vida nova dentro desse quadro que é uma espécie de jogo de espelhos. Temos, por exemplo, poema transformado em vídeo, em balé, em pôster. E o problema que existe hoje é o desafio para o artista ter uma certa convivência com essas mídias. Em meu primeiro livro, o qual se chamou O Desemprego do Poeta, onde eu estudava o deslocamento do poeta na sociedade moderna, eu dizia que João Cabral de Melo Neto, em 1945, havia afirmado que os poetas precisavam se aproximar do rádio, forma de comunicação revolucionária da época (não tínhamos sequer televisão ainda). No entanto, ele falou aquilo, mas nunca se aproximou do rádio. Da minha parte, eu tentei me aproximar dos meios de comunicação todos. Fiz poemas de encomenda para rádio e televisão, por exemplo. Dentro desse ambiente, teve muita gente que se recusou a fazer parte do processo.

DA – Baseado nisso, você acha que o autor, mesmo o mais tradicional, ficaria muito alheio se não estivesse inserido nessa tendência?

AFFONSO ROMANO DE SANT’ANNA – Não. Ele pode de repente ficar na dele, como faz o Manoel de Barros, que constrói aquele poema filosófico sobre o nada, e fica lá no Mato Grosso, não incomoda ninguém, não corre atrás de ninguém. Fica na dele e o poema no papel. Acho que uma das coisas importantes na vida em geral e, sobretudo na vida artística, é a liberdade de cada um escolher o caminho que quiser.

DA – A contemporaneidade, rompendo certas convenções, trouxe uma nova aurora para a poesia? Qual a efetividade dessa provável ruptura?

AFFONSO ROMANO DE SANT’ANNA – Isso é outra arma de três gumes. Primeiro, não existe liberdade, pois ela é um conceito abstrato. Tudo está preso a um sistema determinado. Por exemplo, uma formiga que esteja andando aqui parece que está seguindo para onde quer, mas não, na verdade, está condicionada a uma série de fatores. Liberdade total é uma ficção. Mas aconteceu no caso específico da poesia uma coisa que eu acho meio danosa. Eu pego muitos livros de poesia que surgem por aí de um pessoal que não tem a menor noção do que é o verso. O verso é uma estrutura e tem gente que fica escrevendo e corta ele onde bem quer. Às vezes, nem corta, pára o verso onde bem entende como se aquilo fosse um texto em prosa. E, no fundo, é prosa, pois não se tem a idéia do verso como unidade rítmico-formal. Isso leva a uma série de mal-entendidos e começa a ser uma espécie de facilitário, quando a gente sabe que o poema mais simples, às vezes, exige um trabalho muito grande.

DA – Seu último livro, “A Cegueira e o Saber”, aborda questões que chamam a atenção daqueles que se aventuram pelo misterioso mar da criação literária, citando casos de nomes importantes, como James Joyce e Scott Fitzgerald, e que um dia tiveram obras suas recusadas por editores. Podemos dizer que sua intenção principal foi a de reduzir o peso dos ombros daqueles que procuram publicação?

AFFONSO ROMANO DE SANT’ANNA – A intenção eram várias. Primeiro, narrar para quem está interessado, principalmente o jovem autor iniciante, umas peripécias normais existentes na carreira do escritor. Depois, até exorcizar coisas que já vivi e vivo porque hoje, com mais de quarenta livros publicados, eu continuo a ter uma série de problemas também. Os problemas não param. Eu sempre tive nos meus textos uma preocupação de dizer para o leitor alguma coisa útil, além de dizer algo que eu penso. Outro dia, uma leitora me disse que sempre aprendia alguma coisa do ponto de vista da informação, da cultura nas minhas crônicas. Então, esses textos, que estão na Cegueira e o Saber, parte deles tem a função de dialogar com o jovem. Talvez isso venha do lado professor, de ter dado aula a vida inteira e também pelo fato de ser procurado o tempo todo pelo jovem autor que busca saber coisas. As perguntas são sempre as mesmas e, por conseqüência, as respostas também são idênticas. Tem umas coisas que eu estou experimentando e outros escritores antes de mim experimentaram. É bom passar isso para quem está começando.

DA – Para onde apontam seus novos rumos?

AFFONSO ROMANO DE SANT’ANNA – Eu vou lançar, na metade do ano, um livro que se chama O Enigma Vazio, um aprofundamento da análise das questões da arte e da cultura de nosso tempo. É um trabalho no qual eu peguei as análises feitas por grandes autores de algumas obras, por exemplo, o que o Octavio Paz escreveu sobre O Grande Vidro, de Marcel Duchamp, o que Jacques Derrida escreveu sobre Os Sapatos, de Van Gogh, o que Roland Barthes escreveu sobre um pintor americano chamado Cy Twombly, e assim por diante. Tudo isso para mostrar ao leitor como os grandes falam imensas tolices em termos de arte. Se os grandes erram dessa maneira, que dirá um jornalista, um crítico de país de periferia, de província que fica repetindo uma linguagem sem raciocinar. É um livro muito desafiante e que põe o dedo na ferida, uma leitura não mais subalterna desses textos, desses autores e da realidade. Não é possível, por exemplo, um professor que freqüenta exposições, lê e viaja, aceite uns produtos apresentados como arte, mesmo sabendo que aquilo não é arte e não diz coisa nenhuma. Insere-se no reino da insignificância, no sentido de algo que está ali, mas não significa nada. Você está diante daquilo e querem lhe vender como uma obra de arte fabulosa, cheia de predicados. Então, eu demonstro, nesse livro, o que é a invenção do discurso crítico. A crítica alucina. A crítica faz literatura quando deveria estar fazendo coisas objetivas. Literatura é outra coisa. E é importante que seja um escritor que venha denunciar nesses pensadores que eles estão fazendo literatura porque de literatura eu entendo.

DA – Inclusive essa abordagem aponta para toda aquela discussão em torno da perda da aura do objeto artístico.

AFFONSO ROMANO DE SANT’ANNA – É mais grave porque eles criam aura onde não se tem nada. Toda estética moderna caiu num paradoxo. Plagiando Benjamin, acabou a aura. Acabou coisa nenhuma, pois inventaram uma aura para coisas que não têm aura. Uma coisa é você olhar um quadro de Rafael, de Da Vinci, uma escultura grega que já vem com uma aura, obras que estão dentro de um padrão consagrado, sacralizado. Outra coisa é você pegar um urinol, uma roda de bicicleta ou pegar um quadro totalmente branco e começar a ter delírios. Esse delírio é verbal, literário, não tem nada a ver com a obra em si, pois existe uma esquizofrenia entre o discurso e o objeto.

DA – “Arte e fuga da espera” é um dos seus textos emblemáticos, no qual você mexe com o fio delicado de nossas existências – aquilo que projetamos como a fonte de nossas ansiedades. No caldeirão de contradições que é o nosso país, para qual direção apontam melhor as nossas esperanças?

AFFONSO ROMANO DE SANT’ANNA – O futuro do país é a soma de todas as suas contradições. Ninguém pode prever. O Brasil de hoje não é o Brasil do tempo de Vargas, não é o Brasil do tempo de Deodoro, nem de Tiradentes, nem de Cabral. Há vários brasis em movimento no tempo, sem falar do espaço, pois os índios da Amazônia são Brasil também. Estão na Idade da Pedra, mas são Brasil. Então, o futuro nesse sentido é muito imprevisível. Cada geração tem a sua pretensão de vir e colocar uma pedra nesse edifício, empurrar essa bola numa direção determinada. E a esperança nesse sentido é uma fatalidade do ser humano. Não existe nenhum ser vivo que não viva em expectação, como dizem os psicólogos. Se você tirar a expectação de sua vida, isto é, a expectativa, a visão de futuro, você pára de viver. Uma planta tem instintivamente a sua expectação, estão em movimento a seiva, o fruto, o aroma. Ela está produzindo uma coisa para depois. Os seres são assim também. Então, como diria Clarice Lispector, nós estamos condenados à esperança.

___________
Fonte: http://www.diversos-afins.blogspot.com/ Publicado sob autorização do editor. Imagens: Leila Lopes
* Fabrício Brandão é editor da revista eletrônica cultural DIVERSOS AFINS (http://www.diversos-afins.blogspot.com/). Formado em Comunicação Social, dedica-se à poesia e alguma prosa, acreditando que a magia do mundo só é descoberta quando as palavras saem das gavetas e cruzam a rua ao encontro de um outro alguém. E-mail: diversosafins@gmail.com

Entrevista – Literatura reconfortante de um mundo irreal

20/08/2008

Em entrevista a O POVO, o professor da Universidade Federal de Pelotas, no Rio Grande do Sul, e ex-preso político Mário Maestri, 60, aponta as razões por trás do sucesso editorial do escritor Paulo Coelho

“Um dos primeiros ensaístas a voltar os olhos sobre sua obra fora o professor Mario Maestri”. Feita por Fernando Morais em O Mago, a afirmação também vem revestida de crítica. Ainda na página 541 da biografia do escritor Paulo Coelho, Morais admite: em texto posterior, Maestri – cujos trabalhos iniciais analisavam com imparcialidade a obra do escritor carioca – cederia à rabugice da crítica literária brasileira. Para o biógrafo, grande parcela dessa crítica vive, salvo um ou outro hiato de bom-humor, às turras com o autor best seller.

Em entrevista a O POVO, o professor gaúcho Mário Maestri, 60 anos, fala, de passagem, sobre o episódio. E cutuca: Paulo Coelho teve o biógrafo que mereceu. Doutor em História pela Université Catholique de Louvain (UCL), na Bélgica, Maestri analisa a obra de Paulo Coelho. Nesse exercício, ele sugere explicações para o fenômeno editorial que representado por Coelho e retoma conceitos apresentados no livro Por que Paulo Coelho teve sucesso, publicado em 1993. Para o pesquisador, as razões por trás do estrelato literário do mago são razoavelmente simples: com uma prosa trivial, assemelhada estruturalmente às tele-novelas, os livros de Coelho destinam-se a um público feminino. Não por acaso, explica Maestri, os personagens mais bem-acabados pelo autor são mulheres, como Brida e Veronika. Isso permite que “jovens e menos jovens desiludidas com a vida identifiquem-se com as soluções literalmente mágicas obtidas pela charmosa bruxinha irlandesa para suas frustrações”. Atualmente, Mário Maestri dá aulas na Universidade de Passo Fundo, no Rio Grande do Sul. Ainda em 2007, em reportagem publicada pela revista americana New Yorker, Maestri colaborou com uma análise da obra de Paulo Coelho. (Henrique Araújo, Especial para O POVO)

O POVO – Há resposta simples e direta que explique a surpreendente trajetória de Paulo Coelho?

Mário Maestri – Por ser escritor de escassas qualidades e alcançar enormes vendagens, Paulo Coelho constitui indiscutivelmente um fenômeno, ou seja, um fato relevante que exige explicação científica. Em artigo longo, A feitiçaria yuppie de Paulo Coelho, de 1993, reapresentado em forma ampliada como livro, em 1999, Por que Paulo Coelho teve Sucesso, expliquei o sentido daquela literatura e da oposição aparente entre uma qualidade escassa e uma aceitação fluvial. É interessante que, na página 541 de O Mago, Fernando Morais refere-se a esses dois trabalhos, registrando que não os leu e ajeitando-os a suas necessidades. Já em 1993, lembrava que a produção literária de Paulo Coelho era, certamente, prosa literária de tema esotérico, e não ensaísmo de auto-ajuda, como proposto por inúmeros críticos que não haviam lido a produção coelhista, criticando-a a partir da esdrúxula posição “não li e não gostei”. Sobretudo, assinalava, em uma tentativa de análise racionalista de uma ficção irracionalista, as características textuais, estruturais e de conteúdo, assim como o momento histórico, que levaram ao paradoxal sucesso da ficção do Bruxo escrevinhador. Apontei, sobretudo, a estrutura muito simples da narrativa, como as tele-novelas: texto fácil, em ordem direta, com frases, parágrafos e diálogos breves, contando história simples, que avança no espaço e no tempo, cortada por episódios autônomos. Uma narrativa sempre encenada por poucos personagens, em geral não mais do que cinco, contracenando sempre em forma dual com o protagonista, com nomes ou denominações fáceis de serem lembrados. Portanto, uma literatura fácil e acessível a leitores ocasionais, não habituados à ficção densa. Isso, ao meu ver, teria permitido, mas não garantia, um sucesso nascido da capacidade dessa literatura mágico-esotérica de servir de lenitivo à enorme população mergulhada em perplexidade, desânimo, desconcerto, etc., quando da vitória da maré neoliberal. Em 1999, propus que Coelho tivesse modernizado a sub-literatura irracionalista que pôde sair das sombras, com a verdadeira irracionalização do mundo. O Diário de um Mago foi lançado precisamente quando ruía o Muro de Berlim!

OP – Como teve início o seu interesse pela obra do autor?

MM – É uma história divertida. Em 1969, estudante, passei alguns dias preso no DOPS. Um tio, delegado, me presenteou com Meu pé de laranja-lima, um outro sucesso louco na época, que desdenhei pela baixa qualidade literária e ofereci ao meu companheiro de cela, um enorme açougueiro argentino, preso por viver no Brasil sem documento e surrar a mulher. De noite, acordei com seus soluços: homem se debulhava em lágrimas, com o coração partido pela história melosa contada por José Mauro de Vasconcellos. Desde então me interessa o sucesso desse tipo de produção cultural.

OP – O senhor é doutor em História. Do ponto de vista das ciências humanas, que aspectos da obra de Paulo Coelho se relacionam mais diretamente com o cotidiano das suas centenas de milhares de leitores?

MM – O aspecto determinante é a trivialidade. A mesma trivialidade das tele-novelas, da cinematografia melosa, da música brega, dos romances de amor, etc. Trata-se de narrativa de cunho individualista, socialmente piegas e tranqüilizadora, que reitera preconceitos e ilusões, como “querer é poder”, “os justos vencerão”, “todos seremos felizes”, “está em nós vencer”, “ricos e pobres são iguais”. Nessa narrativa, o receptor, reconfortado, desbrava maravilhado mundos conhecidos e seguros, arrombando portas abertas, descobrindo obviedades. Tudo ao contrário da verdadeira arte, que enseja experiências profundas, sentimentos complexos, através de aventura estética de conteúdos essenciais que, desorganizando o senso comum e enriquecendo a consciência, remete para a vida real e não para o mundo das ilusões.

OP – Por falar em leitor, o senhor se arriscaria a traçar um perfil do leitor médio de Paulo Coelho? Afinal, para quem o mago escreve?

MM – No Brasil, Argentina, Portugal, Bélgica e Itália, países onde me informei, sem maior sistematicidade, sobre a recepção da literatura coelhista, parece dominar, claramente, o público feminino, sobretudo jovem e adulto. Em verdade, alguns dos personagens melhor construídos por Coelho são mulheres, como Brida, o que permite que jovens e menos jovens desiludidas com a vida identifiquem-se com as soluções literalmente mágicas obtidas pela charmosa bruxinha irlandesa para suas frustrações. Tenho também a impressão que esse tenha sido o público alvo dos primeiros romances do autor.

OP – Primeiro grande sucesso de Paulo Coelho, O Diário de um Mago foi lançado em 1987. Em seguida, viriam O alquimista e Brida. Esses três romances formam uma espécie de núcleo duro no conjunto da obra do autor. A questão é: como os romances posteriores, até os mais recentes, trabalharam as temáticas e premissas presentes nos primeiros livros?

MM – Esses três foram os livros escritos quando, em 1987-90, Paulo Coelho surfava no sucesso, com enorme impacto cultural e ideológico, de sentido profundamente irracionalista e quietista. O livro As valkírias, de 1992, já assinala o declínio de literatura obrigada por sua trivialidade a reapresentar, sempre, sob formas diversas, os mesmos ingredientes, apesar da metamorfose da conjuntura histórica que lhe garantira o sucesso. Paulo Coelho é homem inteligente à frente de um enorme negócio. Ele se esforça para superar essa tendência declinante, que certamente não lhe impedirá de seguir vendendo, e muito bem, nesse mundo globalizado, sem precisar acender vela para qualquer santo, um produto cada vez mais distante do impacto inicial.

OP – Numa de suas entrevistas, o senhor fala que Paulo Coelho costuma reorientar-se literariamente. Ele faz mesmo novas opções estéticas ou seus livros mudam apenas de cor?

MM – É precisamente para contrabalançar o declínio a que acabamos de nos referir, que Paulo Coelho procura reinventar-se, a ele e a sua literatura. Despiu a capa, abandonando a posição de bruxo, procurando propor-se como simples ficcionista, nos romances Na margem do rio Piedra eu sentei e chorei [1994], O monte Cinco [1997] e, sobretudo, Veronika decide morrer [1998]. Jamais alcançou, porém, nesses e nos trabalhos seguintes, o impacto relativo das obras iniciais. Vai ser sempre, sobretudo, o autor de O alquimista. O verdadeiro assalto que empreende à Academia Brasileira de Letras, em agosto de 2002, ou a atual biografia acordada com Fernando Morais, são operações de marketing bem pensadas e bem realizadas, destinadas a contrabalançar essa perda de impacto e de dinamismo relativo. Mesmo se aceitando que Paulo Coelho tenha vendido cem milhões de livros em vinte anos, cinco milhões por ano, trata-se de sucesso relativo, diante dos trezentos milhões, em apenas dez anos, 30 milhões por ano, da escritora J. K. Rowling. Ou seja, apenas em livros, a Bruxa britânica faturou relativamente seis vezes mais que o nosso feiticeiro carioca!

OP – Para epígrafe de O Mago, Fernando Morais destaca duas declarações do crítico literário Wilson Martins. Na primeira, de 1998, Martins desanca Paulo Coelho. Escrita sete anos depois, a segunda tolera-o. Por que a crítica literária no Brasil despreza o pop star das letras nacionais? O senhor acredita que uma reabilitação do escritor esteja, agora mesmo, sendo processada ou o mago ainda amargará bastante desprezo?

MM – A evolução de Wilson Martins em relação a Paulo Coelho tem sido a da crítica brasileira, que tende a se render ao magnetismo das vendagens siderais e direitos astronômicos, em mundo em que a pedra de toque é o sucesso de mercado e monetário. Em geral, a crítica já defende Paulo Coelho como ficção de planície que prepara para vôos mais elevados. O que é uma ilusão. A leitura, por si só, não eleva. Literatura racista, sexista ou irracionalista reforça o racismo, o sexismo, o irracionalismo. As telenovelas não levam ao bom teatro ou ao bom cinema. A música brega não introduz à popular e erudita de valor. O caminho para Graciliano Ramos não passa por Paulo Coelho. A narrativa trivial é uma droga que droga o consumidor e o mantém apartado da arte e da vida. Atualmente, a posição de escritor de sucesso mundial, injustiçado pela crítica brasileira, já é parte da estratégia de marketing coelhista. Não foi pela qualidade de sua obra, mas pelo número de exemplares vendidos e pelo novo consenso da crítica, que ele entrou na Academia Brasileira de Letras, algo impressionante, mesmo se considerando a sabida permeabilidade da veneranda instituição. Em todo caso, a avaliação positiva ou negativa da crítica, importante na recepção e, portanto, na vendagem, não cria ou anula a qualidade de uma obra, podendo apenas reconhecê-la ou ignorá-la. O mulato e maximalista Lima Barreto foi ignorado e desancado pela crítica, não apenas de sua época, sendo um enorme fracasso de vendagem. Ele consolida-se, porém, crescentemente como um dos maiores ficcionistas brasileiros.

OP – Logo no primeiro capítulo de O Mago, Fernando Morais apresenta Paulo Coelho como alguém que se enfeza rapidamente quando não se vê cercado por jornalistas e fãs. A seu ver, a biografia faz jus às contradições do personagem?

MM – Fernando Morais consagrou-se com sua reportagem sobre Cuba – A ilha -, publicada em 1976, durante a Ditadura Militar, no começo da chamada Abertura, quando era imenso o interesse da população brasileira sobre Cuba. Repetiu o sucesso com Olga, em 1985, sobre a militante comunista alemã, companheira de Prestes, entregue por Getúlio aos nazistas. Neste último e nos seguintes livros, perseguiu, com sucesso, as vendagens, mesmo através de amplo sacrifício de conteúdo. Creio que vendeu já dois ou três milhões de livros apenas no Brasil. Uma enormidade! Com a biografia de Paulo Coelho, traduzível para dezenas de línguas, vai ampliar enormemente sua tiragem. É sua maior operação mercadológica. Apesar da alta qualidade do seu texto, sua produção historiográfica denota igualmente conteúdo claramente trivial. Estou nas páginas iniciais de O Mago, mas arriscaria dizer, sem medo de ser injusto, que Paulo Coelho não encontraria melhor biógrafo no Brasil. Fernando Morais candidatou-se, em 2003, à Academia Brasileira de Letras, sendo derrotado por Marcos Maciel, ex-senador e ex-vice presidente da República de 1995 a 2002. Certamente com esse trabalho e um santo forte como Paulo Coelho, vai tornar-se igualmente imortal.

Fonte: Jornal O Povo, 09.08.2008. Disponível em http://www.opovo.com.br/opovo/vidaearte/810701.html#menu

Niilismo (trecho da obra Pais e Filhos, de Ivan Turgueniev)

10/08/2008

─ Quem é Bazárov? ─ perguntou sorrindo Arcádio. ─ Quer, meu tio, que lhe diga quem é de fato?

─ Faça-me o favor, meu caro sobrinho?

─ Ele é niilista?

─ Como? ─ perguntou Nicolau Pietróvitch, enquanto Páviel Pietróvitch erguia a faca com um pouco de manteiga na ponta.

─ Ele é niilista ─ repetiu Arcádio.

─ Niilista ─ disse Nicolau Pietróvitch ─ vem do latim, nihil, e significa “nada”, segundo eu sei. Quer dizer que essa palavra se refere ao homem que… em nada crê ou nada reconhece?

─ Pode dizer: o homem que nada respeita ─ explicou Páviel Pietróvitch, voltando novamente sua atenção para a manteiga.

─ Aquele que tudo examina do ponto de vista crítico ─ sugeriu Arcádio.

─ Não é a mesma coisa? ─ perguntou Páviel Pietróvitch.

─ Não, não é o mesmo. O niilista é o homem que não se curva perante nenhuma autoridade e que não admite como artigo de fé nenhum princípio, por maior respeito que mereça…

─ E isso está bem? ─ interrompeu Páviel Pietróvitch.

─ Depende, tio. Para alguns está bem e para outros não.

─ Vejo que essa doutrina não se refere a nós. Somos homens do século passado e supomos que, sem os princípios (Páviel Pietróvitch pronunciava esta palavra suavemente, à francesa; Arcádio, pelo contrário, proferia à russa, carregando a primeira sílaba), sem os princípios transformados, como você disse em artigos de fé, não é possível dar um passo, nem mesmo respirar. Vous avez changé tout cela*, que Deus lhes dê saúde e posto de general. Ser-nos-á muito agradável apreciar a sua obra, senhores… como se chamam mesmo?

─ Niilistas ─ pronunciou claramente Arcádio.

─ Bem. Antes havia hegelistas, hoje há niilistas. Veremos como poderão viver no vácuo, no espaço sem ar.

***

─ O senhor tem grande consideração pelos alemães? ─ indagou com refinada gentileza Páviel Pietróvitch. Começava a sentir uma irritação mínima. Sua natureza aristocrática estava em oposição com a simplicidade de Bazárov no modo de expressar suas idéias. Este filho de curandeiro de aldeia não só se mostrava indiferente como também rispidamente de má vontade. Na sua voz transparecia um acento rude e quase provocante.

─ Os sábios de lá são homens de valor.

─ De acordo. E que pensa dos sábios russos? Terá a mesma opinião deles?

─ Parece-me que não.

─ É um louvável gesto de renúncia ─ disse Páviel Pietróvitch, endireitando-se. ─ Por que então Arcádio Nikoláievitch nos afirmou há pouco que o senhor não reconhece nenhuma autoridade? Não deposita confiança nos homens de ciência?

─ De que vale reconhecer sua autoridade? Em que posso acreditar? Se me disserem algo de positivo, concordarei. Aí está.

─ São todos os alemães homens positivos? ─ insistiu Páviel Pietróvitch. E seu semblante assumiu tal expressão de alheamento e de indiferença, que ele parecia estar com o pensamento muito longe.

─ Nem todos ─ respondeu num bocejo Bazárov, que visivelmente não desejava continuar o diálogo.

Páviel Pietróvitch olhou para Arcádio, como se lhe dissesse: “O seu amigo é bem educado, não resta dúvida”

─ Quanto a mim ─ continuou ele com algum esforço ─, eu, pecador, não aprecio os alemães. Não me refiro aos alemães russos: sabemos bem que são. Não suporto os verdadeiros alemães. Ainda os antigos eram suportáveis. Tinham lá seu Schiller ou seu Goethe… Meu irmão, por exemplo, aprecia-os bastante… agora temos somente químicos e materialistas…

─ Um bom químico é vinte vezes mais útil que qualquer poeta ─ insinuou Bazárov.

─ Ótimo ─ disse Páviel Pietróvitch, parecendo adormecer e levantando levemente as sobrancelhas. ─ O senhor então não reconhece o valor da arte?

─ A arte de ganhar dinheiro ou de curar hemorróidas? ─ perguntou Bazárov com um sorriso irônico.

─ Muito bem; o senhor é espirituoso. Pelo que vejo, nega tudo? Quer dizer que acredita somente na ciência?

─ Já lhe disse que não acredito em coisa alguma. A ciência? Que é a ciência em geral? Existem ciências como existem artes e profissões. A ciência de um modo geral não existe.

─ Será também negativa sua atitude em face das demais instituições aceitas pela humanidade?

─ Porventura estou depondo num inquérito? ─ perguntou Bazárov.

Páviel Pietróvitch empalideceu ligeiramente… Nicolau Pietróvitch julgou necessário intervir na conversa.
__________
* Vocês mudaram tudo isso.
Fonte: TURGUENIEV, Ivan. Pais e Filhos. São Paulo: Abril Cultural, 1971, p.31-33 e 35-36.

‘A parasita azul’ é um professor cassado – por Milton Hatoum

06/08/2008

De onde vem o desejo de escrever? Para a maioria dos escritores, as fontes de suas narrativas giram na infância e juventude, cujo mundo é uma promessa de um futuro livro. A memória incerta e sinuosa do passado acende o fogo de uma ficção no tempo presente.

Cada escritor elege seu paraíso. E a infância, um paraíso perdido para sempre, pode ser reinventada pela literatura e a arte. Mas há também vestígios do inferno no passado, e isso também interessa ao escritor. Traumas, decepções, desilusões e conflitos alimentam trançados de eventos, tramas sutis ou escabrosas, veladas ou escancaradas. Cenas e conversas que presenciamos, ou que foram narradas por amigos e parentes, permanecem na nossa memória com uma veracidade que nos toca e nos inquieta. A infância, com seus sonhos e pesadelos, é prato cheio para a psicanálise, mas também para a literatura. No entanto, para quem almeja ser um escritor, há algo mais: a leitura.

Alguns jovens tiveram a sorte de conviver com um bom professor de literatura; outros, que estudaram em escolas precárias, conheceram um leitor em sua casa: um desses leitores que nos oferecem um livro decisivo, capaz de mudar nossa vida. E há ainda casos do acaso: você entra numa biblioteca da província ou da metrópole e se depara com um livro desconhecido, que pede para ser lido. O acaso, que é um motivo tão recorrente na ficção, pode formar um leitor.

Dois acasos foram decisivos na minha juventude: o primeiro me conduziu a Machado de Assis, o segundo, a uma biblioteca vasta e sombria, escondida numa sala subterrânea.

Na tarde de um sábado de 1965, um homem alto e esquálido entrou no pátio de minha casa manauara e bateu palmas. Carregava uma maleta, e parecia prostrado pelo calor; quando olhei o rosto dele, pensei que chorava aos prantos, mas foi uma falsa impressão: os olhos estavam encharcados de suor. Abriu a maleta e mostrou à minha mãe as obras completas do Bruxo do Cosme Velho. Surpreso e aliviado, o homem foi embora com a mala vazia. Era um vendedor de enciclopédias e livros de literatura, um humilde mercador de palavras sob o sol abrasador da cidade equatorial. Ao acaso, escolhi um dos livros de capa azul-turquesa, e dei de cara com um título enigmático e atraente: Histórias da meia-noite. Não menos misterioso e sedutor foi o primeiro conto que li do grande escritor: “A parasita azul”. Gostei do enredo, pois aos 13 anos de idade eu não podia entender as filigranas do jogo social e simbólico, movido pela terrível ironia machadiana. Li a narrativa como um leitor ingênuo, percebendo apenas a superfície da história, sem captar outras mensagens e alusões. Mas para um jovem, até mesmo a leitura superficial é importante, porque revela traços do estilo, e da forma com que o autor organiza a narrativa e expõe seus personagens. E quando isso agrada, a leitura flui e o leitor se interessa pelos livros do autor.

“A parasita” narra um dos tantos triângulos amorosos machadianos, mas a aparição da flor azul e seca desfaz o triângulo e traz novos elementos ao enredo, como as jogadas politiqueiras e uma conjunção surpreendente de lugares e sociedades díspares: Paris e o interior de Goiás. Ou seja, a capital do mundo em contraste com um grotão da periferia desta América. A meu ver, é um dos primeiros contos que tratam dos disparates da sociedade brasileira, embora seja eivado de imaginação romântica e traços romanescos, como a paixão do protagonista Camilo por uma princesa moscovita e outras peripécias parisienses. Em algum momento o narrador se refere ao sonho do rival de Camilo como um “melodrama fantástico”, e isso, de algum modo, define o conto. Mas menciona também o “falar oblíquo e disfarçado”, e isso define a genialidade de Machado.

Depois de devorar as páginas das Histórias da meia-noite, a leitura de Coelho Neto e José Américo de Almeida foi um exercício tedioso, e, às vezes, uma flagelação da alma. Para um jovem, a leitura obrigatória de uma narrativa construída com uma linguagem extremamente rebuscada e cheia de adornos pode significar um rompimento radical com o prazer da leitura. E o prazer, que se irmana à curiosidade e ao conhecimento, é essencial para o leitor. Aliás, essencial para a vida.

Digo isto porque o segundo caso, que me conduziu a uma biblioteca, começou com um desprazer: uma punição infligida por um professor de português no ginásio amazonense Pedro II. O castigo consistia em ler e fichar trechos d’Os Sertões, de Euclides da Cunha. Diante de um tão complexo, recorri a um leitor bem mais velho do que eu, a fim de que me ajudasse a decifrar uma obra encharcada de história, geografia, e também de humanidade trágica: a guerra fratricida no sertão da Bahia. Fui atrás de uma explicação e me deparei com uma grande biblioteca numa sala escavada.

No porão sombrio do sobrado antigo e mal conservado, apenas uma escrivaninha era aclarada por uma luz forte. Com uma lanterna, o professor focava as estantes de madeira, mostrando clássicos de várias épocas, inclusive edições raras, adquiridas em sebos do centro do Rio. Na catacumba de papel, vi romances e livros de poesia que desconhecia, e toda a coleção de literatura publicada pela antiga Livraria do Globo, de Porto Alegre. Lembro que lhe perguntei por que não iluminava o porão.

“Não tenho dinheiro”, disse o professor. “Mal consigo comer e manter a casa.”

Depois soube que ele fora cassado e banido da vida pública pelos militares, e vivia num ostracismo de dar dó. Na verdade, vivia numa prisão domiciliar, cuidando da mãe cega e quase centenária, ganhando uns tostões com aulas particulares.

Eu e um colega ginasiano passamos tardes inteiras assistindo às lições sobre a obra de Euclides. Descobrimos outro Brasil, tão diferente do Amazonas, e ao mesmo tempo ligado à região onde nasci e cresci, pois desde a década de 1870 milhares de nordestinos haviam migrado para o Acre e para as cidades da Amazônia. Lembro com nitidez sua voz rouca sentenciar que Os Sertões era um grande compêndio sobre a sociedade brasileira, mas não um romance. Uma tosse de desesperado cortava-lhe a fala e ecoava pela biblioteca.

Mesmo assim, não tirava da boca o cigarro aceso, que piscava como um vaga-lume sinistro na catacumba. Às vezes ele intuía um chamado de sua mãe, subia às pressas e só retornava meia hora depois. Nunca vi essa mulher. E ele nunca me convidou a entrar na sala da casa, ignorando minha curiosidade insaciável. Cheguei a pensar que essa mãe muito idosa era uma invenção para mitigar a vida de um ser tão solitário.

Voltei várias vezes ao subsolo para ler Os Sertões, e saía de lá com livros que o professor me emprestava e depois comentava com paixão. E três décadas depois, voltei como um viajante imaginário, pois esse professor foi uma das fontes de um personagem de romance.

Hoje sei que o conto de Machado e o encontro com o mestre da província foram obras do acaso. Mas o acaso e o imprevisível não são igualmente importantes para a escrita e para o destino de um escritor?

__________
* Fonte: EntreLivros, Ano 1, nº 1, maio de 2005, p.26-27.