‘A parasita azul’ é um professor cassado – por Milton Hatoum

De onde vem o desejo de escrever? Para a maioria dos escritores, as fontes de suas narrativas giram na infância e juventude, cujo mundo é uma promessa de um futuro livro. A memória incerta e sinuosa do passado acende o fogo de uma ficção no tempo presente.

Cada escritor elege seu paraíso. E a infância, um paraíso perdido para sempre, pode ser reinventada pela literatura e a arte. Mas há também vestígios do inferno no passado, e isso também interessa ao escritor. Traumas, decepções, desilusões e conflitos alimentam trançados de eventos, tramas sutis ou escabrosas, veladas ou escancaradas. Cenas e conversas que presenciamos, ou que foram narradas por amigos e parentes, permanecem na nossa memória com uma veracidade que nos toca e nos inquieta. A infância, com seus sonhos e pesadelos, é prato cheio para a psicanálise, mas também para a literatura. No entanto, para quem almeja ser um escritor, há algo mais: a leitura.

Alguns jovens tiveram a sorte de conviver com um bom professor de literatura; outros, que estudaram em escolas precárias, conheceram um leitor em sua casa: um desses leitores que nos oferecem um livro decisivo, capaz de mudar nossa vida. E há ainda casos do acaso: você entra numa biblioteca da província ou da metrópole e se depara com um livro desconhecido, que pede para ser lido. O acaso, que é um motivo tão recorrente na ficção, pode formar um leitor.

Dois acasos foram decisivos na minha juventude: o primeiro me conduziu a Machado de Assis, o segundo, a uma biblioteca vasta e sombria, escondida numa sala subterrânea.

Na tarde de um sábado de 1965, um homem alto e esquálido entrou no pátio de minha casa manauara e bateu palmas. Carregava uma maleta, e parecia prostrado pelo calor; quando olhei o rosto dele, pensei que chorava aos prantos, mas foi uma falsa impressão: os olhos estavam encharcados de suor. Abriu a maleta e mostrou à minha mãe as obras completas do Bruxo do Cosme Velho. Surpreso e aliviado, o homem foi embora com a mala vazia. Era um vendedor de enciclopédias e livros de literatura, um humilde mercador de palavras sob o sol abrasador da cidade equatorial. Ao acaso, escolhi um dos livros de capa azul-turquesa, e dei de cara com um título enigmático e atraente: Histórias da meia-noite. Não menos misterioso e sedutor foi o primeiro conto que li do grande escritor: “A parasita azul”. Gostei do enredo, pois aos 13 anos de idade eu não podia entender as filigranas do jogo social e simbólico, movido pela terrível ironia machadiana. Li a narrativa como um leitor ingênuo, percebendo apenas a superfície da história, sem captar outras mensagens e alusões. Mas para um jovem, até mesmo a leitura superficial é importante, porque revela traços do estilo, e da forma com que o autor organiza a narrativa e expõe seus personagens. E quando isso agrada, a leitura flui e o leitor se interessa pelos livros do autor.

“A parasita” narra um dos tantos triângulos amorosos machadianos, mas a aparição da flor azul e seca desfaz o triângulo e traz novos elementos ao enredo, como as jogadas politiqueiras e uma conjunção surpreendente de lugares e sociedades díspares: Paris e o interior de Goiás. Ou seja, a capital do mundo em contraste com um grotão da periferia desta América. A meu ver, é um dos primeiros contos que tratam dos disparates da sociedade brasileira, embora seja eivado de imaginação romântica e traços romanescos, como a paixão do protagonista Camilo por uma princesa moscovita e outras peripécias parisienses. Em algum momento o narrador se refere ao sonho do rival de Camilo como um “melodrama fantástico”, e isso, de algum modo, define o conto. Mas menciona também o “falar oblíquo e disfarçado”, e isso define a genialidade de Machado.

Depois de devorar as páginas das Histórias da meia-noite, a leitura de Coelho Neto e José Américo de Almeida foi um exercício tedioso, e, às vezes, uma flagelação da alma. Para um jovem, a leitura obrigatória de uma narrativa construída com uma linguagem extremamente rebuscada e cheia de adornos pode significar um rompimento radical com o prazer da leitura. E o prazer, que se irmana à curiosidade e ao conhecimento, é essencial para o leitor. Aliás, essencial para a vida.

Digo isto porque o segundo caso, que me conduziu a uma biblioteca, começou com um desprazer: uma punição infligida por um professor de português no ginásio amazonense Pedro II. O castigo consistia em ler e fichar trechos d’Os Sertões, de Euclides da Cunha. Diante de um tão complexo, recorri a um leitor bem mais velho do que eu, a fim de que me ajudasse a decifrar uma obra encharcada de história, geografia, e também de humanidade trágica: a guerra fratricida no sertão da Bahia. Fui atrás de uma explicação e me deparei com uma grande biblioteca numa sala escavada.

No porão sombrio do sobrado antigo e mal conservado, apenas uma escrivaninha era aclarada por uma luz forte. Com uma lanterna, o professor focava as estantes de madeira, mostrando clássicos de várias épocas, inclusive edições raras, adquiridas em sebos do centro do Rio. Na catacumba de papel, vi romances e livros de poesia que desconhecia, e toda a coleção de literatura publicada pela antiga Livraria do Globo, de Porto Alegre. Lembro que lhe perguntei por que não iluminava o porão.

“Não tenho dinheiro”, disse o professor. “Mal consigo comer e manter a casa.”

Depois soube que ele fora cassado e banido da vida pública pelos militares, e vivia num ostracismo de dar dó. Na verdade, vivia numa prisão domiciliar, cuidando da mãe cega e quase centenária, ganhando uns tostões com aulas particulares.

Eu e um colega ginasiano passamos tardes inteiras assistindo às lições sobre a obra de Euclides. Descobrimos outro Brasil, tão diferente do Amazonas, e ao mesmo tempo ligado à região onde nasci e cresci, pois desde a década de 1870 milhares de nordestinos haviam migrado para o Acre e para as cidades da Amazônia. Lembro com nitidez sua voz rouca sentenciar que Os Sertões era um grande compêndio sobre a sociedade brasileira, mas não um romance. Uma tosse de desesperado cortava-lhe a fala e ecoava pela biblioteca.

Mesmo assim, não tirava da boca o cigarro aceso, que piscava como um vaga-lume sinistro na catacumba. Às vezes ele intuía um chamado de sua mãe, subia às pressas e só retornava meia hora depois. Nunca vi essa mulher. E ele nunca me convidou a entrar na sala da casa, ignorando minha curiosidade insaciável. Cheguei a pensar que essa mãe muito idosa era uma invenção para mitigar a vida de um ser tão solitário.

Voltei várias vezes ao subsolo para ler Os Sertões, e saía de lá com livros que o professor me emprestava e depois comentava com paixão. E três décadas depois, voltei como um viajante imaginário, pois esse professor foi uma das fontes de um personagem de romance.

Hoje sei que o conto de Machado e o encontro com o mestre da província foram obras do acaso. Mas o acaso e o imprevisível não são igualmente importantes para a escrita e para o destino de um escritor?

__________
* Fonte: EntreLivros, Ano 1, nº 1, maio de 2005, p.26-27.

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3 Respostas to “‘A parasita azul’ é um professor cassado – por Milton Hatoum”

  1. Camila.Haase Says:

    Muito boa escolha! Ótimo texto. Fato comprovado é que a formação do leitor deve iniciar na infância. O contato com o livro (objeto) e com o que ele representa (conhecimento) tira a criança do isolamento (contrariando o que dizem, que a isola mais) e a lança a um mundo grande, complexo, rico, multicultural para ela conhecer.Acredito que essa oportunidade não só forma um indivíduo como o faz crítico. E sabemos que o senso crítico é imprescindível. Uma vez que o que vemos, ouvimos, sentimos ou temos como “certo” nem sempre o é (e o contrário também é verdadeiro). Assim, voltando ao foco dado por Hatoum, sobre a formação do escritor, pode-se dizer não há fórmulas mágicas. Mas que, sem dúvida alguma, um bom leitor, digo isso enfatizando “bom leitor” como um “leitor crítico”, consegue sentir as nuances de um texto, seu contexto, além das palavras impressas e faz, dentro de si, quase que de forma involuntária, uma dedução que pode (e deve) ser expressa. Essa expressão surge por meio das artes, que representam a manifestação daquilo que está incrustrado no indivíduo, neste caso, surge através da escrita. Pois um escritor é, sim, a extensão do que está em si, apreendido das mais variadas formas, calcado pelas mais variadas influências. E cada um “elege o seu paraíso”, artificial ou não!De um jeito ou de outro, o texto influencia gerações, positiva ou negativamente. E nem por isso se diz que o texto é, em si, positivo ou negativo.Ainda acredito no futuro de uma sociedade do conhecimento!

  2. Anonymous Says:

    Estimado Ozaí: Vuestra reflexión es un bonito texto que nos recuerda lo humano y lo difícil que es la convivencia en un espacio y la experiencia valiosa del acceso a los libros, a la novela, al cuento y al relato oral. La memoria y el olvido, la pasión y la razón, el presente y el pasado orientan la vida a quienes encuentran que la vida social tiene sus ordenes y desequilibrios no solo por el accionar de los actores sino también por el peso de la tradición en este mundo global. Vuestra escritura, querido amigo Ozaì, me ayudó a recordar como empecé a conocer los libros. Estudié en un colegio fiscal que tenía un edificio de arquitectura borbónica. Allí nos juntaron a hijos de ex-esclavos de una hacienda que recorrió a mediados del siglo XVI Flora Tristán, llamada Villa, y a jóvenes provenientes de una ciudad puerto, Chorrillos, destruida en 1880 por el ejército chileno. Fue una experiencia interesante pues allí, aparte de jugar la pelota y escuchar las lecciones, tuve la oportunidad de escuchar la música cubana y por ratos, en las tardes, la música de piano que ejercitaba el hijo del donante del terreno del colegio. De esta forma aprendí a valorar a Mozart y a Chopin y también a los Beatles y a la Sonora Matancera y a Celia Cruz. Ahora estoy leyendo un texto de Octavio Ianni sobre el tema del racismo pero esto es grano para otro mensaje futuro.Muchos saludosCésar Espinoza ClaudioUNMSM, Lima, Perú

  3. Wellington Diniz Says:

    Como sempre o autor nos dá uma aula de escrita e me sinto até constrangido em mandar o comentário que segue. Apenas um reparo: não é o narrador quem se refere ao sonho como melodrama fantástico, e sim o próprio Camilo. " – Veja o que é uma digestão malfeita! exclamou Camilo quando o comprovinciano terminou a narração. Que porção de Tolices! O chapéu, a ribanceira, o cavalo, e mais que tudo a minha presença nesse melodrama fantástico, tudo isso é obra de quem digeriu mal o jantar. Em Paris há teatros que representam pesadelos assim, – piores do que o seu porque são mais compridos. Mas o que eu vejo também é que essa moça não o deixa nem dormindo" (ASSIS, M. obra completa. Rio de Janeiro: Aguilar, 1986, Vol. II p. 169).No mais sempre brilhante.

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