Niilismo (trecho da obra Pais e Filhos, de Ivan Turgueniev)

─ Quem é Bazárov? ─ perguntou sorrindo Arcádio. ─ Quer, meu tio, que lhe diga quem é de fato?

─ Faça-me o favor, meu caro sobrinho?

─ Ele é niilista?

─ Como? ─ perguntou Nicolau Pietróvitch, enquanto Páviel Pietróvitch erguia a faca com um pouco de manteiga na ponta.

─ Ele é niilista ─ repetiu Arcádio.

─ Niilista ─ disse Nicolau Pietróvitch ─ vem do latim, nihil, e significa “nada”, segundo eu sei. Quer dizer que essa palavra se refere ao homem que… em nada crê ou nada reconhece?

─ Pode dizer: o homem que nada respeita ─ explicou Páviel Pietróvitch, voltando novamente sua atenção para a manteiga.

─ Aquele que tudo examina do ponto de vista crítico ─ sugeriu Arcádio.

─ Não é a mesma coisa? ─ perguntou Páviel Pietróvitch.

─ Não, não é o mesmo. O niilista é o homem que não se curva perante nenhuma autoridade e que não admite como artigo de fé nenhum princípio, por maior respeito que mereça…

─ E isso está bem? ─ interrompeu Páviel Pietróvitch.

─ Depende, tio. Para alguns está bem e para outros não.

─ Vejo que essa doutrina não se refere a nós. Somos homens do século passado e supomos que, sem os princípios (Páviel Pietróvitch pronunciava esta palavra suavemente, à francesa; Arcádio, pelo contrário, proferia à russa, carregando a primeira sílaba), sem os princípios transformados, como você disse em artigos de fé, não é possível dar um passo, nem mesmo respirar. Vous avez changé tout cela*, que Deus lhes dê saúde e posto de general. Ser-nos-á muito agradável apreciar a sua obra, senhores… como se chamam mesmo?

─ Niilistas ─ pronunciou claramente Arcádio.

─ Bem. Antes havia hegelistas, hoje há niilistas. Veremos como poderão viver no vácuo, no espaço sem ar.

***

─ O senhor tem grande consideração pelos alemães? ─ indagou com refinada gentileza Páviel Pietróvitch. Começava a sentir uma irritação mínima. Sua natureza aristocrática estava em oposição com a simplicidade de Bazárov no modo de expressar suas idéias. Este filho de curandeiro de aldeia não só se mostrava indiferente como também rispidamente de má vontade. Na sua voz transparecia um acento rude e quase provocante.

─ Os sábios de lá são homens de valor.

─ De acordo. E que pensa dos sábios russos? Terá a mesma opinião deles?

─ Parece-me que não.

─ É um louvável gesto de renúncia ─ disse Páviel Pietróvitch, endireitando-se. ─ Por que então Arcádio Nikoláievitch nos afirmou há pouco que o senhor não reconhece nenhuma autoridade? Não deposita confiança nos homens de ciência?

─ De que vale reconhecer sua autoridade? Em que posso acreditar? Se me disserem algo de positivo, concordarei. Aí está.

─ São todos os alemães homens positivos? ─ insistiu Páviel Pietróvitch. E seu semblante assumiu tal expressão de alheamento e de indiferença, que ele parecia estar com o pensamento muito longe.

─ Nem todos ─ respondeu num bocejo Bazárov, que visivelmente não desejava continuar o diálogo.

Páviel Pietróvitch olhou para Arcádio, como se lhe dissesse: “O seu amigo é bem educado, não resta dúvida”

─ Quanto a mim ─ continuou ele com algum esforço ─, eu, pecador, não aprecio os alemães. Não me refiro aos alemães russos: sabemos bem que são. Não suporto os verdadeiros alemães. Ainda os antigos eram suportáveis. Tinham lá seu Schiller ou seu Goethe… Meu irmão, por exemplo, aprecia-os bastante… agora temos somente químicos e materialistas…

─ Um bom químico é vinte vezes mais útil que qualquer poeta ─ insinuou Bazárov.

─ Ótimo ─ disse Páviel Pietróvitch, parecendo adormecer e levantando levemente as sobrancelhas. ─ O senhor então não reconhece o valor da arte?

─ A arte de ganhar dinheiro ou de curar hemorróidas? ─ perguntou Bazárov com um sorriso irônico.

─ Muito bem; o senhor é espirituoso. Pelo que vejo, nega tudo? Quer dizer que acredita somente na ciência?

─ Já lhe disse que não acredito em coisa alguma. A ciência? Que é a ciência em geral? Existem ciências como existem artes e profissões. A ciência de um modo geral não existe.

─ Será também negativa sua atitude em face das demais instituições aceitas pela humanidade?

─ Porventura estou depondo num inquérito? ─ perguntou Bazárov.

Páviel Pietróvitch empalideceu ligeiramente… Nicolau Pietróvitch julgou necessário intervir na conversa.
__________
* Vocês mudaram tudo isso.
Fonte: TURGUENIEV, Ivan. Pais e Filhos. São Paulo: Abril Cultural, 1971, p.31-33 e 35-36.

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2 Respostas to “Niilismo (trecho da obra Pais e Filhos, de Ivan Turgueniev)”

  1. romualdo Says:

    Hey prof. muy bueno. assinado romualdo

  2. Camila.Haase Says:

    Ah, os escritores russos são ótimos. Densos e no fundo, um humor característico!O dia que alguém conseguir se explicar adequadamente acerca dos “ismos” gostaria de saber, pois não conheço pessoa alguma que seja somente um “ismo” por vez!

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