Pequena sabatina ao artista

por Fabrício Brandão*

No terreno multifacetado das palavras, não são poucas as atribuições que podem ser percebidas em Affonso Romano de Sant’Anna. Poeta, ensaísta, professor e largamente conhecido pelo seu ofício de cronista, o autor é um daqueles observadores críticos da realidade de seu tempo. Munido desse olhar, matéria-prima essencial de sua obra, atravessou uma vida de íntima relação com as letras, aspecto que se desdobra em seus mais de quarenta livros publicados. A própria história da Diversos Afins é testemunha de alguns dos escritos dele, pois, durante o tempo de existência da revista, Affonso vem colaborando conosco de forma significativa com suas crônicas. Estar próximo a ele é perceber a postura reflexiva, compenetrada e, ao mesmo tempo, irônica de um verdadeiro inconformado com aquilo que fizemos de nossa contemporaneidade. Em meio às paisagens ensolaradas de Ilhéus, no litoral sul da Bahia, captamos um pouco das opiniões que posicionam o escritor como um questionador de um tudo. Exalando uma visão extremamente atenta e aguçada, Affonso conversa conosco sobre temas como os equívocos da pós-modernidade, os aspectos contemporâneos da poesia, a convergência das mídias e o complexo conceito de arte na atualidade. Esteta ou contestador, o fato é que estamos diante de um alguém que põe em crise as nossas próprias perplexidades.

DA – Suas crônicas percorrem uma universalidade de temas. Porém, o foco das atenções aponta para uma apreensão ampla do humano em todas as suas complexidades. Esse olhar é uma boa ferramenta de provocação?

AFFONSO ROMANO DE SANT’ANNA – Acho que escrever é um certo modo de olhar. Não só o escritor vê coisas que a pessoa normal não percebe, mas vê e expressa isso de uma maneira específica. E a crônica é a redescoberta do cotidiano, dentro do qual você tem as coisas que transcendem esse cotidiano.

DA – É possível acreditar na escrita como uma espécie de libertação?

AFFONSO ROMANO DE SANT’ANNA – Sim. Libertação, catarse e, ao mesmo tempo, aprisionamento. Desde o momento em que se transforma em escritor, você também é prisioneiro da linguagem, prisioneiro em vários sentidos. Você começa a ver o mundo através da linguagem. Assim como o músico ouve sons e melodias o tempo todo, o escritor só vê o mundo através dessa lente, dessa rede, que tem esse caráter duplo de aprisionar e libertar.

DA – É muito difícil chegar a um consenso quando o assunto é definir a qualidade de uma obra literária, sobretudo se a discussão aponta para os chamados juízos de valor. Em sua opinião, o que deve nortear esse tipo de avaliação?

AFFONSO ROMANO DE SANT’ANNA – O juízo de valor ético e estético entrou em crise sobretudo na modernidade, no século XX. Assim como deixou de haver limites entre o feio e o bonito, o louco e o são, o sujo e o limpo, o alto e o baixo, o dentro e o fora, houve, principalmente na segunda parte da modernidade, na chamada pós-modernidade, uma indisposição em relação ao valor, como se qualquer coisa equivalesse a qualquer coisa. O que é uma mentira. Entre as mentiras da pós-modernidade, essa é uma delas porque na vida de qualquer um, sobretudo na daqueles que pregam a ausência de valor, valores estão sendo decretados. Dizer que os valores morreram é decretar um valor.

DA – Aquilo que chamamos pós-modernidade, caracterizada principalmente pela avalanche de informações, vem carregado de sintomas de um tempo onde parecemos nos agarrar pouco à substância das coisas. Será que estamos perdendo a capacidade de resistir?

AFFONSO ROMANO DE SANT’ANNA – Está muito complicado realmente, ainda mais para uma pessoa que vem de outra geração, como é o meu caso. Um jovem que está começando agora, e ele já nasce nesse contexto, não tem parâmetros de experiências para avaliar o presente. Existe realmente uma tendência na atualidade para a superficialidade, a fragmentação, a aparência, a pressa, a negação dos valores. Isso tudo são características da pós-modernidade. Tem muita gente que endossa e gosta disso. Eu não, pois tenho uma posição crítica em relação a isso. Acho que o intelectual, o ficcionista, o teórico que endossa as coisas da pós-modernidade é um desastre. Ele está assumindo uma ideologia, enquanto que a função do intelectual é justamente contestar as ideologias porque atrás delas existe uma coisa mais visceral e mais autêntica.

DA – Vivemos um período de crescente convergência entre as mais diferentes mídias, onde tempo e espaço se comprimem simultaneamente. Em que medida essa conjunção de fatores pode ser uma aliada dos novos escritores?

AFFONSO ROMANO DE SANT’ANNA – Era muito mais simples antigamente quando os gêneros eram muito estabelecidos, não só os gêneros líricos, dramáticos, épicos, o que era romance e poesia, mas o que significavam esses suportes também. O livro era uma coisa, o teatro, outra. Hoje há uma superposição muito rica. Eu gosto disso. Seu texto de repente ganha uma vida nova dentro desse quadro que é uma espécie de jogo de espelhos. Temos, por exemplo, poema transformado em vídeo, em balé, em pôster. E o problema que existe hoje é o desafio para o artista ter uma certa convivência com essas mídias. Em meu primeiro livro, o qual se chamou O Desemprego do Poeta, onde eu estudava o deslocamento do poeta na sociedade moderna, eu dizia que João Cabral de Melo Neto, em 1945, havia afirmado que os poetas precisavam se aproximar do rádio, forma de comunicação revolucionária da época (não tínhamos sequer televisão ainda). No entanto, ele falou aquilo, mas nunca se aproximou do rádio. Da minha parte, eu tentei me aproximar dos meios de comunicação todos. Fiz poemas de encomenda para rádio e televisão, por exemplo. Dentro desse ambiente, teve muita gente que se recusou a fazer parte do processo.

DA – Baseado nisso, você acha que o autor, mesmo o mais tradicional, ficaria muito alheio se não estivesse inserido nessa tendência?

AFFONSO ROMANO DE SANT’ANNA – Não. Ele pode de repente ficar na dele, como faz o Manoel de Barros, que constrói aquele poema filosófico sobre o nada, e fica lá no Mato Grosso, não incomoda ninguém, não corre atrás de ninguém. Fica na dele e o poema no papel. Acho que uma das coisas importantes na vida em geral e, sobretudo na vida artística, é a liberdade de cada um escolher o caminho que quiser.

DA – A contemporaneidade, rompendo certas convenções, trouxe uma nova aurora para a poesia? Qual a efetividade dessa provável ruptura?

AFFONSO ROMANO DE SANT’ANNA – Isso é outra arma de três gumes. Primeiro, não existe liberdade, pois ela é um conceito abstrato. Tudo está preso a um sistema determinado. Por exemplo, uma formiga que esteja andando aqui parece que está seguindo para onde quer, mas não, na verdade, está condicionada a uma série de fatores. Liberdade total é uma ficção. Mas aconteceu no caso específico da poesia uma coisa que eu acho meio danosa. Eu pego muitos livros de poesia que surgem por aí de um pessoal que não tem a menor noção do que é o verso. O verso é uma estrutura e tem gente que fica escrevendo e corta ele onde bem quer. Às vezes, nem corta, pára o verso onde bem entende como se aquilo fosse um texto em prosa. E, no fundo, é prosa, pois não se tem a idéia do verso como unidade rítmico-formal. Isso leva a uma série de mal-entendidos e começa a ser uma espécie de facilitário, quando a gente sabe que o poema mais simples, às vezes, exige um trabalho muito grande.

DA – Seu último livro, “A Cegueira e o Saber”, aborda questões que chamam a atenção daqueles que se aventuram pelo misterioso mar da criação literária, citando casos de nomes importantes, como James Joyce e Scott Fitzgerald, e que um dia tiveram obras suas recusadas por editores. Podemos dizer que sua intenção principal foi a de reduzir o peso dos ombros daqueles que procuram publicação?

AFFONSO ROMANO DE SANT’ANNA – A intenção eram várias. Primeiro, narrar para quem está interessado, principalmente o jovem autor iniciante, umas peripécias normais existentes na carreira do escritor. Depois, até exorcizar coisas que já vivi e vivo porque hoje, com mais de quarenta livros publicados, eu continuo a ter uma série de problemas também. Os problemas não param. Eu sempre tive nos meus textos uma preocupação de dizer para o leitor alguma coisa útil, além de dizer algo que eu penso. Outro dia, uma leitora me disse que sempre aprendia alguma coisa do ponto de vista da informação, da cultura nas minhas crônicas. Então, esses textos, que estão na Cegueira e o Saber, parte deles tem a função de dialogar com o jovem. Talvez isso venha do lado professor, de ter dado aula a vida inteira e também pelo fato de ser procurado o tempo todo pelo jovem autor que busca saber coisas. As perguntas são sempre as mesmas e, por conseqüência, as respostas também são idênticas. Tem umas coisas que eu estou experimentando e outros escritores antes de mim experimentaram. É bom passar isso para quem está começando.

DA – Para onde apontam seus novos rumos?

AFFONSO ROMANO DE SANT’ANNA – Eu vou lançar, na metade do ano, um livro que se chama O Enigma Vazio, um aprofundamento da análise das questões da arte e da cultura de nosso tempo. É um trabalho no qual eu peguei as análises feitas por grandes autores de algumas obras, por exemplo, o que o Octavio Paz escreveu sobre O Grande Vidro, de Marcel Duchamp, o que Jacques Derrida escreveu sobre Os Sapatos, de Van Gogh, o que Roland Barthes escreveu sobre um pintor americano chamado Cy Twombly, e assim por diante. Tudo isso para mostrar ao leitor como os grandes falam imensas tolices em termos de arte. Se os grandes erram dessa maneira, que dirá um jornalista, um crítico de país de periferia, de província que fica repetindo uma linguagem sem raciocinar. É um livro muito desafiante e que põe o dedo na ferida, uma leitura não mais subalterna desses textos, desses autores e da realidade. Não é possível, por exemplo, um professor que freqüenta exposições, lê e viaja, aceite uns produtos apresentados como arte, mesmo sabendo que aquilo não é arte e não diz coisa nenhuma. Insere-se no reino da insignificância, no sentido de algo que está ali, mas não significa nada. Você está diante daquilo e querem lhe vender como uma obra de arte fabulosa, cheia de predicados. Então, eu demonstro, nesse livro, o que é a invenção do discurso crítico. A crítica alucina. A crítica faz literatura quando deveria estar fazendo coisas objetivas. Literatura é outra coisa. E é importante que seja um escritor que venha denunciar nesses pensadores que eles estão fazendo literatura porque de literatura eu entendo.

DA – Inclusive essa abordagem aponta para toda aquela discussão em torno da perda da aura do objeto artístico.

AFFONSO ROMANO DE SANT’ANNA – É mais grave porque eles criam aura onde não se tem nada. Toda estética moderna caiu num paradoxo. Plagiando Benjamin, acabou a aura. Acabou coisa nenhuma, pois inventaram uma aura para coisas que não têm aura. Uma coisa é você olhar um quadro de Rafael, de Da Vinci, uma escultura grega que já vem com uma aura, obras que estão dentro de um padrão consagrado, sacralizado. Outra coisa é você pegar um urinol, uma roda de bicicleta ou pegar um quadro totalmente branco e começar a ter delírios. Esse delírio é verbal, literário, não tem nada a ver com a obra em si, pois existe uma esquizofrenia entre o discurso e o objeto.

DA – “Arte e fuga da espera” é um dos seus textos emblemáticos, no qual você mexe com o fio delicado de nossas existências – aquilo que projetamos como a fonte de nossas ansiedades. No caldeirão de contradições que é o nosso país, para qual direção apontam melhor as nossas esperanças?

AFFONSO ROMANO DE SANT’ANNA – O futuro do país é a soma de todas as suas contradições. Ninguém pode prever. O Brasil de hoje não é o Brasil do tempo de Vargas, não é o Brasil do tempo de Deodoro, nem de Tiradentes, nem de Cabral. Há vários brasis em movimento no tempo, sem falar do espaço, pois os índios da Amazônia são Brasil também. Estão na Idade da Pedra, mas são Brasil. Então, o futuro nesse sentido é muito imprevisível. Cada geração tem a sua pretensão de vir e colocar uma pedra nesse edifício, empurrar essa bola numa direção determinada. E a esperança nesse sentido é uma fatalidade do ser humano. Não existe nenhum ser vivo que não viva em expectação, como dizem os psicólogos. Se você tirar a expectação de sua vida, isto é, a expectativa, a visão de futuro, você pára de viver. Uma planta tem instintivamente a sua expectação, estão em movimento a seiva, o fruto, o aroma. Ela está produzindo uma coisa para depois. Os seres são assim também. Então, como diria Clarice Lispector, nós estamos condenados à esperança.

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Fonte: http://www.diversos-afins.blogspot.com/ Publicado sob autorização do editor. Imagens: Leila Lopes
* Fabrício Brandão é editor da revista eletrônica cultural DIVERSOS AFINS (http://www.diversos-afins.blogspot.com/). Formado em Comunicação Social, dedica-se à poesia e alguma prosa, acreditando que a magia do mundo só é descoberta quando as palavras saem das gavetas e cruzam a rua ao encontro de um outro alguém. E-mail: diversosafins@gmail.com

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Uma resposta to “Pequena sabatina ao artista”

  1. Camila.Haase Says:

    Aí está uma prova de grande diferença entre escritores. Têm aqueles que escrevem muito e não dizem nada, outros, nem precisam escrever tanto e dizem muito. Nem vamos falar “deleteriamente” dos outros, agora, Sant’Anna sem dúvida, diz muito.Gostei dessa: “Existe realmente uma tendência na atualidade para a superficialidade, a fragmentação, a aparência, a pressa, a negação dos valores” e “[…] como se qualquer coisa equivalesse a qualquer coisa”. Estamos equivocados, de fato, se acreditamos que esta tendência da pós-modernidade, como ele se referiu, vai construir algo sólido para futuro. Me questiono se talvez as gerações que apóiem a superficialidade e etc não estejam aceitando assim justamente porque não pensem em futuro. Falo em futuro sólido, pois a característica atual é mesmo de futuro de curto ou médio prazo e totalmente efêmero e vazio, ou frívolo (para não dizer um tanto “tóxico”). Visitei o Museu Niemeyer esses dias e foi engraçado ficar observando a interpretação de alguns outros visitantes, para quem a análise se resumia a um: “eu gosto!”; “eu não gosto!”; “é bonito!”; “é feio!”. Vai ser complicado o dia em que perguntarmos a eles o que significa o conceito de beleza ou feiúra… E, puxa, “eu gosto” quer dizer o que exatamente? Que aquele quadro faz “bem” àquela pessoa, eu imagino! Mas cadê as teorias? A filosofia? O fundo e forma daquela obra? O que o artista quis dizer? Etc? Etc?

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