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Édipo e os comunistas [fragmento de “A insustentável leveza do ser”, de Milan Kundera]

27/09/2008

Aqueles que pensam que os regimes comunistas da Europa central são obra exclusiva de criminosos deixam na sombra uma verdade fundamental: os regimes comunistas não foram feitos por criminosos, mas por entusiastas convencidos de terem descoberto o único caminho para o paraíso. Defendiam corajosamente esse caminho, executando, por isso, centenas de pessoas. Mais tarde ficou claro como o dia que o paraíso não existia, e que, portanto, os entusiastas eram assassinos.

Assim todos acusavam os comunistas: vocês são os responsáveis pelas desgraças do país (que está pobre e arruinado), pela perda de sua independência (caiu sob a tutela dos russos), pelos assassinatos judiciários.

Os acusados respondiam: “Não sabíamos! Fomos enganados! Acreditávamos. Somos inocentes, do fundo do coração!”

O debate conduzia a essa pergunta: seria verdade que não sabiam? Ou apenas fingiam não saber?

Todos acompanhavam esse debate (como dez milhões de tchecos), e acreditavam que haveria certamente entre os comunistas alguns que não eram assim tão ignorantes (deviam pelo menos ter ouvido falar dos horrores que tinha acontecido, e que não paravam de acontecer na Rússia pós-revolucionária). Mas é provável que a maior parte deles não soubesse de nada.

E ele dizia para si mesmo que o problema fundamental não era: sabiam ou não sabiam? Mas: seriam inocentes apenas porque não sabiam? Um imbecil sentado no trono estaria isento de toda a responsabilidade somente pelo fato de ser um imbecil?

Vamos admitir que o procurador tcheco que pedia, no começo dos anos 50, a pena de morte para um inocente tivesse sido enganado pela polícia secreta russa e pelo governo do seu país. Mas agora sabemos que as acusações eram absurdas e que os condenados eram inocentes, como podemos admitir que o mesmo procurador defenda sua pureza de alma batendo no peito e dizendo: “Minha consciência está limpa, eu não sabia, eu acreditei!” Não é precisamente no seu “Eu não sabia! Eu acreditei!” que reside sua falta irreparável?

Nesse ponto Tomas se lembrou da história de Édipo. Édipo não sabia que dormia com sua própria mãe, e, no entanto, quando compreendeu o que tinha acontecido, nem por isso se sentiu inocente. Não pôde suportar a visão da infelicidade provocada por sua ignorância, furou os olhos e, cego para sempre, partiu de Tebas.

Tomas ouvia o grito dos comunistas que defendiam sua pureza de alma, e dizia a si próprio: “Por causa de sua inconsciência o país talvez tenha perdido séculos de liberdade. Mesmo assim vocês gritam que se sentem inocentes? Como podem ainda olhar em torno de si mesmos? Como?! Não estão espantados? Vocês não enxergam? Se tivessem olhos deveriam furá-los e deixar Tebas!”

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* KUNDERA, M. A insustentável leveza do ser. São Paulo: Círculo do Livro, s.d., p. 147-149 (subtítulo do editor do blog)

O piolho humano

24/09/2008

por Luiz Costa Lima

A derrota de Raskólnikov não afeta a descoberta de que a imanência do bem e do mal não passa de grandioso equívoco

Integrado ao círculo de I.I. Petrachevski (1821-1866), Dostoiévski participara de um dos primeiros grupos socialistas russos. Embora F. Ventura, em “Il Popolismo Russo” (1952), declare ele nunca ter sido “um homem de espírito político”, isso não o impediu, em consequência do fracasso da Revolução de 1848, de ser preso em abril de 1849 e, após oito meses, ser condenado a oito anos de encarceramento.

Embora o czar tenha abrandado a pena para quatro anos, seguidos de serviço como soldado, as autoridades antes montaram uma terrível farsa: comunicaram aos presos haverem sido condenados à morte. Só quando a primeira leva já estava amarrada aos postes de fuzilamento foi lida a sentença real (um dos prisioneiros enlouqueceria para sempre).

Assim o romancista esteve, entre 1850 e 1854, na prisão Omsk, na Sibéria, depois servindo em um batalhão militar, na mesma Sibéria, até 1859. É-lhe então permitido voltar à Rússia européia, fixando-se por fim em São Petersburgo, onde recomeçaria sua carreira de escritor. Data de 1864, com “Memórias do Subsolo”, a abertura de sua grande produção novelesca. Mas seu primeiro grande romance pós-cárcere, de que só agora surge a primeira tradução brasileira feita do original, é “Crime e Castigo”, de 1866.

Seu protagonista, Raskólnikov, é um ex-estudante, misantropo, angustiado, solitário, que habita um quarto miserável. Pelo não-pagamento do aluguel, a proprietária havia alguns dias o deixava sem alimentos. Explorado por uma velha prestamista usurária, acabara de empenhar um dos poucos objetos que herdara do pai. Sem rumo, entra em uma taberna, onde se encontra com um dos primeiros personagens secundários decisivos. É Marmieládov, o ébrio que se autopune e o primeiro que recorre à figura de Cristo como o único capaz de compreender o homem bestializado.

Marmieládov introduz o leitor na ambiência russa das idéias. Se o cristianismo era de impregnação geral, o pragmatismo, bem mais recente, se faz ouvir na queixa do bêbedo contra os que clamam contra a comiseração por seu vício, causador de sua demissão. Alguém a quem pedira um empréstimo lhe negara, alegando que a compaixão estava proibida pela economia política. Cambaleante, o ébrio há de ser conduzido por Raskólnikov para casa, quando testemunha a sua miséria: a filha Sônia se prostituíra para alimentar os irmãos menores, enquanto Marmieládov furta as economias da própria mulher para poder continuar a beber.

Ao sair de lá, Raskólnikov deixa no vão da janela o pouco que lhe restara do empréstimo. Ao chegar a seu quarto, encontra carta da mãe, contando-lhe que sua irmã Dunia aceitara se casar com um próspero e ambicioso conselheiro da corte, a quem mal conhecia. Raskólnikov compreende que a irmã se sacrificava por ele e pela mãe. Traça-se pois um paralelismo entre as decisões de Sônia e Dunia: ambas se prostituem para salvarem suas famílias da miséria.

As contradições de Raskólnikov Começam a se manifestar as contradições de Raskólnikov: duas vozes se alternam em seu monólogo: uma, altiva, declara que não permitirá o casamento. A outra é a da renúncia e do desespero: acatará o negro destino e abandonará todo o direito a usufruir a vida.

As vozes logo se atropelam: ao passar por um parque, Raskólnikov vê uma moça ébria, seguida por um homem bem vestido, que a segue dissimulado. Raskólnikov a defende, está prestes a brigar com o “caçador” quando um guarda intervém. Enquanto o protagonista lhe narra o que vira, o perseguidor escapole. Logo, entretanto, o protagonista se arrepende de haver dado ao guarda seus últimos copeques para que protegesse a indefesa. Tenho eu o direito de ajudar a alguém, e a mim quem ajuda, pergunta-se. Aparentemente, as vozes opostas insistem na oposição simples entre o pragmatismo “inglês” -introduzido, segundo Joseph Frank, em “Dostoiévski – Os Anos Miraculosos”, pelo primeiro radicalismo russo de Tchernichveski- e a comiseração cristã, entranhada no povo. Fosse apenas isso, “Crime e Castigo” não seria o romance que conhecemos. Logo o mostra o sonho que sucede.

No capítulo cinco da primeira parte, Raskólnikov sonha que, menino em passeio com o pai, testemunhara o espancamento até a morte de uma velha égua. Superpõem-se suas reações de criança que, enquanto beija os lábios ensanguentados do animal, pergunta ao pai por que fizeram aquilo, e as de adulto, sozinho e desamparado, que pensa na velha usurária. Dá-se conta de que vinha tramando o plano de matá-la e que a ida à sua casa, na noite anterior, a pretexto de empenhar o relógio paterno, visava a conceber melhor o plano. Um pequeno detalhe oferece indicação significativa do modo de composição de Dostoiévski. Entre avanços e recuos, o protagonista, depois de se declarar incapaz do crime, se diz: “Suponhamos que tudo isso se resolva neste mês e seja claro como o dia, justo como a aritmética”.

A comparação se explica pelo capítulo seguinte (capítulo seis, parte um): numa taberna, Raskólnikov escuta a acalorada conversa de um estudante com um oficial. Aquele, falando de Lizaveta, a irmã da usurária, mas de caráter bem distinto, expõe ao interlocutor que matar pode ser um ato a favor da humanidade, por dar melhor uso ao dinheiro que o morto escondia.

É então que surge a expressão que o protagonista havia usado em seu monólogo: “É uma questão de aritmética”. A conversa, acidentalmente escutada, fixara-se, pois, em Raskólnikov e o convencera a praticar o ato ante o qual hesitava. A leitura atenta do romance mostraria que o assassinato e as razões que o justificariam haviam sido teorizadas antes mesmo do início do enredo. Pois “Crime e Castigo” não segue um plano linear.

Ao contrário, cada momento do enredo precipita decisões e ações elaboradas em tempos anteriores. No caso do homicídio, Raskólnikov o teorizara em artigo escrito meses antes, “Sobre o Crime”, que só será trazido para o enredo muito depois do duplo assassinato da prestamista e sua pobre irmã, Lizaveta. O artigo, publicado sem que o autor o soubesse, será trazido à tona pelo juiz encarregado de desvendar o crime. A conversa que este tem com o protagonista, na presença de seu bom, impulsivo e ingênuo amigo Razumíkhin, condensa o ápice do romance.

É certo que a polícia já desconfiava de Raskólnikov, por uma série de indícios de que aqui apenas se assinala seu desmaio na delegacia, a que comparecera pensando ser chamado por conta do crime, a provocante conversa que tivera com o funcionário da delegacia e médico que o supunha vítima de “monomania”, a irresistível compulsão de voltar ao local do crime, interrogar os pintores que lá trabalhavam e fazer soar a campainha da porta, tal como haviam feito quando ele ainda não saíra do quarto do crime.

Direito ao crime Extremamente sagaz, o juiz ligara esses indícios à leitura ocasional do artigo de Raskólnikov. No artigo, o que mais lhe intrigara fora a distinção entre os homens comuns e os extraordinários. Ao passo que aqueles haveriam de viver na obediência das leis, estes exigiriam a destruição da lei presente, em nome de algo melhor. São “os legisladores e fundadores da Humanidade”. Os que, tendo direito à “palavra nova”, têm direito ao crime (para Joseph Frank, Dostoiévski fizera de Raskólnikov um amálgama do pragmatismo, inspirado em Stuart Mill e Bentham, com o protonietzschianismo de Pisarev e Bazarov).O juiz, entretanto, levanta ao autor uma questão que seu artigo não respondia: se ao homem extraordinário a história concede o direito ao crime, que sucederá se o agente do crime se enganar e for um homem comum que se julgara extraordinário? Circunspecto, Raskólnikov responde que não haverá problema, “eles mesmos se flagelam porque são muito morais” (capítulo cinco, parte três). Em suma, o juiz e Raskólnikov estão bem próximos do que houve. Embora não disponha de uma peça factual, o juiz de instrução reconstitui todo o crime, descarta a falsa confissão de um fanático religioso, sedento por sofrer, e compreende se tratar de um ato “sui generis”: um crime por idéias, de que o homicida não tirara nenhuma vantagem material. Raskólnikov, de sua parte, chegara a uma conclusão trágica: crendo-se excepcional, ele se testara e fracassara. Não passava de um egoísta comum.

A partir daqui, seria possível analisar os dois grandes pares do livro: Raskólnikov e Sônia, sob o signo da ressurreição de Lázaro; Raskólnikov e Svidrigáilov, atraídos por alcançarem um lugar acima do bem e do mal. Na impossibilidade de fazê-lo, note-se tão-só que o reconhecimento do fracasso por Raskólnikov não afeta a expressão do que há de mais radical no pensamento do romancista. Se o destruidor da lei vence, será julgado um benfeitor, e não um criminoso. Que isso significa senão que a lei não encarna uma essência contida nas coisas do mundo? A imanência do bem e do mal não passa de grandioso equívoco. A derrota de Raskólnikov não afeta essa descoberta. Sua divulgação fará explodir a metafísica tradicional.

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Luiz Costa Lima é ensaísta, crítico e professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e da Pontifícia Universidade Católica (PUC-RJ), autor de “Vida e Mímesis” (Ed. 34) e “Mímesis – Desafio ao Pensamento” (Civilização Brasileira), entre outros. Escreve mensalmente na seção “Brasil 502 d.C.” (depois de Cabral).

Fonte: Folha de S. Paulo, Caderno Mais, 06 de maio de 2001, p.08-09. Disponível em http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs0605200110.htm

O ideário crítico de Machado de Assis

20/09/2008

por Mauro de Souza Ventura**

São Paulo – Situada num momento geracional decisivo para a literatura brasileira, a atividade crítica de Machado de Assis foi a um só tempo curta e duradoura. Foi curta se considerarmos a pequena quantidade de artigos de que se compõe e o escasso intervalo em que foi concebida, entre 1858 e 1879. Mas foi extremamente duradoura quanto às implicações provocadas na posteridade pelas questões e temas abordados.

O ideário crítico de Machado de Assis pode ser abordado por dois caminhos. Primeiro, pela via de sua obra ficcional, em que a concepção de obra literária, o princípio de composição e a função do escritor no meio em que atua são transpostas para a literatura e incorporadas, seja pelo narrador, seja pelas personagens.

O segundo caminho, pelo qual seguiremos, examina o crítico Machado de Assis a partir do conteúdo expresso em textos críticos até hoje importantes, como Instinto de nacionalidade, O ideal do crítico ou O passado, o futuro e o presente da literatura brasileira.

Inserido num movimento maior, que corresponde aos decênios de 1870-90, em que se dá a formação da consciência nacional, Machado de Assis demonstrou estar atento aos problemas culturais de seu país. Assim, não hesitou em criticar os solecismos da linguagem comum, que considerava um defeito grave, e a forte influência da língua francesa. Em relação ao teatro, chegou a minúcias como a proposta que estabelecia regras sobre os direitos de representação e também a criação de impostos sobre as traduções, pois via com preocupação a enorme quantidade de peças francesas encenadas no Brasil de então.

Mas o aspecto central a considerar é a crítica ao localismo pitoresco e ao falso instinto de nacionalidade, elementos que Machado de Assis identificou na literatura de seu tempo. Amparado no desejo de criar uma literatura mais independente dos modelos europeus, em 1873, Machado de Assis insta seus contemporâneos a repensar o legado estético do Arcadismo e o predomínio dos temas indianistas. Basílio da Gama e Santa Rita Durão são os principais objetos de crítica, pois não souberam se desligar da matriz árcade.

“Admira-se-lhes o talento, mas não se lhes perdoa o cajado e a pastora”, escreve em Instinto de nacionalidade, de 1873. Para Machado de Assis, indianismo não era representativo da totalidade do universo ficcional brasileiro. Era, evidentemente, um legado reconhecido pelo crítico, mas não poderia continuar a ser a única fonte de inspiração.

Com efeito, reconhecer espírito nacional apenas naquelas obras que tratam de assunto local seria limitar demais os cabedais de nossa literatura, já que “a poesia do boré e do tupâ” não pode ser confundida com a totalidade da inspiração poética nacional. “Um poeta não é nacional só porque insere nos seus versos muitos nomes de flores ou aves do país, o que pode dar uma nacionalidade de vocabulário e nada mais”, pontua.

Pressupunha Machado de Assis um sentimento íntimo inspirado em fatores reais de nosso país e não apenas em fórmulas estanques. Seu objetivo último era livrar os escritores de seu tempo da obrigação patriótica de serem pitorescos. Somente a partir da incorporação deste sentimento íntimo pode o artista ser fiel ao seu tempo e ao seu país, mesmo que enfoque assuntos estrangeiros.

Atuando numa época de transição política (a crise do Segundo Reinado, as lutas entre conservadores e liberais por espaços de poder, a inevitável emergência da República e o drama da escravidão) e literária (na confluência de Romantismo, Realismo e Naturalismo), Machado de Assis buscou ainda esboçar um código definidor das qualidades intelectuais e éticas para a atuação do crítico. Assim, são pressupostos do verdadeiro espírito crítico a coerência de critérios e a tolerância, assim como a independência e a imparcialidade diante do objeto analisado. Não formulou um quadro de valores, pois estes ainda estavam em gestação, mas está longe de ter sido um crítico malogrado, como o considerou Tristão de Ataíde.

Machado foi severo ao diagnosticar a inexistência de atividade crítica em seu tempo, pelo menos daquela crítica capaz de exercer papel decisivo no sistema literário por meio de influência cotidiana e profunda. Quanto ao romance, acusou a ausência de caracteres e de análise profunda da sociedade. Neste ponto, cabe uma indagação a respeito de sua concepção de romance enquanto gênero e estilo, que será posta em prática a partir de Memórias Póstumas de Brás Cubas (no plano do conto, seu equivalente será o volume Várias histórias).

Brás Cubas não é um herói problemático como o Julien Sorel ou o Lucien de Rubempré, nem as Memórias se enquadram no modelo hegemônico de romance realista, já que suas influências capitais são Sterne e Xavier de Maistre. No entanto, o problema das relações entre particular e universal, ponto central de sua visão crítica, e formulada, como vimos, por meio da condenação ao localismo pitoresco, remete-nos à busca dos traços distintivos da sociedade brasileira e à discussão entre originalidade e cópia.

Dito de outro modo, quando aproximamos a formulação crítica expressa no Instinto de nacionalidade e o mecanismo narrativo instaurado nas Memórias surgem implicações fundamentais para se pensar a sociedade brasileira do Segundo Reinado, dilacerada entre o ideário liberal importado da Europa e as contingências da escravidão. As contradições de Brás Cubas, suas veleidades e opiniões, ou as intromissões constantes no fio narrativo feitas por este narrador volúvel, como o classificou Roberto Schwarz, representam a versão ficcional do ideário crítico de Machado de Assis. A volubilidade narrativa foi a solução encontrada pelo ficcionista para um problema diagnosticado pelo crítico quase duas décadas antes.

Esta mesma idéia crítica encontrará continuidade no século seguinte com a formulação de Antonio Candido a respeito dos fatores definidores da formação de nossa literatura. A alternância e a complementaridade entre particularismo e universalidade é a chave que permite a Candido encontrar os traços distintivos da sociedade brasileira nas obras, por exemplo, de Manuel Antonio de Almeida e Aluísio Azevedo. Na obra do primeiro, o crítico identificou um movimento pendular entre ordem e desordem, que seria a configuração da forma social no plano narrativo. Em Aluísio Azevedo, apontou para um movimento idêntico, que seria o responsável por distinguir O Cortiço de sua matriz francesa L’Assomoir, impedindo deste modo que a obra do brasileiro ficasse enclausurada na reprodução de uma fórmula literária oriunda da Europa, em termos similares à observação de Machado de Assis sobre o Arcadismo.

Assim, a dialética entre universal e local, ordem e desordem, infração e norma (esta, por sua vez, foi a chave encontrada por Roberto Schwarz, que dá continuidade à mesma matriz crítica machadiana) ganha o estatuto de uma constante cultural, um modo de ser do brasileiro. Um traço cultural por meio do qual é possível chegar a uma definição maior quanto ao caráter de nossa nacionalidade e, ao mesmo tempo, estabelecer termos de comparação frente a outras culturas e outras literaturas.

Ao defender a idéia de que os modelos literários vigentes em sua época eram impróprios porque incongruentes com o país, Machado de Assis estava ciente de que o processo de constituição e de emancipação de uma literatura era um movimento vagaroso e complexo, e diante do qual não bastariam “gritos de Ipiranga”. Mesmo sem ter formulado um ideário e ainda que não tenha se transformado em crítico militante, Machado de Assis demonstrou sintonia com os principais problemas literários de seu tempo ao pedir que a sociedade e a literatura brasileiras em formação fossem não apenas motivo de inspiração mas também de estudo.
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* Fonte: Via Política, 13 de setembro de 2008. Disponível em http://www.viapolitica.com.br/pagina_view.php?id_pagina=111
** Colaborador de ViaPolítica, Mauro Souza Ventura é crítico literário, professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e autor de De Karpfen a Carpeaux (Topbooks). E-mail: mauroventura@faac.unesp.br

Epílogo para um romance à revelia do autor

13/09/2008

por Jacob Gorender

Quando Joaquim Câmara Ferreira – já na roupagem de Toledo – o procurou em 1968, Hermínio Sacchetta deve ter sentido surpresa e desconcerto. Apesar da tarimba, não esperaria que lhe batesse à porta o homem com o qual trocar os pesadíssimos insultos habituais nas dissensões internas dos comunistas.

O contencioso entre ambos remontava aos anos 30. Após a derrota do levante de novembro de 1935, o jornalista Sacchetta (nome de guerra Paulo) dirigia o Comitê Regional de São Paulo e foi cooptado para o Birô Político do Comitê Central do PCB. Mais jovem, a Câmara Ferreira (nome de guerra Alberto) trocou o curso de engenharia pela profissão de revolucionário. Em 1937, o Comitê Regional Paulista divergiu da linha preconizada pelo Comitê Central a respeito das eleições presidenciais. A divergência se aprofundou e levou a discussões agressivas e intransigentes. Com o apoio da Internacional Comunista, Lauro Reginaldo da Rocha (Bangu), secretário-geral do Comitê Central, venceu a disputa: os divergentes de São Paulo foram expulsos do partido sob a acusação de renegados trotskistas, a mais infamante para um militante comunista. Acontece que, ao travar-se a luta interna – conforme relata Heitor Ferreira Lima –, nenhum dos divergentes do Comitê Regional paulista era trotskista e, em seguida, apenas um deles – Sacchetta, precisamente – aderiu ao trotskismo.

Tendo tomado posição ao lado do Comitê Central, Câmara Ferreira não podia mais continuar amigo de Sacchetta, com o qual se iniciara na vida partidária. A amizade se transformou em rancorosa inimizade. Da qual compartilhou Carlos Marighella, enviado a São Paulo pelo Comitê Central, em 1938, a fim de fortalecer a direção regional na luta contra os “fracionistas trotskistas”.

Expulso do PCB, Sacchetta esteve entre os fundadores do Partido Socialista Revolucionário (PSR), ligado à Quarta Internacional (trotskista), com pouco mais de uma centena de adeptos em São Paulo e no Rio, quase todos intelectuais. Na atividade de jornalista, seu ganha-pão, fez bem-sucedida carreira. Arraigada talvez pelo hábito da clandestinidade, mantinha imperturbável postura discreta.

Em 1952, o PSR se dissolveu. Em 1958, surgiu a Liga Socialista Independente (LSI), que editou o jornal Ação Socialista. Também um pequeno grupo, muito sectário, com poucos anos de vida. Sacchetta tomou parte nele, já com idéias algo mudadas com relação ao trotskismo. Do documento que escreveu provavelmente naquela época – Relatório Sobre Questões da Política Organizatória no Domínio Socialista –, salienta-se a análise do fracasso do trotskismo. Sua contribuição válida teria sido somente a crítica ao stalinismo. O documento propôs a formação de um partido marxista democrático, na linha de Rosa Luxemburg.

No começo dos anos 60, formou-se o Movimento Comunista Internacional (MCI), cujos escassos adeptos projetavam convertê-lo em partido. Embora não adotasse o trotskismo de maneira escrita, o MCI conservou seus princípios doutrinários fundamentais: prioridade ao internacionalismo, revolução permanente, ditadura do proletariado como objetivo direto.

Nos anos 1967-1969, já sob a ditadura militar, o MCI publicou o jornal clandestino Bandeira Vermelha, do qual saíram doze números. Comumente com dez ou doze páginas mimeografadas, difundia denúncias e argumentos contra o regime nascido do golpe de 1964. Ao mesmo tempo, tomava posição na explosiva controvérsia entre as correntes de esquerda. Principal redator do jornal, Sacchetta atacou o reboquismo e o oportunismo do PCB. Reconheceu a seriedade das facções dissidentes, porém fez crítica cerrada ao foquismo de Guevara e a todas as concepções de luta armada imediata desvinculada da preparação através das lutas de massas.

Por que, então, Hermínio Sacchetta aceitou o convite que lhe trouxe Câmara Ferreira de colaborar com a ALN? Justamente com a ALN, cuja orientação estratégica (nacional-libertadora) e tática (luta armada imediatíssima) era tão oposta àquela que vinha expondo insistentemente no Bandeira Vermelha?

Imagino que, como tantos naquela época, Sacchetta queria realizar algo bem concreto contra a ditadura militar. Não se satisfazia com a doutrinação e a propaganda em pequenos círculos. Pôs de lado discordâncias teóricas, afastou velhos agravos e passou a ter encontros regulares com o antigo companheiro, durante muitos anos separados pela inimizade política. Esteve também com Marighella e selou o pacto da reconciliação e da luta comum. Apesar de sexagenário já abalado por um infarto, resolveu correr riscos que, por experiência, não ignorava.

No final de janeiro de 1969, a direção da VPR teve urgente necessidade de tirar as armas expropriadas da Loja Diana do depósito secreto em que se encontravam. O depósito era conhecido de Hermes Camargo Batista, preso no episódio da pintura do caminhão em Itapecerica da Serra.

A direção da VPR pediu a ajuda da ALN e Câmara Ferreira recorreu a Sacchetta. Este arrumou às pressas um lugar seguro. Em três viagens do Fusca guiado por Renato Caldas, foi posto a salvo o arsenal de carabinas, revólveres 38 e caixas de munição.

Às oito e meia da manhã de 15 de agosto de 1969, um destacamento de doze guerrilheiros da ALN invadiu a estação transmissora da Rádio Nacional em Piraporinha, perto de Diadema (Grande São Paulo). Dominados os funcionários, um dos invasores interrompeu a ligação com o estúdio e ligou ao transmissor de ondas curtas uma gravação. Com o fundo musical do Hino da Internacional Comunista e do Hino Nacional, a gravação anunciou o nome de Carlos Marighella e reproduziu o manifesto lido por ele. Na meia hora em que a estação esteve sob controle da ALN, deu tempo para repetir a gravação.

No mesmo dia 15, o jornal paulistano Diário da Noite lançou uma segunda edição com o texto integral do manifesto de Marighella captado pelo setor de radioescuta. A decisão de publicar o manifesto partiu do diretor de redação Hermínio Sacchetta. Os demais jornais se limitaram a noticiar o episódio da invasão da Rádio Nacional de São Paulo, pertencente à Rede Globo. Pegada de surpresa, a Polícia não pôde recolher das bancas senão pequena parte da segunda edição do Diário da Noite.

Tão grave infração da censura não podia ser tolerada. A Polícia Federal prendeu o diretor de redação e o indiciou em inquérito criminal. Apesar da ficha de antecedentes nada recomendáveis do indiciado, o inquérito deu em nada e o suspeito de conivência subversiva foi solto após algumas semanas. Mas perdeu o emprego.

Até hoje, corre a versão da casualidade da participação de Sacchetta no episódio. Agora, deve-se esclarecer em definitivo que não houve casualidade. Sacchetta recebeu previamente cópia do manifesto de Marighella das mãos de Câmara Ferreira, avisado do que ia ocorrer e da participação que a ALN esperava dele. Como não era iniciante inexperiente, Sacchetta tomou as precauções de cobertura, na previsão de que podia vir a enfrentar pesadas complicações. Orientou o setor de radioescuta do seu jornal para captar a transmissão da Rádio Nacional e, tão “surpreso” quanto os colegas, decidiu desafiar a censura: furo de reportagem é dever profissional de jornalistas.

O furo teve repercussão internacional e a prisão do jornalista brasileiro provocou o protesto da Associação Interamericana de Imprensa.

Romance histórico em que Jorge Amado criou uma trama ficcional inserida na reprodução da época do Estado Novo, Os Subterrâneos da Liberdade têm um dos fios da narrativa na luta interna do PCB em São Paulo, à qual me referi neste capítulo. Com facilidade se reconhecem muitas pessoas reais, que comparecem no romance como figuras de ficção. Vitor é Diógenes de Arruda, o primeiro dos honrados pela dedicatória do autor. O gigante Gonçalo é José Martins e o historiador Cícero d’Almeida é o historiador Caio Prado Jr. Filho de um operário italiano com uma negra brasileira, Carlos é Carlos Marighella, logo se vê. Apolinário é Apolônio de Carvalho, também logo se vê.

Mas há um personagem a respeito do qual o romancista forneceu pistas superlativas para identificação do modelo real. Saquila – sobrenome quase homófono de Sacchetta – aparece no romance como líder da fração trotskista do Comitê Regional. Seu nome de guerra Paulo – o mesmo de Sacchetta na época. Vários personagens e o próprio narrador não lhe poupam qualificações aviltantes: lacaio da burguesia, bandido, traidor, delator, cretino, canalha. Um dos mais agressivos acusadores do renegado é precisamente Carlos, enviado pelo Comitê Central para reforçar a luta antitrotskista em São Paulo.

Identificação de tal maneira transparente e insultuosa obrigou Hermínio Sacchetta a sair da habitual discrição e publicar um artigo de revide ao glorioso romancista.

Os Subterrâneos da Liberdade representam a culminância da escola do realismo socialista na literatura brasileira. O autor pagou o preço que todos nós, militantes do PCB, pagamos ao stalinismo. Faltava-lhe a estatura psicológica e artística de Graciliano Ramos. Também militante do PCB e admirador de Stalin, Graciliano não se dobrou aos prejulgamentos e deu ao trotskista Gikovate tratamento amistoso em Memórias do Cárcere. Mas Jorge Amado tomou depois conhecimento dos crimes de Stalin, rompeu com o stalinismo e se afastou do PCB. Teria várias maneiras para reabilitar, não a Sacchetta, que não precisava ser reabilitado, mas a si próprio, com a admissão pública da injustiça cometida contra um homem de carne e osso. Nunca deu este passo.

Romance, mesmo histórico, é ficção. Nada há a alterar. Nas muitas reimpressões de Os Subterrâneos da Liberdade, o leitor sempre encontra o vilão Saquila inimigo do herói Carlos.

Na vida real, Sacchetta (modelo de Saquila) e Marighella (modelo de Carlos) se reconciliaram para travar o mesmo combate nas trevas da pior opressão que já se abateu sobre o povo brasileiro desde a conquista da Independência. À revelia do romancista, acrescentaram inesperado epílogo à sua narrativa.

Hermínio Sacchetta arriscou a vida na luta contra a ditadura militar.

E Jorge Amado: esteve à altura do personagem?

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[*] Texto publicado no livro Combate nas Trevas: A Esquerda Brasileira das Ilusões Perdidas à Luta Armada, São Paulo, Ática, 1989, pp. 161 a 165.
Fonte: Sacchetta, Hermínio. O caldeirão das bruxas e outros escritos políticos. Campinas, SP: Pontes: Editora da Universidade Estadual de Campinas, 1992, p. 153-156.

O Mito de Sísifo de Camus

07/09/2008

por VILÉM FLUSSER

Em texto inédito em livro, o pensador tcheco que morou no Brasil reflete sobre o sentido do suicídio

Os esquemas tradicionais para a divisão da literatura em drama, poesia e literatura épica nunca eram aplicáveis estritamente. Atualmente esses esquemas deveriam ser abandonados e com eles também as tentativas de uma classificação mais ampla da literatura em beletrística, científica, filosófica etc.

As obras mais importantes da atualidade provam que todas essas gavetas estouraram. “Em Busca do Tempo Perdido”, de Proust, por exemplo, situa-se entre um romance e uma pesquisa psicológica e existencial; “Ulisses”, de Joyce, entre um romance, uma poesia lírica, um tratado de psicologia de profundidade e uma pesquisa de psicologia social; “Dr. Fausto”, de [Thomas] Mann, é um romance que contém um tratado completo de musicologia, uma estética explícita, dois tratados de teologia explícitos e é, todo ele, uma exposição implícita de teologia; as poesias de Eliot são pesquisas epistemológicas e ontológicas; os “Cantos” de Pound contêm, entre outras coisas, uma filosofia da cultura e da história; os trabalhos de Kafka não se enquadram em nenhuma repartição concebível.

Também o “Mito de Sísifo”, de Camus, recusa-se a uma classificação e exige que seja sorvido e absorvido pelo leitor tal qual foi escrito: como erupção inteiramente honesta de um espírito imerso na tradição filosófica, artística e científica da atualidade. Se queremos seguir Camus, precisamos supor, com ele, que existe somente um problema real: por que não me mato? A honestidade intelectual e moral me força a reconhecer que tudo carece de significado, é absurdo e se precipita em direção a uma morte absurda e sem significado.

Todas as tentativas individuais e coletivas da humanidade, teóricas e práticas, de negar, esconder, esquecer ou adiar essa verdade básica são outras tantas desonestidades.

Por que viver?

Nessa categoria se inclui, evidentemente, toda a majestosa tradição cultural e civilizatória da humanidade. Repito, portanto: por que não livrar-se de toda essa absurdidade, matando-se a si mesmo? Por que viver “quand meme”?

O conceito da absurdidade é, em seguida, iluminado de vários ângulos e aproximado ao nosso sentimento (nojo) e nossa razão (impossibilidade da clareza e distinção), e o homem honesto é definido como absurdo. A situação do homem absurdo é a do suicida no ato do pulo, e o suicídio é o salto a partir do absurdo para o nada, portanto para o transcendente.

O suicídio é, portanto, uma espécie de metafísica, um truque teológico, uma tentativa desonesta de escapar ao absurdo. O suicídio deve ser, portanto, repelido, como toda outra espécie de metafísica. É preciso, portanto, continuar vivendo com o nojo, de dia para dia, de momento para momento, viver o mais possível, já que não se pode viver o melhor possível.

Somente assim, devorando quantidade em vez de qualidade, somente como Don Juan, ator ou conquistador é o homem honesto.

A melhor maneira de abordar esse mundo camusiano é com simpatia. Ele nos chama com a voz da revolta contra uma realidade que se fecha diante de nosso sentimento e nossa razão, uma realidade absurda, chama-nos portanto com a voz da angústia da morte e do desejo da morte.

É um mundo heróico de uma luta perdida sem esperança já antes de ter começado e perdida sempre de novo a cada instante. É o mundo da razão e do sentimento pervertido contra si mesmo (“cor inversum”).

É o mundo da humanidade do século 20, uma humanidade que se afastou tão extremamente da fé numa realidade transcendental que está pronta a se precipitar no abismo físico do suicídio coletivo ou no abismo metafísico de uma nova fé em Deus.

Ética terrível

A situação da humanidade atual é, portanto, honestamente absurda. Talvez foi por terem reconhecido essa circunstância que os senhores solenes em Estocolmo concederam a Camus o Prêmio Nobel?

Devemos nós ceder a essa ética horrível e viver “quand meme”? Ou devemos cometer a desonestidade e pular da janela? Ou a desonestidade é pular para dentro da fé? Afinal de contas, o que é essa “honestidade” e de onde vem senão do além da metafísica desonesta? Com essa pergunta, assim me quer parecer, podemos abandonar o mundo camusiano.

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VILÉM FLUSSER (1920-91) foi um filósofo tcheco. Nasceu em Praga, de onde fugiu do nazismo. Viveu no Brasil, onde lecionou filosofia e atuou como jornalista, de 1941 a 1972. É autor de “Fenomenologia do Brasileiro” (ed. Uerj) e “Filosofia da Caixa Preta” (ed. Relume-Dumará).

Fonte: Folha de S. Paulo, Caderno Mais, 02 de março de 2008.