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O Mito de Sísifo de Camus

07/09/2008

por VILÉM FLUSSER

Em texto inédito em livro, o pensador tcheco que morou no Brasil reflete sobre o sentido do suicídio

Os esquemas tradicionais para a divisão da literatura em drama, poesia e literatura épica nunca eram aplicáveis estritamente. Atualmente esses esquemas deveriam ser abandonados e com eles também as tentativas de uma classificação mais ampla da literatura em beletrística, científica, filosófica etc.

As obras mais importantes da atualidade provam que todas essas gavetas estouraram. “Em Busca do Tempo Perdido”, de Proust, por exemplo, situa-se entre um romance e uma pesquisa psicológica e existencial; “Ulisses”, de Joyce, entre um romance, uma poesia lírica, um tratado de psicologia de profundidade e uma pesquisa de psicologia social; “Dr. Fausto”, de [Thomas] Mann, é um romance que contém um tratado completo de musicologia, uma estética explícita, dois tratados de teologia explícitos e é, todo ele, uma exposição implícita de teologia; as poesias de Eliot são pesquisas epistemológicas e ontológicas; os “Cantos” de Pound contêm, entre outras coisas, uma filosofia da cultura e da história; os trabalhos de Kafka não se enquadram em nenhuma repartição concebível.

Também o “Mito de Sísifo”, de Camus, recusa-se a uma classificação e exige que seja sorvido e absorvido pelo leitor tal qual foi escrito: como erupção inteiramente honesta de um espírito imerso na tradição filosófica, artística e científica da atualidade. Se queremos seguir Camus, precisamos supor, com ele, que existe somente um problema real: por que não me mato? A honestidade intelectual e moral me força a reconhecer que tudo carece de significado, é absurdo e se precipita em direção a uma morte absurda e sem significado.

Todas as tentativas individuais e coletivas da humanidade, teóricas e práticas, de negar, esconder, esquecer ou adiar essa verdade básica são outras tantas desonestidades.

Por que viver?

Nessa categoria se inclui, evidentemente, toda a majestosa tradição cultural e civilizatória da humanidade. Repito, portanto: por que não livrar-se de toda essa absurdidade, matando-se a si mesmo? Por que viver “quand meme”?

O conceito da absurdidade é, em seguida, iluminado de vários ângulos e aproximado ao nosso sentimento (nojo) e nossa razão (impossibilidade da clareza e distinção), e o homem honesto é definido como absurdo. A situação do homem absurdo é a do suicida no ato do pulo, e o suicídio é o salto a partir do absurdo para o nada, portanto para o transcendente.

O suicídio é, portanto, uma espécie de metafísica, um truque teológico, uma tentativa desonesta de escapar ao absurdo. O suicídio deve ser, portanto, repelido, como toda outra espécie de metafísica. É preciso, portanto, continuar vivendo com o nojo, de dia para dia, de momento para momento, viver o mais possível, já que não se pode viver o melhor possível.

Somente assim, devorando quantidade em vez de qualidade, somente como Don Juan, ator ou conquistador é o homem honesto.

A melhor maneira de abordar esse mundo camusiano é com simpatia. Ele nos chama com a voz da revolta contra uma realidade que se fecha diante de nosso sentimento e nossa razão, uma realidade absurda, chama-nos portanto com a voz da angústia da morte e do desejo da morte.

É um mundo heróico de uma luta perdida sem esperança já antes de ter começado e perdida sempre de novo a cada instante. É o mundo da razão e do sentimento pervertido contra si mesmo (“cor inversum”).

É o mundo da humanidade do século 20, uma humanidade que se afastou tão extremamente da fé numa realidade transcendental que está pronta a se precipitar no abismo físico do suicídio coletivo ou no abismo metafísico de uma nova fé em Deus.

Ética terrível

A situação da humanidade atual é, portanto, honestamente absurda. Talvez foi por terem reconhecido essa circunstância que os senhores solenes em Estocolmo concederam a Camus o Prêmio Nobel?

Devemos nós ceder a essa ética horrível e viver “quand meme”? Ou devemos cometer a desonestidade e pular da janela? Ou a desonestidade é pular para dentro da fé? Afinal de contas, o que é essa “honestidade” e de onde vem senão do além da metafísica desonesta? Com essa pergunta, assim me quer parecer, podemos abandonar o mundo camusiano.

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VILÉM FLUSSER (1920-91) foi um filósofo tcheco. Nasceu em Praga, de onde fugiu do nazismo. Viveu no Brasil, onde lecionou filosofia e atuou como jornalista, de 1941 a 1972. É autor de “Fenomenologia do Brasileiro” (ed. Uerj) e “Filosofia da Caixa Preta” (ed. Relume-Dumará).

Fonte: Folha de S. Paulo, Caderno Mais, 02 de março de 2008.

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