O ideário crítico de Machado de Assis

por Mauro de Souza Ventura**

São Paulo – Situada num momento geracional decisivo para a literatura brasileira, a atividade crítica de Machado de Assis foi a um só tempo curta e duradoura. Foi curta se considerarmos a pequena quantidade de artigos de que se compõe e o escasso intervalo em que foi concebida, entre 1858 e 1879. Mas foi extremamente duradoura quanto às implicações provocadas na posteridade pelas questões e temas abordados.

O ideário crítico de Machado de Assis pode ser abordado por dois caminhos. Primeiro, pela via de sua obra ficcional, em que a concepção de obra literária, o princípio de composição e a função do escritor no meio em que atua são transpostas para a literatura e incorporadas, seja pelo narrador, seja pelas personagens.

O segundo caminho, pelo qual seguiremos, examina o crítico Machado de Assis a partir do conteúdo expresso em textos críticos até hoje importantes, como Instinto de nacionalidade, O ideal do crítico ou O passado, o futuro e o presente da literatura brasileira.

Inserido num movimento maior, que corresponde aos decênios de 1870-90, em que se dá a formação da consciência nacional, Machado de Assis demonstrou estar atento aos problemas culturais de seu país. Assim, não hesitou em criticar os solecismos da linguagem comum, que considerava um defeito grave, e a forte influência da língua francesa. Em relação ao teatro, chegou a minúcias como a proposta que estabelecia regras sobre os direitos de representação e também a criação de impostos sobre as traduções, pois via com preocupação a enorme quantidade de peças francesas encenadas no Brasil de então.

Mas o aspecto central a considerar é a crítica ao localismo pitoresco e ao falso instinto de nacionalidade, elementos que Machado de Assis identificou na literatura de seu tempo. Amparado no desejo de criar uma literatura mais independente dos modelos europeus, em 1873, Machado de Assis insta seus contemporâneos a repensar o legado estético do Arcadismo e o predomínio dos temas indianistas. Basílio da Gama e Santa Rita Durão são os principais objetos de crítica, pois não souberam se desligar da matriz árcade.

“Admira-se-lhes o talento, mas não se lhes perdoa o cajado e a pastora”, escreve em Instinto de nacionalidade, de 1873. Para Machado de Assis, indianismo não era representativo da totalidade do universo ficcional brasileiro. Era, evidentemente, um legado reconhecido pelo crítico, mas não poderia continuar a ser a única fonte de inspiração.

Com efeito, reconhecer espírito nacional apenas naquelas obras que tratam de assunto local seria limitar demais os cabedais de nossa literatura, já que “a poesia do boré e do tupâ” não pode ser confundida com a totalidade da inspiração poética nacional. “Um poeta não é nacional só porque insere nos seus versos muitos nomes de flores ou aves do país, o que pode dar uma nacionalidade de vocabulário e nada mais”, pontua.

Pressupunha Machado de Assis um sentimento íntimo inspirado em fatores reais de nosso país e não apenas em fórmulas estanques. Seu objetivo último era livrar os escritores de seu tempo da obrigação patriótica de serem pitorescos. Somente a partir da incorporação deste sentimento íntimo pode o artista ser fiel ao seu tempo e ao seu país, mesmo que enfoque assuntos estrangeiros.

Atuando numa época de transição política (a crise do Segundo Reinado, as lutas entre conservadores e liberais por espaços de poder, a inevitável emergência da República e o drama da escravidão) e literária (na confluência de Romantismo, Realismo e Naturalismo), Machado de Assis buscou ainda esboçar um código definidor das qualidades intelectuais e éticas para a atuação do crítico. Assim, são pressupostos do verdadeiro espírito crítico a coerência de critérios e a tolerância, assim como a independência e a imparcialidade diante do objeto analisado. Não formulou um quadro de valores, pois estes ainda estavam em gestação, mas está longe de ter sido um crítico malogrado, como o considerou Tristão de Ataíde.

Machado foi severo ao diagnosticar a inexistência de atividade crítica em seu tempo, pelo menos daquela crítica capaz de exercer papel decisivo no sistema literário por meio de influência cotidiana e profunda. Quanto ao romance, acusou a ausência de caracteres e de análise profunda da sociedade. Neste ponto, cabe uma indagação a respeito de sua concepção de romance enquanto gênero e estilo, que será posta em prática a partir de Memórias Póstumas de Brás Cubas (no plano do conto, seu equivalente será o volume Várias histórias).

Brás Cubas não é um herói problemático como o Julien Sorel ou o Lucien de Rubempré, nem as Memórias se enquadram no modelo hegemônico de romance realista, já que suas influências capitais são Sterne e Xavier de Maistre. No entanto, o problema das relações entre particular e universal, ponto central de sua visão crítica, e formulada, como vimos, por meio da condenação ao localismo pitoresco, remete-nos à busca dos traços distintivos da sociedade brasileira e à discussão entre originalidade e cópia.

Dito de outro modo, quando aproximamos a formulação crítica expressa no Instinto de nacionalidade e o mecanismo narrativo instaurado nas Memórias surgem implicações fundamentais para se pensar a sociedade brasileira do Segundo Reinado, dilacerada entre o ideário liberal importado da Europa e as contingências da escravidão. As contradições de Brás Cubas, suas veleidades e opiniões, ou as intromissões constantes no fio narrativo feitas por este narrador volúvel, como o classificou Roberto Schwarz, representam a versão ficcional do ideário crítico de Machado de Assis. A volubilidade narrativa foi a solução encontrada pelo ficcionista para um problema diagnosticado pelo crítico quase duas décadas antes.

Esta mesma idéia crítica encontrará continuidade no século seguinte com a formulação de Antonio Candido a respeito dos fatores definidores da formação de nossa literatura. A alternância e a complementaridade entre particularismo e universalidade é a chave que permite a Candido encontrar os traços distintivos da sociedade brasileira nas obras, por exemplo, de Manuel Antonio de Almeida e Aluísio Azevedo. Na obra do primeiro, o crítico identificou um movimento pendular entre ordem e desordem, que seria a configuração da forma social no plano narrativo. Em Aluísio Azevedo, apontou para um movimento idêntico, que seria o responsável por distinguir O Cortiço de sua matriz francesa L’Assomoir, impedindo deste modo que a obra do brasileiro ficasse enclausurada na reprodução de uma fórmula literária oriunda da Europa, em termos similares à observação de Machado de Assis sobre o Arcadismo.

Assim, a dialética entre universal e local, ordem e desordem, infração e norma (esta, por sua vez, foi a chave encontrada por Roberto Schwarz, que dá continuidade à mesma matriz crítica machadiana) ganha o estatuto de uma constante cultural, um modo de ser do brasileiro. Um traço cultural por meio do qual é possível chegar a uma definição maior quanto ao caráter de nossa nacionalidade e, ao mesmo tempo, estabelecer termos de comparação frente a outras culturas e outras literaturas.

Ao defender a idéia de que os modelos literários vigentes em sua época eram impróprios porque incongruentes com o país, Machado de Assis estava ciente de que o processo de constituição e de emancipação de uma literatura era um movimento vagaroso e complexo, e diante do qual não bastariam “gritos de Ipiranga”. Mesmo sem ter formulado um ideário e ainda que não tenha se transformado em crítico militante, Machado de Assis demonstrou sintonia com os principais problemas literários de seu tempo ao pedir que a sociedade e a literatura brasileiras em formação fossem não apenas motivo de inspiração mas também de estudo.
__________
* Fonte: Via Política, 13 de setembro de 2008. Disponível em http://www.viapolitica.com.br/pagina_view.php?id_pagina=111
** Colaborador de ViaPolítica, Mauro Souza Ventura é crítico literário, professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e autor de De Karpfen a Carpeaux (Topbooks). E-mail: mauroventura@faac.unesp.br
Anúncios

Uma resposta to “O ideário crítico de Machado de Assis”

  1. Anonymous Says:

    boa matéria no new york times :After a Century, a Literary Reputation Finally Blooms By LARRY ROHTERPublished: September 12, 2008 http://www.nytimes.com/2008/09/13/books/13mach.html?_r=1&scp=1&sq=After%20a%20Century,%20a%20Literary%20Reputation%20Finally%20Blooms&st=cse&oref=slogin=

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: