O piolho humano

por Luiz Costa Lima

A derrota de Raskólnikov não afeta a descoberta de que a imanência do bem e do mal não passa de grandioso equívoco

Integrado ao círculo de I.I. Petrachevski (1821-1866), Dostoiévski participara de um dos primeiros grupos socialistas russos. Embora F. Ventura, em “Il Popolismo Russo” (1952), declare ele nunca ter sido “um homem de espírito político”, isso não o impediu, em consequência do fracasso da Revolução de 1848, de ser preso em abril de 1849 e, após oito meses, ser condenado a oito anos de encarceramento.

Embora o czar tenha abrandado a pena para quatro anos, seguidos de serviço como soldado, as autoridades antes montaram uma terrível farsa: comunicaram aos presos haverem sido condenados à morte. Só quando a primeira leva já estava amarrada aos postes de fuzilamento foi lida a sentença real (um dos prisioneiros enlouqueceria para sempre).

Assim o romancista esteve, entre 1850 e 1854, na prisão Omsk, na Sibéria, depois servindo em um batalhão militar, na mesma Sibéria, até 1859. É-lhe então permitido voltar à Rússia européia, fixando-se por fim em São Petersburgo, onde recomeçaria sua carreira de escritor. Data de 1864, com “Memórias do Subsolo”, a abertura de sua grande produção novelesca. Mas seu primeiro grande romance pós-cárcere, de que só agora surge a primeira tradução brasileira feita do original, é “Crime e Castigo”, de 1866.

Seu protagonista, Raskólnikov, é um ex-estudante, misantropo, angustiado, solitário, que habita um quarto miserável. Pelo não-pagamento do aluguel, a proprietária havia alguns dias o deixava sem alimentos. Explorado por uma velha prestamista usurária, acabara de empenhar um dos poucos objetos que herdara do pai. Sem rumo, entra em uma taberna, onde se encontra com um dos primeiros personagens secundários decisivos. É Marmieládov, o ébrio que se autopune e o primeiro que recorre à figura de Cristo como o único capaz de compreender o homem bestializado.

Marmieládov introduz o leitor na ambiência russa das idéias. Se o cristianismo era de impregnação geral, o pragmatismo, bem mais recente, se faz ouvir na queixa do bêbedo contra os que clamam contra a comiseração por seu vício, causador de sua demissão. Alguém a quem pedira um empréstimo lhe negara, alegando que a compaixão estava proibida pela economia política. Cambaleante, o ébrio há de ser conduzido por Raskólnikov para casa, quando testemunha a sua miséria: a filha Sônia se prostituíra para alimentar os irmãos menores, enquanto Marmieládov furta as economias da própria mulher para poder continuar a beber.

Ao sair de lá, Raskólnikov deixa no vão da janela o pouco que lhe restara do empréstimo. Ao chegar a seu quarto, encontra carta da mãe, contando-lhe que sua irmã Dunia aceitara se casar com um próspero e ambicioso conselheiro da corte, a quem mal conhecia. Raskólnikov compreende que a irmã se sacrificava por ele e pela mãe. Traça-se pois um paralelismo entre as decisões de Sônia e Dunia: ambas se prostituem para salvarem suas famílias da miséria.

As contradições de Raskólnikov Começam a se manifestar as contradições de Raskólnikov: duas vozes se alternam em seu monólogo: uma, altiva, declara que não permitirá o casamento. A outra é a da renúncia e do desespero: acatará o negro destino e abandonará todo o direito a usufruir a vida.

As vozes logo se atropelam: ao passar por um parque, Raskólnikov vê uma moça ébria, seguida por um homem bem vestido, que a segue dissimulado. Raskólnikov a defende, está prestes a brigar com o “caçador” quando um guarda intervém. Enquanto o protagonista lhe narra o que vira, o perseguidor escapole. Logo, entretanto, o protagonista se arrepende de haver dado ao guarda seus últimos copeques para que protegesse a indefesa. Tenho eu o direito de ajudar a alguém, e a mim quem ajuda, pergunta-se. Aparentemente, as vozes opostas insistem na oposição simples entre o pragmatismo “inglês” -introduzido, segundo Joseph Frank, em “Dostoiévski – Os Anos Miraculosos”, pelo primeiro radicalismo russo de Tchernichveski- e a comiseração cristã, entranhada no povo. Fosse apenas isso, “Crime e Castigo” não seria o romance que conhecemos. Logo o mostra o sonho que sucede.

No capítulo cinco da primeira parte, Raskólnikov sonha que, menino em passeio com o pai, testemunhara o espancamento até a morte de uma velha égua. Superpõem-se suas reações de criança que, enquanto beija os lábios ensanguentados do animal, pergunta ao pai por que fizeram aquilo, e as de adulto, sozinho e desamparado, que pensa na velha usurária. Dá-se conta de que vinha tramando o plano de matá-la e que a ida à sua casa, na noite anterior, a pretexto de empenhar o relógio paterno, visava a conceber melhor o plano. Um pequeno detalhe oferece indicação significativa do modo de composição de Dostoiévski. Entre avanços e recuos, o protagonista, depois de se declarar incapaz do crime, se diz: “Suponhamos que tudo isso se resolva neste mês e seja claro como o dia, justo como a aritmética”.

A comparação se explica pelo capítulo seguinte (capítulo seis, parte um): numa taberna, Raskólnikov escuta a acalorada conversa de um estudante com um oficial. Aquele, falando de Lizaveta, a irmã da usurária, mas de caráter bem distinto, expõe ao interlocutor que matar pode ser um ato a favor da humanidade, por dar melhor uso ao dinheiro que o morto escondia.

É então que surge a expressão que o protagonista havia usado em seu monólogo: “É uma questão de aritmética”. A conversa, acidentalmente escutada, fixara-se, pois, em Raskólnikov e o convencera a praticar o ato ante o qual hesitava. A leitura atenta do romance mostraria que o assassinato e as razões que o justificariam haviam sido teorizadas antes mesmo do início do enredo. Pois “Crime e Castigo” não segue um plano linear.

Ao contrário, cada momento do enredo precipita decisões e ações elaboradas em tempos anteriores. No caso do homicídio, Raskólnikov o teorizara em artigo escrito meses antes, “Sobre o Crime”, que só será trazido para o enredo muito depois do duplo assassinato da prestamista e sua pobre irmã, Lizaveta. O artigo, publicado sem que o autor o soubesse, será trazido à tona pelo juiz encarregado de desvendar o crime. A conversa que este tem com o protagonista, na presença de seu bom, impulsivo e ingênuo amigo Razumíkhin, condensa o ápice do romance.

É certo que a polícia já desconfiava de Raskólnikov, por uma série de indícios de que aqui apenas se assinala seu desmaio na delegacia, a que comparecera pensando ser chamado por conta do crime, a provocante conversa que tivera com o funcionário da delegacia e médico que o supunha vítima de “monomania”, a irresistível compulsão de voltar ao local do crime, interrogar os pintores que lá trabalhavam e fazer soar a campainha da porta, tal como haviam feito quando ele ainda não saíra do quarto do crime.

Direito ao crime Extremamente sagaz, o juiz ligara esses indícios à leitura ocasional do artigo de Raskólnikov. No artigo, o que mais lhe intrigara fora a distinção entre os homens comuns e os extraordinários. Ao passo que aqueles haveriam de viver na obediência das leis, estes exigiriam a destruição da lei presente, em nome de algo melhor. São “os legisladores e fundadores da Humanidade”. Os que, tendo direito à “palavra nova”, têm direito ao crime (para Joseph Frank, Dostoiévski fizera de Raskólnikov um amálgama do pragmatismo, inspirado em Stuart Mill e Bentham, com o protonietzschianismo de Pisarev e Bazarov).O juiz, entretanto, levanta ao autor uma questão que seu artigo não respondia: se ao homem extraordinário a história concede o direito ao crime, que sucederá se o agente do crime se enganar e for um homem comum que se julgara extraordinário? Circunspecto, Raskólnikov responde que não haverá problema, “eles mesmos se flagelam porque são muito morais” (capítulo cinco, parte três). Em suma, o juiz e Raskólnikov estão bem próximos do que houve. Embora não disponha de uma peça factual, o juiz de instrução reconstitui todo o crime, descarta a falsa confissão de um fanático religioso, sedento por sofrer, e compreende se tratar de um ato “sui generis”: um crime por idéias, de que o homicida não tirara nenhuma vantagem material. Raskólnikov, de sua parte, chegara a uma conclusão trágica: crendo-se excepcional, ele se testara e fracassara. Não passava de um egoísta comum.

A partir daqui, seria possível analisar os dois grandes pares do livro: Raskólnikov e Sônia, sob o signo da ressurreição de Lázaro; Raskólnikov e Svidrigáilov, atraídos por alcançarem um lugar acima do bem e do mal. Na impossibilidade de fazê-lo, note-se tão-só que o reconhecimento do fracasso por Raskólnikov não afeta a expressão do que há de mais radical no pensamento do romancista. Se o destruidor da lei vence, será julgado um benfeitor, e não um criminoso. Que isso significa senão que a lei não encarna uma essência contida nas coisas do mundo? A imanência do bem e do mal não passa de grandioso equívoco. A derrota de Raskólnikov não afeta essa descoberta. Sua divulgação fará explodir a metafísica tradicional.

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Luiz Costa Lima é ensaísta, crítico e professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e da Pontifícia Universidade Católica (PUC-RJ), autor de “Vida e Mímesis” (Ed. 34) e “Mímesis – Desafio ao Pensamento” (Civilização Brasileira), entre outros. Escreve mensalmente na seção “Brasil 502 d.C.” (depois de Cabral).

Fonte: Folha de S. Paulo, Caderno Mais, 06 de maio de 2001, p.08-09. Disponível em http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs0605200110.htm

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