Archive for outubro \25\UTC 2008

Os 10 pecados de Paulo Coelho, de Eloésio Paulo

25/10/2008

Pode-ser ler de várias maneiras Os 10 pecados de Paulo Coelho. Menos como crítica literária acadêmica, embora Eloésio Paulo, doutor em Letras pela Unicamp, disponha das credenciais para fazê-la. O livro é, antes de tudo, um irônico guia para quem não quer ler Paulo Coelho, mas semeia, no caminho dessa curiosa espécie de auto-ajuda, diversas possibilidades de investigação a respeito do maior mito literário brasileiro.

A organização do volume é simples como o estilo adotado: consta de resenhas das 11 narrativas longas publicadas por Paulo Coelho, de O diário de um mago até A bruxa de Portobello, alternadas por capítulos que abordam os “pecados”: ignorância, superficialidade, desleixo, auto-elogio etc. Eles estão fartamente documentados nas obras do escritor brasileiro de maior sucesso em todos os tempos.

Os 10 pecados de Paulo Coelho é temperado pelo humor que caracteriza tanto a poesia como a prosa de Eloésio Paulo, mineiro de Areado e professor da Universidade Federal de Alfenas (MG). Ele já publicou o ensaio Teatro às escuras e dois livros de poemas: Cogumelos do mais ou menos (2005) e Inferno de bolso etc. (2007). Na visão desse ex-professor de cursinho que também foi redator da Folha de S. Paulo e colaborador de O Estado de S. Paulo e do Jornal da Tarde, “não dá para levar Paulo Coelho a sério, embora seja necessário discuti-lo”.

A conseqüência desse ponto de vista se patenteia em subtítulos como “O deserto do topless epifânico” (sobre As valkírias) e “Folhetim carola ou A salvação pela piroca” (sobre Na margem do rio Piedra eu sentei e chorei). Mas a abordagem humorística não exclui grande energia analítica, demonstrada, por exemplo, na comparação entre o autor de O alquimista e os cultos neopentecostais cujo poder midiático já inquieta a democracia brasileira.

A leitura de Os 10 pecados… é um convite à reflexão a respeito das amplas possibilidades da mistificação no ambiente cultural contemporâneo. E, embora teoricamente despretensioso, promete conter também a principal explicação para o sucesso internacional de Paulo Coelho.

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Eloésio Paulo
Os 10 pecados de Paulo Coelho
Vinhedo (SP): Editora Horizonte, 2008 (143p.)
contato: editora@editorahorizonte.com.br
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CONTO: Armando Puxa-Avante

22/10/2008

José Arrabal*

Tinha nome imponente e sugestivo, Armando Nascimento, mas em nosso vilarejo capixaba, Santo Antônio das Paineiras, no dizer de todos era Armando Puxa-Avante, o professor.

Puxa-Avante por ser desde há muitos anos o guia da Folia de Reis na cidade, folia que conduzia com seu costumeiro grito “Avante! Avante!”, no decorrer da travessia dos foliões a cada seis de janeiro.

Grito igualmente repetido aos alunos nos desfiles de sete de setembro, pois nunca julgou mau o apelido que até mesmo alimentava onde estivesse.

– Vamos avante! Puxa avante! – melhorava o ânimo da classe na tensão de uma prova, trazendo riso, maior satisfação ao ambiente.

Armando Puxa-Avante, querido mestre de Matemática no Ginásio Estadual Avelino Rodriguez, em Paineiras.

– Leciono graças a arranjo de Deus que bem sabe o que faz! – justificava a vocação por ter nascido num certo 15 de outubro, dia do professor.

Para as aulas trajava terno claro, gravata borboleta, camisa limpa engomada, sapatos encerados. Sobre a mesa de trabalho colocava o chapéu de feltro grosso, que tirava ao entrar na classe. Ao sair, tornava a pôr o chapéu na cabeça protegendo sua vasta cabeleira grisalha.

Homem de estatura média, tinha traços de ágil gnomo, mais gestos elétricos de maestro de orquestra e palavras certeiras de exímio arqueiro.

– Fui professor de seu pai. Ele não gostava de Matemática… mas depois gostou… – confessou-me em simpático sussurro, justo no primeiro dia de aula.

Nada respondi, surpreso por ter adivinhado que eu também desgostava de sua matéria de ensino. Surpresa que me acompanhou todo o curso, devido à sua profecia de minha afeição crescente pela Matemática.

Quatro anos estivemos juntos, ano a ano, num curso diferente do que podia imaginar.

No primeiro ano – hoje, chamado de quinta série – não tratamos de somas, nem de frações, não vimos qualquer equação, não decoramos fórmulas, muito menos resolvemos problemas de aritmética.

Estudamos a aventura da Matemática, sua múltipla valia histórica para a Antiguidade, para a Idade Média e nos tempos modernos. Tomamos conhecimento das biografias dos grandes matemáticos, a paixão de Pitágoras pelo Um, Arquimedes gritando “Eureka”, a tardia descoberta do Zero, a razão de ser dos caracteres numéricos de cada cultura da humanidade. Lemos pequenos contos em que a Lógica torna-se essencial à solução dos enredos.

– Avante! Avante! – nos seduzia o mestre.

Atravessamos a segunda série apaixonados pela leitura de “O Homem que Calculava”, histórias do escritor brasileiro Malba Tahan. Até inventamos novas situações semelhantes às desse livro inesquecível.

Cumprimos outras leituras de textos com conteúdos equivalentes, vivenciando enigmas matemáticos. Entusiasmados, visitamos Sherlock Holmes. Também nos encantamos com o conto “O Escaravelho Dourado”, de Edgar Allan Poe. Expressões do imaginário em que o raciocínio é precioso para solucionar as tramas em suspense. Percursos que nos aproximaram com satisfação de diversos conceitos da Matemática.

Nunca me esqueço de certa prova no meio do segundo semestre desse ano, prova com dez questões que levamos para resolver em casa.

O professor nos passou tão somente as respostas das questões. Cabia a nós inventarmos os enunciados dos problemas para essas respostas. O valor da nota era proporcional à complexidade de cada enunciado inventado por nós. Não foi fácil, mas foi muito divertido.

No ano seguinte lidamos com poemas e canções, centrados nas métricas e nos encadeamentos das rimas, que transformamos em dados estatísticos, enquanto constatávamos surpresos que Música e Matemática têm almas irmãs.

Substituímos números por letras, de onde chegamos à Álgebra. Entrelaçamos formas e números, com o que alcançamos a Geometria. Com alguma facilidade dominamos noções de logaritmos, das constantes, da transformação de coordenadas, das derivadas de funções, das integrais básicas, da teoria dos conjuntos.

Rimos dos números irracionais.

E brincamos felizes com todo esse universo do conhecimento humano.

– Avante! Avante! – nos conduzia a batuta do maestro Puxa-Avante.

Na quarta série, último ano de nosso curso Ginasial no Avelino Rodriguez, num decisivo lance de dados, o mestre nos apresentou à mais permanente relação da vida cotidiana com a Matemática.

Dividiu a turma em pequenos grupos agora responsabilizados pela criação e condução administrativa de supostas fazendas agrícolas, fábricas, casas de comércio, provedoras de serviços, supostos bancos e bolsas de valores, até mesmo supostos organismos do setor público, todos associados às suas implicações com a economia familiar.

Assim nos encaminhou à consolidação da necessidade permanente da Matemática na existência humana, com o que construímos supostos mundos, visualizamos suas contradições.

Foi feliz a nossa formatura no Ginasial. Seu sabor de vitória tinha o tempero da saudade impulsionando o porvir.

Oito anos mais tarde, ao me tornar Engenheiro, passei cópia precisa do diploma ao Professor Armando Nascimento, certo de que meu curso universitário era fruto da semente plantada em mim por ele, mestre eterno em minha grata memória.

– Avante! Avante!

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* Professor universitário, jornalista e escritor, autor de contos, novelas e romances. Entre suas obras, sobressaem “O Nacional e o Popular na Cultura Brasileira: Teatro” (Editora Brasiliense), “A Princesa Raga-Si”, “O Livro das Origens”, “Lendas Brasileiras, Vol 1/Vol. 2”, “Cacuí O Curumim Encantado”, “As Aventuras de El Cid Campeador”, “Romeu e Julieta” (Editora Paulinas), “A Ira do Curupira” (Editora Mercuryo Jovem), “O Noviço”, “Demeter A Senhora dos Trigais” (Editora FTD), “Histórias do Japão” (Editora Peirópolis) e “Anos 70 – Ainda Sob a Tempestade” (Aeroplano Editora). josearrabal@uol.com.br

Cultura e Ideologia em “Os sertões”

18/10/2008

por Ferreira Gullar

Um dos equívocos que mais facilmente se cometem, ao apreciar o problema da cultura do ponto de vista da relação das classes sociais, é identificar ideologia e cultura. É conhecido o conceito segundo o qual a ideologia dominante numa sociedade de classes é a ideologia da classe dominante. Ora, esse conceito, ao afirmar a existência de uma ideologia “dominante”, pressupõe a existência de outra ou outras ideologias que são dominadas. O fato mesmo de que, numa sociedade. haja mais de uma ideologia supõe, por sua vez, a não-identificação de ideologia e cultura. Se é correto dizer que, de uma forma ou de outra, toda manifestação cultural implica uma ideologia, é incorreto afirmar que as manifestações culturais não são mais que ideologia, pois, desse modo, se desconheceria a autonomia relativa das diferentes formas de consciência. Incorreríamos, assim, no equívoco de considerar, por exemplo, que a teoria econômica clássica jamais conteve qualquer verdade, que a música de Bach não possui qualidades musicais, que os romances de Balzac são destituídos de qualidade literária ou que T. S. Eliot é um mau poeta. Semelhantes conclusões são obviamente inaceitáveis. E como se poderia explicar, se não se distingue conhecimento (cultura) de ideologia, que Marx tenha adotado a dialética hegeliana após eliminar dela a visão idealista?

Pois bem, se aceitamos que cultura e ideologia não são a mesma coisa, devemos aceitar também que as formas culturais criadas sob a influência da ideologia burguesa não limitam sua significação a essa classificação ideológica. Cumpre distinguir, portanto, no âmbito de qualquer cultura, o que é pura e simplesmente literatura política – onde o peso da ideologia é às vezes total – das inúmeras manifestações culturais, que vão desde a arte à ciência, cuja autonomia, com respeito ao fator ideológico, é maior.

Considerações como estas, ainda que expostas rapidamente, nos previnem contra a fácil conclusão a que muita gente tem chegado de que o conceito de “cultura brasileira” não pode ter outro significado senão o de “cultura da classe dominante”. A coisa se tornaria possivelmente mais clara se deixássemos o campo das considerações teóricas para abordar um exemplo real, como o caso de Os sertões, de Euclides da Cunha, que me parece muito instrutivo para o entendimento do fenômeno cultural brasileiro.

O caso de Os sertões é tanto mais significativo para a análise da questão cultural porque – à parte a obra de Euclides – a própria revolta de Canudos mostra como a ideologia da classe dominante, incutida na massa, pode se voltar contra essa própria classe e contra essa mesma ideologia. O fanatismo religioso de Antônio Conselheiro, alimentado na pregação dos padres e exacerbado pelas condições de miséria do camponês, conduziu ao choque com a Igreja sertaneja, com o latifúndio e com a República. Confusamente no plano ideológico, mas claramente na prática da luta, a revolta de Canudos denuncia o caráter retrógrado da República com respeito ao camponês: a República é a continuação do domínio dos “coronéis” latifundiários. E a luta conduziu a revelar quão profunda é essa ligação entre o poder republicano e o latifúndio, uma vez que o próprio exército brasileiro foi levado a assumir a responsabilidade de esmagar a cidadela miserável constituída de casebres de barro. E seus incultos defensores, superando a mistificação ideológica da classe dominante – que procura sempre apresentar o seu poder como o poder do povo –, gritavam para a tropa adversária: “Avança, fraqueza do governo!”.

Euclides da Cunha escreve Os sertões armado de uma ideologia reacionária, essencialmente colonialista. Ele acredita que a luta das raças é “a força motriz da História” e que “a mestiçagem é um retrocesso”. É possível, no entanto, que, sem essa ideologia, ele jamais tivesse se disposto a escrever, sobre a luta de que foi testemunho, uma obra de fôlego. A verdade é que uma ideologia que considera a cultura produto do meio físico (para explicar a inferioridade cultural dos colonizados) sugere ao mesmo tempo que condições geográficas específicas podem criar uma cultura específica. Desse ponto de vista, o que se passou em Canudos deixou de ser um fato irrelevante para se tornar um fenômeno peculiar tanto social como cultural – digno de estudo: uma oportunidade para Euclides da Cunha aplicar a teoria que aprendeu com os europeus. Quer dizer, a teoria da alienação conduz o escritor a se voltar para o seu próprio meio, o que revela a ambivalência da ideologia, conforme seja manejada pelo colonizador ou pelo colonizado. Se Euclides não tivesse chegado a escrever Os sertões mas o deixado em projeto, não faltaria quem hoje afirmasse que, com “aquela ideologia”, a obra seria fatalmente contra Canudos e a favor da classe dominante. Mas o livro foi escrito e, apesar da ideologia do autor, o resultado é uma exaltação do valor dos sertanejos, uma identificação profunda com sua sede de justiça e um libelo contra o regime que os esmagou impiedosamente. Não é justo afirmar que Os sertões é um produto da cultura européia, nem que ele expressa os interesse políticos e ideológicos do sistema de poder existente no país àquela época.

Há ainda dois outros aspectos que eu gostaria de destacar no exemplo citado. O primeiro se refere ainda ao fato sociológico: ao descrever a formação do movimento liderado pro Conselheiro, Euclides nos mostra como ele se insere num processo social e cultural complexo que se desenrolava no nível do povo ignorante, do camponês sem terra que, sem nenhuma esperança de solução para os seus problemas, adere à pregação messiânica do mestiço. O movimento vai se ampliando até ganhar caráter massivo, abrangendo vastas regiões do sertão nordestino: pessoas do Ceará, do Piauí, abandonam o pouco que possuem, vendem o porco e o cabrito, para irem juntar-se ao Conselheiro após caminharem a pé centenas e centenas de quilômetros. Se o movimento tivesse se dissolvido sem luta, talvez nunca chegássemos a tomar conhecimento desses fatos, hoje incorporados, pela literatura, à história brasileira. Isso não significaria, porém, que nada acontecera, que o fato social não se dera: simplesmente não teria sido registrado como, aliás, na maioria dos casos, não é levada em conta a história que se desenrola longe dos grandes centros urbanos. E assim se vai escrevendo uma História do Brasil que não é toda a história do povo brasileiro. Exatamente aí, nessa seleção discriminadora, revela-se um dos aspectos mais contundentes da ideologia dominante.

O outro ponto a ressaltar, ligado ao primeiro, refere-se ao modo como um “fato cultural” se forma e se produz. Refiro-me ainda a Os sertões. De que modo descrever a história desse livro, o processo de seu nascimento? Apenas a contar do momento em que o autor se sentou para redigi-lo? Como obra literária, talvez sim, mas como fato cultural o livro “começa” com o movimento social de Antônio Conselheiro, ou mais atrás: com a formação do ambiente social e cultural onde se gerou o fanatismo religioso e a revolta. Quer dizer: a obra literária Os sertões é expressão, no nível da literatura, de um processo social e cultural específico. Não se trata de um fenômeno “puro”: nem a ideologia do Conselheiro é original nem a revolta de Canudos fornece todos os elementos para a realização da obra, pois a história cultural de Euclides também vem se juntar a eles. Não obstante, uma quantidade indeterminada de fatores que só a vida pode reunir determinaram os traços específicos de Canudos e, noutro nível, do livro Os sertões. Creio que é a partir deste ponto de vista que se pode falar de uma “cultura brasileira”. Ela existe porque existe uma história que se desenrola dentro dos limites geográficos do país, sob condições econômicas, políticas, administrativas e “culturais” específicas. Ela tanto é produzida pelo povo analfabeto como pelas camadas alfabetizadas e pelas elites intelectuais, é um produto ideologicamente confuso e contraditório, marcado na maioria dos casos pela alienação cultural e política em que vivem as grandes massas populares, e não só elas. Portanto, se “cultura brasileira” não é sinônimo de “cultura da classe dominante”, tampouco é sinônimo de cultura revolucionária ou “cultura nacional-popular”.

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* Fragmento de “Considerações em torno do conceito de cultura brasileira”. In GULLAR, Ferreira. Indagações de hoje. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 1989, p. 48-52 (subtítulo do editor).

Os Corações Futuristas

11/10/2008

por Fernando Soares Campos

Optar pela leitura de determinado livro é praticamente o mesmo que convidar alguém a quem apreciamos para junto a nós refletir, rir, chorar, indignar-se, divergir ou pactuar idéias. Com uma vantagem: o autor nunca pode recusar o convite. Em Os Corações Futuristas, romance de Urariano Mota, o autor se torna esse agradável parceiro. A obra oferece ao leitor a oportunidade de assistir ao espetáculo da alma. Paixões, sexualidade, culpas, frustrações e esperanças se entrelaçam num audacioso sonho de liberdade. Tudo isso conflitando com a opressora realidade experimentada por Carlos, João e Samuel, personagens que, navegando entre as suas convicções e incertezas, centralizam-se na história que tem como cenário o Recife de Capiba, o Pernambuco de Miguel Arraes e o Brasil de Paulo Freire, sob o regime de uma ditadura nada romântica.

José Carlos Malta Marques, meu amigo de infância e juventude (eu ainda na infância, ele já na juventude) costuma dizer que “amizade impõe parcialidade”. Certamente tal sentença faz sentido, mas nem por isso a gente deve privar-se de reconhecer publicamente os méritos dos amigos. Urariano Mota também é meu amigo, desde os idos de 1988, quando ele, Rui Sarinho e Tarciana Portela faziam o programa Violência Zero, numa emissora de rádio do Recife. Além do jornalismo radiofônico, Urariano trabalhava numa atividade “âncora”, aquela que dava o verdadeiro suporte à sua subsistência: era funcionário do Banco do Brasil. Vez ou outra eu passava lá na agência onde ele trabalhava, no bairro da Encruzilhada, e trocávamos um dedo de prosa. Num desses rápidos bate-papos, lembro-me que, observando meu amigo manuseando e contabilizando boletas bancárias, com habilidade digital no teclado de uma calculadora, falei: “Trabalhar com uma papelada dessas deve ser muito chato”. Ele nada respondeu, me serviu um cafezinho e falamos alguma coisa mais sobre o seu programa no rádio. Na verdade, quando afirmei aquilo, pretendi provocar a sua reação, de maneira que ele revelasse como lidava com a rotina do seu trabalho. Gostaria de saber como um espírito inquieto, acostumado a meditar sobre os departamentos da alma humana, alguém que estava sempre em busca de respostas sobre a natureza do comportamento humano, sentia-se em meio aos trâmites de um trabalho burocrático. Naquele momento, Urariano limitou-se a ouvir a minha observação sem explicitar qualquer opinião sobre o meu questionamento. Porém, hoje, quase duas décadas depois, Urariano Mota me respondeu através do seu romance Os Corações Futuristas, narrando as inquietações de um dos jovens personagens:

Carlos não percebia ainda, como uma lei geral, que no trabalho não se vende só o esforço físico. Ele não percebia que assim como existem na terra as categorias de metalúrgicos, industriais, comerciários, bancários, banqueiros, no inferno ou no céu também existem as categorias de almas de banqueiros, metalúrgicos, comerciários e industriais. Ele julgava, como uma lei geral, que no domínio de um ofício era possível manter a cabeça livre do espírito da gente do ofício. Seria como se nos dedos que batiam aquelas asneiras protocolares, no corpo que se assentava nove horas batendo aquilo, nos ouvidos que digeriam os sons da oficina e o malho da voz do chefe, seria como se em meio a tudo a alma e o gosto não sofressem impressão, pois estariam resguardados de fé e concreto, bem ocultos. Esta crença, diga-se de passagem, cairia melhor em João, que acreditava na lenda de Spinoza polindo lentes, enquanto pensava em latim Sobre o Melhoramento do Intelecto (pág. 89/90).

“O que é isso companheiro, nós fomos, ou somos, tudo isso?!”

Esta é a pergunta que bem poderia ser feita pelos protagonistas ao autor da trama de Os Corações Futuristas, mas também pode ser formulada por qualquer um de nós, ao nos revelarmos construtores da História. Na escola tradicional, a História Oficial parece ter o objetivo de nos transformar em militantes da passividade. É lá que, desde cedo, tentam nos impressionar com os feitos dos super-heróis nacionais.

O jovem Samuel, que se torna professor do curso ginasial, tenta dar uma aula sob o tema “A independência dos Estados Unidos”. Em meio às suas explanações e considerações, Samuel percebeu o desinteresse dos seus alunos pela aula. Descobriu que entre eles circulava uma revista pornográfica, aquilo que um dos alunos chamou de “Verdadeira guerra da América”, provocando as gargalhadas dos colegas. Urariano Mota conhece as limitações do ser humano e as progressivas conquistas da alma, o acúmulo das experiências pelos fatos vivenciados e pelas observações do comportamento geral da sociedade, por isso mesmo seu personagem Samuel, bem-intencionado aspirante ao magistério, apenas se indignou com o comportamento da turma, passou-lhe uma inócua descompostura, e queixou-se ao velho diretor. Este, como tantos outros nos dias de hoje, estava mais preocupado com o faturamento da escola-empresa do que nos resultados de uma escola como instrumento de formação de cidadãos.

Samuel ainda não tinha experiência suficiente para entender que, apesar de ter sido dita como provocação, aquela frase do aluno galhofeiro expressava uma verdade que poderia, naquelas circunstâncias, ser denominada “ironia do sarcasmo”. Se a revistinha pornográfica não é propriamente a “verdadeira guerra da América”, entretanto pode ser considerada uma poderosa arma nessa guerra suja da alienação juvenil. Hoje as revistas pornográficas ocupam mais espaço nas bancas do que os cantinhos destinados aos jornais e à meia dúzia de publicações instrutivas. Milhões de jovens poderiam estar freqüentando bibliotecas e livrarias, adquirindo obras como Os Corações Futuristas e tantas outras que ainda não encontraram o caminho das grandes editoras. Enquanto isso, a maior parte dos nossos adolescentes (e nem tão) está condicionada (condenada) à reclusão nos banheiros, hipnotizados pela pornografia colorida, a prostituição gráfica, despojada da arte do mestre Carlos Zéfiro, em solitários delírios, bem acima dos limites saudáveis.

E João? Até parece que João leu Os Corações Futuristas e, assustado, se reconheceu como personagem do livro. Ou, pelo menos, João teria dito: “Um dia alguém vai escrever a nossa história, vai contar a sacanagem que fizeram com a gente”. Refeito do susto, hoje, João, parafraseando Sartre, diria: “O que importa agora é o que vamos fazer com a sacanagem que plantaram em nós”.

Bernard Shaw afirmou que “Todo livro que vale a pena ser lido foi escrito pelo Espírito”, atribuindo a autoria de todas as obras da Literatura Universal a única fonte. O problema é que, assim como existe bancário com espírito de banqueiro, escravo com espírito de senhor, podem existir banqueiros travestidos de escritores, ou espíritos escritores que ainda não distinguem ética de estética, deixando-se influenciar pela ditadura do mercado. Em Os Corações Futuristas, Urariano Mota demonstra a possibilidade de uma literatura universal em cada aldeia, como preconizava Leon Tolstoi. Nele, a Estética é apenas um elemento da Ética, mas sem abrir mão da criatividade.

Ler Os Corações Futuristas foi como se eu estivesse fazendo uma lição que saltei, na escola da vida, quando tinha a idade dos jovens personagens. Com o leitor de excelentes produções ocorrem coisas assim: morre um jovem velho para, logo em seguida, renascer um velho rejuvenescido.

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Fonte: http://www.novae.inf.br/site/modules.php?name=Conteudo&pid=657

Análise/livro/"Cartas a Favor da Escravidão": Esforço letrado de Alencar é chocante

08/10/2008

por TALES AB’SÁBER
ESPECIAL PARA A FOLHA
Textos publicados revelam um escritor admirável e ao mesmo tempo execrável, que faz pensar nos novos senhores do Brasil

Quem ler as “Cartas a Favor da Escravidão”, de José de Alencar, que a editora Hedra publica após 140 anos de sua primeira aparição, deve se espantar. De fato, o livro tende para o inacreditável.

Há muito que circula a percepção em círculos progressistas de que as elites nacionais poderiam funcionar por princípios pré-modernos em plena modernidade, diante dos quais o horizonte real de desenvolvimento social do país não é um móvel histórico forte.

A vida ideológica estável de nossa época nos impede de checarmos as concepções de mundo do poder e seu controle do corpo e destino no mundo do trabalho. Em um tempo em que todo poder emana do capital, e a crítica da violência no espaço do trabalho está vedada por princípio, apesar da virtual escravidão, a verdade é que a violência contra o trabalho continua aí, presente, configurando amplos setores da economia. No entanto, tais novos senhores do trabalho do outro estão justificados a priori.

Afinal, imensas empresas, como as grandes marcas esportivas ocidentais, não exploram também ao extremo o trabalho, até mesmo o infantil, no sudoeste asiático, ao mesmo tempo em que terceirizam as responsabilidades, como se nada tivessem a ver com essa ordem de iniqüidades, mesmo quando ganham tudo com ela?

Clareza e astúcia

Em uma certa passagem de nossa modernidade, José de Alencar se pôs a defender, com seu estilo transparente e elegante, a posição do Partido Conservador pela manutenção da escravidão no Brasil. A instituição estava abalada, pois fora abolida no império inglês (1833), nas colônias francesas (1848) e nos EUA (1863).

As pressões sobre o Brasil eram grandes, e d. Pedro 2º sinalizava, mesmo que de modo muito lento e gradual, para o horizonte de supressão do trabalho escravo. Então Alencar escreve essas peças execráveis, mas, paradoxalmente, admiráveis pela clareza e pela astúcia, sustentando a necessidade civilizatória da escravidão.

Fundado em um princípio de violência inconciliável da civilização com a natureza e com o outro humano -o bárbaro-, que seria civilizado pela força avançada que o poria como escravo, mas força que também o tornava um virtual sujeito para ele próprio, Alencar se utiliza de todos os argumentos imagináveis em seu tempo para justificar o modernamente injustificável, do risco de crise social à necessidade econômica fatalista e até mesmo um desenho de amálgama de raças pela miscigenação e pela cultura, que faria da escravidão a mãe da cultura nacional.

Hoje, o esforço letrado e frio do escritor é chocante e nos parece vazado de desfaçatez. Algo parece ter mudado no valor dos fatos e da história.

Mas o que podemos dizer dos neo-senhores, que mantêm condições de terror e ignomínia no mundo do trabalho? Se eles fossem obrigados a falar, como recentemente os neocons americanos o fizeram para justificar a ilegítima invasão no Iraque, seu sistema de razões e sofismas soaria semelhante ao do elegante e culto senhor de escravo e romancista brasileiro, como toda ordem de razão que emana da pura força.

De modo algum é acaso que este tenha sido o único trabalho publicado do autor no século 19 ausente das obras completas de 1959. Tal voz conservadora é de fato mais poderosa quando silenciosa, quando não mais necessita se justificar. Por isso o livro de Alencar é importante. Ele dá voz e configuração ao que silencia, pois não necessita justificativa, e pode apenas agir, tão sistematicamente no Brasil.

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TALES AB’SÁBER é psicanalista, membro do Instituto Sedes Sapientiae e autor de “O Sonhar Restaurado” (ed. 34)
Fonte: Folha de S. Paulo, 08 de outubro de 2008. Disponível em:
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq0810200809.htm
Imagem: Quadro “Loja de Rapé”, aquarela inacabada em que o pintor Jean-Baptiste Debret retrata escravos urbanos no Brasil do século 19