Os Corações Futuristas

por Fernando Soares Campos

Optar pela leitura de determinado livro é praticamente o mesmo que convidar alguém a quem apreciamos para junto a nós refletir, rir, chorar, indignar-se, divergir ou pactuar idéias. Com uma vantagem: o autor nunca pode recusar o convite. Em Os Corações Futuristas, romance de Urariano Mota, o autor se torna esse agradável parceiro. A obra oferece ao leitor a oportunidade de assistir ao espetáculo da alma. Paixões, sexualidade, culpas, frustrações e esperanças se entrelaçam num audacioso sonho de liberdade. Tudo isso conflitando com a opressora realidade experimentada por Carlos, João e Samuel, personagens que, navegando entre as suas convicções e incertezas, centralizam-se na história que tem como cenário o Recife de Capiba, o Pernambuco de Miguel Arraes e o Brasil de Paulo Freire, sob o regime de uma ditadura nada romântica.

José Carlos Malta Marques, meu amigo de infância e juventude (eu ainda na infância, ele já na juventude) costuma dizer que “amizade impõe parcialidade”. Certamente tal sentença faz sentido, mas nem por isso a gente deve privar-se de reconhecer publicamente os méritos dos amigos. Urariano Mota também é meu amigo, desde os idos de 1988, quando ele, Rui Sarinho e Tarciana Portela faziam o programa Violência Zero, numa emissora de rádio do Recife. Além do jornalismo radiofônico, Urariano trabalhava numa atividade “âncora”, aquela que dava o verdadeiro suporte à sua subsistência: era funcionário do Banco do Brasil. Vez ou outra eu passava lá na agência onde ele trabalhava, no bairro da Encruzilhada, e trocávamos um dedo de prosa. Num desses rápidos bate-papos, lembro-me que, observando meu amigo manuseando e contabilizando boletas bancárias, com habilidade digital no teclado de uma calculadora, falei: “Trabalhar com uma papelada dessas deve ser muito chato”. Ele nada respondeu, me serviu um cafezinho e falamos alguma coisa mais sobre o seu programa no rádio. Na verdade, quando afirmei aquilo, pretendi provocar a sua reação, de maneira que ele revelasse como lidava com a rotina do seu trabalho. Gostaria de saber como um espírito inquieto, acostumado a meditar sobre os departamentos da alma humana, alguém que estava sempre em busca de respostas sobre a natureza do comportamento humano, sentia-se em meio aos trâmites de um trabalho burocrático. Naquele momento, Urariano limitou-se a ouvir a minha observação sem explicitar qualquer opinião sobre o meu questionamento. Porém, hoje, quase duas décadas depois, Urariano Mota me respondeu através do seu romance Os Corações Futuristas, narrando as inquietações de um dos jovens personagens:

Carlos não percebia ainda, como uma lei geral, que no trabalho não se vende só o esforço físico. Ele não percebia que assim como existem na terra as categorias de metalúrgicos, industriais, comerciários, bancários, banqueiros, no inferno ou no céu também existem as categorias de almas de banqueiros, metalúrgicos, comerciários e industriais. Ele julgava, como uma lei geral, que no domínio de um ofício era possível manter a cabeça livre do espírito da gente do ofício. Seria como se nos dedos que batiam aquelas asneiras protocolares, no corpo que se assentava nove horas batendo aquilo, nos ouvidos que digeriam os sons da oficina e o malho da voz do chefe, seria como se em meio a tudo a alma e o gosto não sofressem impressão, pois estariam resguardados de fé e concreto, bem ocultos. Esta crença, diga-se de passagem, cairia melhor em João, que acreditava na lenda de Spinoza polindo lentes, enquanto pensava em latim Sobre o Melhoramento do Intelecto (pág. 89/90).

“O que é isso companheiro, nós fomos, ou somos, tudo isso?!”

Esta é a pergunta que bem poderia ser feita pelos protagonistas ao autor da trama de Os Corações Futuristas, mas também pode ser formulada por qualquer um de nós, ao nos revelarmos construtores da História. Na escola tradicional, a História Oficial parece ter o objetivo de nos transformar em militantes da passividade. É lá que, desde cedo, tentam nos impressionar com os feitos dos super-heróis nacionais.

O jovem Samuel, que se torna professor do curso ginasial, tenta dar uma aula sob o tema “A independência dos Estados Unidos”. Em meio às suas explanações e considerações, Samuel percebeu o desinteresse dos seus alunos pela aula. Descobriu que entre eles circulava uma revista pornográfica, aquilo que um dos alunos chamou de “Verdadeira guerra da América”, provocando as gargalhadas dos colegas. Urariano Mota conhece as limitações do ser humano e as progressivas conquistas da alma, o acúmulo das experiências pelos fatos vivenciados e pelas observações do comportamento geral da sociedade, por isso mesmo seu personagem Samuel, bem-intencionado aspirante ao magistério, apenas se indignou com o comportamento da turma, passou-lhe uma inócua descompostura, e queixou-se ao velho diretor. Este, como tantos outros nos dias de hoje, estava mais preocupado com o faturamento da escola-empresa do que nos resultados de uma escola como instrumento de formação de cidadãos.

Samuel ainda não tinha experiência suficiente para entender que, apesar de ter sido dita como provocação, aquela frase do aluno galhofeiro expressava uma verdade que poderia, naquelas circunstâncias, ser denominada “ironia do sarcasmo”. Se a revistinha pornográfica não é propriamente a “verdadeira guerra da América”, entretanto pode ser considerada uma poderosa arma nessa guerra suja da alienação juvenil. Hoje as revistas pornográficas ocupam mais espaço nas bancas do que os cantinhos destinados aos jornais e à meia dúzia de publicações instrutivas. Milhões de jovens poderiam estar freqüentando bibliotecas e livrarias, adquirindo obras como Os Corações Futuristas e tantas outras que ainda não encontraram o caminho das grandes editoras. Enquanto isso, a maior parte dos nossos adolescentes (e nem tão) está condicionada (condenada) à reclusão nos banheiros, hipnotizados pela pornografia colorida, a prostituição gráfica, despojada da arte do mestre Carlos Zéfiro, em solitários delírios, bem acima dos limites saudáveis.

E João? Até parece que João leu Os Corações Futuristas e, assustado, se reconheceu como personagem do livro. Ou, pelo menos, João teria dito: “Um dia alguém vai escrever a nossa história, vai contar a sacanagem que fizeram com a gente”. Refeito do susto, hoje, João, parafraseando Sartre, diria: “O que importa agora é o que vamos fazer com a sacanagem que plantaram em nós”.

Bernard Shaw afirmou que “Todo livro que vale a pena ser lido foi escrito pelo Espírito”, atribuindo a autoria de todas as obras da Literatura Universal a única fonte. O problema é que, assim como existe bancário com espírito de banqueiro, escravo com espírito de senhor, podem existir banqueiros travestidos de escritores, ou espíritos escritores que ainda não distinguem ética de estética, deixando-se influenciar pela ditadura do mercado. Em Os Corações Futuristas, Urariano Mota demonstra a possibilidade de uma literatura universal em cada aldeia, como preconizava Leon Tolstoi. Nele, a Estética é apenas um elemento da Ética, mas sem abrir mão da criatividade.

Ler Os Corações Futuristas foi como se eu estivesse fazendo uma lição que saltei, na escola da vida, quando tinha a idade dos jovens personagens. Com o leitor de excelentes produções ocorrem coisas assim: morre um jovem velho para, logo em seguida, renascer um velho rejuvenescido.

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Fonte: http://www.novae.inf.br/site/modules.php?name=Conteudo&pid=657

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