Cultura e Ideologia em “Os sertões”

por Ferreira Gullar

Um dos equívocos que mais facilmente se cometem, ao apreciar o problema da cultura do ponto de vista da relação das classes sociais, é identificar ideologia e cultura. É conhecido o conceito segundo o qual a ideologia dominante numa sociedade de classes é a ideologia da classe dominante. Ora, esse conceito, ao afirmar a existência de uma ideologia “dominante”, pressupõe a existência de outra ou outras ideologias que são dominadas. O fato mesmo de que, numa sociedade. haja mais de uma ideologia supõe, por sua vez, a não-identificação de ideologia e cultura. Se é correto dizer que, de uma forma ou de outra, toda manifestação cultural implica uma ideologia, é incorreto afirmar que as manifestações culturais não são mais que ideologia, pois, desse modo, se desconheceria a autonomia relativa das diferentes formas de consciência. Incorreríamos, assim, no equívoco de considerar, por exemplo, que a teoria econômica clássica jamais conteve qualquer verdade, que a música de Bach não possui qualidades musicais, que os romances de Balzac são destituídos de qualidade literária ou que T. S. Eliot é um mau poeta. Semelhantes conclusões são obviamente inaceitáveis. E como se poderia explicar, se não se distingue conhecimento (cultura) de ideologia, que Marx tenha adotado a dialética hegeliana após eliminar dela a visão idealista?

Pois bem, se aceitamos que cultura e ideologia não são a mesma coisa, devemos aceitar também que as formas culturais criadas sob a influência da ideologia burguesa não limitam sua significação a essa classificação ideológica. Cumpre distinguir, portanto, no âmbito de qualquer cultura, o que é pura e simplesmente literatura política – onde o peso da ideologia é às vezes total – das inúmeras manifestações culturais, que vão desde a arte à ciência, cuja autonomia, com respeito ao fator ideológico, é maior.

Considerações como estas, ainda que expostas rapidamente, nos previnem contra a fácil conclusão a que muita gente tem chegado de que o conceito de “cultura brasileira” não pode ter outro significado senão o de “cultura da classe dominante”. A coisa se tornaria possivelmente mais clara se deixássemos o campo das considerações teóricas para abordar um exemplo real, como o caso de Os sertões, de Euclides da Cunha, que me parece muito instrutivo para o entendimento do fenômeno cultural brasileiro.

O caso de Os sertões é tanto mais significativo para a análise da questão cultural porque – à parte a obra de Euclides – a própria revolta de Canudos mostra como a ideologia da classe dominante, incutida na massa, pode se voltar contra essa própria classe e contra essa mesma ideologia. O fanatismo religioso de Antônio Conselheiro, alimentado na pregação dos padres e exacerbado pelas condições de miséria do camponês, conduziu ao choque com a Igreja sertaneja, com o latifúndio e com a República. Confusamente no plano ideológico, mas claramente na prática da luta, a revolta de Canudos denuncia o caráter retrógrado da República com respeito ao camponês: a República é a continuação do domínio dos “coronéis” latifundiários. E a luta conduziu a revelar quão profunda é essa ligação entre o poder republicano e o latifúndio, uma vez que o próprio exército brasileiro foi levado a assumir a responsabilidade de esmagar a cidadela miserável constituída de casebres de barro. E seus incultos defensores, superando a mistificação ideológica da classe dominante – que procura sempre apresentar o seu poder como o poder do povo –, gritavam para a tropa adversária: “Avança, fraqueza do governo!”.

Euclides da Cunha escreve Os sertões armado de uma ideologia reacionária, essencialmente colonialista. Ele acredita que a luta das raças é “a força motriz da História” e que “a mestiçagem é um retrocesso”. É possível, no entanto, que, sem essa ideologia, ele jamais tivesse se disposto a escrever, sobre a luta de que foi testemunho, uma obra de fôlego. A verdade é que uma ideologia que considera a cultura produto do meio físico (para explicar a inferioridade cultural dos colonizados) sugere ao mesmo tempo que condições geográficas específicas podem criar uma cultura específica. Desse ponto de vista, o que se passou em Canudos deixou de ser um fato irrelevante para se tornar um fenômeno peculiar tanto social como cultural – digno de estudo: uma oportunidade para Euclides da Cunha aplicar a teoria que aprendeu com os europeus. Quer dizer, a teoria da alienação conduz o escritor a se voltar para o seu próprio meio, o que revela a ambivalência da ideologia, conforme seja manejada pelo colonizador ou pelo colonizado. Se Euclides não tivesse chegado a escrever Os sertões mas o deixado em projeto, não faltaria quem hoje afirmasse que, com “aquela ideologia”, a obra seria fatalmente contra Canudos e a favor da classe dominante. Mas o livro foi escrito e, apesar da ideologia do autor, o resultado é uma exaltação do valor dos sertanejos, uma identificação profunda com sua sede de justiça e um libelo contra o regime que os esmagou impiedosamente. Não é justo afirmar que Os sertões é um produto da cultura européia, nem que ele expressa os interesse políticos e ideológicos do sistema de poder existente no país àquela época.

Há ainda dois outros aspectos que eu gostaria de destacar no exemplo citado. O primeiro se refere ainda ao fato sociológico: ao descrever a formação do movimento liderado pro Conselheiro, Euclides nos mostra como ele se insere num processo social e cultural complexo que se desenrolava no nível do povo ignorante, do camponês sem terra que, sem nenhuma esperança de solução para os seus problemas, adere à pregação messiânica do mestiço. O movimento vai se ampliando até ganhar caráter massivo, abrangendo vastas regiões do sertão nordestino: pessoas do Ceará, do Piauí, abandonam o pouco que possuem, vendem o porco e o cabrito, para irem juntar-se ao Conselheiro após caminharem a pé centenas e centenas de quilômetros. Se o movimento tivesse se dissolvido sem luta, talvez nunca chegássemos a tomar conhecimento desses fatos, hoje incorporados, pela literatura, à história brasileira. Isso não significaria, porém, que nada acontecera, que o fato social não se dera: simplesmente não teria sido registrado como, aliás, na maioria dos casos, não é levada em conta a história que se desenrola longe dos grandes centros urbanos. E assim se vai escrevendo uma História do Brasil que não é toda a história do povo brasileiro. Exatamente aí, nessa seleção discriminadora, revela-se um dos aspectos mais contundentes da ideologia dominante.

O outro ponto a ressaltar, ligado ao primeiro, refere-se ao modo como um “fato cultural” se forma e se produz. Refiro-me ainda a Os sertões. De que modo descrever a história desse livro, o processo de seu nascimento? Apenas a contar do momento em que o autor se sentou para redigi-lo? Como obra literária, talvez sim, mas como fato cultural o livro “começa” com o movimento social de Antônio Conselheiro, ou mais atrás: com a formação do ambiente social e cultural onde se gerou o fanatismo religioso e a revolta. Quer dizer: a obra literária Os sertões é expressão, no nível da literatura, de um processo social e cultural específico. Não se trata de um fenômeno “puro”: nem a ideologia do Conselheiro é original nem a revolta de Canudos fornece todos os elementos para a realização da obra, pois a história cultural de Euclides também vem se juntar a eles. Não obstante, uma quantidade indeterminada de fatores que só a vida pode reunir determinaram os traços específicos de Canudos e, noutro nível, do livro Os sertões. Creio que é a partir deste ponto de vista que se pode falar de uma “cultura brasileira”. Ela existe porque existe uma história que se desenrola dentro dos limites geográficos do país, sob condições econômicas, políticas, administrativas e “culturais” específicas. Ela tanto é produzida pelo povo analfabeto como pelas camadas alfabetizadas e pelas elites intelectuais, é um produto ideologicamente confuso e contraditório, marcado na maioria dos casos pela alienação cultural e política em que vivem as grandes massas populares, e não só elas. Portanto, se “cultura brasileira” não é sinônimo de “cultura da classe dominante”, tampouco é sinônimo de cultura revolucionária ou “cultura nacional-popular”.

__________
* Fragmento de “Considerações em torno do conceito de cultura brasileira”. In GULLAR, Ferreira. Indagações de hoje. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 1989, p. 48-52 (subtítulo do editor).
Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: