Literatura para todas as idades – por Urariano Mota

A semana passada, em comentário sobre a revista Nova Escola, prometi que escreveria alguma coisa sobre a minha experiência com a literatura para estudantes. Não cumpro bem agora a promessa. Mas passo a anotar duas ou três coisas.

Em minhas – na falta de melhor nome – aulas, a primeira coisa que aprendi foi que não se deve falar de literatura como um produto que sai dos livros. Deixe-se isso, por favor, para os professores de cursinhos, que pensam ensinar enquanto põem o pobre estudante a decorar nomes, datas, movimentos e obras principais. Isso não é literatura, não serve à literatura, nem serve ao conhecimento. Serve a um sistema estéril e formador de burros. Não se deve jamais falar de literatura com esse nome cheio de pompa e reverência, A Literatura. Fale-se da vida, dos problemas vividos por todos nós, velhos, jovens, crianças, homens, mulheres, animais e gente. Se não for assim, será mais pedagógico contar anedotas de Bocage e de Camões, em lugar dos livros desses excelentes poetas.

Só se deve falar sobre aquilo que apaixona a gente. Por favor, se você não descobriu a lírica de Camões, se não maturou no peito Manuel Bandeira, se não vê a beleza de Ascenso Ferreira, se não é capaz de sorrir e amar Machado de Assis, se não se emociona até as lágrimas com Lima Barreto, por favor, mantenha distância desses criadores. O silêncio sobre eles fará um dano menor que a citação burocrática. Melhor cantar Roberto Carlos, equilibrar mesas na ponta do nariz, imitar cornetas com o pente sobre a boca, fazer graça com arrotos altos e cavalares. Será mais pedagógico.

Um autor deve ser apresentado a partir de um problema, vivido por todos nós. Ora, se querem saber, nada como o conto Missa do Galo, de Machado, para todos os adolescentes. Eles entenderão até a última linha, vírgula e pontinho das reticências. Eles vão respirar todos os movimentos implícitos e insinuados da conversa da mulher solitária com um jovem. Eles são esse jovem. Eles sonham com essa noite ideal em que os espere uma senhora sozinha. Elas compreendem esse jovem e essa mulher. O conto tem todos os elementos de promessa de sexo e conflito com o pecado, antes de uma missa devota.

Os contos, quando lidos, devem ser muito bem lidos. Quero dizer, com pausas, entonações, vozes, risos, pulos – o que o diabo achar necessário – como um ator de rádio. Isso quer dizer que o professor comanda a narração, faz uma leitura prévia, e pede para que ela continue em volta. Digo que começa com o professor, porque nas escolas se perdeu o necessário e fundamental hábito de leitura em voz alta, todos os dias. Então é comum que um jovem estudante não saiba o valor de um ponto, de uma exclamação, de uma vírgula, de uma pausa – o valor ponderado de uma palavra em determinado contexto. Como poderão entender a maravilha de Manuel Bandeira, na infância com o coração a bater, se não souberem que a moça nua lhe fez o primeiro… ALUMBRAMENTO?

Mas entendam, a dramatização dos textos nada tem de dramático. Quero dizer, nada é artifício, artificioso, operístico, melodramático, falso. Ou se fala do que se conhece e do que se vive ou não se fala. Ponto. Deve-se falar do amor, sempre. E nisso não vai nenhum romantismo. Deve-se falar do amor, sempre, porque toda obra é a sua busca ou a sua negação, a sua falta ou plenitude. Mesmo quando se fale da guerra, da violência mais brutal, não se pode esquecer que os meninos no tráfico, por exemplo, amolecem como flores diante de suas mães. Que o bandido mais cruel é capaz de virar o mais perfeito idiota ante a mulher – ou o homem – por quem tenha amor.

Apesar de até aqui ter falado de minha própria experiência, devo terminar com duas coisas mais pessoais. Primeira: não consigo até hoje falar de Andersen com profissionalismo, isenção e distância, quando me refiro ao conto A pequena vendedora de fósforos. Aquela trajetória da pequena menina que sai a vender fósforos em uma véspera de Ano Bom, nas ruas geladas de uma cidade, que vislumbra pelo vidro embaciado das janelas a ceia posta nas casas burguesas, e com profunda fome fica encantada… sei não. E me fere mais, e aí não vou adiante, quando Andersen realiza aquela imagem extraordinária: enregelada, morta, a pequena vendedora sobe “em um halo de luz e de alegria, mais alto, e mais alto, e mais longe… longe da Terra, para um lugar, lá em cima, onde não há mais frio, nem fome, nem sede, nem dor, nem medo”. Este é um conto que por várias vezes tentei ler em voz alta, em aulas de português para adolescentes pobres, e por mais de uma vez não consegui.

Segunda. Certa vez, li para alunos com idades em torno de 11 anos o meu conto Daniel. Claro, expurguei os termos mais fortes, chulos, grosseiros. Quando eu li

“Da turma, Daniel era o mais gordo. Ainda que sob protestos, ele crescera pelos lados, elastecendo um círculo de carnes. Em seu rosto largo destacavam-se sobrancelhas peludas, que se uniam simetricamente num ponto de inflexão, ficando a sobrancelha esquerda e a sobrancelha direita ligadas como asas dum pássaro, movendo-se no espaço da fronte”,

na sala não se ouvia uma só riso, apenas respirações ofegantes. Então eu ia para o quadro e desenhava as sobrancelhas, à Monteiro Lobato, para eles verem. Depois, já ao fim, quando acrescentei que Daniel raspara aqui e ali o seu estigma, e que “a cirurgia deu nascimento a dois pontos de interrogação deitados, quase a dois acentos circunflexos incompletos, sem acomodação”, voltei ao quadro e desenhei os dois pequenos ganchos que ficaram no lugar das sobrancelhas.

O melhor digo agora no fim. Vocês não vão acreditar no lirismo de que é capaz a infância. Os meninos rebatizaram o conto. Em lugar de Daniel, eles me pediam para ouvir de novo O menino-passarinho.

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3 Respostas to “Literatura para todas as idades – por Urariano Mota”

  1. Abel Sidney Says:

    Urariano,Sem me desejar um “feliz domingo” ou sequer pensar ou imaginar que o seu texto pudesse a isto induzir, eis o que aconteceu: inaugurei, às quatro e pouco da manhã este meu feliz domingo, após a leitura inaugural nesta hora do dia.O Ozaí tem o dedo nisso, claro!, pois vive a nos instigar nos seus blogs, fazendo-nos trafegar pela ponte que criou entre dois pontos distantes, hoje mais próximos: razão e emoção; sabedoria e coração.E assim você nos aparece com estas tão viscerais reflexões em torno da literatura e sua prática, com as letras a tornar-se um convite permanente para o mergulho na vida; ou ainda com este lembrete: “tome-se um fragmento qualquer da nossa vida-vivida e com ele adentre a literatura, para que ela nos enriqueça, graças aos autores e obras, nossas próprias vidas!”…Este seu libelo-memorial-convite-lembrete-convocação-ou-boa.provocação é um bálsamo para todos o sentidos, o ser inteiro.Grato sou, pois, por me ajudar a me trazer de volta ao dia, em um feliz domingo do qual tanto necessito…AbraçosAbel Sidney

  2. Abel Sidney Says:

    Para não passar por mentiroso devo esclarecer acerca das quatro e tanto da madrugada: aqui em Rondônia por conta do horário de verão (de parte do país) e o nosso fuso horário com uma hora a menos, estamos com 2 horas de diferença pelo horário de Brasília.Abel Sidney

  3. Urariano Mota Says:

    Salve, Abel. Muito obrigado por seu caloroso comentário. Estive fora por 8 dias, em visita a um filho em Belém do Pará. Ozaí é não só mestre de letras, ele é ponte entre pessoas e mundos. Bom domingo pra vocês. Abração.

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