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A solidão na história

21/02/2009

por José Maria Cançado*

Psicanálise e política se cruzam no romance “Chegada e Partida”, do húngaro Arthur Koestler **

A trajetória, a obra e a vida de Arthur Koestler (1905-1983) ficaram marcadas sem remédio: ele fazia parte do grupo de intelectuais do Ocidente que, no século passado, após terem sido militantes do movimento comunista internacional e terem rompido com ele, se viram condenados à particular solidão dos ex-comunistas. No caso de Koestler, depois dos chamados “processos de Moscou”, que ele tratou no seu romance mais famoso, “O Zero e o Infinito” (ed. Globo), publicado em 1941, a propósito do julgamento, sob Stálin, de um militante da velha-guarda bolchevique, Rubachov, calcado na figura de Bukharin. A novela se tornou quase um artefato ideológico do chamado “mundo livre”.

Em 1944 viriam os ensaios de “O Iogue e o Comissário”, uma exortação antitotalitária à “intelligentsia” ocidental, em que o brilho de algumas fórmulas – a bandeira da liberdade, escreveu, “é a única possível, pois no seu tecido a saliva da irrisão se coagula com o sangue dos nossos mortos” – foi ruidosamente instrumentalizado pelo bloco ideológico anti-soviético.O próprio Koestler sugeriu o tamanho e a natureza da solidão dessa identidade adquirida dos ex-comunistas. Disse, dirigindo-se aos liberais ingleses: “Vocês desprezam nossos gritos de Cassandra e se melindram com o fato de ter-nos como aliados, mas nós, ex-comunistas, somos os únicos que sabemos afinal do que se trata”. O historiador marxista Isaac Deutscher, identificando nos ex-comunistas o drama de uma dupla “traição”, ao movimento comunista e ao mundo burguês, receava que, por isso mesmo, talvez fossem os que menos entendessem do que se tratou afinal tudo isso.

Não é fácil decidir. Se Camus, que também marcou particular distância com relação ao socialismo real, dizia mediterraneamente que “preferia errar com o Sol a acertar com a História”, o húngaro Arthur Koestler parece ter preferido errar com algumas outras coisas a alinhar-se com as certezas do comissário do partido. Entre elas, com Freud, em quem ele via um “gigante da profanação”. “Chegada e Partida” (escrito entre 1942 e 1943) é também um ato de profanação. Seu personagem principal, Peter Slavek, membro do movimento comunista internacional, depois de escapar de uma prisão nazista é atacado por uma paralisia numa das pernas, enquanto espera num país neutro o visto para a Inglaterra.

Nessa espécie de não-lugar em que se encontra antes de voltar ao combate político clandestino – e depois de uma mais desenraizadora ainda paixão amorosa -, acaba por se ver lançado, meio sem querer, numa enfiada de sessões de análise com uma compatriota igualmente desterrada, Sônia Bolgar, uma libertária terapeuta das almas deste mundo, também da Europa do Leste, uma bela de uma herdeira de Sándor Ferenczi e Wilhelm Reich. A profanação regressiva a que se submete Slavek durante a análise desvela para ele o que sempre esteve lá, no também não-lugar do inconsciente: o desejo infantil de eliminar o irmão, conformando nele a figura encoberta de uma culpa que parece ser o motor de toda a sua vida. Principalmente da ardente adesão à paixão e ao risco da atividade clandestina revolucionária. Não há porém nenhuma forma consumadora de reducionismo psicanalítico a rebaixar a trajetória e a paixão da liberdade de Peter Slavek.

Um Sísifo alegre

O que ele vem a perceber (e nós também, apesar da má qualidade quase inacreditável da tradução), diante da sacudida e simpaticamente plena Sonia Bolgar, é que lá, onde isso era – a figura agora revisitada do desejo de fazer desaparecer o irmão -, ele deve advir, como na fórmula de Freud, para o que der e vier.

Tanto é assim que o que resulta não é uma forma de intimismo à sombra do inconsciente, mas uma volta “à la” Sísifo (um Sísifo alegre, como o do próprio Camus) para o combate contra o nazismo. Arthur Koestler caminhou a partir de 1950 para um tipo de ensaísmo como obra aberta da ciência e do pensamento humano.

Talvez não dissesse mais, como insistiu em fazer de dentro da sua persona trágica de ex-comunista, que sabia do que se tratava tudo isso afinal.

Nos ensaios reunidos em “O Homem e o Universo”, publicado em 1959, Arthur Koestler parece ter encontrado uma prismatização incessante da realidade e do entrelaçamento infinito da lei objetiva e subjetiva que nos constitui. Não foi pela política que ele encontrou isso. Mas não deixa de ser hoje um bom programa de viver e de política.

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* José Maria Cançado é jornalista, autor de “Os Sapatos de Orfeu” (Scritta), biografia de Carlos Drummond de Andrade.
Fonte: Folha de S. Paulo, Caderno Mais, 1º de abril de 2001, disponível em http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs0104200113.htm
** Chegada e Partida, de Arthur Koestler. Trad. de Juliana Borges. São Paulo: Ed. Germinal, 272p.
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Leitores incomuns

14/02/2009

por Milton Hatoom**

O observador sabe que lá no alto, sentado num galho, alguém olha para um livro

Há tanta diferença entre a “atitude” de quem lê e a de quem escreve? Um dos problemas cruciais do leitor e do escritor é a falta de tempo, decorrente da pressão do dia-a-dia.

Os escritores que vivem de sua pena não podem escolher uma hora do dia ou da noite para trabalhar. Mesmo os que tiveram ou têm a sorte de não depender do trabalho da escrita, revelam-se compulsivos, ávidos para narrar. O que deve ser escrito é inadiável. Deixar para escrever mais tarde, amanhã ou outro dia qualquer só atrapalha o andamento da narrativa. Adiar um trabalho pode ser um alívio para um burocrata, não para um escritor. Ainda assim, há momentos de pausa e reflexão, de pesquisa e anotações, e, às vezes, de interrupções forçadas, um verdadeiro castigo para quem escreve. E há também pausas para leitura: a urgência de escrever não é menor nem menos intensa do que a urgência de ler.

“Escrevo porque leio”, afirmam alguns escritores. Mas um leitor poderia dizer: não escrevo nada, mas é como se a leitura fosse um modo de escrever, de imaginar situações, diálogos e cenas que a memória registra no ato da leitura.

O pior leitor é o passivo, resignado, que aceita tudo e lê o livro como uma receita ou bula para o bem viver. Este é o não-leitor. Porque o texto de auto-ajuda é um compêndio de trivialidades, palavras que não questionam, não intrigam nem fazem refletir sobre o mundo e sobre nós mesmos.

II

Um bom leitor reescreve o livro com a imaginação de um escritor. Alguns vão mais longe. Com os olhos no texto e um lápis na mão, eles fazem anotações nas margens das páginas, sublinham frases, cravam aqui e ali pontos de interrogação. Há os que elaboram fichas com resumos ou esquemas do enredo, árvores genealógicas, comentários sobre o tempo da narrativa, posição do narrador, personagens, idéias, metáforas, ambiente político, social etc. Esse leitor incansável seria o leitor ideal, mencionado por Umberto Eco no ensaio Seis passeios pelo bosque da ficção.

No Tempo redescoberto – último volume do Em busca do tempo perdido –, o narrador de Proust faz uma reflexão sobre esse tema. Um livro, diz o narrador proustiano, pode ser sábio demais, obscuro demais para um leitor ingênuo. A imagem que Proust evoca é a de uma lente embaçada entre o olhar e as palavras: um anteparo à leitura. Mas o inverso também acontece quando o leitor astucioso revela capacidade e talento para ler bem. De acordo com o autor francês, “cada leitor é, quando está lendo, o leitor de si próprio”. Ou seja, uma obra literária permite ao leitor discernir tudo aquilo que, sem a leitura dessa obra, ele não teria visto ou percebido em sua própria vida.

No quarto capítulo de seu belo ensaio O último leitor, o argentino Ricardo Piglia lembra a figura de um leitor incomum: o revolucionário e guerrilheiro Ernesto Guevara. O comandante Che sonhava ser escritor, mas o compromisso político-social o conduziu a outras veredas. No entanto, ele escreveu diários de viagem, textos sobre técnicas e estratégias de guerrilha, relatos inspirados diretamente em sua experiência revolucionária em Cuba, na África e na América do Sul. O que não falta em suas incansáveis viagens – inclusive a última, pouco antes de morrer – é o livro, a leitura.

III

“A marcha, escreve Piglia, supõe leveza, agilidade, rapidez. É preciso desprender-se por completo, estar leve e andar. Mas Guevara mantém um certo peso. Na Bolívia, já sem forças, carregava livros. Ao ser detido em Ñancahuazu, quando é capturado depois da odisséia que conhecemos, uma odisséia que supõe a necessidade de movimento incessante e de fuga ao cerco, a única coisa que ele conserva (porque perdeu tudo, não tem nem sapatos) é uma pasta de couro, que leva amarrada ao cinturão, sobre a ilharga direita, onde guarda seu diário de campanha e seus livros. Todos se desfazem daquilo que dificulta a marcha e a fuga, mas Guevara continua mantendo seus livros, que pesam e são o oposto da leveza exigida pela marcha.” (pág. 103)

A capa do livro (da autoria de Angelo Venosa) foi inspirada numa fotografia de Ernesto Guevara lendo no alto de uma árvore. É uma imagem notável do guerrilheiro – homem de ação – que faz uma pausa para ler. Armas e letras, dois temas medievais explorados no Dom Quixote, parecem reviver nessa imagem em que o leitor, significativa e simbolicamente, situa-se no alto. Longe de ser uma posição de quem se sente elevado, a altura, aqui, é uma posição precária, que denota perigo e instabilidade. O inimigo pode estar por perto, pode surgir a qualquer hora e matar o guerrilheiro-leitor. Na fotografia é impossível reconhecer com nitidez a figura de Guevara, mas o observador sabe que lá no alto, sentado num galho, alguém olha para um livro. O fundo da fotografia é alaranjado, de uma tonalidade que evoca o fogo crepuscular: começo ou fim do dia. Ou luz que se esvai, anunciando a noite, o enigma do que vem por aí. Não sabemos se este livro é o último que Guevara leu. O último leitor é a metáfora de uma atitude diante da leitura: alguém que não pode viver sem livros.

IV

Narrar para não morrer é a mensagem de Sherazade ao rei Shariar (e ao leitor) em cada conto do Livro das mil e uma noites. Ernesto Guevara lê para viver. Ou suportar a vida: fado de um homem que vivia perigosamente à beira da morte. Mas ler é também o destino de tantos outros seres que não se lançam à aventura utópica de transformar o mundo por meio da ação revolucionária. Esse leitor apaixonado forma o duplo do escritor. E ambos justificam a literatura.

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* Fonte: EntreLivros 28, agosto de 2007. Disponível em http://www2.uol.com.br/entrelivros/artigos/leitores_incomuns.html
** Milton Hatoum é escritor, autor de Relato de um certo Oriente, Dois irmãos e Cinzas do Norte, com o qual conquistou os prêmios Jabuti, como o livro do ano na categoria ficção, e Portugal Telecom, em primeiro lugar.

Ler deveria ser proibido!

07/02/2009

por Cássio Augusto

Texto que circula pela Internet e possui um interessante
montagem no YouTube
. A primeira vez que o li foi em um periódico aqui da região, editado por um companheiro de luta. Vale a pena a leitura. A ironia da autora nos coloca diante de uma reflexão interessante. Ler deveria ser proibido!

“A pensar fundo na questão, eu diria que ler devia ser proibido.

Afinal de contas, ler faz muito mal às pessoas: acorda os homens para realidades impossíveis, tornando-os incapazes de suportar o mundo insosso e ordinário em que vivem. A leitura induz à loucura, desloca o homem do humilde lugar que lhe fora destinado no corpo social. Não me deixam mentir os exemplos de Don Quixote e Madame Bovary. O primeiro, coitado, de tanto ler aventuras de cavalheiros que jamais existiram meteu-se pelo mundo afora, a crer-se capaz de reformar o mundo, quilha de ossos que mal sustinha a si e ao pobre Rocinante. Quanto à pobre Emma Bovary, tomou-se esposa inútil para fofocas e bordados, perdendo-se em delírios sobre bailes e amores cortesãos.

Ler realmente não faz bem. A criança que lê pode se tornar um adulto perigoso, inconformado com os problemas do mundo, induzido a crer que tudo pode ser de outra forma. Afinal de contas, a leitura desenvolve um poder incontrolável. Liberta o homem excessivamente. Sem a leitura, ele morreria feliz, ignorante dos grilhões que o encerram. Sem a leitura, ainda, estaria mais afeito à realidade quotidiana, se dedicaria ao trabalho com afinco, sem procurar enriquecê-la com cabriolas da imaginação.
Sem ler, o homem jamais saberia a extensão do prazer. Não experimentaria nunca o sumo Bem de Aristóteles: o conhecer. Mas para que conhecer se, na maior parte dos casos, o que necessita é apenas executar ordens? Se o que deve, enfim, é fazer o que dele esperam e nada mais?

Ler pode provocar o inesperado. Pode fazer com que o homem crie atalhos para caminhos que devem, necessariamente, ser longos. Ler pode gerar a invenção. Pode estimular a imaginação de forma a levar o ser humano além do que lhe é devido.

Além disso, os livros estimulam o sonho, a imaginação, a fantasia. Nos transportam a paraísos misteriosos, nos fazem enxergar unicórnios azuis e palácios de cristal. Nos fazem acreditar que a vida é mais do que um punhado de pó em movimento. Que há algo a descobrir. Há horizontes para além das montanhas, há estrelas por trás das nuvens. Estrelas jamais percebida. É preciso desconfiar desse pendor para o absurdo que nos impede de aceitar nossas realidades cruas.

Não, não dêem mais livros às escolas. Pais, não leiam para os seus filhos, pode levá-los a desenvolver esse gosto pela aventura e pela descoberta que fez do homem um animal diferente. Antes estivesse ainda a passear de quatro patas, sem noção de progresso e civilização, mas tampouco sem conhecer guerras, destruição, violência. Professores, não contem histórias, pode estimular uma curiosidade indesejável em seres que a vida destinou para a repetição e para o trabalho duro.

Ler pode ser um problema, pode gerar seres humanos conscientes demais dos seus direitos políticos em um mundo administrado, onde ser livre não passa de uma ficção sem nenhuma verossimilhança. Seria impossível controlar e organizar a sociedade se todos os seres humanos soubessem o que desejam. Se todos se pusessem a articular bem suas demandas, a fincar sua posição no mundo, a fazer dos discursos os instrumentos de conquista de sua liberdade.

O mundo já vai por um bom caminho. Cada vez mais as pessoas lêem por razões utilitárias: para compreender formulários, contratos, bulas de remédio, projetos, manuais etc. Observem as filas, um dos pequenos cancros da civilização contemporânea. Bastaria um livro para que todos se vissem magicamente transportados para outras dimensões, menos incômodas. E esse o tapete mágico, o pó de pirlimpimpim, a máquina do tempo. Para o homem que lê, não há fronteiras, não há cortes, prisões tampouco. O que é mais subversivo do que a leitura?

É preciso compreender que ler para se enriquecer culturalmente ou para se divertir deve ser um privilégio concedido apenas a alguns, jamais àqueles que desenvolvem trabalhos práticos ou manuais. Seja em filas, em metrôs, ou no silêncio da alcova… Ler deve ser coisa rara, não para qualquer um.

Afinal de contas, a leitura é um poder, e o poder é para poucos.

Para obedecer não é preciso enxergar, o silêncio é a linguagem da submissão. Para executar ordens, a palavra é inútil.

Além disso, a leitura promove a comunicação de dores, alegrias, tantos outros sentimentos… A leitura é obscena. Expõe o íntimo, torna coletivo o individual e público, o secreto, o próprio. A leitura ameaça os indivíduos, porque os faz identificar sua história a outras histórias. Torna-os capazes de compreender e aceitar o mundo do Outro. Sim, a leitura devia ser proibida.

Ler pode tornar o homem perigosamente humano.

por Guiomar de Grammon.”

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* Publicado em: http://cassionl.blogspot.com/. Mais informações sobre o tema acesse: http://www.lerdeviaserproibido.com.br
** Graduado em Direito (Universidade Paranaense – Paranavaí, UNIPAR); Graduando em História (Faculdade Estadual de Educação, Ciência e Letras de Paranavaí, FAFIPA)