Lembranças da China rural

por Mike Meyer, do Book Review*

Pearl Buck, escritora sino-americana Nobel de literatura em 1938, começa a ser redescoberta. No Brasil, acaba de sair nova edição de sua obra mais famosa, A boa terra.

É a casa mais alta de Zhenjiang, fincada atrás do bambuzal. Os antigos ocupantes jazem em dois continentes: os pais, perto dali; sua famosa filha, sob o solo da fazenda na Pensilvânia, em uma sepultura gravada com seu nome chinês. Ela chegou à China como filha de missionários. Agora, as lápides, semelhantes a livros de pedra, ladeiam seu lar da infância, de tijolo cinza. Pode-se ler no epitáfio: “aqui viveu Pearl S. Buck, autora americana, nascida em 1892, morta em 1973”. A mais veemente escultura em chinês cita um prêmio Nobel e o elogio de um presidente: “Nixon a chamou de uma ponte entre as civilizações do Oriente e do Ocidente”.

A casa é agora um museu dedicado a Buck, filha fecunda de Zhenjiang, uma cidade de mais de dois milhões de habitantes que subiram o rio provenientes de Xangai, e que cheira como seu famoso vinagre.

Empreendimento conjunto entre a prefeitura da cidade e a fundação Pearl S. Buck, com base nos Estados Unidos, o museu é repleto da memorabilia da escritora. As lembranças trazem o veredicto de um ex- primeiro-ministro, Chu En-lai: “Ela é uma amiga do povo chinês”. No entanto, uma coisa está ausente, de forma notável, do balcão de souvernirs: os livros de Buck.

Mais de 30 anos após a morte da escritora e 75 desde a publicação de A boa terra, a saga de uma família de fazendeiros na China pré-comunista, Buck permanece encerrada entre dois mundos. Na China, ela é admirada, mas não lida; na América, ela é lida, mas não admirada.

Ferozmente prolífica, Buck escreveu dúzias de romances, bem como oito coletâneas de contos; 16 livros infantis; 25 títulos de não-ficção, incluindo uma tradução de um marco do romance chinês; e biografias de seu pai, pastor presbiteriano (Anjo lutador) e de sua paciente e sofredora mãe (O exílio).

Hoje, a maior livraria de Pequim vende apenas uma edição inglesa de A boa terra. Lá atrás, nos distantes anos 30, oito diferentes traduções do livro, que Buck dizia terem sido “felizmente pirateados inúmeras vezes”, disputavam a atenção com outros romances. Mas após a revolução comunista em 1949, os contos de Buck, com seus valores pequeno-burgueses e descrições feudalistas, eram vistos como anacronismo de uma era derrubada por Mao. Por volta de 1960, ela foi denunciada na China como defensora do imperialismo cultural americano.

Buck deixara o país muito antes. Retornou aos Estados Unidos em 1935; embora fosse uma crítica sincera do comunismo, esperava retornar à China, até mesmo recusando todos os convites para ir a Taiwan, com o intuito de não ter reduzidas suas chances. Em 1972, nove meses antes de morrer, um funcionário rejeitou seu pedido de visto para a China.

Contudo, nos últimos anos, Buck tem crescido na estima de uma nova geração de intelectuais chineses. “Ela foi uma revolucionária”, disse Liu Haiping, o seu tradutor chinês e professor de inglês da Universidade de Naijing. “Ela foi o primeiro escritor a eleger a China rural como assunto para seu trabalho. Nenhum dos escritores chineses o teria feito; os intelectuais urbanos”, ele disse. “Muitos de nós sentimos que deveríamos fazer de Buck parte da literatura chinesa.” Em 1986, Liu organizou uma conferência literária em Naijing que marcou o começo da revitalização de Buck na China; o museu financiado pelo governo, fundando no ano passado, representa um tipo de reabilitação oficial.

Liu leu Buck pela primeira vez nos Estados Unidos, quando ele estudava em Harvard nos anos 80 – mas não em classe. “Quando eu ia a casa de amigos, normalmente era uma mulher com seus 60 anos que me perguntava como eu enxergava o retrato da China composto por Beck”, ele relembra. “Eu me sentia embaraçado, porque eu não a tinha lido. Ela fora excomungada. Quanto mais eu lia sobre sua vida, mais eu desejava lhe fazer justiça.”

Educada na China por seus pais missionários, Buck começou a escrever por volta dos 30 anos, quando se envolveu em um casamento sem amor e sem condições de cuidar de uma filha com distúrbios mentais, como Peter Conn, seu mais recente biógrafo, relata em Pearl S. Buck: uma biografia intelectual. Cerca de dúzias de editores rejeitaram seu primeiro romance, até que a editora John Day finalmente disse sim. Vento leste,vento oeste saiu em 1930. Ela se casaria mais tarde com o diretor da John Day, que praticamente tornou-se sua editora particular. Foi a primeira mulher americana a ganhar, em 1938, o Prêmio Nobel de Literatura. As experiências de Buck na China transformaram sua visão da América; quando de seu regresso, ela tornou-se uma liderança a advogar os direitos civis e das mulheres, e no que toca à Amerásia – um termo que ela criou – pelos órfãos de guerra. Ainda assim, os críticos americanos rejeitavam Buck, alegando ser ela sentimental.

Mas o trabalho de Buck permaneceu popular, mesmo quando ela decaiu nas listas de leitura durante a Guerra Fria.

Descobri Buck pela primeira vez depois da faculdade. Antes de partir para uma missão na China, uma década atrás, perguntei a uma velha livreira acerca de livros abordando a China. Ela me conduziu pelas estantes de não-ficção – e através do mundo de arroz cor de jade de Buck, doçuras, tecidos cor de arco-íris, neblinas prateadas, e luzes piscantes de turquesa e dourado em finas mãos de marfim. Uma China onde pessoas de pele vermelha, estrangeiros cheirando a leite, estão constantemente impressionados pela graça e força das pessoas que encontram.

Em 2004, Oprah Winfrey [apresentadora de TV americana] selecionou A boa terra para seu clube do livro, dizendo aos espectadores que a obra a fez se sentir afortunada por ter nascido na América. Os livros de Buck sobre a China se passam em uma era de generais, escravos, ópio, pés amarrados, invasores japoneses, fome, enchentes e estupro. Hoje, seu legado – e seu assunto recorrente, o sofrimento individual confrontado a um contexto de levante social – repercute no sucesso americano de livros chineses passados durante a Revolução Cultural e outros movimentos políticos, mais notadamente o popular Cisnes selvagens, de Jung Chang, a autobiografia de Anchee Min Azaléia vermelha e o romance de Gao Xingjian, laureado com o Nobel, Montanha da Alma.

No vagão – restaurante do trem em direção a Zhenjiang e ao museu de Buck, no último outono, escolhi um dos cinco romances que Buck escreveu nos anos 40 e 50, passados no oeste americano e publicados com o pseudônimo de John Sedges – que ela adotara para se libertar de sua persona chinesa. Um homem de meia-idade e seu acompanhante adolescente fixaram o olhar em minha garrafa de cerveja e depois em meu livro. O homem perguntou o que eu estava lendo, e eu respondi usando o nome chinês de Buck, Sai Zhenzhu. O homem aquiesceu e disse ao menino “A famosa escritora sino-americana”. À medida que o trem rangia e sacolejava, a garçonete, sem esforço, trocou nossas garrafas vazias por outras cheias.

__________
* Fonte: Revista EntreLivros, 27, julho de 2007, p.62-63.
mais sobre o livro >> http://www.objetiva.com.br/objetiva/cs/?q=node/1372Leia trecho do livro em PDF
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Uma resposta to “Lembranças da China rural”

  1. Anonymous Says:

    recentemente li, um pouco ao acaso, “Vento leste, vento oeste” e nao apenas eu, mas pessoas com quem trabalho e que nao têm habito de leitura, ficamos apaixonados por esse romance. ficaram gravadas na minha lembrança o sofrimento da moça educada nos valores de uma cultura milenar que desaparecia e a luta para compreender e se apropriar de uma cultura nova, moderna, ocidental, que evidentemente era a melhor do ponto de vista da escritora, mas que no texto de Pearl Buck nao esmaga nem nega o mundo tal como é visto pela cultura tradicional.sobretudo, é um maravilhoso romance.abraço,Regina

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