O poder do professor

Docente de Tocantins analisa poder do professor*

Natural de Campos Gerais, no sul de Minas Gerais, Wilson Correia é doutor em educação pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e mestre em educação pela Universidade Federal de Uberlândia. Licenciado em filosofia pela Universidade Católica de Goiânia, fez curso de especialização em psicopedagogia na Universidade Federal de Goiás.

Professor efetivo da Universidade Federal de Tocantins (UFT) desde setembro de 2008, Wilson Correia leciona filosofia da educação, no curso de pedagogia. Iniciou no magistério em 1993. “São quase 16 anos de atuação no ensino superior, passando pela Universidade Católica de Goiânia, Federal de Goiás e Unicamp”, conta Wilson, que agora pretende se fixar em Palmas e dar continuidade à carreira em Tocantins. Ele também já deu aulas para alunos da educação básica, por cerca de três anos.

A aflição percebida nos alunos que precisam fazer o trabalho de conclusão de curso universitário (monografia) levou o professor a escrever o livro: TCC não é um bicho de 7 cabeças. Na obra, prestes a ser lançada, ele apresenta a seqüência de passos necessários para a realização do trabalho de conclusão de curso (TCC), abordando desde o projeto até a avaliação.

Leia abaixo, artigo enviado por Wilson Correio para o Jornal do Professor.

O poder do professor


por Wilson Correia**

O filósofo francês Michel Foucault produziu importante trabalho sobre a natureza do poder. Em Microfísica do Poder, ele escreveu: “o poder deve ser analisado como algo que circula, ou melhor, como algo que só funciona em cadeia. Não está localizado aqui ou ali, nunca está nas mãos de alguns, nunca é apropriado como uma riqueza ou um bem. O poder funciona e se exerce em rede. Nas suas malhas os indivíduos não só circulam, mas estão sempre em posição de exercer este poder e de sofrer sua ação; nunca são o alvo inerte consentido do poder, são sempre centros de transmissão”.

Se o poder é circular e não tem lugar específico, e se ele não pode ser identificado somente no estado, na empresa e na igreja, entre outras, onde ele está? Ele também está na rede humana que constitui a sociedade. Ele funciona e é exercido pelos indivíduos que compõem as variadas malhas que se interpenetram e se cruzam em meio ao corpo social, tendo como sujeitos as pessoas que conduzem os diversos processos de vida e existência no mundo. “Capilar”, “periférico” e “múltiplo”, nas palavras de Foucault, o poder tem a ver com os corpos humanos, tornados “sujeitos pelos efeitos do poder”.

É essa “compreensão micro” que possibilitar a análise das relações de poder que são estabelecidas nos e pelos diversos grupos humanos, tais como família, igreja e escola. Na escola, em particular, chama-me a atenção a relação de poder que se estabelece entre estudante e professor. Ela é, por natureza, uma relação pedagógica e se caracteriza basicamente por dois aspectos: é permeada pela epistemologia, pela informação, pelo conhecimento e pelo saber, e é, também, mediada pelas microdecisões políticas, as quais contribuem para formar subjetividades, identidades e sujeitos sociais.

Daí que um gesto, uma palavra, uma ação do ensinante não são simples movimentos. São elementos formativos porque não se desvinculam do caráter pedagógico de que se reveste o ser-estar daquele que escolheu a profissão de ensinante. Desse modo, não é somente a aula que ensina; é a presença do professor que tem a potencialidade de emitir uma lição atrás da outra. E não se trata unicamente de se considerar o professor como modelo e exemplo, mas de compreender que ele interfere e modifica o modo como o aprendiz constitui-se a si mesmo em meio aos outros, tanto quanto a maneira pela qual ele vai se posicionar na vida, no mundo, na sociedade e nessa infindável rede de interações humanas de que participará ao longo de toda a vida.

Parece assustadora a repercussão que os atos pessoais dos professores e professoras exercem sobre os alunos. Um gesto desinstala. Uma palavra desperta reação. Uma ação provoca múltiplos movimentos. Racionalidade e afetividade qualificam as atitudes, comportamentos e movimentos dos estudantes afetados pela presença do ensinante. Disso resulta, pois, o fato de as relações pedagógicas serem tão conflituosas como as familiares, profissionais e assemelhadas.

Em face do poder ninguém é inocente. Ninguém pode se apresentar de mãos lavadas. Estamos todos envolvidos em redes de poder e nelas o exercemos. Não é mais possível ver o poder como pertencendo apenas a políticos, magistrados e líderes religiosos. Se pensarem nisso, o professor e a professora poderão entender em que medida exercem o poder docente, e se o fazem no sentido da humanização do estudante ou do seu embrutecimento. Grande, pois, é a responsabilidade de quem se propõe a ensinar.

__________
* Fonte: Jornal do Professor, MEC – 09.04.2009. Acesso em: 13.04.2009.
** Wilson Correia é filósofo e doutor em Educação pela Unicamp e adjunto na Universidade Federal do Tocantins, Campus de Arraias.
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2 Respostas to “O poder do professor”

  1. Anonymous Says:

    Parabéns pelo artigo. Penso que a abordagem de Foucault privilegia a visão do Poder “em rede”, fechando circuíto em alguns “pontos” específicos, mas sempre circulando em rede. Dessa forma me parece que isolar uma “fase” dessa rede (professor-aluno) sem levar em conta a rede maior de circulação (sociedade inclusiva, ideologias, grupos de amizade, gangs e outras) estabelece quase que automaticamente uma visão de culpado-inocente, causa-efeito, que não é a pretensão foucauliana.Francisco Pucci.

  2. Lia Noronha Says:

    Seus blogs são fontes de conhecimentos para todos os professores…Obrigada por tudo.Abraços

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