Desonra, de J.M.Coetzee

DESONRA
J.M. Coetzee
São Paulo: Companhia das Letras, 2000

TEXTO DA ORELHA

Aos 52 anos, divorciado duas vezes, o professor David Lurie é um homem solitário, conformado, erudito e irônico. Não se incomoda com o desinteresse dos alunos por suas aulas de poesia. Cogita escrever uma ópera sobre Lord Byron, mas sempre adia o projeto. Acredita ter “resolvido muito bem o problema de sexo”: nas tardes de quinta-feira, visita uma prostituta com idade para ser sua filha, paga o devido e tem direito ao oásis de uma hora e meia num cotidiano de aridez existencial.

Sua vida, racionalizada de maneira burocrática, soçobra quando a prostituta o dispensa e, mesmo sabendo que é um erro, Lurie tem um caso com uma de suas jovens alunas, acusado de abuso, e desprezando os códigos do ambiente universitário, Lurie cai em desgraça. Torna-se um réprobo e se refugia na fazenda de sua filha, a única pessoa com a qual tem um vínculo afetivo. Toma então contato com a realidade da África do Sul pós-apartheid, país onde é “um risco possuir coisas: um carro, um par de sapatos, um maço de cigarros”.

É uma realidade brutal, feita de vingança, banditismo, submissão. Brutalidade contra a qual a cultura ocidental é inútil: “Ele fala italiano, fala francês, mas italiano e francês de nada lhe valem na África negra”, diz o narrador quando três negros tentam queimar Lurie vivo.

J.M. Coetzee constrói em Desonra personagens de carne e osso e, por meio deles, tece relações entre classes, entre homens e mulheres, entre pais e filhos, negros e brancos, entre seres humanos e animais, entre uma longa história de exploração e um presente de ressentimento explosivo.

Escrito com fluidez exemplar, o romance enfrenta problemas intratáveis da atualidade de um país subdesenvolvido. situado na terra de ninguém onde se misturam civilização e barbárie – região bem conhecida do leitor brasileiro – Desonra é uma resposta artística profunda à ferocidade avassaladora da realidade.

por Mario Sergio Conti
[disponível em http://www.leiamaislivros.com.br ]
Anúncios

2 Respostas to “Desonra, de J.M.Coetzee”

  1. malmal Says:

    vai pra lista…

  2. Anonymous Says:

    você acredita em coincidências literarias? claro que eu ja tinha ouvido falar em Coetzee, mas de tao longe, que me permitia vagamente supô-lo descendente de algum imperador asteca (nao parece?). semana passada terminei de ler o excelente livro de Lucia Helena, A Solidao Tropical – O Brasil de Alencar e da Modernidade, no qual ela cita um outro romance de Coetzee, Elizabeth Costello, em que o autor passa um rabo de arraia no meio acadêmico.E o livro de Lucia Helena começa com a frase: Como pode um brasileiro encontrar-se consigo mesmo? juntando tudo isso, ao fim e ao cabo, também vou pôr Coetzee na minha lista (desesperantemente longa…)Abraço,Regina

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: