Balzac encontra Beckham

por TERRY EAGLETON
PARA A “NEW STATESMAN”

Para o crítico Terry Eagleton, esquerdas superdimensionam o papel da cultura e se esquecem do caráter vulnerável da condição humana

A chamada “cultura” começou a espalhar-se em todas as direções na década de 1980. Como um endereço da moda ou uma caixa de uísque Glenfiddich, todo mundo queria um pouco dela. Onde antes “cultura” significava Bach ou Balzac, ela se ampliou para incluir a cultura da praia, a cultura policial, a cultura dos surdos, a cultura da Microsoft, a cultura gay, a cultura dos pára-quedistas e assim por diante. A cultura deixou de ser apenas obras de arte e passou a abarcar um modo de vida específico. Ela sempre tinha sido entendida assim pelos antropólogos.

A diferença é que eles pensavam, por exemplo, em cultura mexicana ou polinésia, e não tanto na cultura dos praticantes de caminhada nos vales de Yorkshire ou na cultura dos fisioterapeutas portugueses.

Mas hoje a cultura desceu do macro para o micro – de sociedades inteiras para uma série de grupos de interesses específicos no interior das sociedades. É mais questão dos Hell’s Angels [clube de motociclistas dos Estados Unidos] do que da Grécia helênica. Naturalmente, isso suscita uma pergunta: quão micro é possível se tornar? Será que dois professores em uma escola de vila do interior constituem uma cultura? E o que dizer de Posh e Becks (David Beckham e sua mulher, a ex-Spice Girl Victoria, também conhecida como Posh Spice)?

Existe uma forma específica de cultura que possui significado político extraordinário: trata-se do esporte e, em particular, o futebol

O mais estranho é que a cultura dos praticantes de caminhadas nos vales de Yorkshire não gira em torno da caminhada, principalmente. A cultura não diz respeito tanto ao que um grupo faz (já que muitas pessoas fazem a mesma coisa) quanto à maneira específica como o faz. Matar pessoas não é exatamente parte da cultura militar americana, mas fazê-lo usando cabelos curtos e um vocabulário bastante restrito, sim. Cultura é questão de estilo e forma. Assim, não surpreende que ela tenha ganho destaque numa civilização na qual forma e estilo viraram produtos cada vez mais preciosos.

Ironicamente, porém, a cultura é também uma forma de resistência a essa civilização. Em sua preocupação com significados simbólicos e solidariedades locais, ela oferece uma alternativa ao abstrato e ao universal. As culturas dizem respeito a know-how, jeitinho e hábitos, muito mais do que a métodos racionais ou procedimentos conceituais. São o pano de fundo do comportamento cotidiano, algo visto como natural e evidente, a cor invisível da vida diária, o inconsciente coletivo da sociedade política. Cultura é o que todo o mundo sabe, sem saber que sabe.

Diferentemente da álgebra, a cultura é algo que você aprende não por meio do estudo, mas pela participação. É antes como uma criança aprendendo uma língua do que como um adulto aprendendo a montar uma mesa.

Força intuitiva

Desse modo, dentro de uma cultura as coisas funcionam por gestos, conhecimentos tácitos, implicações não verbalizadas. Essa é uma das razões pelas quais a cultura se mostra tão arisca ao universal, haja vista que gestos e implicações perdem a força quando são esticados para cobrir todo o espaço global.

Assim, o retorno à cultura é em parte uma reação contra o mundo globalizado e uniformizado. É uma revolta contra a morte das diferenças. A cultura é aquilo que você não tem em comum com a maioria das pessoas. Mas, como isso se aplica a todos, existe um sentido em que ela se cancela. O que todo mundo compartilha, no mundo pós-moderno, é a maneira ferrenha em que valoriza suas especificidades.

Se a cultura opera por nuanças e implicações, então a cultura, no senso amplo do termo (um modo de vida específico) possui a força intuitiva e o refinamento textural da cultura no sentido mais restrito (as artes).

Essa é uma razão pela qual faz sentido usar o mesmo termo para descrever as duas coisas. Não se pode dizer que uma obra de arte ou um modo de vida sejam “certos” ou “errados”, como se poderia dizer acerca de uma estratégia política ou um código de ética. Seria como afirmar que a língua romena foi um engano. Nenhuma delas possui muito valor utilitário. A cultura é o que excede o útil e o necessário. Precisamos de caixas de correio, mas não precisamos pintá-las de vermelho.

A cultura valoriza o habitual e o afetivo, o “vivido” e o sensorial, algo ao qual o Banco Mundial não dá importância. Ela confere ao adjetivo “empresarial” um sentido diferente, menos frio. Nesse sentido, a mudança à qual estamos assistindo no significado de cultura -de maneira aproximada, de “viver civilizado” para “modo de vida singular e diferenciado”- envolve, também, uma mudança de gênero.

A cultura é uma idéia mais feminina do que masculina. É um conceito “quente”, mais do que um conceito frio, como “instituição”, ou assustadoramente gelado, como “gerenciamento de recursos humanos”.

Entretanto conceitos “quentes” podem tornar-se quentes demais, a ponto de virarem incômodos. A cultura pode ser uma idéia não apenas criativa, mas claustrofóbica. “O que todo mundo sabe sem saber que o sabe” não constitui má definição da ideologia. O que é comunitário e aconchegante para alguns pode ser insuportavelmente tribal para outros. A cultura tende a agradar à tradição, não à razão, o que significa que tem o hábito de justificar-se por si mesma.

Um apelo à tradição cultural significa simplesmente que fazer algo por muito tempo é quase tão bom quanto ter razão. A razão pela qual se praticam assassinatos em defesa da honra ou linchamentos raciais é que esse é o tipo de coisa que se faz. Como as palavras “gosto” ou “mal”, a palavra “cultura” significa, entre outras coisas, “não discuta”. O que fazemos é o que fazemos. Não podemos justificá-lo racionalmente, mas tampouco você pode justificar suas objeções ao que fazemos.

Portanto, melhor seria declararmos uma trégua. Desde que você nos deixe continuar a praticar o infanticídio feminino, que é algo que nem sequer chama a atenção em nossa sociedade, nós lhe deixaremos continuar a praticar a violência doméstica que faz parte tão arraigada de sua própria tradição cultural.

O relativismo cultural desse tipo é extremamente conveniente para os poderes governantes. Se significa que eles não podem criticar outras culturas, também quer dizer que, como cultura, também eles são imunes a críticas. De qualquer maneira, não criticar alguém -por exemplo, os muçulmanos- não nos impede de bater neles. A sensibilidade cultural e o atraso político também podem manter relações amigáveis. Todo porta-voz neofascista já aprendeu a dizer “dele ou dela”.

A cultura é capital

As culturas locais podem, de fato, representar um oásis num deserto de mesmice enfadonha. No entanto, se a diferença é cultivada com tanto afinco hoje em dia, é em parte porque ela vende. Podemos encontrar os mesmos restaurantes inimitáveis de hotel praticamente por toda parte. Nada é mais global do que o totalmente singular.

O local é vendido e promovido em todo o planeta. Se o capitalismo passa por cima de algumas culturas locais, ele também ajuda a criar outras. A hostilidade em relação ao universal não chega a representar má notícia para aqueles cujos interesses seriam ameaçados por qualquer conversa sobre direitos humanos e lutas globais interconectadas.

Por que outra razão a cultura tem assumido um peso tão grande nos últimos tempos? Uma resposta é óbvia: vivemos numa época em que, pela primeira vez, a cultura virou parte-chave da produção em massa de bens para compra e venda. Hoje a cultura é capital, e o capital é saturado de cultura -de signos, estilos, narrativas e imagens. Trata-se de uma mudança carregada de implicações, já que, ainda durante o modernismo do século passado, a cultura se enxergava como o oposto completo da produção de bens. Seu trabalho, na época, era julgar essa produção, não fazer parte dela.

Mas existem outras forças em ação, também. Nas últimas três ou quatro décadas, os movimentos de esquerda mais inovadores e criativos têm sido aqueles nos quais a cultura desempenha papel vital. O feminismo, a militância étnica, o nacionalismo revolucionário: para essas três correntes políticas, a cultura -no sentido amplo de linguagem, identidade, símbolo, tradição e comunidade- é uma parte imensa daquilo que está em jogo. Longe de serem acessórios agradáveis, esses elementos criam os próprios termos da discussão política.

Na Grã-Bretanha da era vitoriana e do início do século 20, a cultura representava os valores fundamentais com os quais todos podíamos concordar, ancorados muito fundo sob nossas diferenças mesquinhas. Eu poderia ser dono de um moinho e, você, um varredor de rua, mas Shakespeare falava àquela parte de nós dois que era universal. Se as artes eram importantes, era porque conferiam voz a essa humanidade comum. Assim, elas e os valores que elas representavam podiam ser chamadas para exercer um papel na resolução de conflitos da vida real.

Isso envolvia a premissa um tanto quanto curiosa de que a exposição à grande arte faria de nós pessoas melhores. Se nossa era atual vem passando por uma crise de cultura, isso se dá em parte porque essa premissa não conseguiu sobreviver a duas guerras mundiais sangrentas. De qualquer maneira, a idéia de deixar de lado nossos conflitos em nome da unidade e da harmonia parecia conveniente demais para nossos governantes. Normalmente são as vítimas às quais se pede que se mostrem desinteressadas.

Pés no chão

Assim, a cultura passou a ser, em lugar disso, um conceito imbuído, até a raiz, em conflito. Isso significa, entre outras coisas, que o conceito pôs os pés no chão. Mas o fez à custa de abandonar seu papel crítico e utópico. A maioria dos defensores da cultura, hoje, faz força para evitar frases como “humanidade comum”. Quando as ouvem, eles recorrem a suas diferenças, com precisão pavloviana. Mas fazem-no num mundo em que a humanidade nunca antes esteve tão forçosamente unida diante dos mesmos perigos militares, políticos e ecológicos. Não existe nada de minimamente abstrato nesse tipo de universalidade. É a abstração curiosa que poderia fazer com que todos nós voássemos pelos ares.

Poucos dos problemas globais com os quais nos defrontamos hoje são problemas culturais, em qualquer sentido preciso do termo. O islamismo radical pode parecer uma exceção a essa norma, mas mesmo ele diz respeito mais a condições materiais do que a ideais espirituais. Os inimigos que enfrentamos são, em sua maioria, bastante antigos: miséria, guerra, doenças e catástrofes naturais. Não há nada de pós-moderno ou “na moda” em nenhum deles.

No entanto, espantosamente, a esquerda cultural continua a inflar a idéia da cultura para além de qualquer proporção tolerável. Ao insistir que a cultura desce até o fundo dos assuntos humanos, ela acaba por reprimir seu oposto, a natureza, com toda a implacabilidade do iluminismo que ela tanto odeia.

É verdade que existe uma forma específica de cultura que possui significado político extraordinário. Trata-se do esporte e, em particular, o futebol. Basta pensar em como seria transformada a paisagem social e política britânica se não mais existisse o futebol para fornecer às pessoas a tradição, o ritual, o espetáculo dramático, o senso de existência corporativa, a hierarquia, a lealdade, a agressividade selvagem, o combate gladiatório, o espírito de rivalidade, o panteão de heróis e a apreciação de habilidades estéticas que fazem falta tão grande ao cotidiano capitalista.

Como o sexo, a cultura não apenas pode ser subestimada mas também superestimada. É verdade que todo mundo precisa estar em algum lugar, como respondeu o amante, quando indagado pelo marido enfurecido por que estava escondido no guarda-roupas de sua mulher. Não existe humanidade “crua”, não marcada pela cultura local.

Mas, se o fato de sermos animais culturais é fonte de divisões, também é o que temos em comum, universalmente. E dizer que somos todos animais culturais significa dizer que somos todos vulneráveis e carentes. Criaturas como nós, que precisamos de cultura para sobreviver, o fazem em razão de uma deficiência em sua natureza.

Todos os seres humanos nascem prematuros e, se a cultura (sob a forma de linguagem, parentesco, práticas de cuidar uns dos outros e assim por diante) não entrar em ação rapidamente para preencher esse vazio, morrem antes do tempo. Assim, se a cultura é o sinal da dianteira que temos em relação aos outros animais, ela é também sinal de nossa fraqueza. É sobre o alicerce dessa vulnerabilidade comum, e não de diferenças culturais, que qualquer política decente precisa ser construída.

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Fonte: Folha de S. Paulo, Caderno Mais, 05.12.2004.
Terry Eagleton é professor de teoria cultural na Universidade de Manchester e autor de, entre outros, “A Ideologia da Estética” (ed. Jorge Zahar) e “After Theory” (Depois da Teoria, Basic Books).Tradução de Clara Allain.

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