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Luis Fernando Veríssimo recebe Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura

15/07/2009

Na quarta-feira, dia 08 de julho, Luis Fernando Veríssimo recebeu, na Academia Mineira de Letras, o Prêmio Minas Gerais de Literatura pelo conjunto de sua obra. Com mais de 60 livros publicados, Veríssimo é reconhecido por seu olhar humorado e sagaz voltado ao cotidiano e às relações humanas. Sobre a importância da premiação, ressaltou: “Temos ótimos escritores e gente jovem aparecendo, mas por causa das restrições do mercado editoral brasileiro não tem como publicar. Por isso, esse tipo de iniciativa do Governo é importantíssima, não só pelo prêmio em si, mas pela divulgação”.

Em sua segunda edição, o Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura recebeu cerca de 900 inscrições provenientes de diversos estados do Brasil. Os prêmios somaram R$ 212 mil, divididos entre as quarto categorias. O filósofo mineiro Reni Andrade, recebeu por seu romance “Lugar” o prêmio disputado por outros 160 inscritos na categoria Ficção. Já na categoria Poesia, a mais concorrida, com 674 trabalhos, quem venceu foi o cearense Eduardo Jorge de Oliveira, pelo título “A lingua do homem sem braço”.
Com 24 anos, a estudante de Letras na UFMG, Maria Zilda Santos Freitas, teve seu romance ainda não publicado, “Insetos”, contemplado na categoria Jovem Escritor Mineiro. Na narrativa, a universitária apresenta a história de uma menina órfã, que ao se perder na cidade grande, torna-se uma observadora da metrópole. Assim como em “A Metamorfose”, de Franz Kafka, o inseto passa a ser uma sígno do absurdo, quando todos os personagens são metaforizados como insetos.
Para o Governo de Minas Gerais, o Prêmio de Literatura é uma forma de valorização da cultura pelo estado. Outros três prêmios foram criados para incentivar o cinema, a música e as artes cênicas. Neste ano, serão distribuídos mais de R$ 7 milhões em incentivos, somando o Prêmio de Literatura, Filme em Minas, Música Minas e Cena Minas. Ainda na linha da incentivo à cultura, desde 2003, 3.495 projetos, em 156 municípios, foram atendidos pela Lei Estadual de Incentivo à Cultura.
Para mais informações sobre as iniciativas de fomento e incentivo à cultura no estado de Minas Gerais, acesse: http://www.cultura.mg.gov.br/
Sobre os vencedores do Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura 2008
Luis Fernando Veríssimo (Conjunto da Obra) – Jornalista e escritor gaúcho, é filho do grande escritor Érico Veríssimo. É também cartunista e tradutor, além de roteirista de televisão, autor de teatro e músico, tendo tocado saxofone em alguns conjuntos. Nasceu em Porto Alegre onde iniciou seus estudos. Nos Estados Unidos, cursou Roosevelt High School de Washington, e ainda estudou música aprendendo a tocar saxofone. Como jornalista, iniciou sua carreira no jornal Zero Hora, em Porto Alegre, no final da década de 60. Além disso, Luis Fernando Veríssimo tem textos de ficção e crônicas publicadas nas revistas Playboy, Cláudia, Domingo (do Jornal do Brasil), Veja, e nos jornais Zero Hora, Folha de São Paulo, Jornal do Brasil e no jornal O Globo.
Entre suas obras estão os livros O Popular, A Grande Mulher Nua, Amor Brasileiro, publicados pela José Olympio Editora; As Cobras e Outros Bichos, Pega pra Kapput!, Ed Mort em “Procurando o Silva”, Ed Mort em “Disneyworld Blues”, Ed Mort e Outras Histórias, O Jardim do Diabo, Pai não Entende Nada, Peças Íntimas, O Santinho, Zoeira, Sexo na Cabeça, O Gigolô das Palavras, A Mão do Freud, Orgias, As Aventuras da Família Brasil, O Analista de Bagé, publicados pela L&PM Editores, A Mesa Voadora, pela Editora Globo e Traçando Paris, pela Artes e Ofícios.
Reni Adriano Batista (Categoria Ficção) – Mineiro de Santa Luzia, o escritor é articulista e membro dos conselhos gestor e editorial da revista Laboratório de Poéticas – Antenas & Raízes (Programa Cultura Viva, do Ministério da Cultura). Sua obra “Lugar” faz referência ao imaginário mítico-popular brasileiro. Romance denso em que as personagens se debatem numa trama de extrema perversidade, mas entremeada de delicadezas.
Eduardo Jorge de Oliveira (Categoria Poesia) – Formado em publicidade, mora em Belo Horizonte há um ano, onde faz mestrado em Literatura na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Sua obra “A lingua do homem sem braço” aborda a questão do corpo dentro do poema e como ele se reflete na escrita. Eduardo – que já publicou dois livros de poesias: San Pedro (2004), editoração própria; e Espaçaria (2000), da Lume Editor – escreve para o caderno Pensar, do jornal Estado de Minas e já teve poemas publicados no Suplemento Literário.
Maria Zilda Santos Freitas (Jovem Escritor Mineiro) – Mineira de Belo Horizonte teve o projeto escolhido pela originalidade e contribuição para a literatura brasileira contemporânea.

entrevista com Maria Zilda Santos Freitas

enviado por Thamires Andrade

Manifesto por um Brasil literário

13/07/2009

O escritor e poeta Bartolomeu Campos de Queirós lê o Manifesto por um Brasil literário e fala sobre a importância da leitura de literatura.

MANIFESTO
O Manifesto por um Brasil literário é uma iniciativa de um grupo de instituições e pessoas envolvidas com a leitura literária no país. Este documento pretende ampliar o debate em torno da importância da leitura de livros de literatura, acolher propostas e engajar o maior número de pessoas em torno desta causa. É o primeiro passo para a criação de um Movimento por um Brasil literário.

leia o manifesto

participe!

Fonte: http://www.brasilliterario.org.br/

O DNA do terror

08/07/2009

Acusado de associar a guerra santa a uma característica muçulmana em seu novo romance, o americano John Updike rebate dizendo que não quis desumanizar o islã

por MEHAMMED MACK

Em “Terrorist” [Terrorista], romance cujo título pode causar irritação ou enfado a alguns leitores, John Updike tenta resolver um dos mais difíceis enigmas já enfrentados por esse escritor da Nova Inglaterra: penetrar na mente de um muçulmano jovem, ressentido e irado.
Para enfrentar esse desafio literário, Updike concebeu Ahmad, um coquetel molotov adolescente que mistura raças (mãe irlandesa, pai egípcio ausente); ódio e amor incipiente pelos EUA; e lealdades tanto à escola em que estuda quanto à mesquita que freqüenta, na sombria New Prospect, em Nova Jersey.

O menino sardento de fala mansa não precisa de estímulo para encontrar a fé, sem interferência de imãs enxeridos, e abandona todos os seus amigos e todos os traços de sua vida suburbana, optando pela companhia de Deus, “mais próximo dele do que sua veia jugular”, expressão do Alcorão que Updike repete muitas vezes. O narrador indica sem muita sutileza que Alá talvez possa ser a figura paterna que falta a Ahmad, um sentimento que atraiçoa o conceito de um Deus sem forma tal como o entendem os muçulmanos.

Depois do segundo grau, Ahmad se acomoda, apesar da considerável inteligência e vocabulário, a um trabalho como motorista de caminhão, trabalhando para uma loja de mobília cujos proprietários são libaneses, naquilo que só pode indicar uma receita completamente árabe para o terror e o desastre.

Citando versos do Alcorão como “prova”, Updike localiza a possibilidade de “jihad” violenta como traço característico do DNA muçulmano.

Mas o tratamento dado a Ahmad está longe de ser unilateral: Updike enfatiza que o adolescente chega ao terrorismo de maneira passiva, sob o estímulo do xeque Rashid, um iemenita sorridente que prega na mesquita e representa um discípulo do islã mais interessado na poesia do que na mensagem moral do Alcorão.

Em última análise, Updike atribui boa parte da culpa pela sedução de Ahmad à violência ao desespero do ambiente que o gerou -edifícios de apartamentos precários, tensões raciais e religiosas deprimentes e, acima de tudo, a falta de qualquer pessoa ou coisa que ofereça um exemplo de integridade ao qual ele possa se apegar.

O aspecto sombrio do livro ocasionalmente se atenua quando Ahmad percebe Deus como o aspecto sagrado da vida comum -seja no canto emotivo de uma cristã negra (Joryleen, talvez a única pessoa que Ahmad encare com afeto), seja quando o orientador vocacional de Ahmad, um judeu, consegue construir uma ponte laica até a consciência do rapaz.

Mas será difícil não encarar vizinhos e amigos muçulmanos com suspeita renovada depois de ler o romance. “Terrorista” se baseia na premissa de que o 11 de Setembro é um evento muçulmano característico, e não excepcional, como deixa entrever na entrevista abaixo, dada por telefone de sua casa, em Massachusetts.

PERGUNTA – Dada a distância que o separa do assunto de seu livro, a pesquisa deve ter desempenhado papel importante no processo de criação. Quais foram as suas fontes?

JOHN UPDIKE – Shady Nasser, um estudante de pós-graduação de Harvard que trabalhou como meu consultor para o idioma árabe. Minhas pesquisas, que evidentemente poderiam ter sido mais profundas, envolveram ler duas traduções do Alcorão e até um livro chamado “The Koran for Dummies” [O Alcorão para Leigos]. O relatório da comissão do 11 de Setembro ajuda a estabelecer o aspecto emocional das personalidades dos terroristas, e li diversos livros sobre o islã. A tradição dessa forma de ataque tem um longo passado.

PERGUNTA – A história de Jonas é mencionada muitas vezes nas discussões sobre terrorismo, e o sr. inclui um trecho dela como epígrafe -“e agora, ó Senhor, por favor tire minha vida, pois para mim morrer é melhor que viver. E o Senhor disse: “E você está certo em sua ira?'”. Como veio a empregar essa citação?

UPDIKE – Eu a encontrei num panfleto da Igreja Episcopal. A outra epígrafe vem de Gabriel García Márquez [“a descrença é mais resistente que a fé porque os sentidos a sustentam”]. Fiquei tão surpreso por ele tê-lo dito de maneira tão crua, e imaginei que as duas citações ajudavam a emoldurar a questão da fé e também toda a raiva que meu jovem herói, Ahmad, sente quando seu pai o abandona e por tantas outras coisas, incluindo a cidade que o cerca. Ainda que não costume perder a calma com freqüência, ele sente a espécie de raiva fria que se enquadra perfeitamente na forma de sacrifício que está disposto a empreender.

PERGUNTA – Em algumas ocasiões o sr. deixou de fora detalhes cruciais, que poderiam humanizar o islã e torná-lo mais pluralista. O sr. se incomoda com a opinião que os muçulmanos possam vir a ter sobre o seu trabalho?

UPDIKE – Creio que não é algo sobre o qual eu tenha pensado demais. O livro, por natureza do ambiente em que transcorre, é bastante étnico, de modo que nele existe alguma coisa para ofender a quase todos -para ofender judeus, para incomodar irlandeses e, com certeza, para causar desagrado aos norte-americanos de ascendência árabe. Jamais me senti crítico em relação a Ahmad; ele é jovem e, como acontece freqüentemente com jovens, vive de modo absoluto o seu ardor, o ardor das ações que pretende praticar.

PERGUNTA – Ao se preparar para escrever o seu livro, o sr. leu outros escritores que tenham tratado de temas ditos terroristas?

UPDIKE – Li [o escritor britânico] Martin Amis.

Todo mundo em meu romance está tentando fazer o melhor. Explodir coisas, do ponto de vista da sociedade mais ampla, não é um ato de bondade; do ponto de vista de quem o faz, é um ato de guerra, uma necessidade.

PERGUNTA – Há neutralidade moral em “Terrorista”?

UPDIKE – Creio que o autor esteja basicamente entre as pessoas que desaprovam que coisas sejam explodidas. Creio que prefiro a ordem que existe a qualquer ordem hipotética que poderia existir se a ordem atual fosse desmantelada. Acredito, em termos gerais, que mudanças sejam realmente necessárias nas sociedades, mas prefiro que ela seja realizada por meios graduais, nada espetaculares e nada mortíferos.

PERGUNTA – O sr. usa um ponto de vista onisciente e faz alguns pronunciamentos bastante extremos. Nem sempre sabemos quando esses pensamentos provêm do narrador ou de Ahmad, o que cria uma ambigüidade tensa, ocasionalmente, como se bombas fossem detonadas e ninguém assumisse a responsabilidade. Essa técnica foi adotada de maneira consciente?

UPDIKE – Os pensamentos dele… Alguns são hostis, ele é muito hostil, na realidade. Sente que o mundo ocidental, o materialismo, a sexualidade, o consumismo, todas essas coisas que o Ocidente tem -basicamente, a face apresentada nos filmes e nas canções-, crê que tudo isso seja antagônico à sua fé, ao seu Deus. Portanto, quanto a isso, sim, ele é uma espécie de extremista. Existe um modo pelo qual compartilho da possibilidade de me sentir assim. Existe um egoísmo, uma podridão se espalhando pela sociedade, e isso oferece pouca orientação, pouca esperança, a espécie de esperança que a religião costumava oferecer, e ainda o faz, para muitas, mas de modo nenhum para todas as pessoas.

PERGUNTA – A mensagem que perdura ao final do seu livro é bastante pessimista. O sr. se considera como o Michel Houellebecq dos EUA?

UPDIKE – (Risos.) Eu me vejo como uma pessoa razoavelmente amistosa, patriótica, feliz, mas, quando escrevo, bem, algo mais interfere, vem à tona. Havia certo prazer em tentar enfatizar o caminho rumo à destrutividade, aqui, rumo ao pensamento do terror.

PERGUNTA – O senhor ainda acredita em humanismo e entendimento universal?

UPDIKE – Oh, com certeza! Como meta, sim, é algo que devemos almejar. Tendo a ser ridiculamente esperançoso com relação a conflitos e maneiras de evitá-los, mas acredito que estejamos muito longe do mundo feliz que estava supostamente raiando quando a Guerra Fria acabou. O mundo provou ser muito mais problemático, confuso e perigoso do que qualquer um poderia ter antecipado.

__________
Esta entrevista saiu no “L.A. Weekly”.Tradução de Paulo Migliacci.”Terrorist”, de John Updike, editora Alfred A. Knopf, 310 páginas.
* Fonte: Folha de S. Paulo, Caderno Mais, 02 de julho de 2006. Ver também: Terrorista, de John Updike, publicado em 26 de janeiro de 2008.

O Leitor, esse desconhecido

01/07/2009

por Marisa Lajolo & Regina Zilberman

QUEM É O LEITOR?

Se não podemos escrever a biografia do leitor, temos condições de narrar sua história, que começou com a expansão da imprensa e desenvolveu-se graças à ampliação do mercado de livros, à difusão da escola, à alfabetização em massa das populações urbanas, à valorização da família e da privacidade doméstica e à emergência da idéia de lazer. Ser leitor, papel que, enquanto pessoa física, exercemos, é função social, para a qual se canalizam as ações individuais, esforços coletivos e necessidades econômicas.

A história do leitor principiou na Europa, aproximadamente, no século XVIII, quando convergiram fatores que vinham tendo desdobramento autônomo. Nessa época, a impressão de obras escritas deixou de ser um trabalho quase artesanal, exercido por hábeis tipógrafos e gerenciado pelo Estado, que, por meio de alvarás e decretos, facultava, ou não, o aparecimento dos livros. Tornou-se atividade empresarial, executada em moldes capitalistas, dirigida para o lucro e dependente de uma tecnologia que custava cada vez menos e rendia cada vez mais.[1]

Esse objetivo, no entanto, só começou a se realizar plenamente quando o negócio de livros passou a contar com clientela capaz de consumir o produto, isto é, pessoas que dominavam com a necessária desenvoltura a habilidade de ler, o que adveio do fortalecimento da escola e da obrigatoriedade do ensino. Toas as revoluções burguesas dos séculos XVIII e XIX, a começar pela paradigmática, a da França em 1789, tiveram, entre outras, essas metas: afastaram o Estado das operações econômicas, facilitando o comércio, independente e o liberalismo financeiro, para envolvê-los nos projetos sociais, predominantemente os relacionados à saúde e à educação. Com isso, ficava o capital livre para usar o mercado da maneira que lhe aprouvesse.

Para a leitura se expandir a ponto de se transformar em prática social, foi também necessária outra mudança: deu-se uma até então inédita e a partir daí permanente valorização da família. Até o século XVIII, predominavam, entre as elites, os grupos unidos por laços de parentesco, que, graças a matrimônios de conveniência, formavam alianças políticas poderosas; entre as classes baixas, prevaleciam as corporações profissionais, expedientes que recorriam para se proteger da violência dos senhores feudais. Esse sistema se desfez depois do século XVII, quando se impôs o Absolutismo, fundado na soberania do Estado e corporificado na figura do monarca, e anularam-se as forças políticas adversárias, que impediam a centralização administrativa e desarticulavam a unidade nacional.

Este modelo de Estado foi útil à burguesia enquanto ela precisou combater o feudalismo e a aristocracia, para quem o conceito de família confundia-se com os casamentos a serem negociados entre seus membros. As revoluções dos séculos XVIII e XIX foram demolindo o regime absolutista e substituindo-o pela democracia e o liberalismo, ao mesmo tempo em que fortaleciam o padrão familiar resultante da ideologia burguesa ascendente.[2]

Enquanto instituição, a família é imprescindível ao projeto burguês, por constituir simultaneamente unidade e fragmento. Unidade porque apresenta laços internos sólidos, sustentados pela ideologia familista, que mistifica a maternidade, destaca o amor filiar, invoca deveres entre pais e filhos e sublinha o afeto entre seus membros; fragmento, por resultar da desagregação dos grandes grupos a que outrora se integrou.

A família é a miniatura da sociedade idealizada pela burguesia, pois contrapõe à força da ideologia que a sustenta a fragilidade de seu poder político. Seu âmbito de atuação é privado, ficando a esfera pública por conta e risco da economia de mercado. Sendo a privacidade o espaço que lhe é destinado, a família torna-se uma entidade política que se singulariza por sua despolitização.[3] Mas não deixa de constituir peça fundamental da sociedade moderna, pois a valorização da vida doméstica nasceu da desmontagem de outras forças capazes de desafiar o poder maior da burguesia e do tipo de Estado, despersonalizado e distante, por ela estabelecido. Por isso, ainda que não se confunda com uma camada social, com um partido ou com uma idéia, a família constrói e consolida a sociedade burguesa, organizando-a para aquém e para além das camadas sociais, partidos ou idéias.

É no interior desse modelo moderno de família que se intensifica o gosto pela leitura, por se constituir em atividade adequada ao contexto de privacidade próprio à vida doméstica. De outro lado, o saber ler, principalmente para os grupos religiosos, entre os quais se contam acima de tudo os protestantes e reformistas, interessados no conhecimento e difusão da Bíblia[4], passou a ser considerado habilidade necessária à formação moral das pessoas. Atitude individual ou praxe coletiva, silenciosa ou em voz alta, a leitura do folhetim semanal ou das Sagradas Escrituras invade o lar burguês, integrando-se ao cotidiano familiar e passando a constar das representações imaginárias da classe média, traduzidas, por exemplo, por pinturas e fotografias que retratam a paz doméstica abrigada pelo livro.

A leitura fortalece e se institucionaliza no avesso das práticas associadas aos modos tradicionais de narrar, de tipo oral, fundados na experiência vivida, de sentido comunitário e enraizados no meio rural, cujo desaparecimento Walter Benjamin lamenta.[5] Como se vê, não contradiz essas práticas, senão que as transporta para o meio urbano e para o universo domesticado a família burguesa. Não por acaso os primeiros livros de sucesso entre a infância européia, iniciadora da literatura infantil, resultaram da apropriação dos contos populares que circulavam entre os homens do campo.[6]

Contudo, cabe lembrar que, em suas formas mais modernas, a propagação da leitura depende ainda de uma valorização positiva do lazer, já que os livros constituíam uma das primeiras manifestações baratas e acessíveis de entretenimento.

Tal como aconteceu à literatura infantil, a indústria do lazer descobriu seu material primitivo entre a população rural. Os primeiros exemplos provieram da literatura de cordel, molde para a fabricação do folhetim, gênero que se expandiu nos centros urbanos, graças à difusão do jornal, e que colaborou com a estruturação e fortalecimento do romance.[7] Tornou-se, assim, o modelo das demais expressões de literatura de massa, até o momento em que outros produtos, veiculados com mais propriedade pelos meios de comunicação, substituíram o livro e a leitura, satisfazendo as necessidades de fantasia e efabulação com outras linguagens, mais eficientes e diretas.

Se é certo que leitores sempre existiram em todas as sociedades nas quais a escrita se consolidou enquanto código, como se sabe a propósito dos gregos[8], só existem o leitor, enquanto prática coletiva, em sociedades de recorte burguês, onde se verifica no todo ou em parte uma economia capitalista. Esta se concretiza em empresas industriais, comerciais e financeiras, na vitalidade do mercado consumidor e na valorização da família, do trabalho e da educação.

Foi nestas condições que os leitores, cada vez mais numerosos, se transformaram em público consumidor de uma mercadoria muito específica. Estes leitores de carne e osso, dos quais se ocupam os censos e que sustentam o negócio dos livros, passíveis, portanto, de serem historicizados e estudados estatisticamente, têm sua contrapartida textual: o leitor empírico, destinatário virtual de toda criação literária, é também direta ou indiretamente introjetado na obra que a ele se dirige. Assim, nomeado ou anônimo, converte-se em texto, tomando a feição de um sujeito com o qual se estabelece um diálogo, latente mas necessário.[9]

Este dublê do leitor de carne e osso, por hipótese, guarda com ele muitas semelhanças. Projeção do desejo do escritor, de suas memórias de leitura, da utopia de uma época ou reflexo de pesquisa de mercado, o leitor que o texto representa pode considerar-se, não sem razão, e com certeza sem hipocrisia, irmão e semelhante do leitor empírico, óculos por sobre o nariz e olhos atentos a linhas e entrelinhas.

Assim sendo, não apenas porque consiste numa das primeiras manifestações da indústria do lazer, nem porque não perdeu a natureza pedagógica que a fez ser primeiramente patrocinada por grupos religiosos, a leitura apresenta particularidades concretizadas na conceituação do leitor. Este se configura como sujeito dotado de reações, desejos e vontades, a quem cabe seduzir e convencer. Todo escritor, voluntariamente ou não, depara com essa instância da alteridade, procurando conquistá-la de um modo ou de outro. A forma como o faz sinaliza o tipo de comunicação que tem em vista e indica o modo como se posiciona diante da circulação de sua obra, vale dizer, da socialização de seu texto.

O tratamento dispensado ao leitor, que resulta na ficcionalização deste – forma de melhor gerenciar o que, por ficar aquém da página, fica além do alcance do escritor –, é lugar privilegiado para o início do desenho de uma história social da leitura. Volker Roloff sintetiza a importância que têm a tematização da leitura e a formulação textual do leitor para a produção dessa história:

Pode-se tomar como ponto de partida o fato de que os próprios autores – devido à sua particular experiência de leitura e capacidade de representação – detêm uma posição privilegiada para formular o problema da “leitura” e que os textos literários podem ser vistos basicamente de modo mais ou menos explícito, como tematização da leitura; deste modo, a história da leitura sempre pode aprender também com a análise dos textos literários representativos enquanto pontos de intersecção nos quais se encontram ler e escrever.[10]

Torna-se, assim, a tematização da leitura lugar privilegiado para o tecimento desta história não só por representá-la ou questioná-la, mas, principalmente, por tecê-la a partir da linguagem em que se criam tais leitores de papel e tinta.

__________
* Extraído de: LAJOLO, Marisa; ZILBERMAN, Regina. A formação da leitura no Brasil. São Paulo: Ática, 1999, p. 14-17.
[1] Cf. Febvre, Lucien et Martin, Henri-Jean. L’apparition du livre. Paris: Albin Michel, 1971; Labarre, Albert. Histoire du livre. Paris: PUF, 1979; Steinberg, S.H. Five hundred years of printing. London: Penguin, 1979. Para uma história da leitura, v. Baumgärtner, Alfred Clemens (Hrsg.). Lesen – Ein Handbuch. Hamburg: Verlag für Buchmarkt-Forschung, 1974; Dann, Otto (Hrsg.). Lesegesellchaft und Bürgelishe Emanzipation. Ein europäisschen Vergleich. München: Beck, 1981; James, Louis (ed.). Print and the people 1819-1851. London: Penguin, 1978; Lesen-historisch. Zeitschift für Literaturwissenschaft und Linguistik, v. 57-8. Göttingen: Vandenheoek und Ruprecht, 1985. A propósito da interferência do Estado, cf. Darnton, Robert. The literary underground of the Old Regime. Cambridge and London: Harvad University Press, 1992.
[2] Cf. Ariès, Philippe. História social da criança e da família. Rio de Janeiro: Zahar, 1979; Poster, Mark. Teoria crítica da família. Rio de Janeiro: Zahar, 1979; Shorter, Edward. The making of the modern family. Glasgow: Fontana-Collins, 1979; Stone, Lawrence. The family, sex and marriage in England 1550-1800. London: Pelican, 1979.
[3] Cf. Donzelot, Jacques. The policing of families. New York: Pantheon, 1979.
[4] Cf. Altick, Richard D. The English common reader. A social history of the mass reading public 1800-1900. Chicago and London: The University of Chicago Press, 1963; Chartier, Roger. “Du livre au lire”. In: Chartier, Roger et alii. Pratiques de la lecture. Paris et Marseille: Rivages, 1985; Jauss, Hans Robert. Der Leser als Instanz einer neuen eschichte der Literatur. Poetica 7 (1975), 325-44.
[5] Cf. Benjamin, Walter. “O narrador. Considerações sobre a obra de Nikolai Leskov”. In: _____. Magia e técnica, arte e política. Ensaios sobre literatura e história da cultura. São Paulo: Brasiliense, 1985.
[6] Cf. Richter, Dieter und Merkel, Johannes. Märchen, Phantasie und soziales Leben. Berlin: Basic Verlag, 1974; Röhrich, Lutz. Märchen und Wirklichkeit. Wiesbaden: Franz Steiner Verlag, 1974; Knoop, Ulrich. Die Verschriftlichung der Märchen durch die Brüder Grimm. Zeitschrift für Literaturwissenschaft und Linguistik 59 (1985): 82-93. Göttingen: Vandenhoek und Ruprecht, 1985.
[7] Cf. Schenda, Rudolf. Die Lesestoffe der kleinen Leute. Studien zur populären Literatur im 19. und 20.Jahrhundert. München: Beck, 1976; _____. Volk ohne Buch. Studien zur Sozialgeschichte der populären Lesestoffe. München: DTV, 1977; Chartier, Roger. “Strategies éditoriales et lectures populaires. 1530-1660”. In: Martin, Henry-Jean et Chartier, Roger. Histoire de l’édition française. Tomo II. Paris: Promodies, 1985; _____. Lecures et Lecteurs dans la France d’Ancien Régime. Paris: Seuil, 1987.
[8] Cf. Marrou, Henri-Irenée. História da educação na Antiguidade. Brasília: Instituto Nacional do Livro; São Paulo: Editora Pedagógica e Universitária, 1978; Harris, William. V. Ancient literacy. Cambridge and London: Harvard University Press, 1989.
[9] Cf. Iser, Wolfgand. The implied reader. Baltimore: The Johns Hopkins University Press, 1978; _____. Der Akt des Lesens. München: Fink, 1976; Peter, J. Before reading. Narrative conventions and politics of interpretation. Ithaca and London: Cornell University Press, 1987.
[10] Roloff, Volker. “Von der Laserpsychologie des Fin de Siècle zum Lectüreroman. Zur Thematizierung des Lektüre bei Autoren der Jahrhundertwende”. In: Lesen-historisch. Zeitschift für Literaturwissenschaft und Linguistik, v. 57-8. Göttingen: Vandenheoek und Ruprecht, 1985.