O Leitor, esse desconhecido

por Marisa Lajolo & Regina Zilberman

QUEM É O LEITOR?

Se não podemos escrever a biografia do leitor, temos condições de narrar sua história, que começou com a expansão da imprensa e desenvolveu-se graças à ampliação do mercado de livros, à difusão da escola, à alfabetização em massa das populações urbanas, à valorização da família e da privacidade doméstica e à emergência da idéia de lazer. Ser leitor, papel que, enquanto pessoa física, exercemos, é função social, para a qual se canalizam as ações individuais, esforços coletivos e necessidades econômicas.

A história do leitor principiou na Europa, aproximadamente, no século XVIII, quando convergiram fatores que vinham tendo desdobramento autônomo. Nessa época, a impressão de obras escritas deixou de ser um trabalho quase artesanal, exercido por hábeis tipógrafos e gerenciado pelo Estado, que, por meio de alvarás e decretos, facultava, ou não, o aparecimento dos livros. Tornou-se atividade empresarial, executada em moldes capitalistas, dirigida para o lucro e dependente de uma tecnologia que custava cada vez menos e rendia cada vez mais.[1]

Esse objetivo, no entanto, só começou a se realizar plenamente quando o negócio de livros passou a contar com clientela capaz de consumir o produto, isto é, pessoas que dominavam com a necessária desenvoltura a habilidade de ler, o que adveio do fortalecimento da escola e da obrigatoriedade do ensino. Toas as revoluções burguesas dos séculos XVIII e XIX, a começar pela paradigmática, a da França em 1789, tiveram, entre outras, essas metas: afastaram o Estado das operações econômicas, facilitando o comércio, independente e o liberalismo financeiro, para envolvê-los nos projetos sociais, predominantemente os relacionados à saúde e à educação. Com isso, ficava o capital livre para usar o mercado da maneira que lhe aprouvesse.

Para a leitura se expandir a ponto de se transformar em prática social, foi também necessária outra mudança: deu-se uma até então inédita e a partir daí permanente valorização da família. Até o século XVIII, predominavam, entre as elites, os grupos unidos por laços de parentesco, que, graças a matrimônios de conveniência, formavam alianças políticas poderosas; entre as classes baixas, prevaleciam as corporações profissionais, expedientes que recorriam para se proteger da violência dos senhores feudais. Esse sistema se desfez depois do século XVII, quando se impôs o Absolutismo, fundado na soberania do Estado e corporificado na figura do monarca, e anularam-se as forças políticas adversárias, que impediam a centralização administrativa e desarticulavam a unidade nacional.

Este modelo de Estado foi útil à burguesia enquanto ela precisou combater o feudalismo e a aristocracia, para quem o conceito de família confundia-se com os casamentos a serem negociados entre seus membros. As revoluções dos séculos XVIII e XIX foram demolindo o regime absolutista e substituindo-o pela democracia e o liberalismo, ao mesmo tempo em que fortaleciam o padrão familiar resultante da ideologia burguesa ascendente.[2]

Enquanto instituição, a família é imprescindível ao projeto burguês, por constituir simultaneamente unidade e fragmento. Unidade porque apresenta laços internos sólidos, sustentados pela ideologia familista, que mistifica a maternidade, destaca o amor filiar, invoca deveres entre pais e filhos e sublinha o afeto entre seus membros; fragmento, por resultar da desagregação dos grandes grupos a que outrora se integrou.

A família é a miniatura da sociedade idealizada pela burguesia, pois contrapõe à força da ideologia que a sustenta a fragilidade de seu poder político. Seu âmbito de atuação é privado, ficando a esfera pública por conta e risco da economia de mercado. Sendo a privacidade o espaço que lhe é destinado, a família torna-se uma entidade política que se singulariza por sua despolitização.[3] Mas não deixa de constituir peça fundamental da sociedade moderna, pois a valorização da vida doméstica nasceu da desmontagem de outras forças capazes de desafiar o poder maior da burguesia e do tipo de Estado, despersonalizado e distante, por ela estabelecido. Por isso, ainda que não se confunda com uma camada social, com um partido ou com uma idéia, a família constrói e consolida a sociedade burguesa, organizando-a para aquém e para além das camadas sociais, partidos ou idéias.

É no interior desse modelo moderno de família que se intensifica o gosto pela leitura, por se constituir em atividade adequada ao contexto de privacidade próprio à vida doméstica. De outro lado, o saber ler, principalmente para os grupos religiosos, entre os quais se contam acima de tudo os protestantes e reformistas, interessados no conhecimento e difusão da Bíblia[4], passou a ser considerado habilidade necessária à formação moral das pessoas. Atitude individual ou praxe coletiva, silenciosa ou em voz alta, a leitura do folhetim semanal ou das Sagradas Escrituras invade o lar burguês, integrando-se ao cotidiano familiar e passando a constar das representações imaginárias da classe média, traduzidas, por exemplo, por pinturas e fotografias que retratam a paz doméstica abrigada pelo livro.

A leitura fortalece e se institucionaliza no avesso das práticas associadas aos modos tradicionais de narrar, de tipo oral, fundados na experiência vivida, de sentido comunitário e enraizados no meio rural, cujo desaparecimento Walter Benjamin lamenta.[5] Como se vê, não contradiz essas práticas, senão que as transporta para o meio urbano e para o universo domesticado a família burguesa. Não por acaso os primeiros livros de sucesso entre a infância européia, iniciadora da literatura infantil, resultaram da apropriação dos contos populares que circulavam entre os homens do campo.[6]

Contudo, cabe lembrar que, em suas formas mais modernas, a propagação da leitura depende ainda de uma valorização positiva do lazer, já que os livros constituíam uma das primeiras manifestações baratas e acessíveis de entretenimento.

Tal como aconteceu à literatura infantil, a indústria do lazer descobriu seu material primitivo entre a população rural. Os primeiros exemplos provieram da literatura de cordel, molde para a fabricação do folhetim, gênero que se expandiu nos centros urbanos, graças à difusão do jornal, e que colaborou com a estruturação e fortalecimento do romance.[7] Tornou-se, assim, o modelo das demais expressões de literatura de massa, até o momento em que outros produtos, veiculados com mais propriedade pelos meios de comunicação, substituíram o livro e a leitura, satisfazendo as necessidades de fantasia e efabulação com outras linguagens, mais eficientes e diretas.

Se é certo que leitores sempre existiram em todas as sociedades nas quais a escrita se consolidou enquanto código, como se sabe a propósito dos gregos[8], só existem o leitor, enquanto prática coletiva, em sociedades de recorte burguês, onde se verifica no todo ou em parte uma economia capitalista. Esta se concretiza em empresas industriais, comerciais e financeiras, na vitalidade do mercado consumidor e na valorização da família, do trabalho e da educação.

Foi nestas condições que os leitores, cada vez mais numerosos, se transformaram em público consumidor de uma mercadoria muito específica. Estes leitores de carne e osso, dos quais se ocupam os censos e que sustentam o negócio dos livros, passíveis, portanto, de serem historicizados e estudados estatisticamente, têm sua contrapartida textual: o leitor empírico, destinatário virtual de toda criação literária, é também direta ou indiretamente introjetado na obra que a ele se dirige. Assim, nomeado ou anônimo, converte-se em texto, tomando a feição de um sujeito com o qual se estabelece um diálogo, latente mas necessário.[9]

Este dublê do leitor de carne e osso, por hipótese, guarda com ele muitas semelhanças. Projeção do desejo do escritor, de suas memórias de leitura, da utopia de uma época ou reflexo de pesquisa de mercado, o leitor que o texto representa pode considerar-se, não sem razão, e com certeza sem hipocrisia, irmão e semelhante do leitor empírico, óculos por sobre o nariz e olhos atentos a linhas e entrelinhas.

Assim sendo, não apenas porque consiste numa das primeiras manifestações da indústria do lazer, nem porque não perdeu a natureza pedagógica que a fez ser primeiramente patrocinada por grupos religiosos, a leitura apresenta particularidades concretizadas na conceituação do leitor. Este se configura como sujeito dotado de reações, desejos e vontades, a quem cabe seduzir e convencer. Todo escritor, voluntariamente ou não, depara com essa instância da alteridade, procurando conquistá-la de um modo ou de outro. A forma como o faz sinaliza o tipo de comunicação que tem em vista e indica o modo como se posiciona diante da circulação de sua obra, vale dizer, da socialização de seu texto.

O tratamento dispensado ao leitor, que resulta na ficcionalização deste – forma de melhor gerenciar o que, por ficar aquém da página, fica além do alcance do escritor –, é lugar privilegiado para o início do desenho de uma história social da leitura. Volker Roloff sintetiza a importância que têm a tematização da leitura e a formulação textual do leitor para a produção dessa história:

Pode-se tomar como ponto de partida o fato de que os próprios autores – devido à sua particular experiência de leitura e capacidade de representação – detêm uma posição privilegiada para formular o problema da “leitura” e que os textos literários podem ser vistos basicamente de modo mais ou menos explícito, como tematização da leitura; deste modo, a história da leitura sempre pode aprender também com a análise dos textos literários representativos enquanto pontos de intersecção nos quais se encontram ler e escrever.[10]

Torna-se, assim, a tematização da leitura lugar privilegiado para o tecimento desta história não só por representá-la ou questioná-la, mas, principalmente, por tecê-la a partir da linguagem em que se criam tais leitores de papel e tinta.

__________
* Extraído de: LAJOLO, Marisa; ZILBERMAN, Regina. A formação da leitura no Brasil. São Paulo: Ática, 1999, p. 14-17.
[1] Cf. Febvre, Lucien et Martin, Henri-Jean. L’apparition du livre. Paris: Albin Michel, 1971; Labarre, Albert. Histoire du livre. Paris: PUF, 1979; Steinberg, S.H. Five hundred years of printing. London: Penguin, 1979. Para uma história da leitura, v. Baumgärtner, Alfred Clemens (Hrsg.). Lesen – Ein Handbuch. Hamburg: Verlag für Buchmarkt-Forschung, 1974; Dann, Otto (Hrsg.). Lesegesellchaft und Bürgelishe Emanzipation. Ein europäisschen Vergleich. München: Beck, 1981; James, Louis (ed.). Print and the people 1819-1851. London: Penguin, 1978; Lesen-historisch. Zeitschift für Literaturwissenschaft und Linguistik, v. 57-8. Göttingen: Vandenheoek und Ruprecht, 1985. A propósito da interferência do Estado, cf. Darnton, Robert. The literary underground of the Old Regime. Cambridge and London: Harvad University Press, 1992.
[2] Cf. Ariès, Philippe. História social da criança e da família. Rio de Janeiro: Zahar, 1979; Poster, Mark. Teoria crítica da família. Rio de Janeiro: Zahar, 1979; Shorter, Edward. The making of the modern family. Glasgow: Fontana-Collins, 1979; Stone, Lawrence. The family, sex and marriage in England 1550-1800. London: Pelican, 1979.
[3] Cf. Donzelot, Jacques. The policing of families. New York: Pantheon, 1979.
[4] Cf. Altick, Richard D. The English common reader. A social history of the mass reading public 1800-1900. Chicago and London: The University of Chicago Press, 1963; Chartier, Roger. “Du livre au lire”. In: Chartier, Roger et alii. Pratiques de la lecture. Paris et Marseille: Rivages, 1985; Jauss, Hans Robert. Der Leser als Instanz einer neuen eschichte der Literatur. Poetica 7 (1975), 325-44.
[5] Cf. Benjamin, Walter. “O narrador. Considerações sobre a obra de Nikolai Leskov”. In: _____. Magia e técnica, arte e política. Ensaios sobre literatura e história da cultura. São Paulo: Brasiliense, 1985.
[6] Cf. Richter, Dieter und Merkel, Johannes. Märchen, Phantasie und soziales Leben. Berlin: Basic Verlag, 1974; Röhrich, Lutz. Märchen und Wirklichkeit. Wiesbaden: Franz Steiner Verlag, 1974; Knoop, Ulrich. Die Verschriftlichung der Märchen durch die Brüder Grimm. Zeitschrift für Literaturwissenschaft und Linguistik 59 (1985): 82-93. Göttingen: Vandenhoek und Ruprecht, 1985.
[7] Cf. Schenda, Rudolf. Die Lesestoffe der kleinen Leute. Studien zur populären Literatur im 19. und 20.Jahrhundert. München: Beck, 1976; _____. Volk ohne Buch. Studien zur Sozialgeschichte der populären Lesestoffe. München: DTV, 1977; Chartier, Roger. “Strategies éditoriales et lectures populaires. 1530-1660”. In: Martin, Henry-Jean et Chartier, Roger. Histoire de l’édition française. Tomo II. Paris: Promodies, 1985; _____. Lecures et Lecteurs dans la France d’Ancien Régime. Paris: Seuil, 1987.
[8] Cf. Marrou, Henri-Irenée. História da educação na Antiguidade. Brasília: Instituto Nacional do Livro; São Paulo: Editora Pedagógica e Universitária, 1978; Harris, William. V. Ancient literacy. Cambridge and London: Harvard University Press, 1989.
[9] Cf. Iser, Wolfgand. The implied reader. Baltimore: The Johns Hopkins University Press, 1978; _____. Der Akt des Lesens. München: Fink, 1976; Peter, J. Before reading. Narrative conventions and politics of interpretation. Ithaca and London: Cornell University Press, 1987.
[10] Roloff, Volker. “Von der Laserpsychologie des Fin de Siècle zum Lectüreroman. Zur Thematizierung des Lektüre bei Autoren der Jahrhundertwende”. In: Lesen-historisch. Zeitschift für Literaturwissenschaft und Linguistik, v. 57-8. Göttingen: Vandenheoek und Ruprecht, 1985.
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