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A violência da história – por Alcino Leite Neto

29/08/2009

Obra de Malraux dramatiza confronto entre a moral do indivíduo e a fatalidade do real; para seu mais importante biógrafo, escritor acreditava que religião teria papel decisivo no século 21

“Você quer fazer do terrorismo uma espécie de religião?”, pergunta Souen a Tchen em “A Condição Humana” (1933), de André Malraux. Souen continua: “Eu sou menos inteligente que você, Tchen, mas para mim… para mim… não. (…) É pelos nossos que eu combato, não por mim”. Tchen retruca: “Para os nossos você não pode fazer coisa melhor do que decidir morrer. A eficácia de nenhum homem pode ser comparada àquela do homem que escolheu isso”. Mais tarde, Tchen vai levar a cabo o seu ataque suicida contra Chiang Kai-shek: “Dar um sentido imediato ao indivíduo sem esperança e multiplicar os atentados, não por uma organização, mas por uma idéia: fazer renascerem os mártires. (…) Tchen apertou a bomba sobre seu braço com conhecimento de causa. (…) O carro do general estava a cinco metros, enorme. Ele correu na sua direção com uma alegria extática, se lançou por cima dele, com os olhos fechados”.

Ler, reler André Malraux é quase uma obrigação nestes tempos. A história não acabou, como previam alguns, e poucos, como o escritor francês, puderam retratar com tanto vigor os conflitos entre o indivíduo e a história, a associação política e a decisão moral, os atos da vontade e a fatalidade dos fatos. O centenário de seu nascimento, no próximo dia 3 de novembro, é também um bom pretexto para voltar a sua obra. Outro ainda é o que o Mais! oferece agora ao leitor, com a publicação de um desconhecido e apaixonado texto do crítico e escritor Paulo Emílio Salles Gomes sobre Malraux. O texto de Paulo Emílio (1916-1977) é uma longa resenha a respeito da mais célebre biografia do escritor francês: “André Malraux – Une Vie dans le Siècle” (Uma Vida no Século), feita pelo jornalista Jean Lacouture. Foi escrita em 1973, ano em que a editora Seuil publicou o livro na França. No mesmo estilo que Paulo Emílio consagraria em suas críticas de cinema, a resenha é simultaneamente um apanhado extensivo da vida de Malraux, uma análise de sua obra, de seu perfil moral e político e uma crítica propriamente dita ao livro de Lacouture.

Radiografia do terrorismo

A Folha conversou com Lacouture em Paris a respeito de um dos elementos que hoje aparecem com mais força na obra do escritor: a sua observação radiográfica do terrorismo e da violência da história. Para o biógrafo, Malraux, que morreu em 1976, já tinha consciência do que aguardava o mundo nestes dias. “Ele acreditava em duas coisas: que o mundo é transformado pela violência e que a religião teria papel bastante importante no século 21”, afirma Lacouture, hoje com 80 anos.
A escritora Lygia Fagundes Telles, que foi casada com Paulo Emílio, conta que Malraux era uma das grandes admirações do crítico. “Ele adorava “A Condição Humana”. Achava que ninguém havia falado com tanta precisão no romance sobre os dramas dos revolucionários. Paulo conheceu Malraux em Paris. Tinha um exemplar do livro com dedicatória”, diz Lygia.

Malraux teve simpatias pelo socialismo, lutou ao lado dos comunistas contra Hitler e junto com os republicanos espanhóis contra Franco, mas nunca aderiu ao marxismo. “A Condição Humana” conta as ações secretas dos comunistas na China e a insurreição armada promovida por eles em Xangai, em 1927.

Paulo Emílio, por sua vez, foi desde a juventude um marxista que iria se inclinar pelo trotskismo. Por conta de sua militância, foi preso aos 19 anos, no bojo das perseguições feitas após o fracasso da Intentona Comunista (1935). Protagonizou uma fuga sensacional do presídio do Paraíso, em São Paulo, com 16 outros detentos, através de um túnel de dez metros. Exilou-se em Paris, onde passou dois anos. Nesse período, revela Lygia, Paulo Emílio foi analisado por Jacques Lacan. “Mas ele não gostaria que eu contasse isso.”

Segundo a escritora, Paulo Emílio identificava as suas atribulações políticas com aquelas por que passou Malraux -muito mais trágicas e aventurosas, aliás, como a sua tentativa de roubo de peças arqueológicas do Camboja, pelo que também foi preso e passou um ano no cárcere oriental. “Paulo falava muito da vida do Malraux, dos dramas que viveu, de sua fibra.”

Lygia define, porém, a fascinação de Paulo Emílio pelo escritor como “contraditória”. “Ele lamentava o fascínio que Malraux tinha pelo poder, o seu envolvimento com o Estado francês do pós-guerra. Paulo era um trotskista muito rigoroso e, para ele, Malraux teria traído a causa socialista”, conta a escritora.

A escritora Lygia Fagundes Telles, que foi casada com Paulo Emílio, conta que Malraux era uma das grandes admirações do crítico. “Ele adorava “A Condição Humana”. Achava que ninguém havia falado com tanta precisão no romance sobre os dramas dos revolucionários”, diz
Não foi só ele que pensou assim. Uma nova biografia publicada na França, “André Malraux – Une Vie” (ed. Gallimard), do jornalista Olivier Todd, enfatiza o anti-comunismo do escritor e revela, a partir de documentos da antiga KGB (o serviço secreto soviético), que os russos planejavam matá-lo durante a Guerra Civil Espanhola, por julgá-lo próximo demais dos anarquistas.

A associação com os comunistas durante a Resistência aos nazistas também foi circunstancial. Já no fim da Segunda Guerra, ele se liga ao general Charles de Gaulle e o acompanha em sua escalada de poder na França. Em 1959, Malraux foi nomeado ministro da Cultura. “Paulo Emílio implicava muito que ele tivesse se associado tanto ao poder, mas também dizia que ele fez coisas boas, como limpar os prédios históricos de Paris”, diz Lygia. A escritora chegou a conhecer André Malraux no mesmo ano de 1959, quando ele esteve no Brasil durante uma missão diplomática pela América Latina: “Era um homem de olhos bonitos, largos, brilhantes, uma cara fortíssima”.

Lygia não se lembra por que o texto de Paulo Emílio permaneceu inédito, mas talvez seja esse o motivo: foi escrito em pleno governo Médici (1969-1974), quando o regime militar de 64 vivia a sua fase mais repressiva. Sem descuidar do personagem nem da biografia, Paulo Emílio procura no livro os temas que lhe interessam no momento. Sua desmontagem do mito Malraux é também uma forma de afrontar o poder instituído. Seu comentário sobre a tortura, ao final do texto, é um protesto contra as práticas do regime militar brasileiro e contra o terrorismo de Estado.

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* Fonte: Folha de S. Paulo, Mais, 28.10.2001. Disponível em http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs2810200105.htm

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“O Coração das Trevas”: uma denúncia contra a exploração imperialista

22/08/2009

por Samuel Douglas Farias Costa*

Publicado pela primeira vez em 1902 por Józef Teodor Nalecz Korzeniowski, conhecido como Joseph Conrad, O Coração das Trevas é uma obra literária com fortes críticas ao imperialismo e colonialismo. Além de O Coração das Trevas, o escritor polonês escreveu também outros títulos clássicos como Lord Jim (1900) e Nostromo (1904).

A idéia de escrever a obra surgiu mais como uma necessidade após uma viagem de Conrad ao Congo em 1890. Fascinado por mapas desde pequeno e em especial pelo continente africano, ele teve uma grande decepção ao descobrir o quão grave era a situação que se passava na África. O Congo estava sob o regime do rei Leopoldo II da Bélgica, e este dava concessão para que várias companhias européias explorassem o terreno congolês em busca de marfim, desde que efetuassem o pagamento de taxas. O tipo de trabalho era de semi-escravidão, e os nativos recebiam salários míseros. Conrad comandou um barco a vapor pelo rio Congo, e antes de chegar ao país destinado ele já havia percebido que as coisas no continente africano não funcionavam como ele imaginava. Ele foi para África contratado pela Belgian Société Anonyme Belge por lê Commerce du Haunt-Congo, porém voltou antes mesmo de cumprir com o seu contrato. A injustiça e exploração contra aquele povo fizeram com que ele convertesse uma denúncia em obra literária.

Dessa sombria viagem surgiu O Coração das Trevas. No livro podemos ver referências claras à experiência de Conrad. Marlow é inglês e capitão de um barco a vapor que narra a estória. A serviço de uma companhia de exploração de marfim, ele e sua tripulação de peregrinos e nativos seguem ao encontro de Kurtz, o maior explorador do grupo. Este é consagrado e respeitado por todos, e após anos na selva, já não se encontra em estado de sanidade. Os motivos para sua loucura estão totalmente ligados com a posição do poder inglês quanto aos nativos, a exploração, o racismo, a violência entre outros aspectos que são alguns explícitos e outros implícitos na obra.

Direto para o Coração das Trevas

No final do século XVIII e meados do século XIX, a Inglaterra toma a frente na colonização da África. Após a Revolução Industrial e as guerras napoleônicas, surge o interesse em uma expansão militar e econômica, e nesse quesito a Inglaterra desenvolve uma economia marítima com grande potencial.

A Inglaterra foi uma das potencias capitalistas que, no século XIX, implantaram o Neocolonialismo. Este visava a exploração econômica e política do território. Levando-se em conta que a escravatura se encontrava em um estado não tão lucrativo, os ingleses partem para a exportação de marfim, ouro, animais, tapetes entre outros. Sendo assim, o mercado africano fica sob controle do Império Britânico. A população nativa, dominada à base da exploração e violência, se torna mão-de-obra barata. Esta foi uma das principais denúncias feitas por Conrad. O autor deixa isso claro no livro:

Seis negros avançavam em fila, subindo a trilha com dificuldade. Caminhavam eretos e devagar, equilibrando pequenas cestas cheias de terra sobre a cabeça, e o tilintar marcava o ritmo se seus passos. Trapos pretos circundavam-lhes o lombo, e as curtas pontas atrás balançavam para lá e para cá como rabos. Podia-se ver cada costela, as juntas pareciam nós numa corda; cada um tinha uma argola de ferro no pescoço, e estavam todos atados com uma corrente, cujos elos balançavam entre eles, tilintando no ritmo. (…) Haviam sido tachados de criminosos, e a lei ultrajada, assim como os bombardeios, tinha chegado até eles como um mistério insolúvel vindo do mar. (CONRAD, 2005, p.28-29)

Apesar do caráter crítico da obra de Conrad, muitos estudos e discussões surgiram sobre O Coração das Trevas, pois existe uma ambigüidade. Raquel Gryszczenko Alves Gomes apresenta essa característica em seu artigo “O lugar das trevas: Leituras e releituras de O Coração das Trevas em tempos de pós-modernismo”. Alguns afirmam que a obra tem um caráter racista, entre eles se encontra o nigeriano prêmio Nobel de literatura Chinua Achebe.

Em 1977 Achebe publicou um artigo intitulado de “An Image of Africa: Racism in Conrad’s Heart of Darkness.”[1], onde ele propõe analisar o livro de Conrad como sendo um romance racista. Ele diz que a obra trata os africanos como selvagens, sem idioma e sem cultura. Achebe assume que tem consciência de que quem conta a história não é o Conrad, e sim o personagem fictício Marlow, mas mesmo assim não muda sua opinião quanto ao caráter do livro. Para ele:

Deve ser argumentado, é claro, que a atitude para com o Africano em O Coração das Trevas não é de Conrad, mas sim de seu narrador ficcional, Marlow, e que longe de endossá-la, Conrad pode, de fato, utilizar-se de ironia e crítica. Certamente Conrad parece ter enfrentado esforços consideráveis para estabelecer camadas de isolamento entre si mesmo e o universo moral de sua história. Ele tem, por exemplo, um narrador por trás de outro narrador. O narrador primordial é Marlow, mas sua descrição é nos dada através do filtro de um segundo, uma pessoa imprecisa. Mas se é intenção de Conrad traçar um cordão sanitário entre si mesmo e o mal-estar moral e psicológico de seu narrador, seu empenho parece-me totalmente desperdiçado, porque ele negligencia em dar uma dica – mesmo que sutil ou através de um referencial alternativo pelo qual possamos julgar as ações e opiniões de seus personagens. Não estaria além dos poderes de Conrad criar essas condições, se ele as achasse necessárias. Marlow parece-me receber completa confiança de Conrad – um sentimento reforçado pelas grande proximidade entre as carreiras de ambos.[2]

Segundo Achebe, Joseph Conrad tem uma visão eurocêntrica e racista do povo africano, tendo-os apenas como um plano de fundo de uma história que narra o percurso de um capitão inglês. Ao escrevermos um livro, um artigo ou um texto qualquer, nós definimos um ou mais assuntos que iremos abordar. No caso de Conrad, em sua obra podemos ver um grande estranhamento entre os europeus e africanos. Essa diferenciação entre duas culturas é algo comum, porém o que o autor ressalta é mais do que isso é o estranhamento entre o personagem principal e a exploração e violência usada contra o povo africano. Fato que conseqüentemente leva o leitor a uma possível reflexão, a qual, segundo o meu ponto de vista, era o objetivo de Conrad. Muito além de um caráter racista que o personagem Marlow pode ter, o objetivo final da obra não são as relações internas entre os personagens, e sim a relação externa entre o livro e o leitor, e neste ponto Conrad usa o livro como um meio de denúncia. Isso sem falar na crítica final construída em cima do personagem Kurtz.

No livro Cultura e Imperialismo, Edward Said faz uma análise sobre a obra de Conrad. Na seguinte passagem podemos analisar a maneira que Conrad escolheu para dar voz aos africanos:

Mas nem Conrad nem Marlow nos oferecem uma visão completa do que se encontra fora da postura dos conquistadores do mundo encarnada por Kurtz, por Marlow, pelo círculo de ouvintes no convés do Nellie e por Conrad. Com isso quero dizer que Heart of Darkness é uma obra que funciona tão bem porque sua política e sua estética são, por assim dizer, imperialistas, as quais, nos últimos anos do século XIX, pareciam ser uma política e uma estética, e até uma epistemologia, inevitáveis e inescapáveis. Pois se de fato não conseguimos entender a experiência do outro e se, portanto, precisamos depender da autoridade impositiva do tipo de poder que Kurtz exerce como homem branco na selva ou que Marlow, outro branco, exerce como narrador, é inútil procurar outras alternativas não imperialistas: o sistema simplesmente as eliminou ou tornou-as inconcebíveis. A circularidade, o fechamento perfeito da coisa toda é inexpugnável não só em termos estéticos, mas também mentais. (SAID, 1995, p.56).

Said diz que Conrad usa os personagens europeus, como Kurtz e Marlow, como “porta-voz” do povo africano. Pois é através deles que vamos perceber toda a violência e exploração. Nesses personagens vemos o reflexo do sofrimento do povo africano. Reflexo que faz com que Kurtz em meio a sua loucura perceba “O horror!” que ele próprio diz a beira da morte. Levando em consideração que Conrad tinha consciência dos males do imperialismo, Said aponta uma contradição da parte do autor:

A limitação trágica de Conrad é que, mesmo podendo enxergar com clareza que o imperialismo, em certo nível, consistia essencialmente em pura dominação e ocupação de territórios, ele não conseguia concluir que o imperialismo teria de terminar para que os ‘nativos’ pudessem ter uma vida livre da dominação européia. Como indivíduo de seu tempo, Conrad não podia admitir a liberdade para os nativos, apesar de suas sérias críticas ao imperialismo que os escravizava. (SAID, 1995, p 63).

Conrad se limita e não oferece uma possível alternativa para liberdade dos povos nativos. A descolonização que se desencadeia após a Segunda Guerra Mundial é vista por Said como resultado de um processo denominado por ele de “cultura de resistência”, que é dividido em duas fases. A primeira é quando os colonizados lutam contra a opressão e a segunda é a consolidação de uma ideologia e a divisão daquilo que lhes eram vetado e que agora assumiam por direito.

De 18 a 24 de abril de 1955, aconteceu a conferência de Bandung na Indonésia, onde vinte e nove estados asiáticos e africanos foram representados por seus líderes, de forma que buscavam a promoção da cooperação econômica e da cultura africana e asiática. Foi a primeira conferência a definir o imperialismo e o racismo como crime. Deram a idéia da criação do Tribunal da Descolonização, que julgaria os culpados pelo imperialismo de maneira que este fosse considerado um crime contra a humanidade, porém a idéia foi vetada por países centrais. A conferência foi um importante acontecimento para a consolidação da luta pela independência das colônias e também para a que houvesse uma relação de negociação entre estas e os países coloniais.

Quando lemos O Coração das Trevas, a todo o momento temos a sensação de um ser invisível que está presente a cada página. Um ser oculto que é enfatizado a todo instante: as trevas. Onde estão as trevas que tanto se enfatiza? Somos levados a pensar que se encontram no interior da mata fechada, que é desconhecida e misteriosa. Ou então, segundo uma visão européia da época, nos hábitos dos povos nativos, tais como o canibalismo. Mas essa é só uma primeira impressão. A grande crítica ao imperialismo está na conclusão do livro, onde além de toda a denúncia contra a exploração, temos a declaração de que toda a treva, que erroneamente era vista como habitada no continente africano, é vinda das intenções dos europeus e sua política imperialista. O personagem Kurtz representa o espírito de um homem capitalista que busca desenfreadamente acumular cada vez mais capital através da exploração de marfim. E para conseguir seus objetivos ele explora e comete atrocidades contra os nativos. Kurtz é levado à loucura por uma ganância compulsiva. E quando ele está à beira da morte, percebe que não irá tirar proveito nenhum de todo esse acúmulo de capital, pois morto ele não pode fazer mais nada. Vem então a percepção de todas as atrocidades que cometera, declarando assim antes de morrer as palavras: “O horror! O horror!”. O horror que está dentro do homem e que passa despercebido como algo natural e comum.

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* Graduando em Ciências Sociais (Universidade Estadual de Maringá).
[1] O artigo foi publicado pela Massachusetts Review 18 (1977). Porém o acesso conseguido foi a uma segunda versão através do website: http://wdavidhibler.googlepages.com/Achebe.pdf. [Acessado em 15 de maio de 2009].
[2] ACHEBE, Chinua, op. cit. Tradução do original: “It might be contended, of course, that the attitude to the African in Heart of Darkness is not Conrad’s but that of his fictional narrator, Marlow, and that far from endorsing it Conrad might indeed be holding it up to irony and criticism. Certainly Conrad appears to go to considerable pains to set up layers of insulation between himself and the moral universe of his history. He has, for example, a narrator behind a narrator. The primary narrator is Marlow but his account is given to us through the filter of a second, shadowy person. But if Conrad’s intention is to draw a cordon sanitaire between himself and the moral and psychological malaise of his narrator his care seems to me totally wasted because he neglects to hint however subtly or tentatively at an alternative frame of reference by which we may judge the actions and opinions of his characters. It would not have been beyond Conrad’s power to make that provision if he had thought it necessary. Marlow seems to me to enjoy Conrad’s complete confidence — a feeling reinforced by the close similarities between their two careers.”

Referências

ACHEBE, Chinua. An Image of Africa: Racism in Conrad’s Heart of Darkness. Disponível em: http://wdavidhibler.googlepages.com/Achebe.pdf. Acesso em: 15 de maio de 2009.
CONRAD, J. O coração das trevas. Porto Alegre: L&PM, 2005.
GOMES, Raquel Gryszczenko Alves . O lugar das trevas: Leituras e releituras de O Coração das Trevas em tempos de pós-modernismo. Disponível em: http://veredasdahistoria.kea.kinghost.net/edicao1/03_artigo_lugar_trevas.pdf. Acesso em: 15 de maio de 2009.
LIMONGE, Bernardete. “Introdução”. In: CONRAD, Joseph. O coração das trevas. São Paulo: Hedra, 2008.
SAID, Edward W. Cultura e imperialismo. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

Complexo de Lear – por Marina Silva

16/08/2009

DURANTE CURSO de especialização na Universidade de Brasília, estudei a obra “Rei Lear”, de Shakespeare. Talvez a tragédia possa nos ajudar a entender um pouco a política brasileira.

Ao sentir-se velho, Lear decide abdicar da sua condição de rei, do enfadonho encargo de governar.

Chama as filhas – Goneril, Regana e Cordélia – para dividir seus bens e poder, anunciando que seria mais agraciada aquela que lhe fizesse a maior declaração de amor. E impõe outra condição: enquanto vivesse, o rei deveria ter assegurado respeito, prestígio, cuidado e, quem sabe, até mesmo o amor de suas filhas e súditos. Quer deixar de ser rei sem perder a majestade.

Cordélia, a mais jovem, com quem o rei mais se identificava, e que muito o amava, não soube dizer o que sentia. As outras não sentiam amor pelo pai, mas eram hábeis na verve.

O que torna sua jornada trágica e dolorosa é que Lear se recusa a retornar ao que um dia foi, um simples homem, rei de si mesmo. Não quer morrer, tornar-se passado. Quer ser sucessivo como é a vida, reviver a fase do prazer de poder.

Quer ter séquito e até mesmo um bobo para ninar seu desamparo.

Mas ninguém pode impunemente regredir sem ser atormentado pelo fantasma da repetição. No seu obsessivo desejo de ser amado, Lear agarra-se às palavras de Goneril e Regana. E rejeita amargamente a rebeldia de Cordélia, que só sabia sentir e não se sujeita a ter que fazer uma declaração de amor ao pai, obrigando-o a perceber esse amor no único lugar onde deveria estar: no resultado afetivo de suas relações pessoais.

Não por acaso desmorona o mundo de Lear. O que antes era tão bem definido, passa a ser ambivalente. Certeza e dúvida, coragem e medo, segurança e desamparo. A loucura de não mais saber quem é.

O alto preço por ter almejado e transformado em “ato” o desejo de retornar ao lugar onde um dia esteve e querer assumir a forma do que um dia foi. Ele só existe no mundo daqueles que o aceitam e o amam tal como é. E mesmo estes, incluindo Cordélia, não têm mais como aceitar seu governo senil. Até porque foi ele próprio quem decidiu abdicar de ser quem era para tornar-se quem não mais podia ser.

Tornou-se merecedor da reprimenda feita por meio das palavras do bobo: “Tu não deverias ter ficado velho antes de ter ficado sábio”.

Genial Shakespeare, trágico rei, frágil humanidade de sempre, que não quer passar. Que infringe a ordem dos acontecimentos, sem o árduo trabalho de elaborá-los. Que desiste de ressignificar-se, e quer tão somente repetir o prazer da sensação vivida nas ilusões de majestade.

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contatomarinasilva@uol.com.br
* Fonte: Folha de S. Paulo, 03 de agosto de 2009. Disponível em http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz0308200906.htm

Livro reúne posts polêmicos do blog de José Saramago – por MARCOS STRECKER

08/08/2009

Textos para a internet do escritor português, que atacam Silvio Berlusconi, Bush e Sarkozy, ganham edição brasileira

Editora do autor na Itália gerou controvérsia ao se recusar a publicar volume “O Caderno”, a nova coletânea de textos do prêmio Nobel
[Foto: Carlos Alvarez – 3.mar.09/Getty Images – O escritor português José Saramago fala sobre sua obra numa entrevista coletiva em Madri]

“O Caderno” (Companhia das Letras, 224 págs., R$ 45) é, de certa forma, uma contradição em termos. Quem quiser consultar o blog do escritor José Saramago pode acessar diretamente na internet o endereço caderno.josesaramago.org. Então qual é o sentido de reunir em livro seus posts escritos entre setembro de 2008 e março de 2009? Os textos são os mesmos, a ordem cronológica permanece, não há apêndices.

Mas, como Saramago é Saramago, a publicação virou um acontecimento e gerou polêmica que correu o mundo, por conta das impertinências do autor contra políticos. A crítica que detonou a crise teve como alvo o primeiro-ministro italiano, Silvio Berlusconi.

No texto “Berlusconi & Cia.”, Saramago escreveu: “Na terra da máfia e da camorra, que importância poderá ter o facto provado de que o primeiro-ministro seja um delinquente?”.

Até aí, a provocação seria apenas mais uma entre tantas que se multiplicam sem consequências pela internet. Mas a Einaudi, que pertence a Berlusconi e publica Saramago na Itália, se recusou a publicar “O Caderno”, que inclui esse post. Saramago reagiu, e a polêmica atraiu a imprensa, lembrando a censura branca que “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” sofreu em Portugal, episódio emblemático em sua carreira.Agora, depois de dar entrevistas indignadas e escrever artigos duros, inclusive no espanhol “El País”, Saramago minimiza o episódio. Em entrevista por e-mail à Folha, disse que os dois incidentes “são casos diferentes”. Segundo ele, “em Portugal, a decisão foi do governo, na Itália foi a própria editora que, por temor às consequências, resolveu não publicar. De certa maneira, a editora foi mais papista que o papa”.

Isso não quer dizer que tenha mudado de opinião: “Que [Berlusconi] promove a corrupção, toda a gente o sabe. Quanto a ser comparável, no seu comportamento, a um “capo” da máfia, é uma opinião pessoal minha, de que, evidentemente, se pode discordar. Mas os fatos são eloquentes e permitem as piores comparações. Os escândalos [sobre sua relação com garotas de programa] provam o pouco caso que Berlusconi faz das funções que exerce como primeiro-ministro, salvo quando estão em causa os seus interesses”.

Bush e Sarkozy

O veto da editora italiana a “O Caderno” certamente não afetará a difusão de Saramago no país (“mais de 30 editoras da Itália se ofereceram para publicar o livro”). Berlusconi não é o único alvo. George W. Bush (“inteligência medíocre, ignorância abissal”) e Nicolas Sarkozy (“irresponsável”) também despertaram adjetivos no autor, assim como a esquerda (“continua sem ter uma puta ideia do mundo em que vive”).Quando Saramago lançou seu blog, muito se especulou sobre as implicações dessa produção em sua literatura. Qual a sua opinião? “A internet nem estimula nem atrapalha. São dois campos diferentes. A internet poderia desaparecer que eu continuaria com o meu trabalho, sem lhe sentir a falta.”

Isso não quer dizer que despreze a repercussão do blog: “Realmente surpreendeu-me. A penetração é enorme”.

Os textos reunidos em “O Caderno” permitem compreender as motivações de Saramago e, especialmente, sua relação próxima com o Brasil. Os textos coincidem com sua última viagem ao país, quando começou a escrever seu próximo romance, que ainda não tem título e será lançado até o final do ano.

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* Fonte: Folha de S. Paulo, 03 de agosto de 2009. Disponível em http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq0308200911.htm

Obra fragmentária de Said analisa artistas diante da morte – por FRANCISCO ALAMBERT

01/08/2009

Ensaios póstumos de crítico palestino partem da ideia de que proximidade do fim permite abandono de convenções

“Estilo Tardio” é o último livro de Edward Said, um dos mais importantes críticos culturais do fim do século 20. “Último”, aqui, tem sentido até paradoxal. Said morreu antes de terminar um projeto: analisar um possível estilo de artistas e pensadores diante da morte iminente. Sua obra tardia, portanto, ficou incompleta, e sua mulher e seus amigos organizaram o material que deixou. O livro foi publicado em 2006 e sai agora no Brasil.

O que seria estilo tardio? Segundo Said, a consciência da morte, no artista e no pensador radical, permite que ele abandone as convenções (as suas, inclusive) de seu tempo e sua “história”, o que pode derivar numa arte difícil, radical e irregular, estabelecendo uma “paisagem”, uma espacialização do tempo, que permite a descoberta de novas temporalidades.

Said não quer fazer um elogio da melancolia ou da velhice como “sapiência”. Aqui, o fim não é a pacificação, mas a radicalização, a exposição do irreconciliável, pois, para ele, como para seu mestre Adorno, na história da arte, as obras tardias são “catástrofes”. A ideia é tomada justamente de Adorno (em especial do ensaio sobre Beethoven e seu estilo tardio), com quem Said dialoga nesses ensaios.

Isso é uma ideia que se apreende da leitura, e não exatamente um “conceito”. O livro não dá respostas definitivas nem cria uma teoria cultural. Trata-se de tentativas de abordar fragmentariamente um tema. Sua fraqueza vem justamente de um estilo de pensamento que retira seus objetos da história: misturam-se Shakespeare, Sófocles, Adorno, Thomas Mann e Glenn Gould como se fossem idênticos no tempo. Sua força reside no fato de que o crítico tem os pés em seu tempo, na política palestina, nas contradições da cultura moderna, no papel do imperialismo, o que lhe permite buscar no passado formas de entender a atual alta cultura ocidental.

Viagem entre identidades

Por exemplo, o ensaio sobre Jean Genet trata do escritor francês em sua relação com o movimento palestino e a cultura política árabe, mas também com os Panteras Negras dos EUA. Genet é para Said um “viajante entre identidades” (o ensaio tem uma contundente crítica à “política das identidades” como forma avançada de exportação do imperialismo!).

A personalidade tardia recusa a adequação à “sua” sociedade. É um estado de desbunde que não espera ser reconhecido no presente, como os quartetos de Beethoven (que anteciparam a música futura) ou o exílio autoimposto do pianista Gould, que não sumiu para morrer, mas para radicalizar ideias sobre a interpretação de Bach. Said vê na ópera “Così fan Tutte”, de Mozart, um “universo sem esquemas redentores”.

É do que trata esse livro errático: do momento em que a dialética já não quer sínteses, e sim exibir o mundo em suas fraturas. Para Michael Wood (autor da introdução do livro), estes ensaios, em parte estabelecidos a partir de notas de aulas e palestras, não podem ser vistos como o estilo tardio do escritor. Said tinha leucemia, sabia que morreria logo, mas não tinha interesse em fazer uma obra tardia. Porém, o estilo peculiar de sua escrita, coloquial mas também teórica, deveria aparecer aqui tanto quanto a fragmentação de texto e ideias. Um desafio para o tradutor, Samuel Titan Jr., que saiu-se muito bem. É um livro bonito de ler.

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ESTILO TARDIO

Autor: Edward Said
Tradução: Samuel Titan Jr.
Companhia das Letras, 2009, 191págs.
* Fonte: Folha de S. Paulo, 01 de agosto de 2009. Disponível em http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq0108200912.htm
** FRANCISCO ALAMBERT é professor de história social da arte e história contemporânea da USP.