“O Coração das Trevas”: uma denúncia contra a exploração imperialista

por Samuel Douglas Farias Costa*

Publicado pela primeira vez em 1902 por Józef Teodor Nalecz Korzeniowski, conhecido como Joseph Conrad, O Coração das Trevas é uma obra literária com fortes críticas ao imperialismo e colonialismo. Além de O Coração das Trevas, o escritor polonês escreveu também outros títulos clássicos como Lord Jim (1900) e Nostromo (1904).

A idéia de escrever a obra surgiu mais como uma necessidade após uma viagem de Conrad ao Congo em 1890. Fascinado por mapas desde pequeno e em especial pelo continente africano, ele teve uma grande decepção ao descobrir o quão grave era a situação que se passava na África. O Congo estava sob o regime do rei Leopoldo II da Bélgica, e este dava concessão para que várias companhias européias explorassem o terreno congolês em busca de marfim, desde que efetuassem o pagamento de taxas. O tipo de trabalho era de semi-escravidão, e os nativos recebiam salários míseros. Conrad comandou um barco a vapor pelo rio Congo, e antes de chegar ao país destinado ele já havia percebido que as coisas no continente africano não funcionavam como ele imaginava. Ele foi para África contratado pela Belgian Société Anonyme Belge por lê Commerce du Haunt-Congo, porém voltou antes mesmo de cumprir com o seu contrato. A injustiça e exploração contra aquele povo fizeram com que ele convertesse uma denúncia em obra literária.

Dessa sombria viagem surgiu O Coração das Trevas. No livro podemos ver referências claras à experiência de Conrad. Marlow é inglês e capitão de um barco a vapor que narra a estória. A serviço de uma companhia de exploração de marfim, ele e sua tripulação de peregrinos e nativos seguem ao encontro de Kurtz, o maior explorador do grupo. Este é consagrado e respeitado por todos, e após anos na selva, já não se encontra em estado de sanidade. Os motivos para sua loucura estão totalmente ligados com a posição do poder inglês quanto aos nativos, a exploração, o racismo, a violência entre outros aspectos que são alguns explícitos e outros implícitos na obra.

Direto para o Coração das Trevas

No final do século XVIII e meados do século XIX, a Inglaterra toma a frente na colonização da África. Após a Revolução Industrial e as guerras napoleônicas, surge o interesse em uma expansão militar e econômica, e nesse quesito a Inglaterra desenvolve uma economia marítima com grande potencial.

A Inglaterra foi uma das potencias capitalistas que, no século XIX, implantaram o Neocolonialismo. Este visava a exploração econômica e política do território. Levando-se em conta que a escravatura se encontrava em um estado não tão lucrativo, os ingleses partem para a exportação de marfim, ouro, animais, tapetes entre outros. Sendo assim, o mercado africano fica sob controle do Império Britânico. A população nativa, dominada à base da exploração e violência, se torna mão-de-obra barata. Esta foi uma das principais denúncias feitas por Conrad. O autor deixa isso claro no livro:

Seis negros avançavam em fila, subindo a trilha com dificuldade. Caminhavam eretos e devagar, equilibrando pequenas cestas cheias de terra sobre a cabeça, e o tilintar marcava o ritmo se seus passos. Trapos pretos circundavam-lhes o lombo, e as curtas pontas atrás balançavam para lá e para cá como rabos. Podia-se ver cada costela, as juntas pareciam nós numa corda; cada um tinha uma argola de ferro no pescoço, e estavam todos atados com uma corrente, cujos elos balançavam entre eles, tilintando no ritmo. (…) Haviam sido tachados de criminosos, e a lei ultrajada, assim como os bombardeios, tinha chegado até eles como um mistério insolúvel vindo do mar. (CONRAD, 2005, p.28-29)

Apesar do caráter crítico da obra de Conrad, muitos estudos e discussões surgiram sobre O Coração das Trevas, pois existe uma ambigüidade. Raquel Gryszczenko Alves Gomes apresenta essa característica em seu artigo “O lugar das trevas: Leituras e releituras de O Coração das Trevas em tempos de pós-modernismo”. Alguns afirmam que a obra tem um caráter racista, entre eles se encontra o nigeriano prêmio Nobel de literatura Chinua Achebe.

Em 1977 Achebe publicou um artigo intitulado de “An Image of Africa: Racism in Conrad’s Heart of Darkness.”[1], onde ele propõe analisar o livro de Conrad como sendo um romance racista. Ele diz que a obra trata os africanos como selvagens, sem idioma e sem cultura. Achebe assume que tem consciência de que quem conta a história não é o Conrad, e sim o personagem fictício Marlow, mas mesmo assim não muda sua opinião quanto ao caráter do livro. Para ele:

Deve ser argumentado, é claro, que a atitude para com o Africano em O Coração das Trevas não é de Conrad, mas sim de seu narrador ficcional, Marlow, e que longe de endossá-la, Conrad pode, de fato, utilizar-se de ironia e crítica. Certamente Conrad parece ter enfrentado esforços consideráveis para estabelecer camadas de isolamento entre si mesmo e o universo moral de sua história. Ele tem, por exemplo, um narrador por trás de outro narrador. O narrador primordial é Marlow, mas sua descrição é nos dada através do filtro de um segundo, uma pessoa imprecisa. Mas se é intenção de Conrad traçar um cordão sanitário entre si mesmo e o mal-estar moral e psicológico de seu narrador, seu empenho parece-me totalmente desperdiçado, porque ele negligencia em dar uma dica – mesmo que sutil ou através de um referencial alternativo pelo qual possamos julgar as ações e opiniões de seus personagens. Não estaria além dos poderes de Conrad criar essas condições, se ele as achasse necessárias. Marlow parece-me receber completa confiança de Conrad – um sentimento reforçado pelas grande proximidade entre as carreiras de ambos.[2]

Segundo Achebe, Joseph Conrad tem uma visão eurocêntrica e racista do povo africano, tendo-os apenas como um plano de fundo de uma história que narra o percurso de um capitão inglês. Ao escrevermos um livro, um artigo ou um texto qualquer, nós definimos um ou mais assuntos que iremos abordar. No caso de Conrad, em sua obra podemos ver um grande estranhamento entre os europeus e africanos. Essa diferenciação entre duas culturas é algo comum, porém o que o autor ressalta é mais do que isso é o estranhamento entre o personagem principal e a exploração e violência usada contra o povo africano. Fato que conseqüentemente leva o leitor a uma possível reflexão, a qual, segundo o meu ponto de vista, era o objetivo de Conrad. Muito além de um caráter racista que o personagem Marlow pode ter, o objetivo final da obra não são as relações internas entre os personagens, e sim a relação externa entre o livro e o leitor, e neste ponto Conrad usa o livro como um meio de denúncia. Isso sem falar na crítica final construída em cima do personagem Kurtz.

No livro Cultura e Imperialismo, Edward Said faz uma análise sobre a obra de Conrad. Na seguinte passagem podemos analisar a maneira que Conrad escolheu para dar voz aos africanos:

Mas nem Conrad nem Marlow nos oferecem uma visão completa do que se encontra fora da postura dos conquistadores do mundo encarnada por Kurtz, por Marlow, pelo círculo de ouvintes no convés do Nellie e por Conrad. Com isso quero dizer que Heart of Darkness é uma obra que funciona tão bem porque sua política e sua estética são, por assim dizer, imperialistas, as quais, nos últimos anos do século XIX, pareciam ser uma política e uma estética, e até uma epistemologia, inevitáveis e inescapáveis. Pois se de fato não conseguimos entender a experiência do outro e se, portanto, precisamos depender da autoridade impositiva do tipo de poder que Kurtz exerce como homem branco na selva ou que Marlow, outro branco, exerce como narrador, é inútil procurar outras alternativas não imperialistas: o sistema simplesmente as eliminou ou tornou-as inconcebíveis. A circularidade, o fechamento perfeito da coisa toda é inexpugnável não só em termos estéticos, mas também mentais. (SAID, 1995, p.56).

Said diz que Conrad usa os personagens europeus, como Kurtz e Marlow, como “porta-voz” do povo africano. Pois é através deles que vamos perceber toda a violência e exploração. Nesses personagens vemos o reflexo do sofrimento do povo africano. Reflexo que faz com que Kurtz em meio a sua loucura perceba “O horror!” que ele próprio diz a beira da morte. Levando em consideração que Conrad tinha consciência dos males do imperialismo, Said aponta uma contradição da parte do autor:

A limitação trágica de Conrad é que, mesmo podendo enxergar com clareza que o imperialismo, em certo nível, consistia essencialmente em pura dominação e ocupação de territórios, ele não conseguia concluir que o imperialismo teria de terminar para que os ‘nativos’ pudessem ter uma vida livre da dominação européia. Como indivíduo de seu tempo, Conrad não podia admitir a liberdade para os nativos, apesar de suas sérias críticas ao imperialismo que os escravizava. (SAID, 1995, p 63).

Conrad se limita e não oferece uma possível alternativa para liberdade dos povos nativos. A descolonização que se desencadeia após a Segunda Guerra Mundial é vista por Said como resultado de um processo denominado por ele de “cultura de resistência”, que é dividido em duas fases. A primeira é quando os colonizados lutam contra a opressão e a segunda é a consolidação de uma ideologia e a divisão daquilo que lhes eram vetado e que agora assumiam por direito.

De 18 a 24 de abril de 1955, aconteceu a conferência de Bandung na Indonésia, onde vinte e nove estados asiáticos e africanos foram representados por seus líderes, de forma que buscavam a promoção da cooperação econômica e da cultura africana e asiática. Foi a primeira conferência a definir o imperialismo e o racismo como crime. Deram a idéia da criação do Tribunal da Descolonização, que julgaria os culpados pelo imperialismo de maneira que este fosse considerado um crime contra a humanidade, porém a idéia foi vetada por países centrais. A conferência foi um importante acontecimento para a consolidação da luta pela independência das colônias e também para a que houvesse uma relação de negociação entre estas e os países coloniais.

Quando lemos O Coração das Trevas, a todo o momento temos a sensação de um ser invisível que está presente a cada página. Um ser oculto que é enfatizado a todo instante: as trevas. Onde estão as trevas que tanto se enfatiza? Somos levados a pensar que se encontram no interior da mata fechada, que é desconhecida e misteriosa. Ou então, segundo uma visão européia da época, nos hábitos dos povos nativos, tais como o canibalismo. Mas essa é só uma primeira impressão. A grande crítica ao imperialismo está na conclusão do livro, onde além de toda a denúncia contra a exploração, temos a declaração de que toda a treva, que erroneamente era vista como habitada no continente africano, é vinda das intenções dos europeus e sua política imperialista. O personagem Kurtz representa o espírito de um homem capitalista que busca desenfreadamente acumular cada vez mais capital através da exploração de marfim. E para conseguir seus objetivos ele explora e comete atrocidades contra os nativos. Kurtz é levado à loucura por uma ganância compulsiva. E quando ele está à beira da morte, percebe que não irá tirar proveito nenhum de todo esse acúmulo de capital, pois morto ele não pode fazer mais nada. Vem então a percepção de todas as atrocidades que cometera, declarando assim antes de morrer as palavras: “O horror! O horror!”. O horror que está dentro do homem e que passa despercebido como algo natural e comum.

__________
* Graduando em Ciências Sociais (Universidade Estadual de Maringá).
[1] O artigo foi publicado pela Massachusetts Review 18 (1977). Porém o acesso conseguido foi a uma segunda versão através do website: http://wdavidhibler.googlepages.com/Achebe.pdf. [Acessado em 15 de maio de 2009].
[2] ACHEBE, Chinua, op. cit. Tradução do original: “It might be contended, of course, that the attitude to the African in Heart of Darkness is not Conrad’s but that of his fictional narrator, Marlow, and that far from endorsing it Conrad might indeed be holding it up to irony and criticism. Certainly Conrad appears to go to considerable pains to set up layers of insulation between himself and the moral universe of his history. He has, for example, a narrator behind a narrator. The primary narrator is Marlow but his account is given to us through the filter of a second, shadowy person. But if Conrad’s intention is to draw a cordon sanitaire between himself and the moral and psychological malaise of his narrator his care seems to me totally wasted because he neglects to hint however subtly or tentatively at an alternative frame of reference by which we may judge the actions and opinions of his characters. It would not have been beyond Conrad’s power to make that provision if he had thought it necessary. Marlow seems to me to enjoy Conrad’s complete confidence — a feeling reinforced by the close similarities between their two careers.”

Referências

ACHEBE, Chinua. An Image of Africa: Racism in Conrad’s Heart of Darkness. Disponível em: http://wdavidhibler.googlepages.com/Achebe.pdf. Acesso em: 15 de maio de 2009.
CONRAD, J. O coração das trevas. Porto Alegre: L&PM, 2005.
GOMES, Raquel Gryszczenko Alves . O lugar das trevas: Leituras e releituras de O Coração das Trevas em tempos de pós-modernismo. Disponível em: http://veredasdahistoria.kea.kinghost.net/edicao1/03_artigo_lugar_trevas.pdf. Acesso em: 15 de maio de 2009.
LIMONGE, Bernardete. “Introdução”. In: CONRAD, Joseph. O coração das trevas. São Paulo: Hedra, 2008.
SAID, Edward W. Cultura e imperialismo. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

Anúncios

4 Respostas to ““O Coração das Trevas”: uma denúncia contra a exploração imperialista”

  1. celsooliveira11 Says:

    Li o livro “O Coração das Trevas” de Josef Conrad a algum tempo, acredito que a dez anos. Mais ainda tenho recordação de fascínio pelo texto. Considero que o desenvolvimento da narrativa é extremamente profunda. Complexa que se move entre o interior e o exterior dos homens que o habita. O desenrolar da história é como uma brisa que cresce e vai nos conduzindo para um espaço de intersecção entre as culturas, que levemente se transforma nos personagens. Percebo que seu desfecho é pura surpresa. Considero que o desenvolvimento do texto nos leva a uma situação de profunda reflexão sobre a vida e a morte. Comungo da idéia que literatura tem que ser contextualizada no sócio histórico. Mais na minha percepção esta não é a centralidade de “O Coração nas Trevas” mesmo que na condução desta profunda reflexão sobre o continente africano e sua relação com os europeus esteja perfeitamente contextualizada. Relação pautada pelo horror do desconhecido e das trevas que firma-se na sobreposição cultural pela violência. Não quero me alongar, na verdade, somente deixar registrado que gostei muito do artigo e que fiquei mais feliz ainda de conhecer Samuel Douglas Farias Costa através deste escrito. Obrigado.

  2. Anonymous Says:

    excelente artigo, parabéns ao autor e obrigada pela perspectiva aberta pela citaçao de Edward Said, absolutamente pertinente para o entendimento da literatura produzida inclusive no Brasil na mesma época..permito-me sugerir ir mais adiante na exploraçao do raciocinio desse filosofo, que estabelece elos basicos e indissoluveis entre a politica e a estética que se formalizam no final do século XIX, chegando a excluir qualquer outra visao de mundo fora dessa epistemologia colonialista.acrescentaria que a visao desse filosofo continua cada vez mais necessaria para entendermos nossa produçao intelectual atual.Regina

  3. Gustavo Says:

    Muito obrigado por publicar este curto ensaio. Já conhecia a obra de vista e agora fiquei ainda mais interessado em lê-la.

  4. Os números de 2010 « Literatura Política & Sociedade Says:

    […] “O Coração das Trevas”: uma denúncia contra a exploração imperialista agosto, 2009 3 comentários 5 […]

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: