Autor desfaz estereótipos sobre conflito – por Moacyr Scliar

O conflito árabe-israelense é frequentemente, e simploriamente, descrito pelos dois lados como uma briga de mocinhos e bandidos. Neste enfoque, adversários de Israel veem o país como implacável máquina de guerra, operada por impiedosos robôs.

É preciso um grande escritor para desfazer o estereótipo, e David Grossman o faz de forma magistral em “A Mulher Foge”.

A mulher do título, Orah, tem dois filhos, o mais moço dos quais, Ofer, é convocado para uma operação do Exército israelense em represália a um dos atentados na região. O ex-marido, Ilan, e o filho mais velho, Adam, estão no exterior. Sozinha, sem suportar a expectativa, Orah decide passar dias caminhando por Israel, o que fará junto com Avram, amigo e ex-amante. Uma jornada rumo à memória e ao entendimento: Orah, Avram e Ilan formam um triângulo, e boa parte da narrativa consiste na evocação do passado dos três, e também dos dois filhos. Neste processo, Grossman vai traçando um painel do que é a sociedade israelense, com sua problemática social, política e emocional.

Não lhe falta qualidade para isso. Com Amós Oz e A.B. Yeoshua, Grossman compõe a tríade de autores que servem de intérpretes e consciência viva de seu país. Os três são de Jerusalém e intelectuais; têm imenso público leitor, são multipremiados e multitraduzidos; são ativistas políticos e pacifistas.

Grossman, o mais moço, estudou filosofia e teatro em Jerusalém, trabalhou em rádio e logo virou autor de sucesso: “O Vento Amarelo”, ensaio sobre palestinos da Cisjordânia e Gaza por ele entrevistados em visita à região, teve repercussão mundial. Em português, saíram ainda “Dormindo na Corda-Bamba”, “Alguém para Correr Comigo” e “Ver: Amor”.

Em “A Mulher Foge” há uma sombria e dolorosa coincidência. Grossman começou a escrever o livro em 2003. Três anos depois, seu filho Uri, de 20 anos, alistou-se e virou sargento numa unidade de tanques.

Escreveu Grossman: “Uri conhecia bem o enredo e os personagens do livro… Ocasionalmente partilhava comigo suas experiências [de militar]. Na época tinha a sensação -ou melhor, o desejo- de que o livro que eu escrevia o protegeria”. Não protegeu: Uri foi morto em combate pouco antes do cessar-fogo na segunda guerra do Líbano, em agosto de 2006.

Passado o luto, Grossman voltou ao livro e o terminou. À ocasião, escreveu um pungente texto, que diz: “Aprendi, com Uri, que precisamos nos proteger do pensamento onipotente e simplista, do cinismo, da corrupção de nossos corações e do tratamento cruel dos seres humanos, a maior maldição para aqueles que, como nós, vivem numa região conflagrada”. “A Mulher Foge” é uma definitiva contribuição neste sentido.

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Fonte: Folha de S. Paulo, 05.09.09, disponível em http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq0509200913.htm (Foto: David Grossman).

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