O diário íntimo de Milan Kundera – por Pierre Lepape

O escritor tcheco, autor de “A Insustentável Leveza do Ser”, escreve sobre o modernismo, o riso e a loucura e discute as obras de Kafka, Robert Musil e Salman Rushdie

Desde 1986, ano da publicação de “A Arte do Romance”, Milan Kundera recusa conceder entrevistas, julgando que somente seus romances falam por ele. A pedido do jornal francês “Le Monde”, o autor de “A Valsa do Adeus” aceitou completar o dicionário pessoal que havia iniciado para uma revista a pedido do historiador Pierre Nora. Ele se compõe de suas palavras-chave, suas palavras-problema. Palavras novas que aclaram o universo de Kundera. Nas quais se trata de piadas judaicas e reflexões sobre o mal, de Salman Rushdie e do mau gosto da história. Milan Kundera atribui grande importância às palavras. Todos concordarão que isso é normal, em se tratando de um escritor. Um escritor é um homem que sabe pela experiência, pelo ofício, o que as palavras querem dizer e o que elas não dizem. Sua prática lhe ensinou que uma palavra inserida no lugar de outra -ou a mesma palavra deslocada no interior de uma frase- pode trair o pensamento e trair quem a enuncia, de forma tão certeira quanto todas as censuras. Ou até de forma ainda mais certeira: a censura deixa um branco, que a denuncia; a palavra oblíqua não deixa traços. Kundera recusa abandonar a outros o domínio de suas palavras e de suas frases. Ele experimentou na pele a traição, tanto mais temível por ser realizada de boa-fé. Sem dúvida sua história pessoal contribuiu para radicalizar sua recusa de entrevistas. Milan Kundera se estabeleceu na França em 1975. Tinha 46 anos. Seus dois primeiros livros -um romance, “A Brincadeira”, e um ciclo de novelas, “Risíveis Amores”- tinham sido publicados, em 1965 e 1968, por uma editora de Praga. Mais tarde, após a intervenção russa na Tchecoslováquia, os livros de Kundera foram banidos das bibliotecas e das livrarias. Ele próprio foi privado de seu cargo no Instituto Cinematográfico de Praga. Se bem que já possuísse um sólido domínio do idioma francês, Kundera, ao chegar à Universidade de Rennes, em 1975, ainda não se achava à vontade na expressão oral francesa. Porém, mais que a sua situação linguística, é a sua situação política que encoraja a empreitada reducionista por parte dos jornalistas: abandona-se a obra do escritor, sua concepção pessoal do romance, da existência humana, da cultura e da história, para se interessar apenas pela sua condição de testemunha: da ditadura comunista, da “Primavera de Praga” e de sua repressão, do futuro dos países sob domínio soviético. Ele queria falar do que lhe dizia ao coração e ao espírito, da crise da modernidade e do progresso, do papel do romance -“uma arte nascida do riso de Deus”-, da situação do homem europeu, em sua existência, sua identidade e sua história; em sua maneira de amar, rir, sonhar, recordar, conviver e acolher a morte. Da sobrevida ou desaparecimento do indivíduo, questão maior de nossa época.

Enciclopédia pessoal

Sem cessar, ele é trazido à superfície, à espuma ou ainda à indiscrição: nosso tempo odeia o segredo. Ele decide calar-se; seus livros falarão. A partir de “A Arte do Romance”, um ensaio publicado em 1986, Milan Kundera passa a escrevê-los em francês, ao mesmo tempo em que revisa o conjunto das traduções francesas de seus livros anteriores para lhes dar “o mesmo valor de autenticidade que o texto tcheco”. Outra vez as palavras que não traem: “Para mim, que praticamente não tenho mais um público tcheco, as traduções representam tudo”. Ainda assim o acusarão por esse silêncio, por esse pudor e por essa vontade de exercer plenamente seu direito de autor. Farão dessa sabedoria elementar uma pose ou uma forma de exagero. “A Arte do Romance” não tem nada de um texto teórico: é “a confissão de um prático. A obra de cada romancista contém uma visão implícita da história do romance, uma idéia do que é o romance; é essa idéia do romance, inerente a meus romances, que eu tentei fazer falar”. Sob essa forma, Milan Kundera aceita falar de si próprio, o escritor; de sua história pessoal de romancista. Nesse livro, uma parte se intitula “73 Palavras”. É uma espécie de dicionário. “O autor que se aventura a investigar as traduções de seus romances corre atrás de inúmeras palavras como um pastor atrás de um bando de carneiros selvagens; triste figura para si mesmo, risível para os outros. Suspeito que meu amigo Nora, diretor da revista “Le Débat”, tenha se dado conta do aspecto tristemente cômico de minha existência de pastor. Um dia, com uma compaixão mal dissimulada, ele me disse: “Esquece teus tormentos e escreve alguma coisa para minha revista. Os tradutores te obrigaram a refletir em cada uma de tuas palavras. Escreve teu dicionário pessoal. Dicionário de teus romances. Tuas palavras-chave, tuas palavras-problema”.”

Explorador da existência

Nesse espírito, foi pedido a Milan Kundera não que respondesse perguntas, mas que acrescentasse alguns artigos a sua enciclopédia pessoal. Ainda sobre o romance e sua história, sobre o modernismo, sobre “a grande plêiade da Europa Central” -Kafka, Musil, Broch, Gombrowicz-, sobre a realidade e a verossimilhança, sobre a poesia e o lirismo, a vizinhança da Europa Central e da América Latina, Salman Rushdie e a loucura, o riso e o mau gosto da história e tantas outras coisa que nascem da escrita e se descobrem com ela. Variações atuais sobre temas dos quais é fácil perceber a unidade e a atualidade.

Kundera não assume a pose de um pensador ou de um historiador, menos ainda a de um profeta. Ele é romancista, explorador da existência. “O romance não examina a realidade, mas a existência. E a existência não é o que passou, a existência é o campo de possibilidades humanas, tudo aquilo que o homem pode se tornar, tudo de que ele é capaz.”

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* No Brasil, a obra de Milan Kundera vem sendo reeditada pela Companhia das Letras.
* Fonte: Folha de S. Paulo, Mais, 05.08.2001, disponível em http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs0508200105.htm
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Uma resposta to “O diário íntimo de Milan Kundera – por Pierre Lepape”

  1. Maria Rodrigues Says:

    Milan Kundera – não se lê. Mastiga-se bebe-se sente-se e acompanha-nos através da grande complexidade da existência humana. Lê-se 10 páginas – e volta-se atrás…
    Há sempre uma necessidade constante de repetir os seus livros.
    Adoraria estar frente a frente com Milan Kundera.
    EU: Maria Rodrigues

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