Archive for outubro \31\UTC 2009

Sol: a mártir do pernambucano Urariano Mota – por Luiz de Almeida

31/10/2009

Minhas lentes já estavam vencidas, prejudicando assim qualquer esforço para uma rápida leitura, mesmo tendo a prática da leitura dinâmica. Mas, ao receber o livro do meu amigo Urariano Mota, Soledad no Recife, não tive outra escolha após ler os textos do Alípio Freire e a apresentação do Flávio Aguiar: Primeiro fui passar um novo café, conferir o maço de cigarros e ajeitar o abajur ao lado da escrivaninha. Enquanto a água fervia, lembranças já vagaram e divagaram pela mente: ditadura militar, 1970, Grêmio Estudantil Guilherme de Almeida e o grande jornal “Cadelão Taimes” (Não é erro de digitação, o jornal tinha esse “nome”), DOI/CODI, OBAN, Cemitério Dom Bosco no Distrito de Perus/SP, assassinato do José Maria Ferreira Araújo (ou Edson Cabral Sardinha), assassinato do jornalista Luiz Eduardo Merlino (SP), Mário Alves (RJ), o sumiço do Rubens Paiva, e… Mentira, traição e medo. Um resíduo de raiva parecia renascer dentro do peito trazendo a execrabilidade da minha paz interior.

Nas primeiras páginas não consegui discernir o escritor do personagem. Vibrei. Ele seria ele uma testemunha ainda viva? Aos poucos essa pré dedução foi sendo desfeita pela imaginável fisionomia facial e contornos corporal de Soledad. Daniel seria apenas um coadjuvante. E fui degustando página a página, um café, outro cigarro, divagações entre uma tragada e outra, novas lembranças… Meu Deus, quatro horas da madrugada e só então percebi que havia parado de ler na página 86. O café não desceu e com as mãos trêmulas, mal consegui ascender mais um cigarro. Um trepidar incontrolável dos lábios, soluços e lágrimas. As palavras do cabo Anselmo descritas por Urariano fizeram-me estremecer de raiva. Episódios de traição maligna medraram na minha mente. Lembrei-me do episódio do “Cadelão Taimes”, onde eu e meus outros amigos fomos abandonados por um “anselmo” do grupo que se passava por amigo, justo nas ocorrências da censura e prisão do Jornal. Descobria ou relembrava, não sei até agora discernir corretamente, que aqui em Piraju também existiu e ainda vive um traidor com atitudes similares às do mentiroso, covarde e traidor cabo Anselmo, pois no momento do aperto, enquanto éramos “solicitados” para deixar a escola e chamados para depoimentos, como fui no DOI/SP, o borra-botas fugiu. E continua assim até hoje, mentiroso e traidor. Apesar de tudo: sinto pena, pois ao vê-lo pelas ruas só consigo avistar um derrotado e sem prestígio, e que ainda se presta ser boi-de-piranha no meio político daqui. É ainda daqueles que mente e acredita nas suas próprias mentiras.

Mais calmo, retomei o livro e custou-me parar de virar e desvirar as páginas 89 até a 86. Aquelas imagens de Soledad me cativaram. O sorriso estampado numa face sincera reflete bem o eu interior daquela mulher. Sorriso igual só havia visto em 1970, na face de outra mulher, minha mãe, de nome Zita, ao ver-me entrando portão adentro retornando de São Paulo após uma noite e um dia de privação no DOI, ocasião que fui salvo pelo meu tio Luiz Alves de Almeida, um sargento da antiga polícia Metropolitana e participante ativo da OBAN, que somente em 2007 fiquei sabendo que havia falecido. A causa-morte eu não sei até hoje.

Li até a síntese biográfica. Já era dia. Meus olhos ardiam e a língua ficara áspera de tanto café e cigarros. Não estava com sono, mas ainda em estado de raiva e êxtase misturados. Esqueci da Sol e lembrei-me do Urariano. Voltei abrir o livro no “capítulo 13”: Um livro se constrói sob dificuldades – na penúltima linha onde Urariano cravou: “(…). Bem sei que autores não choram. Autor deve ser duro e frio. (…)”. Aqui, o único ponto que discordei do Urariano, pois se “autores” não choram, não têm o direito de fazer seus leitores chorarem.

Está marcado para o final deste mês, provavelmente no dia 25, eu ler este livro novamente. Só que agora o lerei em voz alta e com platéia. Essa platéia é especial, pois será composta de apenas duas pessoas. Um casal amigo. Moram em Botucatu/SP. Ele é cego. Estudou comigo no colégio interno quando tínhamos 12, 13 anos. Em 1971, numa manifestação estudantil, estilhaços de uma possível granada desfiguraram seu rosto e a visão. Era um líder estudantil e cursava medicina. Hoje, casado com aquela que foi sua namorada desde 1970, escutei seus berros de alegria e urros e mais urros quando falei com ele ao telefone e contei sobre o livro do Urariano que acabara de ler. E ouvia sua esposa, ao seu lado, dizendo: é a Sol assassinada em Recife, é a Sollll… Confirma o livro é sobre a Sol. Perguntaaaa. E foi o que aconteceu. Confirmei ser realmente a Sol, Soledad Barrett Viedma.

Fiz esse preâmbulo apenas para comentar sobre o Urariano e seu livro Soledad no Recife, lançado dia 29 de julho deste ano, pela Boitempo Editorial, São Paulo. É difícil falar do Urariano como pessoa, pois não o conheço pessoalmente, apenas pela Internet. Tive a honra de receber matéria de sua autoria para postar no meu Blog Retalhos do Modernismo. Mas, gostaria de tecer alguns comentários a respeito dele, primeiro apenas o meu Dileto Amigo Urariano “virtual”:

– Percebi seu potencial quando me enviou o texto para postar no meu Blog. Antes de ler Soledad no Recife, conheci Urariano por foto, que postarei no final. Meu filho é fotógrafo profissional. Ele me ensinou que, tirando as pessoas que são modelos profissionais, nós, os simples mortais, sempre estampamos na fisionomia eternizada numa foto, todo o nosso eu interior e os nossos sentimentos mais aguçados naquele momento do clique da máquina. E nessa foto do Amigo Urariano, percebe-se, refletido na sua fisionomia, o seu interior inquieto e recheado de honestidade e justiça – grandezas essas que estão se escasseando dia após dia. Percebi sua satisfação e alegria por ter tido a coragem de ressuscitar a Soledad que existe dentro de cada um de nós, pelo menos dentro daqueles que não são “traíras”, medrosos e mentirosos. Urariano, meu amigo “ainda” virtual, ainda terei a oportunidade de um dia poder abraçá-lo – e que nesse dia haja Sol. Considero Você, Dileto Urariano, o Ernesto Cardenal Pernambucano (guardada as devidas diferenças de credo religioso).

O Escritor Urariano: Sinceramente? Ao ler Soledad no Recife, fica difícil definir o estilo urarianico: um Romancista? Um Contista? Não seria ele um Poeta? Você, nobre Escritor Urariano, caso tivesse escrito o Soledad como auto (O Auto de Soledad no Recife), não teria tirado o efeito proporcionado pela belíssima forma utilizada. É indecifrável a forma do Soledad. Posso apenas cravar aqui uma única e ousada opinião pessoal:

– “Você conseguiu com Soledad no Recife adentrar-se no rol dos escritores mais nobres deste país”.

Dileto Urariano: concluo este meu artiguete feliz por ter tido a oportunidade de ler o teu Soledad no Recife e talvez ter sido, na minha edição, o teu primeiro autógrafo do lançamento. Parabenizo a Boitempo Editorial, pois sei muito bem que muitas outras grandes editoras não suportam esse estilo de texto. Acho que ainda existem Editores que tremem quando estão diante de textos que focam os delitos e os genocídios ocorridos no Brasil durante a ditadura pós-64. Não posso deixar de elogiar também a maravilhosa apresentação do Flávio Aguiar e a belíssima síntese do Alípio Freire.

E ao Dileto leitor deste Blog: Caso ainda não teve a oportunidade de ler Soledad no Recife, procure adquiri-lo. Faça um bom café ou chá, e comece a ler num dia que não tenha nenhum compromisso, pois você não conseguirá parar. E não tenha vergonha de sentir raiva e chorar, pois a história é ficção, mas os personagens e os fatos foram e ainda são reais, assim como muitos outros fatos similares ainda não foram devidamente explicados – e que mais nenhuma “Sol” venha tornar-se mais uma “mártir” neste nosso país.

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* Luiz de Almeida, 57: Piraju, São Paulo. Escritor e Pesquisador da Semana de Arte Moderna de 22 e Seus Personagens. Autor do livro de poemas ECOS. Moderador do Blog Retalhos do Modernimo – http://literalmeida.blogspot.com/

O Leitor – Bernhard Schlink

17/10/2009

por Bruno Leal P. de Carvalho*

Não raro, a literatura, mesmo a de ficção, tem o poder de melhor problematizar o passado do que a própria escrita da história. A afirmação é bastante forte (e também polêmica), mas, no fundo, bastante verdadeira. O caso de “O Leitor” (The Reader), de Bernhard Schinlk, é um bom exemplo.
Na ainda destroçada Alemanha dos anos 1950, o adolescente Michael Berg conhece Hannah, mulher vinte anos mais velha, com quem inicia um caso amoroso. A relação dos dois é marcada pela descoberta do sexo, do mundo da literatura e por diversos mistérios. Michael e Hannah parecem viver apenas o presente. O passado fica no passado. Certo dia, Hannah deixa Michael sem nenhuma pista sobre o seu paradeiro. Michael sofre, consegue tocar sua vida, mas sempre se pergunta se havia feito alguma coisa errado. Teria ele traído a confiança sua amada?
Anos depois, os dois se reencontram, mas em um contexto muito diferente. Ele, como estudante de Direito que acompanha um julgamento sobre crimes de guerra. Ela, no banco dos réus, acusada de atrocidades em um campo de concentração nazista. Hannah parece não se defender corretamente. Omite informações, perde oportunidades para atenuar sua sentença. Pouco a pouco Michael descobre o motivo: Hannah guarda um grande segredo, do qual Michael tomara contato anos antes, mesmo sem se dar conta.
A partir daí, Michael passa a ser atormentado por diversas questões: deve ele contar para o juiz o que sabe, mesmo correndo o risco de trair a confiança de Hannah, que parece querer manter o sigilo? Como conciliar o seu amor por Hannah com o fato de ela ter sido guarda de prisão em um tempo tão tenebroso da história?
“O Leitor” é um livro de múltiplas camadas e nuances. Na Alemanha e em outros países onde o livro foi traduzido, sua leitura chegou a causar mal-estar, já que fora equivocadamente lido como uma defesa de uma criminosa nazista. Na verdade, o livro não é nada disso, mas sim uma obra complexa sobre amor, vergonha, piedade e, sobretudo, as feridas de uma geração, a ambivalência e os medos dos seres-humanos. O livro de Schlink escapa do lugar-comum de obras sobre o Holocausto. Ao invés de culpa – coletiva ou condenações, os personagens não justificam seus erros, mas os reconhecem e, com base neles, estabelecem relações tensas e conflituosas, algo que está muito mais próxima de nossa realidade.
Escrito com grande sensibilidade e estética fina, “O Leitor” ganhou uma adaptação também muito boa para o cinema. Acompanhar Michael é uma missão solitária, mas não melancólica. É uma vida que busca libertação, que busca compreender o outro e a si mesmo, uma luta pelo direito de viver.
Em certo momento do livro, ao refletir sobre a própria geração, Michael (no fundo, Schlink) afirma para si mesmo: “Não devemos ter a pretensão de compreender o que e incompreensível, não temos o direto de comparar o que é incomparável, não temos o direito de investigar, porque quem investiga, mesmo sem colocar nas perguntas as atrocidades, faz delas objeto da comunicação, não as tomando algo diante do que só se pode emudecer, horrorizado, envergonhado e culpado.”

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* Bruno Leal P. de Carvalho é historiador e jornalista, criador e coordenador da rede social Café História. Publicado em Café História: http://cafehistoria.ning.com/

Análise política de "O Processo", de Franz Kafka – por William Davidans Sversutti

03/10/2009

O Processo

O Processo é um romance de Franz Kafka, que conta a história de um bancário que é processado sem saber o motivo, este é Josef K.

Joseph K. era um funcionário exemplar que trabalhava num famoso banco e tinha um cargo de grande responsabilidade. Desempenhava sua função com muita dedicação, razão que o levou, em pouco tempo, a crescer na empresa.

Porém na manhã em que completara 30 anos, Josef K. foi detido em seu próprio quarto por dois guardas, que tomaram o café que devia ter sido dele, e depois, sugeriram estarem sendo subornados. Neste momento inicia o pesadelo de Josef K., que foi detido sem ter feito mal algum. De principio, imaginava ser uma brincadeira de seus colegas de banco, pois não podia acreditar no que estava acontecendo.

Josef K. acreditava que todo o mal entendido seria esclarecido e ao ser convocado para um interrogatório viu a oportunidade de isto acontecer. Estava errado. Deparou-se com um inspetor rude e agressivo que o ameaçava e fazia chantagens. Contudo K. exigia esclarecimentos, porém inutilmente, já que nem o inspetor e nem os guardas sabiam sobre o motivo de sua detenção.

O espanto de Josef K. ante sua detenção não tem limites. Nascido sob o agasalho de uma Constituição que garantia os direitos individuais, não concebe essa invasão em sua vida. Essa experiência do pacato cidadão diante da Autoridade, segundo Maurício Tragtenberg (2001), é uma “visão antecipadora do processo de sujeição do homem ao totalitarismo vivido na experiência do fascismo, nazismo e estalinismo.”

E toda narrativa segue sem que se conheça quem teria denunciado Josef K. às autoridades e o motivo de estar sendo preso. Apesar disso, o personagem central luta o tempo todo para descobrir do que estava sendo acusado, quem o acusava e com embasamento em que lei. Contrata então, um advogado na esperança de ter alguma saída e também para obter informações sobre o seu caso, mas este logo fora dispensado, pois não dava atenção ao processo dele.

K. tentou entrar em contato com o judiciário, mas teve pouco sucesso, o que encontrou foram muitos processos, sendo o dele apenas mais um que ficaria esperando por muito tempo. Todo o desenrolar do processo não lhe parecia verdadeiro, os acusadores e as testemunhas tinham atitudes duvidosas e absurdas, até crianças eram chamados a prestar depoimentos.

No final, Josef K. se encontrava sem ânimo para prosseguir lutando contra um processo que ele nada conhecia, estava apático e indiferente. Pode-se interpretar que no capítulo X: O fim, Josef K. combinou para que dois senhores o matassem, e assim foi feito.

A burocracia

O grande teórico da burocracia é Max Weber, cuja obra serve de orientação para a maior parte dos autores que o sucederam. De acordo com Motta (1981) o teórico chega a suas idéias sobre burocracia a partir da preocupação com a forma pela qual uma comunidade social chega a se transformar em uma sociedade dotada de racionalidade, ou pelo menos dirigida a uma finalidade. Isto se dá através do que se chama “ação comunitária”, na qual distingue como um dos aspectos fundamentais do que chama “dominação”.

A dominação se apresenta segundo Motta (1981), sob forma de dois tipos opostos: a dominação mediante uma constelação de interesses a dominação em função do poder de mando e subordinação. A dominação então, se define como um estado de coisas no qual as ações dos dominados aparecem como se houvessem adotado como seu o conteúdo da vontade manifesta do dominante. A dominação reflete, portanto, uma forma pela qual se dá a influência no comportamento dos dominados.

Porém, segundo Motta (1981), Weber é extremamente cuidadoso na distinção dos significados de poder e dominação:

“Enquanto dominação aparece como uma ação comunitária que emana da vontade manifesta do dominante, o poder é exatamente a possibilidade que alguém ou algum grupo tem de realizar sua vontade mediante uma ação comunitária que pode inclusive ser contrária àquela ou àquelas dos demais.” (MOTTA, 1981, p. 59)

A dominação seria, desta forma, um caso especial de poder. O funcionamento e a manifestação de qualquer dominação dão-se sob forma de governo, cujas tarefas, exigem um aumento crescente de treinamento e experiência, criando assim, uma dominação mediante a organização.Max Weber entendeu que existiam três tipos de dominação, conforme a sua legitimação, isto é, conforme a natureza dos princípios e crenças que dão estabilidade à dominação: a tradicional, a carismática e a dominação legal.

De acordo com Motta, (1981), na dominação tradicional, a legitimação vem da crença na justiça e na qualidade da maneira pela qual no passado nossos antepassados resolveram seus problemas, o senhor é o líder tradicional que, por ser herdeiro de outro senhor, tem o direito de comandar. Na carismática, a legitimidade vem do carisma, isto é, da crença em qualidades excepcionais de alguém para dirigir um grupo social. Já na dominação racional-legal a legitimidade provém da crença na justiça e na lei, o governante é considerado superior porque atingiu tal posição através de nomeações consideradas legais, ele então exerce o poder, dentro dos limites fixados por um sistema de regras que têm força de lei.

Para Motta e Vasconcelos (2002, p. 138) a burocracia segundo a definição weberiana é: “uma tentativa de formalizar e coordenar o comportamento humano por meio do exercício da autoridade racional legal, para o atingimento de objetivos organizacionais gerais”. Ou seja, ela é um: “sistema que busca organizar, de forma estável e duradoura, a cooperação de um grande número de indivíduos, cada qual detendo uma função especializada.”

Segundo Tragtenberg (1992, p. 139), a burocracia para Weber (…) “é um tipo de poder. Burocracia é igual à organização. É um sistema racional em que a divisão de trabalho se dá racionalmente com vista à fins. A ação racional burocrática é a coerência da relação de meios e fins visados.” Para este autor (1992, p. 115), Weber:

“Constrói seus tipos ideais como construções o mais possíveis vazias de sentido histórico, porém univocamente concebidas no plano do conceito. Fundamentam-se elas no desencanto do mundo e na procura de um sentido. Esta produção do sentido e sua adequação à realidade criam teórica e praticamente o sentido.”

As construções de tipo ideal fazem parte do método tipológico criado por Weber. Ao comparar fenômenos sociais complexos, o pesquisador cria tipos ou modelos ideais, construídos a partir de aspectos essenciais dos fenômenos. A característica principal do tipo ideal é não existir na realidade, mas servir de modelo para a análise de casos concretos, realmente existentes.

Veremos, pois, o que nos diz o próprio Weber, segundo o qual a burocracia moderna funciona da seguinte forma:

“I. Rege o princípio de áreas de jurisdição fixas e oficiais, ordenadas de acordo com os regulamentos, ou, seja por leis ou normas administrativas (…) II. Os princípios da hierarquia dos postos e dos níveis de autoridades significam um sistema firmemente ordenado de mando e subordinação, no qual há uma supervisão dos postos inferiores pelos superiores (…) III. A administração de um cargo moderno se baseia em documentos escritos (os arquivos), preservados em sua forma original ou em esboço (…) IV. A administração burocrática, pelo menos toda a administração especializada – que é caracteristicamente moderna – pressupõe habitualmente um treinamento especializado e completo (…) V. Quando o cargo está plenamente desenvolvido, a atividade oficial exige a plena capacidade de trabalho do funcionário, a despeito do fato de ser rigorosamente limitado o tempo de permanência na repartição, que lhe é exigido (…) VI. o desempenho do cargo segue regras gerais, mais ou menos estáveis, mais ou menos exaustivas, e que podem ser aprendidas. O conhecimento dessas regras representa um aprendizado técnico especial, a que se submetem esses funcionários” (WEBER, 1982, p. 229).

Podemos entender, portanto, que o “tipo ideal” de burocracia referia-se a uma “construção conceitual a partir de certos elementos empíricos que se agrupam, logicamente, em uma forma precisa e consistente, mas que, em sua pureza, nunca se encontram na realidade” (WEBER apud MOTTA; PEREIRA, 1980, p. 225).

A organização burocrática, ou simplesmente organização, é o sistema social mais formalizado da sociedade. Em nenhum outro sistema social as relações entre os participantes são tão bem definidas. As condutas dos participantes são aprendidas e são plenas de significado. Motta (1981) afirma que as escolas, que também são organizações, começam desde cedo a preparar indivíduos para determinados papéis no sistema produtivo, transmitindo modelos sociais já existentes, e tendendo a legitimar determinadas condutas e condenar outras.

Na direção das organizações estão determinadas elites. Essas elites podem mudar de atitude no que diz respeito às práticas políticas ou às práticas administrativas. Sua ação, contudo, sempre é pautada pela lógica da organização. Motta (1981) considera que essa lógica da organização é derivada de suas funções fundamentais, ou seja, as organizações são mecanismos de produção e de controle social. Há, desta maneira, processos de adaptação dos indivíduos às organizações, onde os indivíduos geralmente renunciam a uma ampla margem de liberdade, concordado implicitamente com as exigências da organização e esta, por fim, limita a gama de comportamentos disponíveis para o indivíduo. É o processo de socialização.

Quando o indivíduo procurar exercer influência sobre a organização com o objetivo de obter satisfação pessoal adicional existe um processo oposto ao de socialização, é o processo de individuação. A socialização, segundo Motta (1981) deve ser vista como um processo contínuo, que começa antes mesmo da entrada nesse sistema social, já que outros sistemas já inculcam, desde o nascimento, valores e normas que estejam de acordo com o comportamento aceitável em organizações burocráticas.

Enfim, o homem, diante da sociedade organizacional, vê as relações de dominação serem reproduzidas diante dele, através dele e por meio dele. Ver-se-á a partir de agora qual era a visão de Franz Kafka sobre a burocracia na obra O Processo.

Considerações acerca da burocracia no livro o Processo de Kafka

“Olha, minha querida, Não tenha medo, Olha, minha querida, Não tenha medo. Se por acaso o sistema quiser tirar minha vida.Talvez até possa conseguir. Porém, minha alma nunca. Porém, minha alma, nunca.” (Edson Gomes)

Franz Kafka teve um sonho. Ou melhor, um pesadelo. E ele tornou-se realidade.

O mundo moderno, como no drama de Joseph K., criou um enorme processo que nunca se finda, onde as pessoas são enredadas e permanecem ali até a morte. Esse mundo burocrático engole o indivíduo desde o momento de seu nascimento. Ao nascer as crianças já recebem números de identidade, vacinas, produtos industrializados, de higiene, vestuário, etc.

Ao crescer são inseridas em uma organização, a escola, que delineará suas perspectivas e intelectualidade segundo um sistema que está posto. Mais adiante os jovens são levados a consumir todo tipo de quinquilharias e preocupar-se em adquirir um lugar nesse sistema que os envolvem. Quando adultos sua felicidade se resumirá em conseguir cargos burocráticos mais altos e adquirir mais dinheiro para consumir produtos criados pelo mesmo sistema que os engolfa.

Esse sistema no drama de Kafka é uma burocracia judiciária fria e distante, que o condena personagem K. por um crime que este julga nunca ter cometido. É o retrato da burocracia impessoal descrita por Weber que assume um caráter monstruoso e absurdo na obra de Kafka, onde a justiça é inacessível, permanecendo incomunicável com o homem.

Porém, para aqueles que acreditam que Weber era um apóstolo da burocracia basta ver o que segue:

“É horrível pensar que o mundo possa vir a ser um dia dominado por nada mais que homenzinhos colados a pequenos cargos e lutando por outros maiores: uma situação que será vista dominando uma parte sempre crescente do espírito do nosso sistema administrativo atua e, especialmente de seu produto, os estudantes. A compulsão burocrática é suficiente para levar alguém ao desespero.” (WEBER apud MOTTA, 1981, p.70)

De acordo com Maurício Tragtenberg (2001) a obra de F. Kafka é a previsão das maiores farsas judiciais dos tempos modernos, como os Processos de Moscou e Budapeste. É o supremo protesto contra a volta aos aspectos mais negativos da Renascença, materializados no culto à “razão de Estado”, sob os regimes totalitários. O Processo, na visão de Tragtenberg (2001), é o retrato da desintegração da personalidade humana ante um Estado totalitário e impessoal. Essa antevisão aparece no destino trágico e absurdo de José K., escravo e joguete de forças estranhas e invisíveis, tão impessoais como a burocracia que o condena.

Tragtenberg (2001) afirma que o personagem principal de O Processo coloca-se diante de um problema de caráter finalista: “da direção e sentido de sua existência, de seu destino inexorável que culmina com a morte”. Pelo fato de viver “para” esse destino é que o homem kafkiano se converter num condenado permanente sem outro consolo que suas meditações sobre uma culpa inexplicável, projetada em sua vida por uma autoridade impessoal e invisível como ela própria.

Josef K., não enfrenta a luta, limita-se a padecê-la como um doente experimental que sofresse sozinho os efeitos da culpa. Esse herói é um tipo comum de funcionário bancário burocrático que enfrenta a Autoridade, “sofrendo” uma culpa cuja origem e razão ele próprio desconhece. Para Tragtenberg, com essa passividade de José K., diante da culpa e da Autoridade invisível, Franz Kafka esforça-se em mostrar que

“o que existe “fora” de nós, consiste simplesmente no aniquilamento e no “absurdo”. O inumano sempre bordeja o humano. E todas as consolações edificantes expressas em sistemas filosóficos nada mais são do que “racionalizações” desse absurdo, que só é apreendido pelo processo novelesco. Daí, a opção de Kafka pelo gênero conto ou romance.” (TRAGTENBERG, 2001)

De acordo com a análise do romance por Tragtenberg (2001) no decorrer do processo, José K., comportar-se-á como culpado do principio ao fim; em vez de inquirir “porque” o acusam interessa-lhe saber mais “quem” o acusa, tentando manter-se lúcido, a única arma que lhe resta. Sua tristeza é ter que se ir, sem conhecer nem saber que juiz o condena. Josef K., portanto, faz a prova da liberdade, permanecendo imóvel ante a Autoridade e atraindo sobre si “livremente” todas as conseqüências de sua atitude.

Sobre essa liberdade, Silva (2005) afirma que Kafka tornou-se sinônimo de inquietação, em face do sistema burocrático opressor. “As cadeias da humanidade torturada são feitas de papel de escritório”, afirmou Kafka. Fica assim demonstrada a perspectiva antiautoritária do autor de O Processo. Para Silva (2005) é um equívoco rotular a obra kafkiana de anarquista (ou outro ista qualquer). Mas é possível identificar o ethos libertário. Este “se exprime em diferentes situações que estão no centro dos seus principais textos literários, mas, antes de tudo, na maneira radicalmente crítica como é representado o semblante compulsivo e angustiante da não-liberdade: a autoridade.

Tragtenberg resume a tragédia kafkiana em face à burocracia opressora com o desfecho de O Processo:

“Certa noite a Justiça vestida de negro aparece diante de José K. Levam-no a um local afastado e com três facadas no coração liquidam-no. Onde estava o juiz? Onde estava a Alta Corte que o condenou? Continuam sendo entidades abstratas e incomunicáveis com o humano, com José K. transformado em símbolo.” (TRAGTENBERG, 2001)

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* Graduando em Administração pela Universidade Estadual de Maringá (UEM)

Referências
KAFKA, Franz. O processo. São Paulo: Martin Claret, 2000.
MOTTA, F. C. P.; VASCONCELOS, I. F. G. Introdução à teoria geral da administração. 1945. 2. ed. São Paulo: Thomson, 2002.
MOTTA, Fernando C. Prestes; PEREIRA, Luiz C. Bresser. Introdução à organização burocrática. 1. ed. Brasília: Brasiliense, 1980.
MOTTA, Fernando C. Prestes. O que é burocracia. Coleção primeiros passos. São Paulo: Brasiliense, 1981.
SILVA, Antonio Ozaí da. Franz Kafka: a afirmação da liberdade. Disponível em: <http://www.espacoacademico.com.br/074/74res_ozai.htm> Acesso: 10 de agosto de 2009.
TRAGTENBERG, Mauricio. Burocracia e ideologia. 2. edição. São Paulo: Ática, 1992.
TRAGTENBERG, Mauricio. Franz Kafka – O Romancista Do “Absurdo”. Disponível em: <http://www.espacoacademico.com.br/007/07trag_kafka.htm> Acesso: 10 de agosto de 2009.
WEBER, Max. Economia e Sociedade. Brasília: UNB, 1999. v. 2.
WEBER, Max. Ensaios de sociologia. Rio de Janeiro: Zahar, 1982.