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Liberdade por necessidade – por Terry Eagleton

24/02/2010

Terry Eagleton sobre “O Grande Inquisidor”, Lapham’s Quarterly,19/01/2010

[Tradução: Caia Fittipaldi]*


Publicada pela primeira vez na Rússia czarista em 1880, Os irmãos Karamazov é obra prima metafísica de Fyodor Dostoevsky, romance animado por clamores de danação eterna tanto quanto de imortalidade. Sigmund Freud acreditava que o livro deixasse entrever tendências obscuramente enigmáticas, até mesmo criminosas, de Dostoevsky; e surgiu na Rússia uma neologia – Karamazovshchina – para designar a depravação, a violência e o desvio psicológico que o romance explora. Como boa parte da ficção de Dostoevsky, seu último romance combina o trágico e o grotesco, momentos de êxtase místico e episódios de farsa selvagem. Seus personagens parecem viver em permanente estado de angústia patológica ou sensibilidade mórbida: nobres arruinados, caricatos proprietários de terra e funcionários doentes de paranóia social, todos mergulhados no gozo pervertido de serem insultados ou humilhados.

Seus extraordinários romances, dentre os quais Crime e Castigo (1866), O Idiota (1869) e Demônios (1872), apresentam uma sociedade naufragada em miséria feudal, mas colhida por ideias vanguardistas, misturadas com anarquismo e niilismo, tementes a Deus e negadores de Deus. Como alguém que conheceu a sedução da Cristandade Russa Ortodoxa, Dostoevsky jamais olhou com bons olhos a política radical e o secularismo liberal; como muitos modernos, era politicamente conservador e artisticamente temerário. E sua imaginação era acossada por rebeldes e parricidas, pelos marginais danados e amaldiçoados, tanto quanto pelos santos e pelas escrituras. A dissolução talvez seja apenas a via torta que leva ao Paraíso. É possível que os endemoniados entendam melhor Deus, à sua própria moda, que muitos bispos de gola engomada.

Os irmãos Karamazov não é apenas uma meditação sobre a graça e o pecado, inferno e salvação. É também um romance de intriga, um “policial”, como se diz hoje. Enormemente complexo, em algumas edições com quase mil páginas, o romance evolui em torno do assassinato de Fyodor Karamazov, proprietário de terras, e a ação – do início ao fim são apenas quatro dias – oferece todo o drama e a tensão das melhores histórias de detetive. Sobre um frágil fundamento de narrativa, repousa uma imensa, gigantesca, descomunal superestrutura de comentário social, de meditação religiosa e de ruminação filosófica. Os filhos de Fyodor, irmãos e herdeiros, muitas vezes chegam ao limite da loucura e da ruína espiritual, sempre exibindo desprezo profundo pela moralidade pequeno-burguesa. Dimitri, violento e sexualmente dissoluto, rufião metade sensual metade infantil no campo moral, é devorado por ódio edípico. Alexei, o mais jovem, também desdenha a linha média da moralidade, mas tende mais ao angélico que ao demoníaco. O irmão do meio, Ivan, o racionalista, parece rejeitar Deus completamente e engaja-se em vivo debate diretamente com o Demônio – que lhe aparece vestindo calças xadrez fora de moda.

O mais extraordinário fragmento do romance é “O Grande Inquisidor”.[1] Ivan conta a Alexei o que se conhece como “o Grande Inquisidor”, como parte de um diálogo entre os irmãos sobre a questão da fé religiosa. Suas discussões são dramáticas, negociações estratégicas, mais do que disputa de argumentos filosóficos. Não se pode pois subestimar essa maravilhosamente rica narrativa convertendo-a em simples exposição de ideias de Dostoevsky. Como a narrativa de Marlowe em Coração das Trevas[2], trata-se de uma história dentro de outra história. Não se sabe o quanto acuradamente se expõem aí crenças de Ivã, nem o quanto são influenciadas por aquelas específicas circunstâncias conversacionais. Durante o episódio não temos acesso à sua consciência. Em vez disso, ouvimos uma história que não tem qualquer existência separada desse específico ato de contar, e da qual o próprio Ivan zomba, apresentando-a como “nada além de poema zonzo, de estudante zonzo”. Talvez esteja apenas tentando ‘conquistar’ o irmão, a quem a fábula soa mais ou menos incompreensível. Estará tentando dar uma sacudida na fé de Alexei? A forma complexa, desviante do episódio, em outras palavras, nos chama a atenção para o fato de que estamos na presença de literatura, não de filosofia ou teologia. O Grande Inquisidor acusa Cristo, o que não parece característico de Dostoevsky, homem de inclinações religiosas. Por outro lado, o pouco prestígio de que goza o rebanho comum, aos olhos do Inquisidor, soa bem próximo das próprias opiniões do autor. Nada nesse grande capítulo pode ser lido superficialmente. A verdade nunca se compra barata.

A trama de “O Grande Inquisidor” é bem simples: Jesus volta à Terra, descuidado a ponto de desembarcar na cidade de Sevilha durante a Inquisição Espanhola. O Grande Inquisidor, já chegando aos 90 anos, ordena a prisão do Salvador, com planos de o fazer queimar vivo no dia seguinte, em praça pública, como “o mais vil dos hereges”, e vai à cela onde Jesus está preso para explicar por quê. O que se lê daí em diante é uma das mais cuidadosamente bem arquitetadas apologias do despotismo religioso jamais escritas, ou é espantosa sátira desse tipo de autocracia. Por que Jesus, pergunta o Inquisidor, depôs o intolerável peso da absoluta liberdade sobre os ombros da pobre, fraca, depravada humanidade? Como se atreveram Jesus e seu pai a professar tal eterno amor por todos os homens e mulheres, ao mesmo tempo e m que os tentam com tantos ideais impossíveis? Melhor, claro, seria oferecer ao povo aquilo por que o povo mais suplica – o pão da terra –, em vez de oferecer-lhe só o etéreo pão da bem-aventurança eterna. A terrível verdade é que os seres humanos são fracos demais para carregarem o peso da liberdade. “Nada seduz mais os homens que ter a consciência livre”, o Inquisidor explica a Jesus, “mas nada, ao mesmo tempo, mais o atormenta que a consciência livre. E por isso, em vez de um fundamento sólido que traga paz à consciência humana de uma vez por todas, vocês preferem algo desconhecido, enigmático, indefinido; vocês escolhem algo que está além da força humana.” O homem anseia, sobretudo, por entregar sua assustadora liberdade a um mestre benigno, que cuidará de manter-lhe vivo o corpo e o aliviará do sofrimento conhecido como desejo de escolher.

O único alívio, sugere o Inquisidor, é a Igreja. “Melhor que nos escravizem, mas nos alimentem” – eis o choro do povo; a Igreja, em sua sabedora, responde a essa súplica com as três sagradas consolações, “milagre, mistério e autoridade.” Diferente de Ivã, intelectual cruel, o povo pobre deseja cultuar, não entender; e a combinação na Igreja tradicional, de operar milagres, uma gota de mistério, segredo e enigma, e uma autoridade que parece dispensar qualquer fundamento puramente racional, graciosamente deixa-se venerar. O Grande Inquisidor entende, e tem certeza de que Deus não entendeu, que os seres humanos são horrivelmente fracos e impotentes. O amor do Grande Inquisidor consiste em protegê-los em sua fragilidade, não, sadicamente, esfregar-lhe no nariz aquela fragilidade. O Grande Inquisidor conclui sua denúncia e Jesus nada diz. Em vez de falar, curva-se para a frente e beija na boca o Grande Inquisidor. O Inquisidor suspende a execução de Jesus. Condena-o ao exílio eterno. Que nunca mais volte.

Diferente de muitos ateus e agnósticos – diferente, de fato, também de muitos crentes – Dostoevsky assume que Deus é fonte, não obstáculo, da liberdade humana. Deus é amor, como argumenta Santo Tomás de Aquino, é o que nos permite sermos nós mesmos, assim como o cuidado da boa mãe, do bom pai, permite aos filhos florescer como seres autônomos. Paradoxalmente, é nossa dependência de Deus que nos liberta. Dostoevsky não tem paciência para as fantasias infantis-adolescentes de Deus como um Paizão que só existe para atrapalhar nossos prazeres secretos, uma espécie de Bill O’Reilly celestial chato. Há bons motivos psicológicos para que acalentemos aquela fantasia, masoquistas crônicos que somos. Freud sabia da gratificação que obtemos de cada surra que levamos de nosso crudelíssimo, vingativo superego. Trata-se apenas de desaprender essa visão infantilizada de Deus e passar a vê-lo como amigo, amante, parceiro de luta e conselheiro da defesa. Exatamente o que tanto não queremos fazer. É muito mais conveniente vê-lo como velho irascível e safado, um desses rock stars badalados que todos os dias têm de ser aplacados e acalmados. Isso feito, todos podemos gozar as delícias edípicas de nos rebelar contra Deus.

O Grande Inquisidor acerta também ao ver Deus como assustador. No Velho Testamento, Jafé manifesta-se como um fogo terrível de ver, um abismo sublime que derrota qualquer tentativa de representação. Mas o Inquisidor não vê que o que tudo ultrapassa, em Deus, é o amor. É como um terror santo que tudo destrói para tudo renovar, sem limite para o perdão e o favor. A paixão de Deus por suas criaturas tem a intransigência das coisas não condicionadas, do incondicionado perfeito. Deus não tem, como tantos gnósticos imaginam tão confortavelmente, uma face criativa e uma face destrutiva. O escândalo é que as duas faces são uma e a mesma.

A liberdade também tem duas faces desse tipo. É ao mesmo tempo dom e maldição, veneno e cura, auto-realizarão e autodesfazimento. A vida das criaturas livres é ao mesmo tempo precária e entusiasmante, o que é mais do que se pode dizer da vida dos peixinhos de aquário. O animal histórico, diferente do animal natural, vive sempre em risco, “condenado a ser livre”, diz Sartre. “Vivemos em liberdade por necessidade”, acrescenta Auden. Arrastamos nossa liberdade pelo mundo, como correntes e bola de ferro. Mas, embora os humanos possam fazer mau uso da liberdade, não são completamente humanos sem ela. O maior elogio jamais feito à humanidade é a doutrina do inferno. Se somos livres para rejeitar a própria fonte de nossa liberdade, para cuspir na cara do Criador, então, sim, somos superiores a tudo. E se o Criador se fez assim tão humilde, desejando a própria vulnerabilidade, então talvez não seja tão autoritário controlador como se diz que seja. O pensamento contudo é tão assustador quanto prazeroso, motivo pelo qual o Inquisidor pode não ver coisa melhor a fazer-se com a liberdade além de imediatamente passá-la adiante, como jogador de meio de campo, desesperado para passar a bola que acaba de receber.

Esse ato de renúncia, pode-se ver, não é idêntico a crer que a mais alta forma de liberdade é a voluntária cessão da liberdade. Para o Inquisidor, que tem da humanidade a visão diminuída típica dos conservadores, homens e mulheres deveriam abandonar a liberdade que têm, porque a liberdade é praga. Por outro lado, para um certo tipo de protagonista trágico, devemos abrir mão da liberdade precisamente porque é o nosso bem mais amado. Se livremente podemos abrir mão dela, abraçar deliberadamente nosso destino, então, sim, somos invulneráveis. No próprio ato de nos submeter à autoridade superior, revelamos um poder que a transcende. Há algo desse paradoxo na crucificação de Cristo; e na aceitação amorosa do Pai, por Jesus, está o fundamento de sua ressurreição. Só ao abraçar a humilhação e a morte, sem as ver como degraus da escada para a glória, Jesus transfigura a fraqueza em potência. Ao mesmo tempo, esse paradoxo pode também ser a mais sutil das tentações do demônio. Foi, no caso dos nazistas, que encontraram um tipo mais profundo de liberdade, muito superior à miserável modalidade liberal, que encontraram ao submeter-se ao Führer e à Pátria-mãe. A linha que separa o comandante da SS e o mártir que voluntariamente se entrega ao martírio do próprio corpo para salvar outros é muito fina.

Os norte-americanos tipicamente pensam nos aspectos positivos do idealismo; o Inquisidor considera destrutivas as consequências disso. Para um europeu como eu, jamais deixo de me surpreender com o idealismo dos EUA – ironicamente, onde se constituiu uma das civilizações mais materialistas de toda a história. Os norte-americanos devem sempre mais afirmar que protestar, mas esperar que lamentar, ser vencedores mais que perdedores, sempre aspirantes, nunca submissos rastejantes. Nesse mundo faustiano de sempre mais, mais, mais, a negatividade é crime grave. Se se mete na cabeça um tipo de vitória sobre a matéria digna da Ciência Cristã[3], não há limites para a ambição humana.]

Essa ideologia blasfema, sintetizada na conhecida mentira norte-americana do “Yes, you can” [sim, você pode] fazer o que quer que meta na cabeça que fará, passa sem ver pela fragilidade e pela finitude do homem – território que o Inquisidor conhece muito melhor. Também diferente nisso do Inquisidor, esse otimismo sem limites não vê o que bem se pode designar como “o terrorismo do ideal”. Claro que é preciso acalentar ideais, mas, como “a lei” para São Paulo, os ideais não podem fazer mais do que mostrar onde cada um errou; nenhum ideal consegue mostrar a alguém como fazer melhor. Esse é o motivo pelo qual Paulo amaldiçoa a lei. Os ideais têm nariz empinado e colarinho duro, em tudo parecidos com o superego freudiano – uma faculdade que nos estimula a aspirar abaixo de nossas potências, a falhar sempre e, depois, a mergulhar num poço de auto-recriminação [também chamado ‘autocrítica’]. O idealismo é cúmplice da violência e do desespero, não antídoto contra eles. O desejo neoconservador de arrastar o universo para fora da barbárie, rumo à luz da civilização, está em exposição e pode ser visitado, por exemplo, na baía de Guantánamo.

É contra essa fúria arrogante, esse ciclo autodestrutivo, que o Inquisidor procura proteger o homem comum. Se não esperamos demais dos outros, não cairemos em posições de trágico desapontamento e frustração cada vez que os outros não chegam até “lá”, inevitavelmente, tantas vezes faltando tão pouco. O niilismo ou o cinismo são a outra face do idealismo. O realismo é a única base segura para uma vida moral. O que mais partilhamos com os seres humanos nossos companheiros é nossa carne frágil. Qualquer solidariedade que não se baseie nisso e baseie-se em algum tipo de partilha de altos propósitos sempre será frágil. Solidariedade entre fracos é perdão mútuo; e o perdão é a mais avançada forma de realismo porque, para ser autêntico, o perdão tem de reconhecer plenamente o horror da ofensa no momento em que a afasta de si.

Como Freud sabia bem, os mais sublimes impulsos do homem têm raízes nos impulsos mais basais e, se não tiverem, não florescem. O que nós criaturas temos em comum, afinal, é o corpo sem adornos, o que é o mais universal de nós mas, também, o mais vulneravelmente precário e único. Por isso a vítima do campo de concentração, desnudada de toda e qualquer cultura e história específica, é prototipicamente humana em sua absoluta miséria. A alternativa real ao idealista é o perdedor. A mensagem do Novo Testamento é que os pobres, as putas, os adúlteros seriais, os colaboradores dos poderes coloniais, a escória do mundo herdarão o império, não os pios e bem-comportados. E chama a atenção que Jesus sequer tenha pedido que esses tipos de péssima reputação se arrependessem antes de unir-se a eles – escandalosa, espantosa inovação introduzida pelo povo judeu.

A teologia do Grande Inquisidor soa estranha porque ele não vê que a perigosa liberdade que Deus dá aos homens e mulheres é, dentre outras coisas, liberdade do jugo da lei. Por isso Jesus diz “Meu jugo é suave e meu fardo é leve” (Mateus XI 28-30). São os escribas e fariseus, diz ele, que impõem pesados fardos às costas dos pobres. Jesus exige, como maior demanda, por sua vez, amor e tolerância. Com essas demandas, mostra que Deus não é um Paizão, que não é adversário autoritário e restritivo, cheio de truques. No Velho Testamento, a palavra em hebraico para “adversário” é Satan, e Deus ganha traços de Satan para os que o concebam como alguma espécie de superpotência assustadora, e pensem que para barganhar e obter os favores dele bastaria fazer as coisas certas. Segundo Jesus, Deus já perdoou todos – falta apenas que todos se deixem amar por Deus. Aí está a tremenda dificuldade. Muito mais prazeroso é abraçar as cadeias que sujeitam os outros.

O Grande Inquisidor alista-se entre os que veem Deus como seu inimigo. Ele crê que, como um déspota brutal, Deus joga sobre os ombros de homens e mulheres mais do que podem carregar; esse peso, o Grande Inquisidor não chama dízimo ou imposto, mas liberdade. Ao mesmo tempo, o Inquisidor não vê a solidariedade de Deus com a fraqueza humana – que também é conhecida pelo nome de Jesus. No Calvário, Deus se comprova frágil e carnal até a morte. Seu único significante é o corpo torturado de um homem que falou de amor e justiça e o Estado condenou à morte. Só se se consegue olhar de frente esse terrível fracasso, pode-se encontrar fundamento para algo mais edificante. Só depois de enterrado na terra, pode-se subir aos céus. O amor fez sua morada em terra coberta de excrementos, como Yeats não nos deixa esquecer. Idealismo moral que recuse essa verdade é sempre, só, mais ideologia.

Dostoevsky com certeza sabia que o Jesus do Novo Testamento rejeita a clara divisão que o Inquisidor apresenta, entre o pão da terra e o pão do espírito. No Evangelho de Mateus, a salvação não é questão “religiosa” ou etérea; é questão de alimentar os famintos e tratar dos doentes. No verdadeiro espírito judaico, o ensinamento é ético até a medula. São os de mente materialista que preferem religião em outros termos e palavras, se possível palavras do outro mundo, para compensá-los do excesso de esse-mundanismo crasso de sua verborragia materialista. Não surpreende que uma garota material(ista)[4] como Madonna tenha aulas de misticismo no Kabbalah Center em Los Angeles. Onde mais, se não lá, poderia ela escapar por um momento dos agentes, fãs, gerentes, cabelereiros, costureiros e tais? Claro que a salvação não pode depender só de prosaicos copo d’água e côdea de pão. O Grande Inquisidor é sujeito profundamente mundano, que tem objeções ao que vê como cobranças espirituais cruelmente irrealistas. Em termos mundanos espertos, ninguém jamais foi tão longe quanto ele. Mas ele não percebe é que Deus é um tipo único de superego, que antes aceita o fracasso e ama o fracassado, do que recompensa o sucesso.


* Caia Fittipaldi reside em São Paulo, é formada em Linguística, pela USP, e trabalha como tradutora e editora de texto. Texto recebido por e-mail da rede castorphoto. O original, em inglês, pode ser lido em: http://www.laphamsquarterly.org/reconsiderations/freedom-by-necessity.php?page=all

[1] NT: Pode ser lido, em português, em http://www.scribd.com/doc/24831393/Fiodor-Dostoievski-O-Grande-Inquisidor .

[2] NT: Pode ser lido, em português, em http://www.scribd.com/doc/11021362/Joseph-Conrad-O-Coracao-Das-Trevas

[3] NT: Para saber o que é, ver http://en.wikipedia.org/wiki/Christian_Science

[4] NT: Ing., “material girl”. É o título de música gravada por Madonna, em seu segundo álbum, “Like a Virgin”, lançado em janeiro de 1985. “Material Girl” passou a ser uma espécie de codinome da cantora (emhttp://pt.wikipedia.org/wiki/Material_Girl).

O americano tranquilo – por Uri Avnery

17/02/2010

9/1/2010, Gush Shalom [Grupo da Paz], Israel

[Tradução: Caia Fittipaldi]

O AMERICANO TRANQUILO é o herói do romance de Graham Greene sobre a primeira guerra do Vietnã, na qual os franceses foram derrotados.

Era um norte-americano jovem e ingênuo, filho de um professor, que fora bem educado em Harvard, um idealista com todas as melhores intenções. Quando chega como soldado ao Vietnã, queria ajudar os nativos a superar os dois principais males que via lá: o colonialismo francês e o comunismo. Sem saber coisa alguma sobre o país no qual estava, provocou um desastre. O romance termina num massacre – resultado dos esforços desorientados do “americano tranqüilo”. Comprovou-se a velha máxima: “A estrada para o inferno é pavimentada de boas intenções”.

Já se passaram 54 anos depois que esse livro foi escrito, mas parece que o americano tranquilo não mudou. Ainda é idealista (pelo menos, ele acredita que seja idealista), ainda deseja levar a redenção a povos estrangeiros distantes sobre os quais nada sabe; e ainda provoca desastres terríveis: aconteceu no Iraque, no Afeganistão e agora, parece, no Iêmen.

O EXEMPLO DO IRAQUE é o mais simples de todos.

Os soldados norte-americanos foram mandados ao Iraque para derrubar o regime tirano de Saddam Hussein. Havia, é claro, outros objetivos menos altruístas, como assumir o controle do petróleo iraquiano e instalar o exército dos EUA no coração da região petroleira do Oriente Médio. Mas a aventura foi apresentada ao público norte-americano como empreitada idealista contra um ditador sanguinário que ameaçava o mundo com bombas nucleares.

Isso, há seis anos, e a guerra prossegue. Barack Obama, que se opôs à guerra desde o início, prometeu tirar os norte-americanos de lá. Apesar de muita conversa, não há fim à vista.

Por quê? Porque os que realmente tomam decisões em Washington não têm nem ideia do que é o país que querem libertar e ajudar a viver feliz para sempre.

Desde o início, o Iraque foi Estado artificial. Os britânicos costuraram umas às outras várias províncias otomanas, considerando os seus, dos britânicos, interesses coloniais. Coroaram um árabe sunita como rei dos curdos, que não são árabes, e dos xiitas, que não são sunitas. Só uma sucessão de ditadores, cada um mais brutal que o antecessor, impediu que o Estado se esfacelasse.

Os planejadores em Washington não têm qualquer interesse na história, na demografia nem na geografia do país que invadiram com força brutal. O caso, olhado de Washington, pareceu bem simples: alguém teria de derrubar o tirano, estabelecer instituições democráticas à maneira dos EUA, fazer eleições livres… E tudo o mais entraria “naturalmente” nos eixos.

Ao contrário das expectativas, os norte-americanos não foram recebidos com flores. Não se encontrou lá a terrível bomba atômica de Saddam. Como o elefante na loja de porcelana do provérbio, quebraram tudo, destruíram o país e acabaram presos num pântano.

Depois de anos de operações militares sangrentas que levaram a parte alguma, encontraram afinal uma panaceia. Para o inferno o idealismo; para o inferno os altos ideais; para o inferno todas as doutrinas militares. – Hoje, os EUA não fazem outra coisa além de subornar os chefes tribais que, sim, são a realidade do Iraque.

O americano tranquilo não sabe como se safar de lá. Sabe que, se sair agora, há risco de o país se autodesintegrar em matança geral.

DOIS ANOS antes de invadir o Iraque, os norte-americanos invadiram o Afeganistão.

Por quê? Porque uma organização chamada Al-Qaeda (“a base”) declarara-se autora da destruição das Torres Gêmeas em New York. Os chefes da Al-Qaeda estavam no Afeganistão, lá estavam seus campos de treinamento. Para os norte-americanos, tudo pareceu simples – ninguém precisou pensar outra vez (de fato, parece, ninguém tampouco pensara antes).

Se os EUA conhecessem o país que decidiram invadir, talvez tivessem hesitado. O Afeganistão é um histórico cemitério de exércitos invasores. Grandes impérios saíram de lá escafedidos, com o rabo entre as pernas. Diferente do Iraque, que é plano, o Afeganistão é país montanhoso, um paraíso para a guerra de guerrilhas. Além de ser lar de vários povos e de incontáveis tribos, cada povo e cada tribo é furiosamente zeloso da própria independência.

Os estrategistas em Washington não tomaram conhecimento de nada disso. Para eles, parece, todos os países são idênticos, todas as sociedades são iguais. No Afeganistão, também, bastaria estabelecer uma democracia livre à moda dos EUA, com eleições à moda dos EUA e viva! – tudo daria certo e para sempre.

O elefante entrou na loja de porcelanas sem pedir licença e obteve vitória estrondosa. A Força Aérea “bombou”, o exército não encontrou obstáculos, a Al-Qaeda sumiu como fantasma, os Talibãs (“estudantes religiosos”) fugiram como coelhos. As mulheres poderiam voltar a andar pela rua sem véus, as meninas encheriam as escolas, os campos de ópio voltariam a florescer – e também floresceriam sem obstáculos os amigos de Washington em Cabul.

Contudo… a guerra prossegue, ano após ano, o número de norte-americanos mortos sobe inexoravelmente. Para quê? Ninguém sabe. É como se a guerra tivesse adquirido vida própria, sem quê nem por que, sem objetivo, sem razão. Norte-americano que esteja no Afeganistão e olhe em volta, tem de perguntar-se: o que, diabos, estamos fazendo aqui?

O OBJETIVO IMEDIATO, a expulsão da Al-Qaeda do Afeganistão, foi ostensivamente alcançado. A Al-Qaeda já não está lá – supondo-se que algum dia tenha estado.

Escrevi certa vez que a Al-Qaeda é invenção dos EUA e que Osama Bin-Laden foi descoberto pela central de seleção de atores de Hollywood e mandado para fazer aquele papel. Osama Bin-Laden é perfeito demais para ser autêntico.

Claro, estou exagerando um pouco. Mas só um pouco. Os EUA vivem precisando de um inimigo universal. No passado, foi o Comunismo Internacional, cujos agentes eram vistos atrás de cada árvore, por baixo de cada tábua do assoalho. Infelizmente, já não há União Soviética, há falta de inimigo, alguém teria de preencher o papel. Foi quando acharam a jihad planetária, encarnada na Al-Qaeda. Esmagar o “Terrorismo Universal” passou a ser a razão de ser de tudo que os EUA fazem.

Essa razão de ser não é razão; como objetivo, é irracional. O terrorismo é arma, instrumento de guerra. As mais diferentes organizações fazem uso do terror, há terror dos dois lados em luta nos mais diferentes países, cada lado com seu objetivo diferente e muitas vezes oposto a todos os demais; há terroristas de todos os lados. Fazer guerra universal contra “o terror internacional” é como fazer guerra a alguma “artilharia internacional” ou a alguma “marinha internacional”.

Não há, no planeta, nenhum movimento terrorista universal liderado por Osama Bin-Laden. Graças aos EUA, “Al-Qaeda” tornou-se griffe prestigiada no mercado da guerrilha, assim como “McDonald” e “Armani”, no mundo do fast-food e da moda. Cada militante de organização islâmica pode hoje se apropriar da griffe, mesmo sem pagar royalties a Bin-Laden.

Os governos controlados pelos EUA, que sempre rotularam de “comunistas” os seus inimigos locais, para obter ajuda dos patrões norte-americanos, hoje rotulam os seus inimigos locais de “terroristas da Al-Qaeda”.

Ninguém sabe onde está Bin-Laden – nem se existe ou está vivo. Ninguém sabe, sequer, se está no Afeganistão. Há quem diga que se mudou para o vizinho Paquistão. E mesmo que lá esteja: que fundamento há em alguém fazer guerra e matar milhares de homens, mulheres e crianças… Para caçar um único homem?

Há os que dizem: OK, Bin-Laden não existe. Mas é preciso impedir a volta dos Talibãs ao governo do Afeganistão. Por que, santo deus?! Quem são os norte-americanos que mandam no Afeganistão? Querem o quê? Pode-se ter todos os argumentos do mundo contra todos os fanáticos religiosos do mundo, e contra os Talibãs especificamente e, mesmo assim… Seria motivo para essa guerra interminável?

Se os afegãos preferem ser governados pelos Talibãs, em vez dos mercadores de ópio que hoje estão no poder em Cabul… o problema é deles! E parece que, sim, que preferem os Talibãs, dado que, como antes e até hoje, os Talibãs outra vez controlam praticamente todo o país, ou quase isso. Nada justifica uma guerra como a do Vietnã, no Afeganistão. OK, mas… e como é que os EUA sairão de lá? Obama não sabe.

Durante a campanha eleitoral, Obama prometeu, com entusiasmo febril de candidato, que aprofundaria a guerra no Afeganistão, como uma espécie de “compensação” pela retirada do Iraque. Hoje, está atolado no Iraque e no Afeganistão. Pior: está prestes a atolar-se, também, numa terceira guerra.

DURANTE OS últimos dias, o nome do Iêmen está em todas as manchetes. Iêmen – um segundo Afeganistão, um terceiro Vietnã. O elefante está pronto para entrar em outra loja de porcelanas. Dessa vez, tampouco está preocupado com a porcelana.

Sei pouco sobre o Iêmen, mas sei o suficiente para entender que só doido teria qualquer interesse em deixar-se enredar lá. É mais um Estado artificial, composto de metades incompatíveis – o país de Sanaa no norte e o sul (ex-britânico). A maior parte do país é montanhosa, controlada por tribos belicosas que defendem todas, a própria independência. Como o Afeganistão, é um paraíso para especialistas locais em guerra de guerrilhas.

Lá também há um grupo que adotou a griffe “Al-Qaeda”: é a “Al-Qaeda da Península Arábica” (depois que os militantes iemenitas uniram-se aos irmãos sauditas). Mas seus chefes interessam-se muito menos pela revolução mundial do que pelas intrigas e batalhas das tribos entre elas e o governo “central” – uma realidade com história de milhares de anos. Só doido absoluto poria a própria cabeça nesse travesseiro.

O nome Iêmen significa “a terra à direita”. (Se se olha para Meca a partir do Oeste, o Iêmen fica à direita, com a Síria à esquerda.) A direita também conota felicidade; e o nome Iêmen é associado a al-Yamana, palavra em árabe para “estar feliz”. Os romanos chamavam aquela terra de Arabia Felix (“Arábia Feliz”), porque era terra próspera, que enriqueceu no comércio de especiarias.

(Aliás, por falar nisso, talvez interesse a Obama saber que outro líder de superpotência, César Augusto, tentou uma vez invadir o Iêmen e foi rechaçado.)

Se o americano tranquilo, na sua mistura de idealismo e ignorância, resolver levar para lá a democracia e as quinquilharias de sempre, porá fim a qualquer felicidade que lá ainda haja. Os EUA afundarão em outro pântano, dezenas de milhares de pessoas serão mortas. Tudo terminará em desastre.

É POSSÍVEL que o problema tenha raízes – inter alia – na arquitetura de Washington DC.

A cidade é tomada por prédios enormes, de ministérios e escritórios e serviços oficiais da única superpotência que há no mundo. As pessoas que trabalham lá sentem o poder tremendo daquele império. Olham para os chefes tribais do Afeganistão e do Iêmen como um rinoceronte olha as formigas que correm entre suas patas. O rinoceronte caminha sem ver por cima das formigas. Mas alguma formiga sempre sobrevive.

Além do mais, o americano tranquilo faz pensar também no Mefistófeles do Fausto, de Goethe, que se autodefine como a força que “sempre quer o mau e sempre cria o bom”.  Só que ao contrário.

O artigo original, em inglês, pode ser lido em: http://zope.gush-shalom.org/home/en/channels/avnery/1263069068/

Fonte:  Carta Maior (10.01.2010) – [Tradução: Caia Fittipaldi]

A beleza salvará mesmo o mundo? – por Paulo Timm

10/02/2010

*

“O poeta nos permite desfrutar nossas próprias fantasias, sem censura, sem pudor.”  (Sigmund Freud)

Recomenda o velho ditado que, se não tens nada a dizer, fiques calado. Afinal, se a fala é de prata, o calar é ouro fino. Conselho importante para se ter presente nas reuniões sociais, mas inviável para quem vive de fazer-se ouvir. Não falo do viver como instância material, mas como substância existencial, sem a qual um escritor, poeta, romancista ou cronista se exila de si e morre de inanição. Mas o que dizer diante de tanta miséria humana, exposta aos olhos do mundo na tragédia do Haiti? Como compatibilizar uma consciência iluminista com a vitória de um aliado de Pinochet no Chile? Dá para suportar a edição de mais um Big Brother Brasil na Rede Globo, sobre o qual convergirão os indicadores de audiência, estimulando as outras redes com programas similares?

Não sei não…Folheio livros, releio meus arquivos eletrônicos, verdadeiro porta-jóias de minhas leituras diárias, arrisco-me a comentar uma entrevista de Willian Faulkner na qual ele abre o jogo sobre o segredo dramático de seus romances… Querem saber?

Trata-se da trindade da consciência. Uma “santíssima trindade” laica que iria influenciar gerações inteiras de escritores, chegando até nosso imortal Gabriel Garcia Marques, que nele se inspirou. Os romances de Faulkner, segundo ele, giram em torno de três personagens chaves, detentores de três tipos de consciência: os que nada sabem – e porque não sabem, pouco se importam e nada fazem –; os que sabem e não se importam – que são os cínicos –, que locupletam nosso universo político; e os que sabem e se importam – que são os que carregam as mazelas do mundo, Zilda Arns entre eles, como outrora Luther King e tantos outros abnegados. Com base nesses personagens Faulkner diz que o escritor está sempre tentando criar “pessoas verossímeis em situações comoventes e críveis, da maneira mais comovente” de forma a expor a vida em movimento, pois é no movimento da vida que as pessoas vivem. A vida é movimento, diz ele, e o movimento está ligado ao que faz com que o homem se mova, que é a ambição, o poder, o prazer”. E adverte: “Qualquer tempo em que um Homem possa dedicar à moralidade ele tem que arrancar à força do movimento do qual faz parte. Sua consciência moral é a maldição que ele tem que aceitar dos deuses de modo a obter deles o direito de sonhar.”

Me pergunto: Alguém tem culpa pelo que ocorre no Haiti? Quem sabia e nada fez para mudar o curso de um destino trágico? Quem sabia, tentou fazer e não conseguiu? E não pergunto pelos que nem sabiam e nada fizeram, porque deles é Reino de Deus… Basta-lhes a felicidade do simples jogo da vida, escapando-lhes o direito de sonhar…. E quanto ao Chile, de quem é a culpa pela vitória de Piñeros? E como o mundo civilizado permite reedições sistemáticas do Big Brother por todos os seus países…?

Volto ao Romance.Nele me refugio. Com efeito, ainda não se conseguiu, mesmo com o desenvolvimento considerável das Ciências Humanas no Século XX, nada comparável ao Romance como Teoria da Existência Humana. E, assim, continuamos no pólo da sensibilidade, antena da beleza, para entender o Homem. Mas por que, então, tanto (esforço) à verdade e tão pouco à beleza se ela, a verdade, é tão inatingível? Leon Tolstoi alimentou tantos sonhos em sucessivas gerações russas para, afinal, confiná-las, sob o condomínio da verdade administrada pelo marxismo soviético, à depressão dos Gulags. Dostoievski, no seu encalço, acreditava que só a beleza salvaria o mundo. E apostou nisso criando as mais belas páginas de literatura mundial. Salvou alguma coisa? Ou, simplesmente, não conseguiu sensibilizar aquele maravilhoso povo, suficientemente, para o primado da beleza sobre a verdade…?

Sempre o Romance… Tecendo o fio de existências humanas grandiosas mas incompletas, sem direito à História, cativa da razão.

Longe da nossa tradição ocidental, marcada por Shakespeare, e o corolário de romancistas , desde Crétien de Troyers, com Lancelot e Tomas Malory, no Sec. XV, passando no século seguinte aos épicos de Cervantes , Mme. Lafaeyete e Daniel Defoe, para fechar-se num prodigioso ciclo de “folhetins” inaugurado por Goethe, em 1796, com o histórico “Os anos de aprendizagem de W. Meister”, seguido dos grandes “fleuves” de Honoré de Balzac – “A Comédia Humana” – e Émile Zola, Rougon Marquart, num imenso fluxo que desembocaria no início do século XX em James Joyce, Romain Rolland, Roger Martin Du Gard e Sartre, Milan Kundera nos fala dos formadores de consciências do lado oriental da Europa, evidenciando também sua importância para este, que foi o memorável autor da “Insustentável leveza do (de) ser”:

“Musil e Hermann Brock sobrecarregaram o homem com responsabilidades enormes. Eles o viam como a suprema síntese intelectual. O último lugar onde o homem ainda questiona o mundo como um todo. Estavam convencidos de que o romance tinha um tremendo poder sintético, que ele podia ser fantasia, aforismo e ensaio. Tudo ao mesmo tempo.O objeto específico daquilo que Brock gostava de chamar “conhecimento novelístico” é a existência. A meu ver, a palavra “poli-histórico” deve ser definida como aquilo que reune todo artifício e toda forma de conhecimento de modo a lançar luz sobre a existência”.

Será que as novas gerações estão lendo esses autores com a mesma sofreguidão com que nós o fazíamos. E descobrindo o universo da natureza com os livros equivalentes de Julio Verne, H.G.Wells, Arthur Clarck, Arthur Koestler? Ou estão apenas embalados na fantasmagoria de Harry Potter e Paulo Coelho?

Não sei…

Mas pelo sim, pelo não, vale a pena insistir na beleza como caminho da salvação, senão do mundo, dos nossos pobres espíritos massacrados por tantas e sucessivas verdades. E quem sabe o espírito reanimado não seja o caminho da reconciliação. “Minha pátria é minha língua”, insistia Fernando Pessoa, deleitando-se com as palavras que dançavam nos seus versos propiciando-lhe momentos de verdadeiro êxtase. As “Cartas a um Jovem Poeta”, de Rainer Maria Rilke são igualmente comoventes e nos ajudam a suportar o delírio de um mundo insano, predispondo-nos, quem sabe à ação. Entrego-me a elas e a elas lhes convido, num rápido passeio sobre as que me parecem suas mais belas passagens:

Cartas a um jovem poeta

1 – Paris, 17 de fevereiro de 1903

Não há senão um caminho: Procure entrar em si mesmo

Não escreva poesias de amor, relate suas mágoas e seus desejos

Utilize, para se exprimir, as coisas de seu ambiente, as imagens de seus sonhos e os objetos de suas lembranças

Se a própria existência cotidiana lhe parecer pobre, não a acuse. Acuse a si mesmo.Volte a atenção para sua infância.

Uma obra de arte é boa quando nasceu por necessidade

O criador… deve ser um mundo para si mesmo e encontrar tudo em si e nessa natureza a que se aliou.

2 – Viareggio, 5 de abril de 1903

Toda uma constelação de eventos se deve reunir para que uma única vez se alcance um resultado feliz.

Não se deixe dominar pela ironia, sobretudo em momentos estéreis. Nos momentos criadores procure servir-se dela , como de mais um meio para agarrar a vida. Utilizada com pureza, ela também é pura e não nos deve envergonhar. Ao verificar porém, que se familiariza demais com ela , temendo uma intimidade excessiva, volte-se para objetos grandes e graves, diante dos quais ela se encolhe desajeitada. busque o âmago das coisas onde a ironia nunca desce

3 – Viareggio, 23 de abril de 1903

O próprio destino é como um amplo e admirável tecido em que dedos de infinita ternura conduzem cada fio, colocando-o entre os demais, fixando-o a cem outros que o sustentam.

As obras de arte são de uma infinita solidão; nada as pode alcançar tão pouco quanto a crítica. Só o amor as pode compreender e manter e mostrar-se justo com elas .É sempre ao seu sentimento que deve dar razão.

Deixar amadurecer inteiramente, no âmago de si, nas trevas do indizível e do inconsciente, do inacessível a seu própria intelecto, cada impressão, cada germe de sentimento e aguardar com profunda humildade e paciência a hora do parto de uma nova claridade.

Ser artista não significa calcular e contar, mas sim amadurecer como a árvore que não apressa a sua seiva.

Aprendo-o diariamente no meio das dores a que sou agradecido: a paciência é tudo.

A experiência artística está tão incrivelmente perto da experiência sexual no sofrimento e no gozo que os dois fenômenos não são senão formas diversas da mesma saudade e da mesma bem-aventurança.

4 – De passagem por Worpswede, 16 de julho de 1903

Creio, contudo, que o (….) não deixará de encontrar uma solução, se agarrar a coisas que se assemelham a si, como as que agora dão repouso aos meus olhos. Se se agarrar à natureza, ao que ela tem de simples, à miudeza que quase ninguém vê e que tão inesperadamente se pode tornar grande e incomensurável; se possuir este amor ao insignificante; se procurar singelamente ganhar como um servidor de confiança daquele que parecer pobre – então tudo se lhe há de tornar fácil, harmonioso e, por assim dizer, reconciliador, não talvez do intelecto, que fica atras espantado, mas sim na sua mais íntima consciência, que vigia e sabe.

A carne é um peso difícil de se carregar.

A criação intelectual, com efeito, provém também da criação carnal. É da mesma essência; é apenas uma repetição silenciosa, enlevada e eterna da volúpia do corpo. Numa idéia criadora revivem mil noites de amor esquecidas que a enchem de altivez e altitude.

Sobre a base do acaso que parece cumprir-se nesse abraço, acorda a lei que faz que um germe forte e poderoso avance até que o óvulo que vem aberto a seu encontro. Não se deixe enganar pela superfície: – nas profundidades tudo se torna lei.

Por isso, caro senhor, ame a sua solidão e carregue com queixas harmoniosas a dor que lhe causa. Diz que os que sentem próximos estão longe. Isto mostra que começa a fazer-se espaço em redor de si. Se o próximo lhe parece longe, os seus longes alcançam as estrelas, são imensos

Mas a sua solidão há de dar-lhe, mesmo entre condições muito hostis, amparo e lar, e partindo dela encontrará todos os caminhos. Todos os seus desejos estão prontos a  acompanhá-lo e minha confiança está consigo.

5 – Roma , 29 de outubro de 1903

Há muita beleza aqui, porque há beleza em toda parte.

6 – Roma, 23 de dezembro de 1903

Ao verificar que sua solidão é grande, alegre-se com isto

Há uma solidão só: é grande e difícil de se carregar

O que se torna preciso, é … isto: solidão, uma grande solidão interior. Entrar em si mesmo, não encontrar ninguém durante horas – eis o que se deve saber alcançar.

O que importa apenas, é prestar atenção ao que nasce dentro de si e colocá-lo acima de tudo o que  observar ao redor.

Os seus acontecimentos interiores merecem todo seu amor; neles de certa maneira deve trabalhar e não perder demasiado tempo e coragem em esclarecer suas relações com os homens.

A posição em que agora deve viver não é mais carregada de convenções, preconceitos e erros do que todas as outras.

O solitário é como uma coisa submetida às profundas leis.

Não tendo nenhuma comunhão com os homens, procure ficar perto das coisas, que não o abandonarão. Ainda há as noites e os ventos que passam pelas árvores e percorrem muitos países.

Que sentido teria a nossa vida se Aquele a que aspiramos já tivesse sido.

Como as abelhas reúnem o mel, assim nós tiramos o que há de mais doce em tudo para o construirmos.

7 – Roma, 14 de maior de 1904

Não se deve deixar enganar em sua solidão, por existir algo em si que deseja sair dela.

Tudo na natureza cresce e se defende segundo a sua maneira de ser; e faz-se coisa própria nascida de si mesma e procura sê-lo a qualquer preço e contra qualquer resistência.

Sabemos pouca coisa, mas que temos de nos agarrar ao difícil e uma certeza que não nos abandonará.

É bom estar só porque a solidão é difícil

O fato de uma coisa ser difícil deve ser um motivo a mais para que seja feita.

Amar também é bom: porque o amor é difícil

O amor de duas criaturas humanas talvez seja a tarefa mais difícil que nos foi imposta, a maior e última prova, a obra para a qual todas as outras são apenas uma preparação.

O amor, antes de tudo, não é o que se chama entregar-se, confundir-se, unir-se a outra pessoa.

O amor é uma ocasião sublime para o indivíduo amadurecer, tornar-se algo em si mesmo, tornar-se um mundo para si, por causa de um outro ser; é uma grande e ilimitada exigência que se lhe faz, um escolha e um chamado para longe.

8 – Borgeby Gard, Flãdie, Suécia, 12 de agosto de 1904

Perigosas e más são apenas as tristezas que levamos por entre os homens para abafar a sua voz.

Se nos fosse possível ver além dos limites de nosso saber e um pouco além da obra de preparação de nossos pressentimentos, talvez suportássemos nossas tristezas com maior confiança que nossas alegrias. São, com efeito, esses os momentos em que algo de novo entra em nós, algo de ignoto: nossos sentimentos emudecem com embaraçosa timidez, tudo em nós recua, levanta-se um silêncio e a novidade, que ninguém conhece, se ergue aí, calada, no meio.

Por isto é importante estar só e atento quando se está triste.

Não se observe demais. Não tire conclusões demasiadamente apressadas do que lhe acontece. Deixe as coisas acontecerem.

8 – Furugborg, Jonsered, Suécia, 4 de novembro de 1904

Acredite-me: a vida tem razão em todos os casos.

Quanto aos sentimentos: São puros todos aqueles que o senhor concentra e guarda; impuros os que agarram só um lado de seu ser e o deformam.

Tudo o que pode pensar a respeito de sua infância é bom.

Tudo o que o torna algo mais do que foi até agora em suas melhores horas é bom.

Toda intensificação é boa, quando está em todo o seu sangue, quando não é turva ebriedade, mas alegria cujo fundo se vê.

9 – Paris, dia seguinte ao Natal de 1908

A arte também é apenas uma maneira de viver. A gente pode preparar-se para ela sem o saber, vivendo de qualquer forma. Em tudo o que é verdadeiro, está-se mais perto dela do que nas falsas profissões meio-artísticas. Estas, dando a ilusão de uma proximidade da arte praticamente negam e atacam a existência de qualquer arte. Assim o faz, mais ou menos, todo jornalismo, quase toda a crítica e três quartos daquilo que se chama literatura.


* PAULO TIMM é Economista, Pós Graduado ESCOLATINA, U.de Chile – Ex Presidente do Conselho de Economia DF, Professor da UnB –paulotimm@hotmail.com Publicado em Via Política e na Coluna do Timm.