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Liberdade utópica – por Paula Naomi Meguro

24/03/2010

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“Dizem que eu sou louco por pensar assim, se sou muito louco por eu ser feliz, mais louco é quem me diz e não é feliz…”. Balada do louco – Arnaldo Baptista – Rita Lee

“A punição que os homens de bem sofrem quando se recusam a tomar parte é viver sobre o governo dos maus”. Platão

“São muito poucos os que ainda querem ser rebeldes”. Ray Bradbury

É fato inconteste que os indivíduos são dotados de liberdade; seja liberdade política, religiosa, ideológica, etc. No entanto, qualquer afirmação de que o homem é um ser livre merece ser recepcionada com ressalvas. A liberdade abordada nesse estudo não é aquela que vem expressa na máxima de que “a liberdade de um acaba onde começa a liberdade do outro”, mas sim a relativa disposição que as pessoas possuem em se guiarem de forma autônoma/independente em detrimento do convencionado pela imensa maioria.

Muito embora seja inevitável se influenciar pelos ideais consolidados pela maioria, seja por meio da tradição, do consenso e de tantas outras formas, o homem não só se deixa influenciar pelo imenso “rebanho” como também tende a aceitar, sem nenhum tipo de questionamento, a existência de determinadas valorações a condutas que pratica. O perigo não é a influência, que é uma conseqüência até esperada; o risco que se corre é acatar “bovinamente” o propagado pela “tirânica” maioria, isto é, aceitar as aludidas valorações como determinações a serem seguidas de maneira absoluta e incontroversa.

Eventuais divergências, ou até o mero questionamento do que fora estatuído, constituem, muitas vezes, ofensa à sociedade, que não quer que seu modelo pré-estabelecido seja posto em dúvida. Não raro esses conceitos, tidos como certos e indiscutíveis, são legitimados por meio de um revestimento legal, ou seja, o que apenas era uma convenção social, uma orientação, um hábito, torna-se um comando de lei, e que, portanto, está sujeito à reprimendas/sanções do Estado.

Na obra Fahrenheit 451[1], escrito pelo norte-americano Ray Bradbury, observa-se justamente essa situação. O Estado recrimina qualquer tipo de inovação. A sociedade retratada na obra caracteriza-se, mormente, pelo fascínio que os seus membros possuem pelo ócio. Os indivíduos vivem entorpecidos pela programação vazia que a televisão oferece, a qual, inclusive, interage com os mesmos, e também pelos remédios tomados. Desse entorpecimento resulta uma sociedade dominada pelo lugar comum, não há diferenças entre as pessoas, há uma verdadeira massificação. E o Estado, por sua vez, representado na obra por Beatty, o chefe dos bombeiros, reprime qualquer indício de contestação da ordem estabelecida pela maioria. Beatty comanda um grupo de bombeiros numa época em que a referida corporação não apagava o fogo, mas que, ao contrário, incitavam-no em livros. Na ficção em comento, os folhetins foram abolidos com o escopo de atalhar a propagação do conhecimento. Primava-se, em suma, por informações triviais, sem substância, que não traziam em seu bojo reflexões e questionamentos. Os bombeiros, mantenedores da ordem, incineravam os livros que alguns indivíduos teimavam em possuir, inobstante o mandamento coercitivo em contrário. O ideário contido nos livros era considerado pernicioso pelo grupo dominante. Nesse diapasão, depreende-se que os textos queimados, em si, não despertavam interesse por parte das autoridades públicas, o que era incômodo e causava preocupação era qualquer tipo de suscitação de dúvida ao sistema anestesiante, que os mesmos, de forma indireta e oblíqua, perquiriam; representando, portanto, uma ameaça à sobrevivência do grupo majoritário nos moldes já delineados.

No contexto, a leitura de livros configura uma forma de escapismo àqueles que não se adequam aos padrões que a maioria idolatra. Os leitores representam a minoria esmagada que tem que se subordinar à consciência social (e, na ficção, também estatal). O que o Estado e a sociedade quer coibir são reflexões, questionamentos acerca do “por quê” das coisas. A leitura mecânica, sem interpretação, sem crítica, é a ideal, porquanto não gera nenhum tipo de contradição e complexidade. Ora, tudo o que é mastigado, dado de forma inconteste, não causa pânico aos que não querem pensar e não querem que os outros reflitam.

A aceitação da ordem social vigente, sem ressalvas, denota uma “bestialização”, afinal, não há a garantia de que o ideal propagado pela maioria, em detrimento de uns poucos, seja a mais correta que a destes. A convenção da opinião majoritária em não pensar/questionar é imposta aos demais como um comando cego a ser seguido.

Hodiernamente, presencia-se um cenário bem parecido com o descrito na obra Fahrenheit 451, quando, por exemplo, as pessoas se dirigem às lojas, a fim de praticar um ato puramente privado, de escolha individual, que é comprar vestimentas, e se vêem numa torrente de roupas da “atriz global” ou da “moça da propaganda”; ou, ainda, quando se conceitua que determinado padrão é o certo ou o belo em contraposição do que é errado ou feio.

O que as pessoas não percebem, bem como as personagens da obra, é que os conceitos sociais são muito contingentes e discricionários, daí que não é legítimo impô-los a todos indistintamente. Ao contrário das leis físico-naturais, os comandos sociais não possuem (ou não deveriam possuir) caráter absoluto, uma vez que seu conteúdo é fixado em razão de convenções entre os homens. Hanz Welzel, ilustre penalista alemão, sintetizou poeticamente tal raciocínio: “nenhum de nós, homens, assistimos o conselho dos deuses, no qual foram tomadas as decisões finais acerca das regras do correto e do justo” e, tendo em vista isso, “o homem não pode ter jamais a certeza absoluta de que a estrutura de sentido que extrai de si ou cuja verdade afirma seja a única justa em um contexto histórico”.[2]

É mister ressaltar que os conceitos majoritários, impostos de forma coercitiva, encontram legitimidade não só no aparato estatal e na conseqüente consciência social, advinda das leis e da própria convenção/hábito/tradição, mas também é respaldado pela indústria cultural que, por intermédio da mídia (televisão, rádio, internet…) reproduz o que a maioria “quer ver”, “ quer comprar”, “quer ter”. Não é conveniente à mídia oferecer aos destinatários um programa, produto ou idéia que, no jargão utilizado, “não dê ibope”. Ora, após todo o raciocínio explanado, é evidente a massificação à qual o homem é submetido sob a roupagem de uma suposta liberdade. A canção “Terceira do Plural” do grupo Engenheiros do Hawaii reflete bem a situação descrita: “eles querem te vender/ eles querem te comprar/ eles querem te matar… a sede/ eles querem te sedar”.

De forma paradoxal, é lícito afirmar ainda que a liberdade, no viés analisado, origina o totalitarismo, sendo, nesse sentido, totalitária a moral vigente do senso comum, do vulgar. Os personagens Montag, Clarisse McCllean e Faber representam a “subversão”, ou seja, caracterizam tudo o que vai contra ao que é cunhado de “normal” (mas, afinal, o que é normal? E quem estabeleceu o que é normal?). A idéia de que existe uma ditadura da maioria é reforçada por essas figuras no livro que, ao não se adequarem à sociedade entorpecida em que vivem, questionam o que lhes são impostas, ou melhor, mastigadas. Os indivíduos agem mecanicamente, e os livros, tão odiados, abriam passagem para o que era contraditório, instigante e sem sentido, isto é, abriam passagem para a desestabilização e o pensamento. Ora, numa sociedade que prima pelo senso comum não pode ter em suas entranhas algo que não se coadune com os seus princípios, que destoe da imensa maioria “ruminante”. Havia, em síntese, uma intolerância e repúdio por tudo o que era diferente e novo, o que metaforicamente foi representado pela chamada “ditadura da maioria”. Cumpre salientar ainda que a determinação do Estado, personificado pelos bombeiros que queimavam os livros, embora imposto coercitivamente aos jurisdicionados, era respaldado pela sociedade, ou seja, o que, de início, pode ter sido apenas um comando legal, tornara-se uma orientação aceita, sem reservas pelos indivíduos.

Indubitavelmente, pode-se asseverar que estar no grupo da maioria, pertencer à coligação do elo mais forte, ter as características (pessoais, financeiras, religiosas) que todos cultuam proporciona uma grande sensação de conforto. Todavia, será que todo esforço desprendido para se alcançar ao que todos cultuam não fará com que os indivíduos percam a individualidade/originalidade? A resposta só pode ser sim. Pune-se a diferença, ao invés de premiá-la. Todos os indivíduos têm que ser iguais, seguir, mansamente, o que lhes é cominado pela famigerada ditadura da maioria.

Fazendo um paralelo com o romance e com a sociedade atual encontram-se vários pontos em comum. A trama retrata o impasse que as pessoas tidas como diferentes encontram. Há uma grande dificuldade dos personagens centrais em manifestarem suas idéias, tendo em vista que estas dissonavam com o pensamento indolente da época. Não é aceito sequer a instigação de dúvida ao sistema eleito. Na contemporaneidade, seguindo a mesma máxima de repúdio ao que é diverso, fazer a afirmação de que se é ateu ou homossexual, ou, ainda, ostentar a condição de ser gordo, ter o cabelo crespo, dentre tantas outras situações, equivale a ser marginalizado da mesma sociedade que convencionou que o indivíduo deve ter um corpo atlético, ser temente a Deus e etc.

É interessante notar que os métodos utilizados para perpetuarem os valores da maioria são os mesmos na ficção literária e na realidade atual, a saber os meios anestesiantes da televisão e do uso contínuo de pílulas que possuem o nítido escopo de mascararem a vida como de fato ela é. Convém recitar novamente os versos da música do Engenheiros do Hawaii: “Corrida para vender cigarro/ cigarro para vender remédio/ remédio pra curar a tosse/ tossir, cuspir, jogar pra fora…”.

Recorrer aos referidos subterfúgios (programas televisivos e remédios) não deixa de ser um escapismo que os próprios livros, em si, proporcionam. O cerne da questão consiste na idéia de que como é o modo pelo qual as pessoas se valem para atingir essa fuga e o que se obtêm por meio dela. Sem dúvida, a diferença basilar entre as duas alienações é que na TV, e também nas drogas, o indivíduo não é impelido à prática da reflexão (talvez, para não se ter justamente a consciência do quão é manipulado e possui uma vida vazia – situação tão debatida na obra); já a fuga oferecida pelos livros, queimados em Fahrenheit 451, representava na sociedade retratada um modo de subversão em razão de que os mesmos faziam com que os indivíduos adquirissem uma visão mais crítica da realidade; mostrando-a não perfeita como a prolatada. Os personagens, ao realizarem a leitura dos livros, buscavam uma forma de fuga, de válvula de escape em relação à realidade circundante; não concordavam em participar do convencionado, daí o “alheamento”/fuga, que, na verdade, proporcionava uma maior compreensão dos fatos.

Dessa maneira, pode-se dizer que a liberdade, da maneira como foi exposta, é hábil a condenar o homem a um totalitarismo sui generis, não aquele totalitarismo ferrenho nos moldes do nazi-fascismo, mas aquele totalitarismo silencioso que, de forma oblíqua, impõe seu ideário e que entra sorrateiramente na consciência coletiva e que, justamente, em virtude de seu caráter clandestino, reveste-se de maior periculosidade. Ainda que, à primeira vista, possa parecer insano consignar que a liberdade origine o totalitarismo, tal disparate revela-se em sintonia com a realidade se se pensar que a profusão de idéias, proporcionado pela liberdade de expressão que cada qual possui, é uniformizada por uma convenção soturna, de forma que haja um conceito cultural para cada valor, sendo, destarte, imperiosos e totalitários os conceitos axiológicos imputados pela convenção tácita. Para se mascarar a liberdade, e fazer com que os indivíduos sigam o convencionado, não é necessário que haja orientações legais proibitivas, canhões nas ruas ou ideologias escusas sendo difundidas, basta oferecer às pessoas a impressão de que estão se guiando por conta própria, e controlar-se-á o que os indivíduos pensam. Demonstrou-se, aqui, com fulcro na obra Fahrenheit 451 que nem sempre (quase nunca, diga-se de passagem, o saudoso Nelson Rodrigues, com sua peculiar argúcia e bom humor, já sentenciara que “toda unanimidade é burra”) o adágio popular que apregoa que “a maioria tem sempre a razão” merece guarida, haja vista mormente que a orientação (que na obra é uma norma coercitiva) de seguir a maioria constitui instrumento apto a transformar pessoas pensantes e críticas em “rebanhos” e indivíduos alienados, embriagados pela propaganda televisiva ou ainda por antidepressivos e drogas afins.

Referências:

BAPTISTA, Arnaldo e LEE, Rita. Balada do louco. Disponível em: http://vagalume.uol.com.br/engenheiros-do-hawaii/3-do-plural.html – acesso em 28 fev. 2010

BRADBURY, Ray. Fahrenheit, 451. São Paulo. Tradução de Manuel da Costa Pinto. Ed. Globo, 3ª ed., 2005.

GRACIA MARTÍN, Luis. O Horizonte do Finalismo e o Direito Penal do Inimigo. São Paulo. Tradução de Luiz Regis Prado e Érika Mendes de Carvalho. Ed. Revista dos Tribunais, 1ª ed., 2007.


* Acadêmica do curso de Direito pela Universidade Estadual de Maringá.

[1] BRADBURY, Ray. Fahrenheit, 451. São Paulo. Tradução de Manuel da Costa Pinto. Ed. Globo, 3ª ed., 2005.

[2] Apud GRACIA MARTÍN, Luis. O Horizonte do Finalismo e o Direito Penal do Inimigo – São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2007, 1ª ed., p. 144.

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Chimamanda Adichie: O perigo da história única

20/03/2010

As nossas vidas, as nossas culturas, são compostas por muitas histórias sobrepostas. A romancista Chimamanda Adichie conta a história de como descobriu a sua voz cultural – e adverte que se ouvirmos apenas uma história sobre outra pessoa ou país, arriscamos um desentendimento crítico.

Translated into Portuguese (Portugal) by Goreti Araújo
Reviewed by Paulo Calçada

José Saramago revê o Velho Testamento sob ótica irônica e ferina em “Caim” – por MARTA BARBOSA

10/03/2010

* Em “A Viagem do Elefante”, lançado em 2008, José Saramago já demonstrou estar em ótima forma literária, após superar uma doença respiratória gravíssima e ser desacreditado por médicos e leitores. Agora, com “Caim” (lançamento da Companhia das Letras), o escritor português prova ser capaz de manter o ritmo. Em que pesem as comparações com “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”, considerada uma de suas obras primordiais, “Caim” acrescenta muito à biografia do vencedor do Nobel de Literatura de 1998.

Em “Caim”, escritor José Saramago revê história do Velho Testamento

Comparar o novo livro de Saramago com “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” é natural. Nos dois trabalhos, o autor português dá sua interpretação da Bíblia. Primeiro, foi o Novo Testamento. Agora, é sobre o Antigo Testamento que Saramago exercita as possibilidades narrativas. Reconta, ao seu modo irônico e com um requintado humor, histórias que vão do jardim do Éden ao episódio do dilúvio.

Começa com a expulsão de Adão e Eva do paraíso. E desde já fica claro que o Deus de Saramago não é nenhum velhinho benevolente a passar a mão carinhosa na cabeça de seus filhos. Ao contrário, o que se vê é um Deus teimoso, cheio de caprichos e disposto a qualquer absurdo como prova de fé e obediência de suas criaturas.

Caim, o primogênito de Adão e Eva que matou o irmão Abel, é o personagem central da trama. O assassinato do irmão é o ponto de partida desse anti-herói que, com boa retórica e uma capacidade de interpretar os fatos que muito se aproxima do próprio Saramago, consegue que o todo-poderoso reconheça sua parcela de responsabilidade no impulso que o levou a matar Abel.

Diante do corpo ensanguentado e coberto de moscas de Abel, Caim e Deus travam uma disputa verbal deliciosa de se testemunhar. E assim segue ao longo de todo livro: criador e criatura em pé de guerra, numa peleja em que o que está em jogo é nada menos que a humanidade.

“Matei abel porque não podia matar-te a ti, pela intenção estás morto”, diz Caim, ao que responde Deus: “Compreendo o que queres dizer, mas a morte está vedada aos deuses”. Numa espécie de acordo de recompensa e castigo, Caim é marcado na testa e condenado a andar “errante e perdido pelo mundo” até o fim de seus dias – o que não será logo, já que aquela marca é o sinal de que ninguém o poderá matar.

Ali começa a longa jornada de Caim, que passa do presente ao futuro, testemunha fatos que ainda vão acontecer, volta ao passado e garante um tempo literário ágil e moderno. Sua primeira parada (também a mais longa e marcante de sua interminável trajetória) é na terra de nod, uma cidade em construção. Ali, Caim vira pisador de barro, é elevado a porteiro do quarto da dona que governa tudo aquilo e acaba como amante da dona do lugar, Lilith.

Mas, como é seu destino, Lilith fica para trás, e Caim retoma sua interminável viagem como testemunha das obras e do poder sufocante de Deus. Vê a destruição de Sodoma e Gomorra, o assalto a Jericó, conhece Abraão a quem Deus ordena o sacrifício do próprio filho, participa da construção da arca que salvará a humanidade do dilúvio, junto a Noé e sua família.

Dotado de um sombrio pessimismo de quem é condenado a ver o inenarrável, Caim encontra uma maneira de punir a divindade que odeia. Aproveita um descuido de confiança do dono do mundo e se vinga à altura daquele que, só por ser Deus, governa “a vida íntima dos seus crentes, estabelecendo regras, proibições, interditos e outras patranhas do mesmo calibre”.

Narrativa

Como já de costume, Saramago surpreende em “Caim” com sua prosa moderna, musical, quase sem pontos finais. Os nomes próprios não têm iniciais maiúsculas, e os diálogos estão separados por vírgulas – o intervalo breve que garante agilidade ao texto.

Mas o que fica mesmo de “Caim”, e faz a gente ler economizando as páginas, com vontade que não chegue a número 172, é a incrível capacidade de Saramago de fazer de uma velha uma nova história. De recontar com encanto o que todo mundo já conhece, mas de outro jeito. Sem perder, claro, sua cruel veia irônica, nem seu talento de expressar com humor negro uma realidade.


“CAIM”
Autor:
José Saramago
Editora: Companhia das Letras
172 páginas


* Publicado em http://entretenimento.uol.com.br/ultnot/livros/resenhas/jose-saramago-reve-o-velho-testamento-sob-otica-ironica-e-ferina-em-caim.jhtm UOL, 03.01.2010.

“Correio do Tempo”, de Mário Benedetti – por Pávila Vicentini Faeti

03/03/2010

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Quando iniciamos a leitura de uma obra literária, esperamos poder reconhecê-la por traços característicos que nos levem a compreender o que o autor queria dizer, e o significado do título da obra. A escolha da mesma se dá pela curiosidade que quase sempre é suprida ou frustrada, mas que encontra a resposta que estava procurando ao ler o livro escolhido.

O livro Correio do Tempo trata de relações delicadas que perpassam o tempo e que se encontram na realidade da sociedade capitalista. Relações permeadas de lutas, relações que transbordam humanidade. Cada conto, cada momento lido, nos leva a perceber a infinidade de implicações que rodeiam nossas relações, por mais banais que pareçam. Estamos sempre em luta, em constante luta.

Em nossa vida privada e publica, estamos cercados por interesses que fogem ao nosso controle e que mudam nossas vidas, mesmo quando nos tornamos apenas os que se deliciam das conseqüências, quando somos apenas os coadjuvantes dessa história.

A política está estampada em cada momento de nossas vidas, como um papel de parede em uma casa que determina a diferença de cada ambiente. Os momentos políticos que a sociedade vive pintam de maneira diferente cada momento e escolha que fazemos em nossa vida, e determinam nossos passos.

O marxismo, com o propósito que o homem seja cada vez mais humano, inspira as lutas cotidianas. De um lado, um ator político que deseja que as lutas de classe possam trazer mais igualdade; que as mulheres possam amar livremente como os homens; que o capitalismo não destrua as boas lembranças de tempos mais tranqüilos, que passam a ser esquecidos em vista da construção dos monumentos capitais do operário que se entrelaça ao burguês e é traído por ingenuidade, da inocência roubada que leva também à morte de muitos, das perseguições de guerra, de ideologias que roubam pessoas de pessoas e fazem da ausência uma pessoa, um companheiro constante a nos seguir.

As lutas de cada país saem de um contexto distante de nossa realidade e atingem nossa vida. Existem, por certo, aqueles que jamais são atingidos por coisa alguma. Não é desses que nos atemos quando analisamos a beleza da vida em movimento, pois estes não representam nenhum significado nas lutas cotidianas, são apenas pessoas que passam pela vida, mais que não a vivem.

Vamos pensar naqueles que vivem a vida, que se entregam ao amor, amor pela vida, pela ideologia, pelo poder, pelo homem, amor que é capaz de transformar tudo em luta.

Cada conto lido no livro de Mário Benedetti nos remete a realidades tão próximas a nossa, não pelos seus acontecimentos, mas pelo significado de cada coisa, de cada descrição de toques, lugares e desejos.

Amores que são destruídos e construídos a partir de perseguição da ditadura; amores não realizados pelas diferenças sociais, esperas, chegadas e partidas. Lutas de classe que foge do âmbito operário versus capitalista e que chegam à realidade homem ladrão e mulher burguesa, que contrastam e nos levam a enxergar que nossa vida é uma rotina política.

Descrições saudosas de um passado militante que não volta, de amores que se vão com a luta. De lutas que levam toda uma vida e que nem sempre se chega à vitória, mas muitas vezes, a vitória parece derrota, e a derrota torna-se a mais importante das vitórias.

A liberdade de poder desejar o que se quer desejar e poder ter o que é possível possuir, liberdade de lutar, mesmo que sobre codinomes e máscaras, mas aí a necessidade de viver é maior que a própria identidade.

Lembranças que são pesadelos, que roubam a vida de quem as têm e que não deve pertencer a mais ninguém, para que suas vidas também não sejam roubadas.

A percepção de um regime que rouba o direito de ser pessoa e o aliena em utilidade e eficiência. Os que resistem a isso são marcados para sempre com a violência, a prisão e muitas vezes a morte. Rouba o direito da mãe de ser mãe e tornam um assassino pai.

Enfim, o livro correio do tempo, mostra-nos que o tempo seja o tempo que passa, ou tempo que se tem, faz que sejamos quem somos e cobra-nos também um alto preço por desejar-mos ser aquilo que não querem que sejamos, por sonharmos com tempos melhores quando tempos melhores não podem chegar até nós.

Lutas que consomem vidas e que sobrevivem ao tempo justamente porque vidas foram oferecidas. E são dadas em lutas que sequer percebemos, em momentos que muitas vezes nem paramos para ver que enquanto vivemos muitos ainda estão nas sombras e sofrem perseguições por terem ideais de uma vida melhor. Ditaduras que na América Latina roubaram vidas, identidades e fizeram com que muitos não tivessem nem mesmo a certeza se estão mortos ou se são apenas recordações de coisas e pessoas que nem existiram.

O tempo pode passar em nossas vidas e podemos apenas olhar para o tempo e chegarmos ao fim. Mas podemos também ser aqueles que fazem algo com o tempo que temos, que fazem com que mais do que utilidade seja significado o seu tempo; e que mesmo no silencio e na solidão sua voz seja ouvida como quem luta, mesmo que sozinho, para que o tempo não nos roube mais de vida, para que o tempo seja um instrumento de luta e vitória e não mais um momento de deixar que as cosas passem, que a feridas cicatrizem. O tempo não cura feridas, o tempo abre novas feridas.


* Graduanda em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Maringá.